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sexta-feira, maio 03, 2019

Boia 19

#19
O Bóia dessa semana disseca a segunda etapa do World Tour da WSL de um jeito que voce só ouve aqui.
Convidamos o Tour Manager Renato Hickel, ele mesmo um ex-Head Judge da WSL, para esclarecer a regra de prioridade que indignou a internet.
Debatemos o caminho atual do julgamento e o futuro do circuito.
Sem perder tempo, trocamos mensagens com Nick Carroll, que estava presente em 2019 assim como em 1981 e pedimos, com todo cuidado, para avaliar o quanto a memória de um evento épico pode interferir com o que acontece na sua frente.
Não evitamos mencionar o que aconteceu com Sunny, as gafes e barrigas da nossa imprensa, a tristeza coletiva, a surpresa e o choque.
João Valente relembra o dia que matou um amigo na Revista Surf Portugal.
Se tudo isso ainda não é suficiente, faça como Beth carvalho pregava numa letra linda do Cartola,

Ah, corra e olhe o céu,
Que o sol vem trazer bom dia.






Lista dos assuntos,






Steve "Longtom" Shearer é leitura fundamental





Link aqui



Renato Hickel joga luz no julgamento


Nick Carroll competindo em Bells 1981

Link para texto do Nick Carroll 

segunda-feira, dezembro 21, 2015

Por quem dobram os sinos ?


[Resenha dos campeonatos de Bells e Margies, abril de 2015]

Ever tried. Ever failed. No matter. 
Try Again. Fail again. Fail better. 

Samuel Beckett


3… 2… 1!

Pausa para o jogo do século XXI

As histórias dos grandes retornos são as que mais fascinam.
Um sujeito, ou time, acuado com medo do fracasso supremo é capaz de coisas que até o homem duvida.

Final da Champions, 25 de maio de 2005, entre Milan e Liverpool, jogo que ficou conhecido como O Milagre de Instambul. 70.000 pessoas presentes.

O esquadrão do Milan meteu 3 logo no primeiro tempo, sem pena.
O time italiano tinha Kaka, Dida e Cafu, Seedorf, Maldini, Pirlo, Crespo e Shevchenko.
Liverpool foi pro intervalo e seu técnico, o espanhol Rafa Benitez, convenceu os 11 homens a lutar como se fosse o último dias das suas vidas.

De volta pro segundo tempo, em mágicos 6 minutos o time inglês empatou o jogo, embalado pela torcida ensandecida cantando o poderoso hino You´ll Never Walk Alone - mesmo que seus sonhos sejam varridos e arrasados, você nunca estará sozinho!

Encerrada a surpreendente partida, vieram as cobranças dos penaltis, vitória do Liverpool, 3 x 2.

Esse foi apenas um dos grandes exemplos que o esporte insiste em nos ensinar, nunca desista, principalmente se quase 40.000 torcedores apaixonados te empurram pra frente.

Já dizia Taylor Knox (que ganhou apenas um evento em toda carreira no WCT), quem desiste nunca será um vencedor e um vencedor nunca desiste. 

Tenha Adriano de Souza na cabeça durante o resto do texto.


Por quem dobram os sinos ?

Mal deu tempo para digerir a vitória do Filipinho na primeira etapa e já estávamos todos completamente envolvidos com a previsão de ondas do Rip Curl Pro em Bells.
A euforia era enorme, alimentada pela possibilidade de ondas pequenas, e a esperança dum segundo triunfo do furacão Toledo - principalmente se lembrarmos do jeito que foi a lavada.

Ou mesmo a tão aguardada volta do Medina ao pódio.
Especulava-se tudo, Slater, Florence, Julian, Taj… incrivelmente o nome do Mineirinho não era assim tão repetido.
Justo ele, campeão em 2013, mais experiente do conterrâneos no WSL, vindo de um terceiro lugar no Gold Coast, eliminando o favorito local Mick Fanning na quarta de final.

A primeira fase foi um banho de água fria, todos brasileiros perderam, Medina foi o único que sobreviveu.

Um pequeno abalo foi suficiente pra fazer Toledo acordar e simplesmente destroçar os havaianos Dusty Payne e Seabass.

Durante todo campeonato o surfe beirou o sofrível, com médias baixas e nível de surfe que nos faz duvidar várias vezes desse formato engessado.

A onda de Bells carrega uma história que se confunde com a própria história do surfe profissional.

Foi ali que Michael Peterson consolidou a lenda de maior competidor do seu tempo e também foi ali que Mark Richards começou a fantástica corrida que lhe daria quatro títulos mundiais.
Todos grandes surfistas já vencerem em Bells, Carroll, Curren, Potter, Andy, Sunny, Occy, Parko, Fanning, Slater.
Existe uma mística no lugar que não permite que o circuito se afaste dali, mesmo com toda antipatia que existe hoje com a onda.

A gritaria acusando Bells de ser uma onda cheia, sem graça, encontra coro por todo lado e até faz algum sentido, mas o esporte precisa dos seus símbolos e Bells é um dos nossos poucos templos obrigatórios.

Nem que fosse apenas para reverenciar passos fundamentais para a evolução do surfe, como a (re)invenção do surfe de backside pelo Wayne Lynch nos anos 60, ou a afirmação da triquilha como equipamento funcional por Simon Anderson nos 80.

O ritual reconhece a história sem deixar de apontar pra frente, basta lembrar da final entre Fanning e Slater em 2012, uma derrota doída do Careca, com nota 10 e full rotation executado à perfeição e tudo.

Bells é uma onda de repetição, nos últimos 20 anos tivemos Sunny Garcia, Parko e Andy Irons vencendo 3 vezes cada, Slater e Fanning (como já veremos) mais 4 cada um.

Bells Bowl, 4 a 6, Terral

Desta vez não vimos as condições perfeitas, a suposta onda capaz de elevar o surfe de garotos ao próximo degrau.
2015 será lembrado como o ano do julgamento confuso.
Jordy e Jadson foram duas vítimas dessa confusão.
Jordy, como bem percebeu Steve Shearer, astuto jornalista australiano, sofre com o preconceito que armou-se em torno dele de que o sul africano não seria tão eficiente em ondas pesadas de verdade quanto é nas direitas da sua predileção - J. Bay, Testles, Snapper, Bells.
O fato dele ser descartado numa corrida séria ao título amassa suas notas contra o peso de um Fanning, ou Parko - supostamente candidatos legítimos.
Mas isso são apenas suposições e nós sabemos que nada disso faz sentido.

Jadson foi melhor que Fanning nas oitavas.
Em nenhum momento o Macaco Albino foi o surfista do campeonato, nem ele nem Mineiro.
Os dois foram eliminando a concorrência silenciosamente, sem nenhum alarde, com a frieza de um assassino contratado.

Quando se encontraram na final, em ondas horríveis, mexidas, deformadas, seria a terceira vez na temporada em apenas dois eventos.
Uma vitória pra cada um, sendo que Adriano ignorou Mick nas quartas do Quik Pro.
Tinham contas para acertar.
Mineiro foi preciso, Fanning ligeiramente mais insinuante.
O resultado foi como deveria ser, polemico, suado, por que não justo ?
Veremos isso logo adiante, na etapa de Margaret River…


Acabei de ganhar do melhor surfista do mundo!

A Arte da ficção

Permitam que se use aqui um pequeno trecho da entrevista do escritor americano Ernest Hemingway, notório também pela sua queda por touradas, corridas de cavalos, caçadas e guerras, em 1954, num café em Madri.

Hemingway pergunta ao seu entrevistador,
Voce costuma ir às corridas ?

O entrevistador responde,
Sim, as vezes.

Hemingway,
Então voce le os programas das corridas…Ali voce tem a verdadeira arte da ficção.

A mesma coisa acontece quando lemos a lista das baterias do campeonato.
O papel aceita tudo.

Quando todos sites, inclusive a WSL, começaram a analisar o quão grande poderiam ficar as ondas em Margaret River, a expectativa de assistirmos um evento da magnitude do Fiji Pro de 2012 parecia iminente.

Parko teria encomendado uma prancha de 8’, pela primeira vez em muitos anos o fã poderia ver seu surfista preferido usando as gunzeiras fora do Havaí.

Na minha cabecinha doente, recordava-me de um campeonato em 1990, que aparecia no primeiro Sarge surfing Scrapbook, uma serie de videos que o fotografo Paul Sargeant fazia nos anos 90.
Margaret River ainda era um mistério nessa época, pouco aparecia nas revistas ou filmes.
No jornal Tracks, Derek Hynd descreveu as condições como 15’ a 20’, as maiores já vistas fora do North Shore na ASP.
O Tahitiano Vetea David surfou com uma 8’6’’, Tom Curren conseguiu uma 9’1’’.
Ainda não se falava em The Box.

Corta para 2015, voce olha a lista de baterias da primeira fase, nome por nome, depois ouve o locutor falando que The Box tem quase 10 pés de onda.
Aquilo é um moedor de carne.
O túmulo dos goofys.
Tambem é o sonho do Kieran Perrow, surfista mediano que sempre se destacou nessas condições extremas.
KP tem a chance de expor essa nova geração ao ridículo e fará de tudo para isso - ou não.
As médias são lamentavelmente baixas.
Slater vence a sua bateria com um total de 8,2.
Ninguem faz mais de 16 pontos em toda primeira fase!

A segunda fase começa com a derrota do Medina e Toledo.

Nada empolga muito até Owen Wright se atirar em duas ondas que serão repetidas à exaustão nos próximos 10 anos.
Sua irmã, Tyler, gritava do canal pra ele não dropar a bomba - ainda mais de costas pra onda.
Engraçado que foi preciso um goofy pra mostrar como se faz naquela deformação de onda…

O campeonato parecia feito sob medida para Owen, Slater e John John.
Ondas enormes, pesadas, perfeitas mas nem tanto.
Nenhum brasileiro entrava nas listas de favorito.
Mineiro sobrevivia com a garra de sempre e já era o dono da camisa amarela depois que Fanning perdeu para Jay Davies sem tanta empolgação.
Mas como resistir ao ataque do Slater em Margaret no terceiro e maior dia de competição ?

Tema de Kelly

São anos demais de circuito.
Ele já não tem mais a mesma energia, nem motivação.
A idade começa a lhe cobrar o preço.

Fale o que quiser do camarada, quando é chegada a hora de revelar sua majestade, Slater ainda é capaz de fazer o impossível.
No meio dos 34 existe muita gente que faz o diabo, cada um dos seu jeito, em determinadas condições, mas Slater molda as condições ao seu bel prazer e as transforma em arte.
Seu 10 contra o pobre coitado do Glen Hall podia ser um 15 - fácil.
Surfando com uma prancha abaixo da média, uma mera 6’3’’, bat tail (rabeta batman), Slater fez uma linha anormal numa das maiores ondas da bateria, entubou com a categoria de sempre, saiu limpo, rasgou usando toda parede como quem desejasse acariciar um dragão começando pela cabeça e terminando com a ponta da cauda.
O que ele não sabia, nem esperava, é que tinha um Mineiro no meio do caminho…

Ace Buchan, 16 de março de 2009

No blogue que Adrian Buchan escrevia no Surfline, muito bem escrito diga-se de passagem, Ace refletia sobre a primeira etapa e concluia que competir em alto nível no circuito mundial não é para qualquer um, a pressão é enorme e o sujeito tem que gostar da batalha, dizia ele.
Veja o que Ace escreveu sobre Adriano,

Por isso Adriano é  bem sucedido, porque ele ama a disputa. Obviamente ele surfa muito, mas ele ama a competição. Na primeira fase ele quase remou por cima do Jordy para defender sua liderança (2009). É por isso que Kelly tem(tinha) nove títulos. Mesmo podendo confiar no seu talento para avançar mais da metade do tempo, quando necessário ele afronta seu oponente e briga pelas migalhas. 
No final do dia é o surfe que fala mais alto, voce não quer se engalfinhar pra passar a bateria. Para mim, é disso que o esporte é feito e por isso é tão empolgante. Ver pessoas se testando em situações de aperto e tendo que brigar por aquilo. Eu amo aquilo!

Nós aqui na Hardcore tambem amamos isso, Ace!

Aqui é Mineiro, porra!

John John era o Milan, irresistível, atropelando todo mundo, cartel de vitórias arrasador, repleto de jogadores caros e talentosos - metendo 3 gols no primeiro tempo da final e praticamente decidindo o jogo.

Mineiro pode ser representado pelo Liverpool, um time aguerrido, mas desacreditado, liderado por um técnico mestre na estratégia e que não desiste jamais.
Depois de ter lutado tanto e chegado tão perto de ser o primeiro campeão mundial brasileiro, Adriano viu Medina roubar seu sonho.
Ou parte dele.
O sonho de ser campeão mundial permanece.

O primeiro gol foi marcado no Quik Pro, vice em Bells, oitavas já garante a lycra amarela pro Rio.
Agora vamos pros penaltis.

Na folha das baterias, uma bateria entre Slater e Adriano num mar de mais de 8 pés resulta num massacre, só que não.
Desde 2010, em Porto Rico, De Souza já enfrentou Slater 10 vezes e perdeu apenas uma.
Ninguem no circuito entendeu melhor como funciona o jogo.
Eu sei que tenho que ser melhor do que ele (Slater) nos 30 minutos, porque nunca serei melhor que ele fora das baterias, declarou Adriano para a adorável Chelsea quando saiu do mar.

Mineiro é um dos únicos, senão o único a ter um retrospecto de 100% pra cima do Gabriel Medina, são 6 x 0 e isso não é pouco!

Alem de eliminar Slater, Mineiro ainda tinha o herói local, Taj Burrow (que vai ser papai!) pela frente.
Surfando com o livro de regras debaixo do braço, sem errar, escolhendo as ondas com perfeição e, principalmente, sem cair da prancha, Adriano foi batendo os seus penaltis até o triunfo final.

Exultante ao sair da final contra Florence, Mineiro ajoelhou no chão, agradecendo aos céus e ao seu anjo da Guarda, Ricardo dos Santos, pela glória alcançada.

Eu acabei de ganhar do melhor surfista do planeta!

A consciência brutal de se reconhecer inferior ao camarada que ele derrotou mostra uma maturidade digna de quem está pronto para cumprir seu destino.

E todos nós sabemos que Mineiro não vai descansar enquanto não levantar o caneco de campeão mundial.








sexta-feira, abril 25, 2014

Bells 2013

[Aproveitando a deixa do Bells de 2014, publico aqui a resenha Facit do evento de 2013]


O indomável

Horas depois da extraordinária vitória do Adriano de Souza em Bells, a imprensa estrangeira tentava, ainda meia tonta, explicar o que todos acabavam de testemunhar.
Afinal de contas, Bells é o evento mais tradicional do mundo, mais de 50 anos sem parar, e a lista dos seus vencedores é a mais verdadeira lista de surfistas de ponta que há, mais ainda que a lista dos campeões mundiais da ASP.
Vejam só, Nat Young, Terry Fitzgerald, Jeff Hackman, MP, Mark Richards, Simon Anderson, Cheyne Horan, Carroll, Curren, Pottz, Occy, Sunny, Hoy, Dorian, Andy, Taj, Slater, Parko, Fanning...
Foi Shane Dorian que cunhou a famosa frase, Nenhum prego jamais venceu em Bells, naturalmente  defendendo seus interesses, mas isso não vem ao caso.
Adriano conhece bem a história dos eventos da ASP e tem como objetivo, alem do óbvio título de campeão mundial, fincar bem seu nome como grande surfista nos principais campeonatos do circuito.
Poucas horas depois do Mineiro literalmente quebrar o sino, o saite do jornal Tracks, quase tão antigo quanto o Rip Curl Bells Easter classic, descrevia a seguinte cena:
No banquete comemorativo dos 50 anos do campeonato de Bells, foram convidados todos campeões desde 1962, homens e mulheres.
Na oportunidade, foi lançado tambem o livro Bells, a praia, o campeonato e os surfistas do Michael Gordon (irmão daquele simpático câmeraman que entretia a todos com assovios e sorrisos).
Mineiro comprou um livro e foi, de mesa em mesa, catando os autógrafos de cada um dos campeões, mostrando respeito e devoção pela história do esporte que lhe deu tudo.
Essa é uma diferença fundamental entre Adriano e todo resto da sua geração e mais jovens, respeito pela história.

Filipe, o pequeno grande Homem

Alguem ainda se recorda das dúvidas que pairavam em torno do Filipe Toledo ?
Responsável por uma das manobras mais impressionantes de todo campeonato, Filipinho surfou com total abandono em Bells e só não mais à frente por ter enfrentado o melhor surfista de todo evento, Jordy Smith.
Precisamos apenas de cuidado ao tentar avaliar as ondas do rapaz e levar em consideração que, mesmo com um surfe de altíssimo nível, Toledo ainda tem muito o que aprender no tour.
O primeiro ano de todos debutantes é para absorver toda e qualquer informação que puder, mesmo que, como Bobby Martinez, ele vença um evento.
Um quinto em Bells é um belo começo.


O poderoso Panda

Ainda melhor do que ver Willian Cardoso bater Slater numa bateria sensacional, foi ler os comentários atônitos dos gringos perguntando sobre o Panda.
Aonde se escondia esse cara ?
Finalmente um surfista power de verdade saindo do Brasil
É o novo Richard Cram
Como esse cara não está no circuito mundial ?
As respostas são faceis.
Cardoso não se escondia, apenas competia no WQS, circuito solenemente ignorado pela imprensa e até mesmo pela própria ASP.
Um circuito sem prestígio nenhum como o WQS é praticamente um limbo entre o mais completo anonimato e os top 32.
Tirando dois ou tres eventos pingados no planeta Prime, o resto não serve nem pra encher a barrinha do lado nos maiores saites de surfe por aí.
O Panda é um produto desse circuito desalmado que serve tambem como uma espécie de organização militar, onde os cadetes devem se submeter aos mais enlouqecidos desejos dos mais graduados em nome duma possível aceitação.
Os top 32 são os oficiais, a turma do WQS são os recrutas e as grandes marcas, o estado maior.
Willian Cardoso era um recruta dedicado, seria o equivalente a um sargento hoje, tem mais horas de batalha que muito malandro nos top e deseja os escalpes com mais fúria e paixão do que todos americanos e australianos juntos.
O que acontece com o Panda hoje é a mesma coisa que passou Tiago Pires antes de entrar no tour, sempre perto da vaga, sempre batendo na trave e surfando tanto quanto seus pares no WCT.
Voltando a bateria contra Slater, Cardoso mostrou ao público com quantos litros d'água se faz uma cachoeira.
Enquanto Slater buscava os tubos apertadinhos, o Panda enterrava seus quase 90 kilos de músculos na parede do bowl de Bells e deixava todos boquiabertos.
O resultado foi uma derrota com gosto especial de merda para o careca, justo no ano que ele anunciou estar comprometido.
E desta vez, não tinha juíz pra culpar, nem falta de ondas, nem prancha...

Raoni Gigante

Juro que não aguento mais ouvir os locutores se referindo ao Raoni como matador de gigantes.
Raoni não é matador de gigantes, Raoni É um gigante!
Ele mesmo escreveu isso no twitter depois de vencer Joel Parkinson.
A lista de baixas é grande e do mais alto nível, Slater em Portugal, Fanning, Occy, Parko, todos quando disputavam títulos.
Raoni é o tipo de sujeito que cresce nesse ambiente de tensão.
Coisa de quem tinha que cair, desde pequeno, nos maiores mares em Itaúna, uma das ondas mais fortes do Brasil.
O cara ganhou um evento em Sunset, por Deus do Céu!
Evitem se referir ao Raoni com essa expressão cafona e ridícula que os gringos inventaram por absoluta falta de recursos no próprio idioma.
Raoni é um gigante, Pôrra!

Ao meu comando

Steve Shearer, meu jornalista predileto nesse mundinho cão das coberturas do WCT, aproximou-se do Mineiro e disparou, como voce está se sentido agora que toda atenção da imprensa é dedicada ao Gabriel Medina e seu futuro título mundial.
Ainda estávamos nas primeiras fases e Adriano respondeu altivo, É verdade, todos falam dele, mas se voce perceber, nos últimos cinco anos, estive sempre nos top 5. Não sou mais uma zebra. Eu sou candidato ao título.
Mineiro poliu seu surfe aos poucos e foi se livrando da sua cavada em dois tempos para o Bells deste ano, claramente observando o que funciona e o que não funciona no julgamento.
Um amigo meu disse que Mineiro compete com o livro de regras debaixo do braço e está coberto de razão.
A inteligência do Adriano vai bem mais longe do que enxergam nossos pobres companheiros de imprensa.
Mineiro sabe como ler uma onda e como estudar seu ataque pra cada uma delas, ao contrário de algum dos seus adversários que confiam somente no talento.
Voce não se mantem nos top 5 sem muito esforço instinto competitivo.
Vitórias em Jeffreys, Supertubos e agora Bells.
Adriano crava seu nome no Olimpo não apenas como maior competidor brasileiro de todos tempos, mas um dos maiores e mais ferrenhos competidores de todos tempos.
Seu nome agora figura ao lado do Nat Young, Terry Fitzgerald, Jeff Hackman, MP, Mark Richards, Simon Anderson, Cheyne Horan, Carroll, Curren, Pottz, Occy, Sunny, Hoy, Dorian, Andy, Taj, Parko, Fanning e Slater.
E em 2013, ninguem está mais próximo dum título mundial do que Adriano de Souza.

10 fatos que (tambem) marcaram o Rip Curl Pro Bells 2013

1 - Adriano venceu seu primeiro evento para seu novo patrocinador, a marca cearense Pena - todo investimento já teve retorno.

2 - Alejo voltou ao seu melhor e deve voltar pros top 10

3 - Carissa Moore fez chover em Bells e dificilmente perde o título em 2013

4 - Apesar da vitória da Carissa, Steph ainda tem a linha mais pura e bela em Bells - podemos incluir aqui mais da metade dos top 32.

5 - Nat Young sentiu-se em casa nas direitas geladas de Bells, mas a ajuda do Maurice Cole foi preciosa.

6 - A cara do CJ quando Mineiro usou corretamente a prioridade na terceira fase foi uma das cenas mais divertidas do evento

7 - O vigor com que Adriano badalou o sino até quebrar!

8 - Jornalistas australianos e americanos finalmente mostraram respeito, e arrisco até dizer, reverência ao surfe brasileiro.

9 - Parko jogou fora mais uma das suas providenciais vantagens depois da derrota do Careca

10 - Chupa Careca!


terça-feira, abril 26, 2011

Fragmentos dos Sinos

Frase que deu vontade de falar em Bells

Para o Toby Martin
Bicho, voce é bem melhor de assistir como apresentador do que era como surfista.

Rewind

Me perdoem a memoria aguçada, mas Bells é um desses eventos que não se esquece facil.
Curren 1986 e 1990 ocupava muito melhor os espaços e desenhava mais bonito que Parko e amigos.
Occy em toda carreira surfou de backside mais do que qualquer um (exceto por Wayne Lynch) sonhou em surfar aqui- e ainda hoje, 2011!
Posso escrever cinco paginas explicando como o volume das pranchas e o jeito de atacar a onda no final dos anos 80 e inicio dos 90 deixaram o surfe mais vistoso e estetico.
A prancha fina e sensivel demais arruinou a linha em ondas como Bells.
Slater pode mostrar nesse evento o quanto equipamento conta em telas tão amplas e vastas.
Tenho saudade do bico que ele ostentava por volta de 94/96...
Talvez o futuro do surfe esteja no passado, trancado a sete chaves pra ninguem descobrir a fraude.

Sim, Bobby e Owen recuperaram alguma fé no surfe de backside e Jadson mostrou que, sem saber que era impossivel, foi la e fez.
Mineiro bloqueou o jogo psicologico do Careca e sucumbiu a propria pressão de superar o desempenho mais esperado do campeonato.

Jodie Cooper, sempre tão feroz e cheia de si nos comentarios, voltou a ser a criatura fragil e solitaria na festa de encerramento.
Senti pena.
Acabada a cena toda, muitos dos personagens que exerecem algum poder durante aquela que é a semana das suas vidas voltam para sua existencia triste e insignificante até o circuito voltar e lhes emprestar alguma razão de viver.
O diario dos sinos não termina ainda, há muito que ver e fazer.
Um swell de quase 20 segundos e Melbourne, a San Francisco da Australia para descobrir.
Falando em San Francisco, haverá alguem mais radiante que Charlie Smith com a localização do The Search 2011 ?
Imagino o frisson na redação da Stab quando foi anunciado...

sexta-feira, abril 15, 2011

A hora dos Sinos

Aviso aos navegadores, a partir do dia 19/04 o Diario dos sinos estara no saite da Hardcore e esse Goiaba que vos escreve, fará o uébicasti do campeonato mais tradicional do mundo (50 anos!) no idioma do Tião Macalé e Zeca Pagodinho - pendendo mais para o ultimo - la no saite da Rip Curl.
As comemorações devem durar toda semana, com fortes boatos que todos campeões estarão presentes, do MP ao MR, passando pelos dois TCs, Pottz, Occy, Sunny e por que não ? Cheyne e O Fantasma em pele e osso.
A previsão do unico saite que confio é de arrepiar.
Tuiteiros de plantão 24 hrs ja afirmam que todo evento desenrola-se, como um tapete vermelho, logo nos primeiros 4 dias.
Rezem por ondas e deixa o resto pro Jordy, Mineiro, Carlos, Joel, Mick, Alejo, Taj e cia.
Oxala meu Pai.








quinta-feira, abril 08, 2010

Diario dos Sinos X e XI


vitoria 42 na lista e aumentando

Despacho final dos sinos

Hoje (dois dias atras) foi um dia morto pra todos nós.
Inevitavel deixar de mencionar a morte estupida do Ledo.
Trabalhei com ele por 2 ou 3 anos e nunca fui censurado ou chamado atenção pelo conteudo das cretinices que escrevia para a Inside.
Pena.
Lamento.
Talvez o Rip Curl Pro (oba!) va para Johanna, diz um dos educados trogloditas que trabalham na segurança.
Cada dia aqui é uma nova descoberta de quanto voce é capaz de adivinhar dessa gente tão finória e segura dos seus conceitos - leia-se pre-conceito.
Tenho acompanhado aqui da Australia, como acompanhava no Brasil, a cobertura direta nos saites que merecem visita.
De todos eles, desde a primeira etapa, o swellnet tem sido disparado o melhor, simplesmente pelo fato de ter um camarada que escreve excepcionalmente bem e o faz com a maior das virtudes, honestidade.
Steve Shearer é um australiano convicto (sem trocadilho), desses que usa chapeu de feltro a la Nat Young e camisas com mensagens importantes.
Sua cobertura no Gold Coast foi a coisa mais saborosa que li nos ultimos tempos.
Shearer bota no bolso Lewis Samuels.
Tem mais conhecimento de causa e envolvimento emocional com o assunto.
Taí a grande vantagem dele sobre o resto que pipoca diariamente nos saites e blogues da vida, Shearer tem paixão pelo surfe e isso transborda dos textos.
Nunca é aquele coisa blase e distante como gosta de fazer o professor de literatura Chas Smith.
Dito isso, voltemos assunto que nos desviamos pra essa breve introdução - melhor dizendo, preconceito.

•Esse mundo é uma bola
No oitavo dia da cobertura, Shearer teve o prazer de conhecer Edinho, um dos integrantes da equipe ESPN Brasil que tenho o prazer de dividir uma belissima casa aqui em Torquay.
Edinho já foi editor da Hardcore dum jornalzinho muito bacana que infelizmente acabou chamado Nutz.
Antes disso tudo e acima disso tudo, Edinho é surfista, desses que passou parte da vida viajando em busca de ondas e que troca qualquer coisa por uma caída rapida n'água.
Edinho fala baixo e pausadamente, tem sempre um sorriso e é dificil achar alguem que tenha um senão pra dizer dele.
Shearer, como todo os outros australianos que conheci até agora, ja tem uma ideia pre-concebida dos brasileiros, Edinho, Julio ou Francisco.
Somos todos deslumbrados com o surfe e cegos admiradores do primeiro mundo.
Lemos pouco e mal, fomos mal nutridos e nossa ideia é de civilização é parca.
Na maior parte, não somos confiaveis.
Assim somos lidos por essa corja.

Não é culpa deles, o nivel cultural medio aqui é duma pobreza de conto do Dickens e outros idiomas são completamente ignorados.
Uma das fugas desse deserto de ideias é o surfe, onde o sujeito pode desfilar sua nobre ignorância pelo mundo até atingir alguma iluminação.
Não há exceção.


Aereo numero 379 do Medina

•Maria Joahanna

Hey Kelly, goody lucky in Brasil, disse um conterraneo enquanto o campeão do evento se trocava no estacionamento.
Obrigado, respondeu, sem sotaque.
Nessa altura ja tinhamos passado por chuva e sol, vitorias e derrotas, alegria e tristeza, altos e baixos.
Melhor olhar no meu Moleskine, tão em moda, usados por velhas raposas do jornalismo como a nova geração usa Smartphones e Laptops.

Paisagens rasas como a cabeça dos australianos

Duas linhas depois

Fosse eu irresponsavel escreveria isto.

Ainda no estacionamento, Fanning chega feliz e oferece um bem-humorado Bon Jour
ao Michel Bourez e sua turma.
Bourez foi a primeira vitima do Slater, cabe dizer.
As ondas em Johanna são apetitosas, tres bancos se oferecem aos surfistas. Um mais a esquerda d'onde montaram as barracas do Rip Curl Pro (opa!), melhor deles, uma canhota campeã, irresistivel.
No meio, um banco de direitas com ocasionais esquerdas e um longo e muitas vezes delicioso inside.
Mais ao longe, fora do campo de visão dos juizes, em frente a uma pedra, outro banco, tão bão quanto os outros dois, direitas e esquerdas - sem ninguem.
Johanna é o tipo da praia que sonhamos quando imaginamos um dia de surfe perfeito com os amigos.
Bancos, não valas.
Quase selvagem, um pouco do ato civilizatorio pra nos dar banheiros, estacionamento, latas de lixo.

Escolho um lugarzinho na praia pra me esparramar.

Em seguida chega o Taj e seu treinador Johhny Gannon, um ex-jogador de futebol metido a galã de hollywood, e sentam logo ao meu lado.
Jordy e Travis Logie aparecem e sentam ao lado do Taj.
Tento ouvir algo, desisto.
Ponho os fones e logo Josh Rouse começa a cantar uma das musicas que em breve entrarão nas favoritas, The Man Who Doesn't Know How To Smile.
Joel e Ace Buchan estavam la fora na direita fazendo uma bateria morna e aborrecida.
Na proxima bateria estariam Bobby e Jadson.
Lembro de ter chegado na praia e ter pensado, hoje ta pro Jadson e Mineiro.
Jadson ficou em nono e é disparado o melhor novato no circuito até o momento.
Mineiro teve uma bateria fraquissima contra Taj. ALguma coisa aconteceu ali que deixou os dois muito pertubados, a pressão da briga pela liderança começa a afetar Taj que vence mais pelo erro do Mineiro do que pelo seu merito.
Jordy tem tanta certeza de que é invencivel que perder para o surfista mais em forma do mundo, Mick Fanning.
Joel perde inacredtivalmente apatico para Bobby que finalmente escolhe as maravilhosas esquerdinhas que quebram em frente ao palanque.
Desde cedo Medina faz o que quer e o que não quer na esquerda.
Muitas vezes o surfe mais interessante esta ali e não na competição.
Bobby da um dos melhores aereos de todo dia, um lien air. Um grande amigo, Alexandre, fazia capas e tabuas de skate, Avant-Garde. Ele adorava o Neil Blender, cara que deu o nome ao aereo (Neil ao contrario).
Slater ignorou Bede.
Ja contei como Slater chegou na praia ?
Mancando, andando devagar como se pisasse em vidro.
Bourez e Bede ja tinham ido.
Quem seria o proximo ?


Quem podia esperar que Martinez escolheria surfar em outra onda ?

•Limpin' wizard
Independente do que acontecesse, Taj e Jordy continuariam numero 1 e 2, mas Slater e Fanning se vingaram do nono lugar no Gold Coast.
Bobby Martinez, por mais incrivel que possa parecer, escolheu surfar num lugar onde ninguem tinha surfado e justo contra Slater - numa semi final.
Perdeu sem reação, como se não quisesse incomodar KS.
Fanning acabou com Taj com seu comportamento silenciosamente agressivo, intenso.
Um sujeito desavisado pode ficar assustado com a intesidade do olhar do Fanning, mas ele é incapaz de negar um aperto de mão ou um abraço ao seus companheiros.
Curren e Occy fizeram mais uma das melancolicas batalhas dos titãs.
Curren quando veste a lycra rejuvenece trinta anos e surfa como se o tempo tivesse esperando por ele.
Chovia demais na praia durante as semis, fui me proteger na unica tenda que havia.
Quando a final foi pra agua, parada a chuva, me afastei um pouco para uma duna.
La estava Nick Carroll, jornalista que tanto me influenciou. Desta vez não vacilei.
Fanning e Slater começam a bateria caindo em ondas bobas.
Muita tensão entre esses dois, digo.
Nick completa, Em dias como esses, longos, os caras ja surfaram tres ou quatro vezes e estão exaustos.
Leio seus textos desde quando aprendi ingles, ele gargalha de satisfação.
Não são muitos caras que voce pode aprender lendo, aprendi muito lendo voce e Derek Hynd, continuo.
Ele agradece polidamente.
Nessa altura, Fanning ja surfou duas ondas boas e a bateria parece resolvida.
Nick insinua que Fanning ja resolveu a pendenga e eu lembro que Slater é imprevisivel.
Slater apronta.
Começa uma onda enterrado e de repente, do nada, voa alto e radiante.
8.67
Nick perde a linha, Massive overscored, MASSIVE!
Slater surfa com uma 5'8'', alguns dizem 5'7'', outros 5'6'', round pin, Al Merrick, justa, firme e veloz.
Fanning, Taj e Slater tem pranchas excepcionalmente pequenas nos pes, reparem a mensagem.



Encerrada a final, Fanning senta-se numa duna sozinho e fita o infinito.
Frustração e desespero pairam, ele quase chora mas duas crianças chegam e pedem seu autografo, Mick sorri e assina os posters.
Fanning é um dos homens mais importantes que o surfe ja teve no circuito.
Bom carater, companheiro, passional, verdadeiro.
Cada dia admiro mais esse camarada.
E que surfista ele é!
Slater competiu com o pé contundido, tomou duas pilulas me conta Peter Joli Wilson.
Quem recomendou as pilulas é um famoso jogador de rugby, que toma duas antes de cada partida para aguentar as dores.
Peter brinca dizendo que as pilulas podem ser ou nao enhancing drug.
Eu, muito serio, jogo a pergunta, será que são como as que baniram Neco em 2006 ?
Ele balança a cabeça como quem não quer nem saber desse assunto.
O diario continua enquanto a viagem durar e quando puder.
Daqui para Sydney.
A saudade é grande.
A saudade mata a gente canta Edu Lobo.
Eu morro todo dia longe de casa.


Troco cutbacks e rasgadas por comida e bebida

quarta-feira, abril 07, 2010

Diario dos Sinos VIII & IX


Minha aposta para vencer aqui, diz Potter.

Despacho VIII e IX

Preciso correr.
Hoje ja é depois de amanha no diario.


•13, meu numero de sorte

13th # é uma praia parecida com Moçambique em Floripa, no maximo um meio da Barra misturado com praia do Rosa, nos seus dias mais inspirados.
Para os amigos de Portugal, diria que lembra bastante os Belgas.
Chegamos na praia 13th 10 minutos antes de começar o dia de competições, ceu nublado, praia cheia embora dia trabalho.
Impressionante a quantidade de crianças e cachorros na praia.
Raramente uma familia aparece com menos de 2 crianças, esse é um país em desenvolvimento, arrisco dizer, pela coragem que a turma tem de colocar tanta gente nesse mundão de Deus.
Na maré vazia, manhãzinha, as ondas tem no maximo meio metro e não são la muito simpaticas, 3 horas mais tarde na maré cheia, ja terão triplicado em tamanho e simpatia.
As 10 primeiras baterias são ainda na maré baixa, Medina apavora Damien Hobgood, Bede, Bobby, Jordy e Dane passam meio que raspando.
Neco passa uma bateria, grande noticia.
Assisto boa parte dessas baterias ao lado do Francisco, homem forte da Rip Curl em Portugal.
Francisco é um surfista entusiasmado, no bom e velho estilo de gente que torce pra quem surfa bem e não simplesmente pra quem defende suas cores.
Não há ninguem mais empolgante do que Dane Reynolds no momento, diz ele.
Concordo veemente.
Pergunto se o evento em Portugal terá o mesmo apoio que teve em 2009, Francisco alerta que a situação não é a mesma do ano passado e que, economicamente, a coisa tá ficando preta.
Importante mesmo é saber que o evento não esta ameaçado, vem com toda força pra decidamente colocar Portugal de volta no circuito mundial e ainda especula, Por que não podemos usar a Ericeira, ou até mesmo Carcavelos num futuro proximo ?
De Torquay pra Johanna é mais longe do que Lisboa/Peniche.

Sorrio imaginando as possibilidades.

•Tio Nick
Somos todos filhos de Deus.
Dentro d'agua encontro Nick Carroll, surfando com uma Maurice Cole, não maior do que 5'10'', azulzinha, igual a prancha que Slater tem sido surfando por aqui.
Pr'um jornalista de surfe voce passa bastante tempo na agua, pensei em dizer.
Sento um pouco mais embaixo, series de bem mais de um metro aparecem com frequencia, esquerdas, longas e com tenras paredes.
Nick tenta remar numa bomba, uma das maiores que vieram até o momento, não consegue, fica puto e diz alguma coisa que não compreendo mas entendo perfeitamente.
Nick é um dos meus jornalistas prediletos, tenho vontade de me apresentar mas estou cansado demais de tanto remar e o cara não fica parado um segundo pr'eu poder me aproximar, respirar fundo e fazer a devida introdução (epa!).

•Bird Rock Cafe
Da praia, vamos direto pro pub local, eu, Neco e Marco Polo.
Neco e Polo estão hospedados na casa dum local que recebe brasileiros aqui desde Peterson, Vitinho e cia.
Ele e sua familia não estão, a familia esta em Melbourne e ele, bem, como dizer isso sem drama ? Ele foi escalar o Everest.
Todos conhecem Neco e Polo no Pub, não apenas o conhecem como são efuzivamente celebrados.
Pela primeira vez, me sinto na Australia que conhecia das revistas.
Ace Buchan chega pra jantar com seus pais, jovens, bem apresentados.
Feitas as apresentações, Neco se levanta e passa a proxima meia hora em pé conversando com os coroas.
A mãe do Ace é sul-africana, muito bonita, o pai australiano, serio, voz firme e tom baixo.
Adrian Buchan é um camarada diferente dos outros no tour, escreve bem, tem ate livro publicado e blogue.
Os irmãos Gudauskas tambem frequentam o lugar, eles e o californiano Nate Yeomans, todos comprimentam Neco e Polo com entusiasmo.
Jay Thompsom aparece la pra afogar as magoas duma derrota sofrida la na praia 13.
Bottle é um gigante de quase dois metros de altura, coloca as duas mãos no ombro do Marco Polo e diz, eu adoro esse cara!
Ele ainda nem tomou a primeira cerveja.
Luke Munro vem logo atras, mais calado, provavelmente ruminando a pior bateria da historia do Bells, 2.43 contra Jadson.
Em questão de minutos estaremos todos conversando como velhos amigos, Polo pagando cervejas e compensando seu ingles resmumido com sorrisos e infinita generosidade.
Vou ficar até a final, quero ver o que os caras que ganham tão fazendo, diz ele.
Humildade é ainda uma das maiores virtudes.
Visto uma camisa do Benfica, laranja, presente da minha sobrinha que nadava pelo clube em 2007.
Um dos australianos pergunta se é a camisa da seleção holandesa, puxa a carteira e mostra seu sobrenome, Van Der alguma coisa e me paga uma cerveja.
Munro diz que nunca esteve no Rio e tem curiosidade de saber como é la.
Ele conta que ja divertiu nos bordeis de Floripa, faço um breve resumo da Centauros, ele olha pra cima como quem pensa em algo insubstituivel e faz as contas do tempo que terá no Brasil.
Parte da minha missão na Australia é entrevistar Neco para a edição de Julho da Hardcore.
Os ultimos 4 dias passei tentando cerca-lo para uma conversa, Neco é famoso por arredio a entrevistas.
Depois que finalmente consigo começar, o dificil agora é faze-lo parar de falar.
Paramos as 2 da manhã, dormindo em pé.
Neco é um homem de excessos e tem uma bateria dura no dia seguinte - Parko.




•Winki e o dentuço
Quando chegamos na praia, Mineiro e Taj já deram seus shows.
Mal da tempo de ver Dane perder pro Roy Powers que surfa com uma prancha do Andy Irons, assim como Dane na primeira etapa no Gold Coast.
Saca vira uma bateria nervosa contra Dan Ross e Owen Wright descobre que a vida no tour é completamente diferente da descompromissada vida de convidado.
Com o corte de 45 para 32 no meio do circuito, a pressão na turma de baixo, e isso inclui todos novatos, é enorme.
Jadson é o unico que resiste e não toma conhecimento do titio Taylor Knox. Mineiro o espera nas escadas e repete, Keep building, keep building, como um mantra.
Aproveito a deixa e assisto algumas baterias ao lado deles.
Pouca gente tem mais conhecimento de como funciona um evento do world tour como Mineiro.
A consciencia que ele tem das notas e situações das baterias é impressionante - um envolvimento total e absoluto.
Seu melhor inicio de ano, ne ?
Não, ano passado foi melhor, responde Adriano sem perder tempo nas contas.
Po, digo eu, dois quintos, no minimo...
Nessa ltura ele ja fez rapidamente as contas.
20 pontos, conclui.
Eu retruco que 20 pontos não são nada e ele diz que Heitor Alves não se classificou por 5 pontos.
Nada escapa aos olhos atentos do Mineiro.
Nada.

•Walking down the line
Fiquei com a musica do Dylan na cabeça,
I'm walking down the line...To tell about my troubled mind...
Fanning e Parko, numero um e dois de 2009 iriam surfar contra os nossos e quando alguem enfrenta os nossos, o sangue ferve e a coisa se torna pessoal.
Bem, nem tanto pra mim se querem saber.
Medina contra Fanning foi uma lição, como surfar uma onda alinhada sem perder velocidade, moderno, confiante, impiedoso.
Se o jogo do Medina é aereo, Fanning incorporou o espirito e deu o aereo mais bem executado do evento até agora.
Não sei se voces lembram, mas antes de se machucar seriamente, Fanning tinha um belo repertorio de aereos no pe, por precaução eles foram sendo deixados de lado e agora, 2010, contra a sensação da artilharia da nova geração, Mick Fanning mostrou que sabe jogar esse jogo se necessario, mas com uma diferença sutil, maturidade.
Medina impressionou a todos aqui na Australia e tudo aponta para um futuro brillhante.
A Rip Curl inclusive ja quer freiar o impeto que arremessava o garoto para o WQS como se não houvesse tempo a perder.
Percebendo que talvez seja cedo demais para joga-lo no mundo competitivo, Gary Dunne quer que Medina viaje mais para surfar ondas perfeitas e escolha determinados eventos para competir.
Vale lembrar que tambem com 16 anos, aqui mesmo nessa praia em 1987, Nicky Wood, grande esperança australiana para ameaçar o dominio americano do Tom Curren, venceu o Bells Pro, ganhando inclusive do proprio Curren em grande forma.

•Meu pe de jacarandá
Dusty x Slater
Momentum x Modern Collective
Com um broken foot, dizia Mineiro.
Eu queria saber se Jadson e Mineiro torciam pra nova geração ou pelo Kelly.
Torço pelo Owen. E pelo Jordy, pelo Dane...Esses caras são gente fina e surfam pra caralho
, respondeu Jadson.
Dusty é meio pela...
Pela ou não, Dusty fez a manobra do campeonato até agora contra Kelly mas não resistiu ao truques mentais de Jedi que Slater jogou contra ele.
Slater se machucou em Bells tentando voltar dum aereo reverse quando um backwash empurrou seu pé pra cima.
No dia seguinte, quando acordou, seu pé estava inchado e dolorido, ele achou que tinha quebrado e foi direto até o hospital de Geelong para uma radiografia.
Nesse meio tempo, Belly, seu escudeiro, ja tinha avisado a ASP que Slater não iria competir.
Quando veio o resultado do raio X, ainda faltavam 40 minutos para sua bateria, Slater pediu uma injeção para suportar a dor e ligou confirmando que iria competir - pra azar do havaiano.
Mais uma vez, como sempre acontece, depois do Slater sair da agua, o publico virou as costas para a bateria seguinte e debandou.


O tour pode ser solitario pra quem perde

•Taj x Andy
Um sonho de bateria num sonho de mar, se querem saber minha opinião sobre o momento de ambos, la vai.
Andy esta em processo de limpeza, precisa se readaptar ao tour e melhora a cada etapa.
Resta saber se consegue manter interesse em tepas como Brasil.
Taj, outra conversa, vive o grande momento da sua carreira.
Focado, confiante, preciso.
Alguma coisa me diz que não dura depois da perna australiana.
Posso estar errado.
Continuo achando que ele faz muita manobra pela metade e ganha pontos como se fossem inteiras - reassistam as ondas.

•Parko x Neco
Uma guerra de intensidade mental.
Dois surfistas completamente diferentes em todos aspectos.
Parko com arcos longos e manobras diversificadas enquanto Neco se repete e usa pouco a parede da onda.
Ele sabe disso e quer mudar.
Com 34 anos é um pouco mais dificil mas pro sujeito que ja se reinventou tantas vezes, o recomeço é combustivel.

segunda-feira, abril 05, 2010

Diario dos Sinos VII

Nada acontece senão pelos saites da vida.
Eu não existo efetivamente, sou apenas dois dedos teclando aflitivamente.
Se não há nada que um bom dia de surfe não cure, todo mal reside nos dias que não surfamos.
Quem foi mesmo que escreveu que o diabo vive no ócio ?

•Esfaqueado
Rumores dizem que Billabong é dona de parte da polemica revista Stab, por isso nunca uma linha sobre Andy e seus notorios problemas.
Não perdem tempo para contar a historia do Sarge ou Branson, mas algumas das melhores historias ainda precisam ser escritas.

Pawle, menina dos olhos do novo jornalismo australiano, escreve novidades num dos maiores jornais jornais do país.

•Sem rede
Hoje é quarta, dia 07/04, ontem fiquei completamente sem rede para postar algo.
Sim, finalmente fui surfar. 13 Th, eu, Nick Carroll e Pottz no final de tarde.
Prancha emprestada do Neco, 6', Havenga, bastante borda - eu preciso.

•Freddie
Melhor entrevista em anos. Multa de 1000 US$.

domingo, abril 04, 2010

diario dos Sinos VI

Martinho Da Vila diz que nós temos dois olhos,
um vê e outro enxerga.

Hoje (ontem) foi um dia diferente dos outros.

Normalmente nessa profissão você procura ficar proximo de pessoas interessantes para espremer alguma declaração que valha uma linha.

Sentei-me sozinho na mesma escada que fica a esquerda do palanque, em inglês alguem escreveria, alone with my thoughts.

De repente, vejo Toby Martin se preparando para uma entrevista atras (epa!) de mim, olhei melhor, la estava Dane Reynolds.

Dane é bem mais alto do que pensava, parece estar sempre só e ali estava para ver a bateria do Jordy.
Me pergunto se ele tem algum interesse no outros dois, Pat Gadauskas e Jay Thompsom.

Talvez não.

Bottle abre bem a bateria, acerta uma ou duas das suas rasgadas, ele conhece bem essa onda e vai dar trabalho, pensaria um desavisado.

A historia é outra, nota inferior a 5.

J.T. não é bem vindo no novo critério adotado pela ASP.

Jordy manda logo um aéreo reverse na sua primeira manobra.

Dane faz aquele barulhinho típico dos americanos, sshhhhhhh!!, ou waaaahh!!!

Whatever, diria algum afetadinho repórter local.

Toby ataca Dane com dezenas de perguntas, não entendo bulhufas do que eles falam, estou com a cabeça em outro canto - em casa talvez.

Jordy domina a pendenga sem problema, tudo dá certo pro sul-africano.

Esperem!

Pat G. pega uma onda e enlouquece, voa, roda, vira, mexe.
Jordy nem liga, ele sabe que a qualquer momento uma onda virá e ele fará o mesmo.
A onda não vem e Jordy perde enfurecido.
Reparem que nessa bateria não há vencedor, há somente perdedor.

Querem saber mais ?
Aconselho procurar em outro lugar.

• Cafezinho

Me servia do café na tenda da merenda do Rip Curl Bells Beach Pro (opa! agora sim) enquanto Damien Hardman preparava sua cumbuca de cereais.
Dane perguntou,

acha que rola o segundo round hoje ?

Nem a pau, respondeu Dooma.

Aproveitei a deixa,

Alguma chance de ir pra Johanna nos proximos dias ?

Provável que sim, disse ele muito desconfiado.

Minutos depois, encontro com Renato e pergunto a ele sobre uma questão levantada pelo nosso caro MP (Miguel Perdreira),

que diabos aconteceu com o novo formato ?

Renato diz que a turma não curtiu essa de rodar de cara sem poder voltar e brincar de novo, alem disso seria injusto desde que 2010 a foice vai passar pelos 45 depois da quinta etapa.

Pior Bells que ja vi, diz o célebre torcedor do Avai

Damien foi pra Joahanna e amanhã (hoje) deveremos ir pra la.
A previsão é desanimadora e muda de 10 em 10 minutos.
Nem os locais tem saco de prever algo.
Dois deles, que trabalham no evento, dizem que Johanna ta grande e mexido.
Talvez Damien não tenha perguntado a eles.

•Indio quer apito

Dane diz ao amigo ao lado, as ondas tão divertidas, quando a maré encher vai ficar bom la em Rincon (daqui, não o de la).

Andy diz ao Jadson,

vai la e diz que voce quer surfar a segunda fase hoje

Jadson responde,

Ta louco ? to chegando agora aqui no tour...vai la voce e fala.

Andy não desgastar a relação com Damien - nem Dane.

• Clash of the Titans

Ja tinha visto Curren duas vezes antes aqui no estacionamento, as duas com seu filho que, dizem as boas línguas, surfa bem pacas - e é, vejam a gigantesca ironia, Goofy.

Agora, ver Curren vestido com sua roupa de borracha indo para bateria é uma outra sensação.
No estacionamento ele parecia um senhor serio do alto dos seus quase 50 anos, enquanto o Curren de camisa de lycra é quase uma assombração dos anos 80 que voltou para fazer justiça nesse mundo espoleta do surfe moderno de fundo.

Arrependei-vos pois nunca usaram a borda, miseráveis!

Diria uma voz gutural vindo dos Céus.

Porra, nunca tinha visto o Curren se alongando antes duma bateria, comenta um cara ao lado antes dos dois descerem a rampa que leva até a praia.

Naquele mesmo mar que todo round 2 foi relegado, Occy e Curren foram jogados aos leões.
Desci até a praia para poder ver a reação do publico que nessa altura lotava as areias de Bells.

Os locutores despejavam quilos e mais quilos de merda nos alto-falantes na esperança de entreter a corja.

Ainda hoje, 25 anos depois da primeira vitoria do Curren em Bells, a magia permanece.
Intacta.

Ossos e Aaaahs por todo lado e segundo consta, entre alguns dos top 45 presentes.

A posição dos braços, as pernas dobradas como quem senta na cadeira de diretor dum filme do Kurosawa, a prancha saindo da inércia para mais completa curva como uma faca afiada cortando um belo pedaço de carne, firme, segura, precisa.

Estava tudo ali: Michael Peterson, Phil Edwards, Dora, Nat, Rabbit.

Um movimento que não respeita tempo nem epoca, Timeless, escreveria um petit pedê aussie.
Em seguida entram duzentos surfistas para a expressão session.

Das 4.985 ondas surfadas, apenas duas ficariam na memoria de alguem com menos de 30 anos.

•Medalha, medalha, medalha...

Hoje (ontem) foi mesmo um dia interessante, resolvi assistir a final do Grom Search internacional em pé la em cima da área reservada aos jornalistas.

Percebi que alguém se aproximava, nem precisei me virar,

Martin Potter postou-se logo a minha frente e perguntou,

Já começou ?

Sim, Medina ta na frente.

Por 30 minutos ficamos la, em pé, numa esquina vagabunda do palanque do Easter Classic, eu e Pottz.

Lembro vivamente sua final contra Slater aqui, provoquei.

É, aquela foi uma boa bateria...

Tem algum surfista predileto hoje no tour ?

Gosto do Parko, Slater, Taj, Fanning...Dane & Jordy também.

E eu pensando que ele mencionaria Dane & Jordy primeiro.

Quem vai levar essa ?

Kolohe é muito bom mas esse Medina é um freak. Se o circuito fosse em esquerdas, ele ganhava.

Nesse interim, Medina pega uma esquerda (!!!!!) e manda um aéreo tão limpo e perfeito que Pottz faz um daqueles barulhinhos

OOoooooohhh!

Quantos anos você tinha quando esteve no Brasil pela primeira vez ?

15 anos em 1981 pro Waimea 5000 naquela esquerda la do Rio...

Arpoador, adiantei.

Vai fazer todo tour comentando ?

Não, quero ficar em casa com minha mulher e meus filhos. Ja fiquei muito tempo viajando com o circuito. Farei os da Rip Curl, da Quiksliver e alguns da O'Neill.

Claw Warrick, dono da Rip Curl, sai apressado duma sala embaixo, Pottz grita

Hey, o moleque ta ganhando pegando esquerdas - em Bells!

Cala balança a cabeça concordando e abre os braços numa indagação silenciosa.

Prazer, Pottz, me chamo Julio.



Curren e Occy antes da Bateria em Bells 2010 from Julio Adler on Vimeo.

sábado, abril 03, 2010

diario dos Sinos IV ou V


Neco ainda é uma dos surfistas mais queridos


Descendo a rampa


Cada um dos fãs que chegam na praia ganham um desses trecos que parece uma caixa de pizza e na verdade é uma cadeira muito bem bolada para sentar na areia.


Na tela de 42' tudo fica mais nitido, pena que a rapaziada aqui não curte muito banho


Despacho V

Trouxe 8 livros, uma velha mania que não consigo deixar, levar livros que nunca vou ler.
Vai que bate a vontade ?
Peguei então O Luar e Rainha (Companhia das letras, SP, 2005) e fui la conversar com Ivan Lessa, eu ouço, ele fala.
Determinadas relações que estabelecemos com nossos escritores preferidos é de papo furado, conversa de botequim, sem botequim.
Não funciona com Tchekov ou Joyce, apesar dos dois beberem muito mais que o Lessa.
Funciona bem com Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Tom Wolfe, Bukowski, Francis, Fausto Wolff e mais meia duzia.
Lessa é insuperavel e isso é uma das minhas arbitrariedades que não abro mão.
Nem discuto por absoluta falta de conhecimento de causa.
Deixo isso pra quem le tudo e todos e tem capacidade de analisar com isenção quem domina o que nesse tapete verde que é literatura.
Ivan Lessa é filho de dois grandes, Origenes Lessa que voce leu na escola e Elsie Lessa que escreveu sem parar por toda vida.
Enquanto leio as cronicas do Lessa vou conversando com ele e fazendo meus apartes, quase sempre congratulatorios, Pô Ivan, que frase duca! ou Sacanagem, essa eu queria ter escrito seu FDP!
Grandes escritores são inevitavelmente grandes frasistas e nessa arte Ivan é um mestre.
O Luar e a Rainha é uma coleção de crônicas que Ivan Lessa escreve para o saite da BBC semanalmente.
Uma delas, chama memoria.com e data de 07/02/2001.
Começa assim

A memoria é um musculo. Musculo a ser exercitado todos os dias. Com a mesma disciplina de quem dá tres voltas no parque correndo. Ou levanta peso, faz esteira, bicicleta de pernas pro ar.
Um bom exercicio de memoria é sentir saudade. Ao sentir saudade, voce tenta reconstituir o objeto ou situação causadora do - digamos assim- ataque de nostalgia. Então mergulha no tempo e vai reconstituindo o que se passou. Como se passou. O que havia em torno. Qual a cor, o cheiro, o gosto disso e aquilo outro.


Num dos lugares restritos a imprensa e competidores, uma escada proxima do palanque, me sentei pra assistir a final feminina e a primeira bateria do evento masculino.
Do meu lado direito, Occy, o surfista que mais nostalgia desperta (junto do Curren) num sujeito de 40 anos pela primeira vez em Bells. Do lado esquerdo, Maxime, o campeão mundial junior e Gabriel Medina, o futuro.
Todos ali para Andy e Dane que estariam juntos na primeira bateria.
Mas antes, um pouco de Steph.
Perguntei ao Peter Wilson enquanto ele fotografava, Nunca houve tamanho dominio no surfe feminino, né ?
Peter balançou a cabeça como quem buscasse nos seus arquivos algo que confrontasse a afirmação.
Lisa was…começou ele, eu o interrompi antes que fosse tarde. Lisa Anderson tinha a performance muito na frente das outras, mas seu dominio competitivo demorou demais pra acontecer e não durou tanto quanto merecia.
Performance e competitividade com essa distancia do resto, nem Margo Oberg, adiantei.
O que sei eu ?
Só queria uma frase de impacto e diante dos numeros da Happy Gilmore, 4 finais nos ultimos 4 anos, tres vitorias (exceto pela Silvana no ano passado) e nada indica que vai parar de ganhar tão cedo.
Sempre achei Sofia uma excepcional surfista, mas vendo agora ao vivo e comparando com Steph, ela e todo resto ficam pra tras, bem pra tras.
Muito bem.

Andy Irons.

Não fazia ideia de quanta gente adora o tri-campeão e como esse cara mexe com a surfistada.
A cada onda surfada, Maxime e Medina vibravam como garotos que são, enquanto Medina ensinava portugues ao atual campeão mundial pro junior, Viado, Pedê, viadinho, petit pedê...
Occy e um pequeno grupo de empolgados aussies, repetiam, Andy's back, Andy's back, Andy's back…
Dane estava completamente perdido com sua 5'8'' MTF, até uma onda oferecer espaço para um aereo tão alto e sob controle que subitamente tudo fazia sentido. Dane sumiu na espuma por um tempo que parecia uma eternidade e apareceu gloriosamente de pé por uma fração de segundo.
Andy, logo atras (e ele confessou ter visto o voo do Dane de rabo de olho), fez a manobra do campeonato até agora, vejam no heat on demand, por favor. A pequena torcida foi a loucura. Os amigos do Occy enviavam freneticamente mensagens de texto nos telefones.
Um deles, provavel um jornalista, sentenciou, Essa é a ressurreição. Vou chamar de bateria da ressurreição.
Stedman entro na agua na disputa seguinte e todos, sem exceção, viramos de costas para o mar num silencioso protesto.
Contei que Damien Hardman não queria colocar as baterias na água ontem ?
Pois sim, conto ja.
Damien e toda comissão tecnica ja tinha decidido que não haveria campeonato quando Andy e Dane chegaram e disseram, Bixo, queremos surfar.
Debateram por alguns minutos e a decisão foi tomada.
Renato Hickel falou que era uma pessíma decisão dos surfistas e que em breve eles teriam que interromper o evento porque a maré estava enchendo, as ondas ficariam uma merda e tal.
Fomos até a decima bateria.
Apenas os irmão Hobgoods não queriam surfar.
Os dois perderam.
Certas coisas não mudam jamais.
Slater, Fanning, Joel, Mineiro e AI mandaram no jogo.
Por que se preocupar com o resto ?