Goiabada
O homem que se vende recebe sempre mais do que vale. [Barão de Itararé]
terça-feira, maio 07, 2013
segunda-feira, maio 06, 2013
Radin de Pia 26 - Uma tarde sem fazer nada
1 Saquarema - Charlie Byrd & Bud Shank
2 I´m A Drifter - Fred Neil & Vince Martin
3 Where Do The Children Play ? - Cat Stevens
4 Old College Try - The Mountain Goats
5 Sunny Skies - James Taylor
6 Happy End - Tom Zé
7 Where Damage Isn't Already Done - The Radio Dept
8 I Just Get Caught Out (Early Version) - The Go-Betweens
9 Slave To The Rhythm [Hot Blooded Version] - Grace Jones
10 Hearts a Mess - Gotye
11 Love of the Common Man (Todd Rundgren) - Mathilde Santing
12 Alegre menina - Dori Caymmi
13 Chico Brito - Paulinho da Viola
14 Para Mi Eres Divina - Oscar Aleman
15 La Vida Tómbola - Manu Chao
sexta-feira, abril 26, 2013
Fuentes
“Time passes and the past becomes the present. What you were living and thought you had lost forever is ancillary to your work. Then suddenly it acquires a shape, it exists in an order of time all its own and this order of time demands a literary form. So then these presences of the past are there in the center of your life today. You thought they were unimportant or that they had died, but they have just been looking for their chance. If you try to force a theme when you are twenty-five and have lived less, you find you can’t do a thing with it. Suddenly it offers itself gratuitously. At fifty I find there is a long line of characters and shapes demanding words just outside my window. I wish I could capture all of them, but I won’t have enough time. The process of selection is terrifying because in selecting you necessarily kill something.” —Carlos Fuentes
Leia mais dessa maravilhosa entrevista que o escritor Mexicano Carlos Fuentes deu ao Paris Review em 1981aqui
Aproveita e passeia pelo novo saite da revista criada pelo George Plimptom, tá duca!
domingo, março 24, 2013
Radin de Pia 25
Tereza da Praia • Dick Farney
Maré Exquizita • Doo Doo Doo
Oito Sobre a Máquina • Sobre a Máquina
Dia claro • Otto
Nao precisa me amar • Juliana & Edgar Scandurra
Veloce • Vitor Araújo
Um Dia • Vinicius Cantuaria
Perto do Fim • Thiago Pethit e Mallu
Cancao Do Sal • Marku Ribas
No Balanço Da Canoa • Maga Bo
(Featuring Rosângela Macedo And Marcelo Yuka)
A Bossa Nova É Foda • Caetano Veloso
Homem Primata-Demo • Titãs
Ventania Silva • SILVA
Alados • Siba e Catatau
Cordeiro de Nanã • Thalma Freitas e Matheus Aleluia
Esquadros • Adriana Calcanhotto
Feliz e Mareado • Andreia Dias
Muito Romantico • Roberto Carlos
Blues no Céu • Mulheres de Péricles
Feijoada Completa • Almir Guineto & Zeca Pagodinho
terça-feira, fevereiro 26, 2013
Pontos por manobra
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| MP impossível |
O exercito de um homem só
Sua marca foi tão poderosa que apenas duas letras são suficientes para deixar qualquer surfista abalado - MP.
Quem não o conhece, nunca ouviu falar, resta a humilhação de não conhecer a própria história.
Os familiarizados com o nome ficam inquietos com a possibilidade de surgir uma nova lenda, outra daquelas fabulosas historias de perseguição e medo que tanto rodearam o mito, mesmo depois do seu afastamento definitivo.
MP morreu no dia 28 de Março de 2012 e aumentou o mito.
Tudo em torno dele é caótico, inebriante e irrevogável.
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| E se eu colocar mais um wing... |
Duas partes água, uma parte rocha
1976, MP dropa a bomba do dia em Sunset, seus braços tremem e simulam um machado cortando lenha - suas mãos são as lâminas.
Acerta sua linha e entra no inside da onda mais poderosa do planeta com toda velocidade... as placas de concreto vão caindo numa sequência alucinada que lembra remotamente Kirra - Kirra com 12 pés e pesado como um prédio em ruínas.
Peterson passa por dentro, mãos frenéticas, sua prancha faz parte do corpo, da onda, das ilhas...o universo conspira a favor desse cara, tudo aquilo é um solo de bateria do Keith Moon, misturado com Black Sabbath, Pink Floyd e Henry Rollins.
Fúria e psicodelismo na sua forma mais primitiva.
A onda fecha, MP sai triunfante por cima.
O extase venceu o caos. Ou vice versa.
O respeito que ele conquistou nas poucas vezes que surfou no North Shore não é diferente dos seus compatriotas, Rabbit, MR, Kanga e PT.
Insistia em ir pra direita em Pipe, os havaianos não me deixavam ir pra esquerda, dizia ele.
Baita contradição, percebe ?
O caminho quem fazia era ele.
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| No Backdoor como em Kirra |
Inferno
Stubbies, 1977, nascimento do que conhecemos como surfe profissional. A IPS testava pela primeira vez o confronto homem x homem.
Entre 72 e 76 MP venceu e venceu, avassalador.
Usava um papel com os criterios de julgamento escritos no painel do carro.
Cavada+Cavada radical+Cut Back+Batida+Hang Ten+Drope+Fade+Tubo= grana no bolso.
MP era um gênio da matematica. Não da matematica fria dos numeros, mas da matematica impossivel do criterio de julgamento que na epoca era infinitamente mais subjetivo do que hoje em dia.
O psicopata estudava a forma mais eficiente de ganhar baterias e executava com perfeição.
Funcionava bem nas baterias de seis surfistas, faltava testar no novo sistema.
Passou por Reno Abelira, pelo tio do Joel, Darryl Parkinson, por Mark Warren e finalmente enfrentou seu ex-pupilo e atual inimigo predileto Rabbit.
Ninguem teve chance.
Na final foi a vez da sensação do surfe australiano, Mark Richards.
Richards cresceu vendo MP dominar completamente o surfe profissional e ouvindo histórias das suas proezas dentro e fora d’água.
A heroína já tinha substituído os baseados e a esquizofrenia assombrava sua cabecinha perturbada, mas a vontade de ganhar era tão grande que provavelmente o mantinha lúcido por alguns momentos antes de voltar ao mais absoluto delírio.
Foi suficiente pra intimidar Richards que se recorda de pegar qualquer onda só pra evitar o confronto com MP no outside.
Me lembro do seu olhar enfurecido e calmo ao mesmo tempo, diz um MR ainda abalado, faria qualquer coisa pra não ter que encará-lo novamente.
Mike Tyson + Syd Barret
Abandonou o surfe de vez em 1980, mas apenas o ato de surfar. Continuou surfando dentro do seu labirinto interior e passou de ícone à talismã.
Anualmente era reverenciado pelos maiores do esporte, mesmo sem entrar n’água por 20 anos. Slater ficava nervoso na sua presença. Seus melhores anos serviam de termômetro para medir qualquer fenômeno que surgia.
Seu cut back imortalizado por Albie Falzon no classico Morning of the Earth ainda é o único jeito correto de fazer uma curva.
Curren no seu auge homenageou MP, sem querer, numa imagem que demonstrava claramente qual era sua linhagem de surfistas - como esquecer aquele cut back no back door ?
Mesmo o garoto Curren mantinha os braços e a base exatamente igual MP, numa semelhança impressionante.
E não param aqui as similaridades, MP e Curren tinham o mesmo jeito arredio e discreto fora d’água. Quando Curren surgiu em Santa Cruz para a primeira etapa de 1990 (depois dos seus dois anos sabaticos) com oculos Ray ban e casaco de couro preto, todos sabiam que, mesmo vindo das triagens, ninguem poderia pará-lo.
Curvas épicas
Uma prancha com mais curva do que o normal, feita pelo próprio MP, seria a pedra fundamental do surfe moderno. Em ondas como Kirra e Burleigh, mais na rabeta voce atrasa e mais na frente voce acelera. Simples.
Quando atingir toda velocidade, ataque!
Mantenha seus pés firmes e bem plantados durante as curvas.
MP tinha fotos de Nat Young por todo quarto, o power era uma religião.
As lendas do surfe não morrem, voce sabem.
Elas vão pra água conosco.
sexta-feira, fevereiro 08, 2013
Tudo em nome da diversão
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| Portugal, pra mim, começa - ou termina - aqui + Foto do Ricardo Bravo |
Minha ignorância pelo lugar era imensa. Conhecia apenas o bacalhau e as anedotas. Ao chegar na Ericeira, depois de dirigir desde Pantin na Espanha, dormir no posto de gasolina, todos 5 apertados no Peugeot 205 Junior, a decepção não podia ser pior. Vento norte gelado, chuva e nada de ondas por dois dias completos.
No terceiro dia, grande, mexido, frio.
No terceiro dia, grande, mexido, frio.
O Buondi Pro era o final da perna européia, sexto campeonato, seis semanas rodando de praia em praia buscando fama, dinheiro, pontos, mulheres e ondas - nunca numa ordem lógica.
Competir era a única forma que tínhamos para passar o dia na praia disponíveis para os humores do mar. Ou melhor, haviam outras, mas era daquele jeito irresponsavelmente comprometido que tentávamos enganar o tempo.
Tudo em nome da diversão.
O problema é que a dor era tão intensa quanto a satisfação.
Quando cheguei em Portugal, a tensão dos dois meses dividindo carro, casa e mesa com meus 4 companheiros de batalha atingira o grau máximo.
Quase todos já tinham se desentendido entre si e decidi me afastar da turma. Fiquei num quartinho alugado na casa de uma viúva e sua filha, bem próximo ao centro da vilazinha.
Ericeira em 1990 ainda era uma vilazinha, não tinha esse jeito de cidade que tem hoje.
Meus desejos eram dum menino estúpido do Rio de Janeiro, completamente ignorante do país que visitava. Ficava intrigado com tantas senhoras vestindo preto nas ruas, tinha muita curiosidade de experimentar toda sorte de doces que via nas pequenas padarias, até comprei um livro do Fernando Pessoa para tentar entender um pouco mais daquele lugar que me despertava mais afinidades do que França e Espanha - para além do idioma.
Foi quando as ondas chegaram de forma monumental e minha relação ficou ainda mais completa e cada vez mais íntima.
Dirigir sem saber direito para onde se vai num lugar como a Ericeira pode ser uma experiencia fantástica, principalmente quando o mar furioso se acomoda nas baías e recortes da costa.
Encontrei, sem querer, os Coxos. Minha impressão era que tinha quase 10 pés de ondas como nunca tinha visto em canto nenhum.
Lá fora estavam Ross Clark Jones e Tom Carroll, sozinhos, se divertindo a valer. Nem me passou pela cabeça entrar no mar.
Logo no outro dia, surfei a Pedra Branca como só vi em filmes e fotos, sem sequer saber o nome da onda. Vi um australiano (que ninguem mais lembra) chamado Matt Cattle pegar tubos inacreditáveis na minha frente.
O Reef foi surfado de tudo quanto é jeito, por gente do calibre do Brock Little ao Shane Powell.
Curren venceu o campeonato como se surfasse em casa, voltei ao Brasil com vontade de descobrir mais sobre o lugar.
Em 1993 conheci João Valente durante o OP Pro na Califórnia e passei a frequentar Portugal duma maneira completamente diferente.
Cada viagem era como se fosse uma visita guiada, explicada com os detalhes em voz alta, entusiasmados, sempre gesticulando muito, com direito a degustação do que havia de mais típico em cada região.
A única voz que o surfe tinha em Portugal era a Surf Portugal e uma outra revista que já nem lembro do nome.
Hoje o surfe tem pelo menos duas vozes que ecoam semanalmente nos grandes meios, Gonçalo Cadilhe e Pedro Adão e Silva.
Na Australia não há dois surfistas que publicam mensalmente seus dois dedinhos de prosa nas revistas de surfe, todas 5 delas, com o prestígio que Cadilhe ou Adão e Silva tem em Portugal.
Nem nos Estados Unidos temos dois camaradas que fazem qualquer coisa por uma hora de surfe dividindo seu tempo entre grandes diários e colunas em revistas de surfe.
Só mesmo em Portugal, onde até o Rio Tejo vira paisagem de revista de surfe, só mesmo em Portugal, lugar tão atrasado há 25 anos, que a tecnologia dá seus primeiros passos nessa pequena comunidade do surfe.
Foi na Figueira da Foz que fizeram o primeiro webcast em 1996 e 14 anos mais tarde foi em Peniche que o 3D foi testado pela primeira vez.
A loja símbolo da nova fase de um dos gigantes do surfe mundial escolheu Portugal para estabelecer seu novo modelo de investimento.
Chega a ser engraçado que aquele lugar de estradinhas apertadas e perigosas tenha hoje tantas auto-estradas, que de certa forma serve de metáfora pra tanta coisa que aconteceu e ainda acontece nesse país quase renegado pelo resto do continente e que hoje é diariamente redescoberto pelos europeus como melhor destino para um final de semana prolongado.
Não digo que o surfe vai sanar os problemas que Portugal ainda carrega, santa ingênuidade, mas já mudou seu jeito de olhar para as coisas ao seu redor. Basta o tempo que voce dedica lendo uma revista de surfe, olhando o mar ou fechando os olhos, pensando na quantidade de ondas perdidas que ainda precisam da sua companhia.
Se isso não te deixa no mínimo mais otimista, tenta o tênis.
| Coxos pelo Manel - se não me falha a memória |
[Texto publicado na edição de 25 anos da Revista Surf Portugal e na Revista Hardcore]
domingo, fevereiro 03, 2013
Homem no Mar
Homem no Mar
Rubem Braga
De minha varanda vejo, entre árvores e telhados, o mar. Não há ninguém na praia, que resplende ao sol. O vento é nordeste, e vai tangendo, aqui e ali, no belo azul das águas, pequenas espumas que marcham alguns segundos e morrem, como bichos alegres e humildes; perto da terra a onda é verde.
Mas percebo um movimento em um ponto do mar; é um homem nadando. Ele nada a uma certa distância da praia, em braçadas pausadas e fortes; nada a favor das águas e do vento, e as pequenas espumas que nascem e somem parecem ir mais depressa do que ele. Justo: espumas são leves, não são feitas de nada, toda sua substância é água e vento e luz, e o homem tem sua carne, seus ossos, seu coração, todo seu corpo a transportar na água.
Ele usa os músculos com uma calma energia; avança. Certamente não suspeita de que um desconhecido o vê e o admira porque ele está nadando na praia deserta. Não sei de onde vem essa admiração, mas encontro nesse homem uma nobreza calma, sinto-me solidário com ele, acompanho o seu esforço solitário como se ele estivesse cumprindo uma bela missão. Já nadou em minha presença uns trezentos metros; antes, não sei; duas vezes o perdi de vista, quando ele passou atrás das árvores, mas esperei com toda confiança que reaparecesse sua cabeça, e o movimento alternado de seus braços. Mais uns cinqüenta metros, e o perderei de vista, pois um telhado a esconderá. Que ele nade bem esses cinqüenta ou sessenta metros; isto me parece importante; é preciso que conserve a mesma batida de sua braçada, e que eu o veja desaparecer assim como o vi aparecer, no mesmo rumo, no mesmo ritmo, forte, lento, sereno. Será perfeito; a imagem desse homem me faz bem.
É apenas a imagem de um homem, e eu não poderia saber sua idade, nem sua cor, nem os traços de sua cara. Estou solidário com ele, e espero que ele esteja comigo. Que ele atinja o telhado vermelho, e então eu poderei sair da varanda tranqüilo, pensando — "vi um homem sozinho, nadando no mar; quando o vi ele já estava nadando; acompanhei-o com atenção durante todo o tempo, e testemunho que ele nadou sempre com firmeza e correção; esperei que ele atingisse um telhado vermelho, e ele o atingiu".
Agora não sou mais responsável por ele; cumpri o meu dever, e ele cumpriu o seu. Admiro-o. Não consigo saber em que reside, para mim, a grandeza de sua tarefa; ele não estava fazendo nenhum gesto a favor de alguém, nem construindo algo de útil; mas certamente fazia uma coisa bela, e a fazia de um modo puro e viril.
Não desço para ir esperá-lo na praia e lhe apertar a mão; mas dou meu silencioso apoio, minha atenção e minha estima a esse desconhecido, a esse nobre animal, a esse homem, a esse correto irmão.
Janeiro, 1953.
Extraído do livro "A Cidade e a Roça", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1964, pág. 11.
[Descarademente retirado de um dos saites mais bacanas da grande rede - Releituras
A foto foi 'emprestada' do Instagrão do Ryan Tatar...]
quinta-feira, janeiro 17, 2013
Encontros e desencontros
[Outubro de 2012 - Publicado nas Revistas Hardcore e Surf Portugal]
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| Careca em foto do Jim Russi |
Sim, a notícia ganhou as manchetes de todos saites mundo afora, a ASP tem um parceiro para tornar o surfe profissional ainda maior do que já é - para o alto e avante!
Por que o leitor deve preocupar-se com isso ?
Que diferença faria se o circuito mundial acabasse depois de amanhã ou se a Quiksilver, Billabong e Rip Curl fechassem as portas ?
Uma coisa é certa, passariámos imensamente menos tempo colados no computador.
Sem brincadeira, não mudaria rigorosamente nada para 99.8 % dos surfistas de verdade.
Talvez piores pranchas, roupas de borrachas de qualidade inferior para o consumidor menos exigente e calções e camisetas de gosto, e funcionabilidade, duvidoso.
Não haveria menos gente no mar, nem os caras mais chatos da sua praia, ou da minha, parariam de encher teu saco quando a série sobe no melhor dia do ano.
Quando foi anunciado o acordo (ou pré contrato) da ZoSea com a ASP os furiosos das redes sociais foram à loucura.
Toda sorte de teoria de conspiração foi especulada.
O fato do manager do Kelly Slater, Terry Hardy (um dos sócios da ZoSea, junto com Paul Speaker), ter sido um dos articuladores do tal Rebel Tour em 2009 tem dado o que falar.
O rebel tour, ou circuito rebelde numa pobre tradução, veio à tona quando o circuito ainda tinha 44 surfistas e provocou imediatamente a redução do número dos tops, fora a já extinta rotação.
Brodie Carr, que tinha o cargo de algo como presidente da ASP na época, diz ter negociado pessoalmente com Slater para mante-lo no circuito ainda em 2009.
Um ano depois, Brodie pediu o boné e Slater continuou para o 11º e, quem sabe, 12º.
Os rumores do rebel tour não foram muito alem do que meramente rumores.
Surfistas como Jamie O'Brien, incapaz de se qualificar para o WCT, jogaram lenha na fogueira que nunca pegou fogo.
O acordo agora anunciado com fogos de artifício prevê completa cessão dos direitos da ASP para uma empresa sem nenhum histórico em administração, promoção ou venda neste tipo de negócio.
Hardy é notório por fechar bons contratos para seus atletas e artistas, será capaz de vender um circuito inteiro ?
A enorme onda que varre o preço das ações da grandes empresas de roupas de surfe e a crise do mercado de varejo tornou as nossas gigantes em gatinhos mansos que, de uma hora pra outra, abriram mão dos seus direitos de imagem e transmissão dos eventos onde investiram algo como 400 milhões de Dólares nos últimos 20 anos.
Alguem é ingênuo suficiente para acreditar nisso ?
E a ASP, por outro lado, parece mãe de miss depois do concurso, esfregando as mãos, prevendo grandes contratos e uma vida plena de sucesso e aventuras.
Voltemos dezanos no tempo, quando a ASP anunciou com esse mesmo entusiasmo um acordo de dez anos com as gigantes (essas gigantes de verdade) IMG e TWI.
A IMG investiria 50 milhões de Dólares em dez anos e o crescimento do esporte seria inevitável e irreversível.
Não se fala mais nisso.
Aparentemente, o negócio não era assim tão bom e o contrato nem sequer foi assinado.
Ainda antes disso houve outro grande contrato com a SMG (Sportsworld Media Group), que previa 12.75 milhões de investimento.
Meses depois a empresa foi a bancarota com uma queda de quase 90% do preço das suas ações.
Em maus lençóis, a ASP ficou de chapéu na mão, pegou um empréstimo com os atletas e licenciadas para continuar existindo.
Onze anos depois e a ASP ainda paga os últimos vestígios dessa dívida e vai entregar a empresa/associação para a ZoSea com todas dívidas quitadas.
O discurso da ASP sempre foi coerente quando diz que o surfe precisa de patrocínios de fora da indústria do surfe, mas o circuito já teve a Coca-cola como apoiador (não fica muito maior que isso, pois não ?) e de maneira alguma teria conflitos de interesse com as marcas de surfe para promover o surfe como esporte de massas.
Renato Hickel, tour manager da ASP e um camarada de honestidade inquestionável por todo seu passado no esporte, diz que a ZoSea pretende enfiar 25 milhões de Dólares no circuito mas não pode revelar qual prazo para tal investimento.
Caso o prazo seja, digamos, cinco anos, estamos na mesma situação da década passada.
Cinco milhões de Dólares não paga nem os custos da transmissão de todo circuito.
Uma das grandes questões gira em torno do webcast, a galinha dos ovos de ouro da ASP. O problema é que ninguem sabe ao certo os números exatos porque a ASP, ou as empresas envolvidas, não divulgam estatísticas, como por exemplo, quantidade de pessoas e quanto tempo passam assistindo os campeonatos.
Números vagos são alardeados volta e meia quando atingem milhões de pessoas, mas não sabemos qual é o verdadeiro potencial do produto como negócio lucrativo.
Por enquanto, o que temos, fãs do esporte, é um monte de perguntas.
Por que privatizar justo agora ?
Depois de tantos encontros e desencontros com grandes grupos de mídia, por que escolher uma produtora que tem laços tão fortes com uma das empresas (Quiksilver, por motivos óbvios, 20 títulos mundiais e Speaker ainda faz parte da mesa de decisões) que mais se beneficiou com o Tour ?
A mais curiosa das questões talvez seja, por que o surfe profissional nunca se tornou o que está fadado a se tornar desde que Slater começou a perder cabelo ?
A resposta talvez seja simples, não há pra onde crescer.
Ou há ?
sexta-feira, janeiro 11, 2013
Tita
No espetáculo “O marco do meio-dia” , Antônio Nóbrega, artista Pernabucano que melhor nos representa, brasileiros, no palco cantando e dançando, acompanhado da mulher e filhas, homenageia três grandes brasileiros que colaboraram de alguma forma pra criar essa identidade que temos hoje como povo.
Os homenageados são Aleijadinho, Bispo do Rozário e Garrincha.
Se no meio do surfe houvesse alguma justiça, Maria “Tita” Tavares teria lugar parecido no nosso Olimpo de heróis.
Começa pela pisada: firme como um poste. Seu porte compacto lhe proporciona muita força sem muito esforço e menos braços, quebradas de pescoço, para rebolar em cada manobra.
Vem logo Tom Carroll à cabeça.
Sólido.
O azar de Tita foi ter nascido pobre, baixinha, parda e nordestina.
Num mercado dominado pelo padrão beleza importado, Tita nunca teve o espaço duma Lisa Anderson.
Histórias como a da Tita são bonitas apenas nos documentários feitos pelos estrangeiros, quando o caldo já desandou faz tempo.
Tetra campeã brasileira de surfe profissional, primeira mulher a tirar uma nota 10 na ASP, bicampeã do WQS em 2000, maior recordista de títulos e façanhas nesse pequenino mundo do surfe feminino brasileiro, Tita recupera-se, no ostracismo, de doença séria.
Não fosse Calunga, seu conterrâneo, verdadeiro ativista social do surfe nordestino, ninguem saberia do paradeiro da Tita.
Calunga ajudava Tita levando-a ao médico e custeando exames, silenciosamente solidário.
Poucos sabem que Calunga e mais 3 amigos fundaram em 2010 o Instituto Povo do Mar (IPOM - http://www.ipompovodomar.org.br), uma ONG que se propõe auxiliar comunidades carentes em Fortaleza.
A primeira escolhida foi a favela do Titanzinho, onde mora Tita.
Mas não é sobre o Calunga esse texto, é sobre a Tita.
Lembro de vê-la ainda novinha surfando em Maracaípe, anos 90, fiquei assustado com a elegância da menina em cima da prancha.
Tita carregava muito da influência do Fabinho Gouvêia no jeito de surfar, era um choque constatar que uma garota era o mais próximo, em estilo, que tínhamos do nosso melhor surfista.
Quando Tita foi ganhar o mundo no circuito mundial, depois de ter sido campeã mundial amadora em 1993 na Venezuela e vice no ano seguinte, o ranking era completamente dominado pelas louríssimas e branquíssimas Lisa e Layne.
Demorou um pouco para embalar, em compensação, quando embalou foi difícil parar.
A cearense que nunca tinha visto onda muito maior de metro e meio, foi ganhar um evento logo no paraíso das ondas grandes, o OP Hawaiian Pro, em 1997 no Havaí.
Gostou tanto que repetiu o feito no ano seguinte, não sem antes vencer duas etapas seguidas do WQS.
Em 2000, Tita ganhou novamente dois seguidos, o Gunston em Durban, na África do Sul, e o US Open na Califórnia.
Tita serviu de inspiração para uma menininha que viria tambem do Ceará, grande celeiro, para o Rio de Janeiro e do Rio de janeiro para disputar o título mundial com as melhores do mundo.
A menina chamava-se Silvana e hoje é uma mulher.
Silvana não seria possível sem uma gigante como a Tita antes.
O nordeste tem uma capacidade enorme de produzir talentos, mas tambem é capaz de cuspi-los cedo demais, sem estofo para enfrentar a crueldade da vida solitária dos campeonatos de surfe.
Tita foi direto da favela para os pódios, sem dó nem piedade. Ninguem a alertou que lá fora não entendiam, nem queriam entender, o que ela queria ou precisava, que era cada um por si e o último apaga a luz.
Em artigo recentemente publicado no saite TheInertia, o autor, Tetsuhiko Endo, lembra que em 1995, em plena disputa do título mundial profissional feminino, entrava em cena um concurso de miss biquini e todos viravam de costas pro mar e as atenções voltavam-se para as rabetas - fora d'água.
Tita, do alto dos 1.50 metros, enfrentou, com dignidade, esse tipo de constrangimento nos circuitos nacional e internacional, sempre recebendo menos atenção - e grana, meu chapa.
Com 36 anos, seria bacana escrever sobre os dias de glória da cearense baixinha que tanto nos encheu de orgulho, no entanto, como tantos outros atletas que são esquecidos, Tita precisa de cuidados.
Em tempo de tantos alarde sobre a quantidade de amigos (virtuais) que fulano tem no facebook e da propagação dessa tal irmandade (virtual) que temos no surfe, gostaria de ver a turma compartilhando um pouco de compaixão com uma irmã tão querida.
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