terça-feira, abril 08, 2014

Tio Buttons

As muitas faces de Buutons


Tio Buttons, Tio Buttons, me leva para mais uma onda ? 
A garotada não cansava de pedir e Buttons, incansável, repetia seu velho ritual de compartilhar o surfe, fosse um turista na sua escolinha em frente a Chun’s Reef no North Shore, ou um veterano de guerra no seu trabalho voluntário em White Plains Beach no Westside de Oahu.
Todo mundo virava garoto perto do Buttons.
O que a larga maioria dos seus alunos não sabe é que esse camarada que nunca tira o sorriso do rosto já foi um dos maiores surfistas do planeta e é hoje reconhecido como um dos mais influentes de todos tempos.
Nascido Montgomery Ernest Thomas Kaluhiokalani em Honolulu, 1958, sua mãe queria homenagear seu ator predileto, Montgomery Clifft. 
A avó quando viu seus cabelos enroladinhos lhe deu apelido de Buttons - os cachinhos pareciam botõezinhos...
Cresceu surfando em Waikiki em qualquer coisa que flutuasse, evoluiu para as famosas bancadas do South Shore, Ala Moana, Kaisers e rapidamente ganhou o mundo- e o North Shore.


Quem aprendeu a surfar no final dos anos 70, início dos 80, queria surfar como Buttons.
Os feras do Quebra Mar e do Arpoador, Itamambuca ou Pipa, caras que a minha geração admirava, queriam surfar como Buttons.
Alguns dos melhores até tinham muito do estilo do Buttons no jeito de pegar onda, Gironso no Arpoador, Valdir Vargas no Quebra Mar, Tinguinha, mesmo Picuruta, ainda na época da biquilha, tinha uma ginga havaiana.
Todo mundo vai lembrar de alguem que trazia traços do Buttons em cima da prancha.
E era aqui no Brasil que o legado do Buttons se espalhava mais rápido, por motivos quase óbvios.
O primeiro deles, fácil de identificar no primeiro olhar, cor da pele e sua cabeleira sarará que nos remetia imediatamente ao Jairzinho, Furacão do glorioso Tricampeonato na Copa do México em 1970.
De todos ídolos do surfe mundial, os havaianos de pele escura pareciam sempre mais próximos dos brasileiros por mera afinidade.
Esse, o segundo motivo, afinidade.
Quando Shaun, Rabbit e MR chegaram para brigar pelo título mundial, a coisa ganhou um ar de seriedade que não combinava muito com a geração que reinava nas praias brasileiras. 
Claro que existia exceção, uma penca delas, mas tudo que os cabeludos daqui queriam era se divertir, sem compromisso com pôrra nenhuma, como os havaianos.
Australianos, sul africanos e americanos eram claros demais, loiros demais, quietos demais...
Havaianos e brasileiros eram mais espaçosos e divertidos.
Bocão, Otavio Pacheco, Rico, Proença, sentiam-se em casa com os Aikau, Abelira, Kealoha, Ho, Carvalho. 
Buttons nunca estava sozinho (como os brasileiros!), fosse nos filmes, na temporada havaiana ou nas revistas.
Voce lia o nome dele e logo ao lado vinha escrito, Mark Liddell e Larry Bertleman, o trio calafrio de Velzyland.
Bertleman era um pouquinho mais velho e exercia enorme influência nos outros dois e durante um curto período, Bertleman foi um dos surfistas mais bem patrocinados do mundo - isso num tempo que a palavra patrocínio ainda não tinha a dimensão que tem hoje.
Bertleman era um superstar e Buttons seu pupilo mais virtuoso.
Quando o filme Playgrounds in Paradise foi exibido no teatro do Hotel nacional (talvez Colégio Rio de Janeiro...) para um público de ensandecidos surfistas, um dos momentos de maior delírio foi a entrada triunfal do Buttons fazendo mágica com sua Stinger Aipa.
Breve pausa para explicar o que era, e representava, uma Prancha modelo Stinger shapeada pelo Ben Aipa.
Ele mesmo, Aipa, era um excepcional surfista, mas foi sua ousadia como shaper que o tornou lendário. Aipa foi o camarada que refinou a prancha para onda pequenas, criando a rabeta Swallow para dar mais agilidade nas manobras e teve a brilhante idéia de enfiar um Wing quase no meio da prancha tornando suas pranchas verdadeiros skates.
Buttons, Bertleman e Liddell eram os pilotos de teste do Aipa e ainda arrastavam a quilha o máximo que podiam pra frente, deixando quase nenhum impedimento para curvas nunca antes sonhadas.


Percebam que entre 75 e 78 quase todo imaginário havaiano rondava ondas grandes ou gigantes e de repente aparece aquela turma de Velzyland sufando ondas pequenas, finalmente possíveis, manobrando com uma criatividade absurda e desenhando um linha completamente diferente de tudo que se via nos filmes da época.
O que Buttons fazia era humanizar e aproximar a fantasia de um Havaí improvável para qualquer um.
Não eram mais ondas assustadoras como Pipe, Sunset ou Waimea, Buttons e cia pareciam se divertir tanto nas ondas pequenas de Velzyland quanto Lopez em Pipe, ou BK em Sunset - talvez mais.
Duma hora pra outra, o surfe voltou a ganhar um ar inocente de brincadeira, uma coisa quase infantil de experimentar só pra ver no que vai dar.
E assim foram surgindo 360s, rock’n rolls, cut backs com curvas de ângulos obtusos, lay backs extendidos até não poder mais e uma alegria de surfar impressionante.
Buttons cavava de front side, chegava no lipe e trocava de base, batia de back side, voltava e trocava de base novamente.
Tudo subitamente parecia possível vendo Buttons surfar.
Enquanto todos surfistas do seu calibre correram para o recem criado circuito mundial, Buttons não queria deixar o Havaí por nada desse mundo, numa preguiça digna de Macunaíma, nosso heróis sem caráter.
Fora dágua Buttons arrepiava de skate, imitando Alva e Peralta, antecipando em pelo menos 20 anos a influência que o carrinho devolveria pro surfe com a ascenção dos aéreos.
Nem sempre a vida foi justa com ele. Buttons deixou-se levar pelas drogas que tomaram, ainda tomam, tantas vidas no Havaí.
Durante alguns anos Buttons sumiu do mapa, desintegrou-se até ser achado sem muita esperança nas esquinas do mundo.
Reinventou-se com quase 50 anos, largou um vício, drogas, voltou para outro, surfe.
Reapareceu como se nada tivesse acontecido, forte como um touro, surfando com a mesma alegria, fez uma escolinha para ensinar surfe e espalhar o Aloha.
Foi fisgado por um imperdoável cancer e faleceu aos 54 anos apesar de todo esforço que a comunidade fez para ajudá-lo.
A herança dele está clara na homenagem que Kelly Slater fez à ele no Instagram,
Buttons surfava do jeito que nós sonhávamos ser possível surfar.

Buttons & Aipa = Boom! Pow! 


HISTORIA CURIOSA - Final de 7 em Pipe

Em 1981, logo após ter sido anunciado os classificados para a grande final do Pipeline Masters, Buttons tinha ficado em quinto na segunda semi e não achou justo o resultado.
Houve, possivelmente, uma onda que não foi vista, ou confundida.
Os Black Trunks resolveram dar uma forcinha, o tempo fechou e, pela primeira vez (talvez a única!) na história da ASP uma final teve 7 surfistas ao invés dos tradicionais 6.
Buttons ainda terminou em terceiro, mesmo fazendo uma gritante interferência no Allan Byrne.
O evento foi vencido por Simon Anderson num modelo de prancha muito contestado então, a triquilha.

Todos outros competidores, Buttons incluso, estavam de monoquilha.

Até Breve... Foto do Divine

segunda-feira, março 24, 2014

Poetinha de pernas pro ar

Por tras desse sorriso tinha um grande sacana


Vinícius dizia com certo orgulho que sua vocação mesmo era pra ser vagabundo.
Sim, esse Vinícius mesmo que voce está pensando, o poetinha, Vinícius de Moraes.
Numa entrevista feita em 1973, ele declarou que, 
       Há muita gente que não entende que o homem não precisa - e eu acho que não devia nunca- renunciar ao ato de brincar. 

Eu exijo o direito de brincar e mostro brincadeiras tambem, ao lado das coisas sérias, porque acho que tudo é sério. Tem gente que esquece que tudo é sério, mesmo as brincadeiras, e então, essa gente assume uma 'coerência' que eu não entendo, nem quero, uma coerência burguesa e limitadora.

Uau, pensei com meus botões, esse camarada falou comigo.
Temos uma alegria infantil ao dar de cara com ondas que falam conosco, sejam grandes ou pequenas, mas que falam conosco como apenas aquele antigo brinquedo falava.

A tentativa de tornar a nossa simples atividade em algo intelectualmente inatingível é coisa de gente pobre de espírito que deseja elitizar qualquer coisa que se populariza para para poder distinguir-se.
Separar.
       Revejo fotos antigas e identifico ali uma característica que não envelheceu com o tempo, a alegria.
Não confundo essa alegria com felicidade, que é uma coisa fugaz, a alegria é um sentimento que te cobra menos, e custa menos.

E a brincadeira é o melhor veículo para essa alegria repentina.

Quando voce, caro amigo, termina uma onda bem brincada, toda fantasia volta à tona e somos todos meninos (e meninas) novamente.
Nesse exato momento, somos todos iguais.

Drumond, Vinicius, Bandeira, Quintana e Paulo Mendes Campos na casa do cronista maior, Rubem Braga


Prancha zero ou toco velho, 15 temporadas na Indonésia ou nunca saiu dali, roupa de borracha de 1.500 pratas ou sungão desbotado, tatuado ou não, feras e pregos - iguais.

        O ato de brincar era altamente condenável pelos colonizadores na época dos descobrimentos e a coisa não foi diferente com os nativos polinésios quando os missionários perceberam que surfar não tinha objetivo prático nenhum.

Em sociedades baseadas em sofrimento e cobrança, qualquer prática que remotamente lembrasse diversão era banida.

No Brasil de Cabral, os índios eram considerados preguiçosos porque não passavam todo dia trabalhando e reservavam boa parte do tempo para o lazer.

O sorriso fácil do índio era confundido com uma certa ingenuidade e frequentemente taxado de abestado.

Curiosamente, nossa experiência com surfe passa tambem por isso, essa insistente associação com a preguiça, com a tolice do surfista.

Pois esse é o nosso maior orgulho.
Desconheço outro jeito de levar a vida.

Vinicius e Georges Moustaki curtindo uma praia, preocupadíssimos com a fauna e flora de Ipanema depois das 10 da noite...


Quem mais se aproxima dessa lentidão e descompromisso talvez seja o pescador, ou a criança...
A criança não quer (e não deve querer) fazer outra coisa senão brincar, da hora que acorda até a hora de ir deitar.

         Então envelhecem um aninho e já exigimos deles um compromisso com a vida adulta e aos poucos roubamos, inadvertidamente, quase todo tempo que eles tem para brincar.

Primeiro vem a escola, e os deveres de casa, inscreve no futebol, na natação, curso de inglês, escova os dentes, veste sozinho, come sozinho, calça sozinho, sai dessa televisão, desgruda do computador, faz alguma coisa da tua vida!

Crescemos buscando uma fuga pra todas essas obrigações e um belo dia descobrimos uma fonte inesgotável de diversão - o mar.
[Eu poderia usar a bola no lugar do mar, funcionaria perfeitamente, mas isso é uma revista de surfe e eu preciso ganhar a vida.]

A ida para o mar nos arremessa novamente para um lugar perdido da infância, quando brincávamos sozinhos sem ninguem perceber e um dia inteiro se passava.

Queria fugir do discurso fácil e repetitivo de avisar que nossa vida hoje é intermitentemente conectada com telefones e computadores, já não temos a privacidade dos nossos pais.

Nossos filhos terão ainda menos.
Armados apenas com uma prancha, ou mesmo sem ela, vamos pro mar em busca da alegria, do nosso sorriso, da brincadeira.
Acho que essa seria a melhor herança que poderiamos deixar pros filhos, não o surfe, mas saber brincar.

Não há nada mais útil e permanente do que brincar.
E o resultado é sempre o mesmo, um sorriso.

Uma campanha publicitária da marca Instinct, que pertencia ao campeão mundial de 1977 Shaun Tomsom anunciava, Tudo bem esperar por uma onda, tem gente que espera a vida toda por nada...
O surfista, no auge da sua inércia, espera pelo sorriso da natureza e se basta.

O Poetinha com seu melhor amigo, Uísque (O Melhor amigo do Homem é o Uísque, o Cachorro engarrafado, dizia Vinícius)

quinta-feira, março 13, 2014

O Homem que não estava la

O Homem que estava la...


         É tentador usar frases de filmes como alegoria pra tentar deixar clara uma idéia.
Não resisto à possibilidade, mínima, do leitor acabar por assistir o filme e relaciona-lo ao fato aqui narrado.
Comparei mais de uma vez Kelly Slater aos inesquecíveis personagens do Clint Eastwood - Willian Munny e Harry Callahan para não me estender demais.
Cada ano que passa, Kelly fica ainda mais cinematográfico como personagem.

O nome do filme é O homem que não estava lá (escrito e dirigido pelos Irmãos Coen, EUA, 2001), a cena, escura, preto e branco, o advogado se recusa a aceitar que seu cliente acaba de confessar o crime e sai com uma brilhante defesa...
‘...Tem esse cara, na Alemanha, Fritz alguma coisa. Será ? 
Talvez seja Werner. 

Enfim, ele tem essa teoria, voce quer testar alguma coisa, cientificamente, sabe ? Como os planetas dão a volta no sol, do que são feitas manchas solares, por que a água sai da torneira, essas coisas...
Bem, voce tem que olhar pra elas.
Mas, as vezes, voce olha e seu olhar muda aquilo.

Voce não sabe realmente o que aconteceu, ou o que aconteceria se tivesse acontecido debaixo do seu nariz. Então não há ‘O que aconteceu’ ?
Não num sentido que podemos compreender com nossas mentes doentias.
Porque nossa mente...nossa cabeça atrapalha.
Olhar pra alguma coisa muda aquilo.
Eles chamam isso de ‘O princípio da incerteza’.

Parece maluquice, mas até Einstein diz que o cara faz algum sentido...

Ciência. 
Percepção. 
Realidade. 
Dúvida. 
Benefício da dúvida.

Tô dizendo que, as vezes, quanto mais voce olha, menos voce sabe de verdade.
É um fato.
Fato provado.
De certa forma, é o único fato que há.’
Corta para as duas ondas redentoras do Fanning no Pipe Masters.
Duas bombas nos derradeiros segundos das baterias decisivas que lhe valeram o terceiro título mundial.
Voce diz que valeu, eu digo que não, ou vice versa.
Seu olhar muda tudo.



Esse Pipe Masters tinha algo de arrebatador.
Tinha tanta coisa importante em jogo, quem era capaz de ousar perder algo ?
Sim, mesmo com Heats on demand e tudo!
O importante era testemunhar história sendo feita ali na sua frente, fosse na TV, na areia, na tela do computador ou no bendito telefone - quantas alternativas.



Ciência

Ninguem esperava que Miguel Pupo dropasse a melhor onda dos últimos 20 anos do Pipe Masters.
Ou melhor, esperávamos sim.
Se havia alguem nesse injusto planeta que acreditava nisso éramos nós, esperançosos brasileiros, rosto colado no monitor.
Nada mais justo do que a onda do (novo) século ser surfada por alguem de fora do círculo - triângulo ?-  Australia/EUA/Africa do Sul.
A nova ordem mundial vem destas bandas.
Preparem-se.
Pupo teve um 8.7 contra Alejo na segunda fase e um 9.07 em cima do Josh Kerr, mesmo homem que tirou o título mundial do Slater em 2012.
Jeremy Flores tem sido o surfista dos milagres em condições extremas (como esquecer Teahupoo em 2011 ?), já vestiu a coroa do campeão no Pipe Masters mas nada pode fazer diante de um predestinado Miguel Pupo.
Miguel não venceu apenas uma bateria, ganhou respeito pro resto da sua carreira.
Quando quiser remar num Pipeline de verdade, acima dos 10 pés, vão olha-lo diferente.



Percepção

Antes de começar o Pipe Masters, Medina já era candidato a melhor onda do inverno no maior saite de surfe do mundo.
Isso quer dizer que a mensagem estava dada, passado o tempo de experiência, agora é hora de partir pra cima de igual pra igual.
Nada de surfar apenas na hora da bateria ou algumas horas antes.
No meio da multidão de locais e pretendentes, body boarders, encrenqueiros e tudo mais que enfrenta Pipe em troca de exposição, Gabriel Medina já não se satisfaz com restos e quer o que é seu.
Nick Carroll notou, logo na primeira vez, que Gabriel tinha a ousadia de usar toda área onde é possível quebrar ondas em Pipe - ao invés de ficar sentadinho esperando sua vez, ou sua onda, como tantos antes dele.
No evento, Medina não poderia ter vida mais difícil, pegou o irmão do homenageado na primeira bateria e deu um verdadeiro baile no Bruce.
É inútil descrever a surra, basta dizer que fez a maior média do dia e, de quebra, meteu um alley oop no final de uma onda - detalhe, descartou uma nota 8!
Foi preciso John John para dar um fim nisso.
Tem volta.



Realidade

Florence arrastou seu segundo Triple Crown em tres temporadas - que tal ?
AInda resta vencer o Pipe Master e título mundial.
Quantas vezes ? seria prudente perguntar.
No North Shore, não sobra nada, exceto migalhas - e ele quer mais.
Sua frustração era evidente no pódio, o que é sempre um bom sinal.
Tudo indica que deixou de ser o rapaz que não liga mais pra isso, nem aquilo, chega de sorrir por nada.
Até seus vídeos andam mais introspectivos ultimamente.
No Pipe Masters, JJF bateu Medina (por pouco), Julian e Fanning sem muito esforço.
Seu calcanhar de Aquiles ainda é excesso de respeito, mas algo me diz que depois dessa derrota inesperada (para ele), Slater deixará de ser um ídolo para se tornar um adversário.


Dúvida


        Hoje é fácil dizer que o terceiro título do Fanning era certo como 2 + 2.
Com tamanha obstinação, Fanning podia ser campeão de qualquer esporte, natação, remo, rugby, porrinha ou xadrez.
Voce olha pro sujeito e percebe que existe apenas um objetivo na vida do camarada - ser campeão mundial.

O Macaco Albino não foi, em nenhum evento, o melhor surfista da temporada, nem no campeonato que ele venceu - esse mérito, voces bem lembram, foi do Medina.
Mas o diabo é que Fanning nunca perdia antes das quartas e fazer isso é tão difícil, ou mais, do que ser simplesmente o melhor.
O danado do australiano tem uma fórmula que dá certo e a usa sem pudor.
Quem não gosta, que se dane.
O que importa, no frigir dos ovos, é o título.
E já são tres...

Muito se falou, e escreveu, sobre uma possivelmente intencional interferência do Mick no JJF.
Seria como acreditar que o Flamengo, Portuguesa e Fluminense já tinham 
acertado tudo antes do Brasileirão acabar.
Fanning foi cirúrgico na disputa ao título e nas baterias mais importantes do Pipe Masters.
Num Pipeline que ele não deve ter surfado mais um punhado de vezes, Fanning se jogou em tudo que aparecia pela frente, despencando em vacas terríveis até conseguir a redenção na última e derradeira onda contra C.J. Hobgood.

Mesmíssima cena diante de um furioso Yadin Nicol.
A calma no momento mais tenso do ano, a categoria em fazer um Fade em pleno drope e o tubo consagrador não é coisa pra pessoas comuns.
Nosso olhar muda tudo...

JJF e KS11, duas gerações de domínio em Pipe


Benefício da dúvida

Logo após a final, quando perguntado, pela enésima vez, se abandonaria o circuito mundial, Slater disse, Não, esse evento me deixou puto o suficiente para continuar mais um ano.
Façam suas especulações sobre o futuro do surfe profissional, mas nunca deixem Slater de fora.
Hoje, assim como nos últimos 20 anos, Slater É o surfe profissional.
Foi o melhor surfista quando as condições realmente importavam.
Kirra, Fiji, Teahupoo, Pipe.
Claro que teve um soluço em Bells classico diante dum inspirado Willian Cardoso, mas isso faz parte do serviço.

Fez quatro finais contra duas do campeão mundial - ganhou tres.
Sua vitórias foram sempre espetaculares, um misto de tenacidade, talento puro, estratégia e explosão.
Quase todas outras vitórias do ano foram apenas fruto de uma ou duas das virtudes citadas acima, enquanto Kelly reunia todas como num feitiço fabuloso - de fábula mesmo.
Relembrem a primeira onda da final em Fiji...
Aquilo não era sequer humano, muito menos racional.

Slater passa por um momento de extrema importância emocional, basta ver como se comportou quando saiu da final do Pipe Masters.
Era seu sétimo triunfo naquele palco, ele deveria estar de certa maneira acostumado com a pompa e arrebatamento de mais uma vitória e no entanto corriam-lhe lágrimas soltas cada vez que analisava os detalhes da final.
Ele sabia que o destino tinha lhe pregado uma peça.
Andy mandou aquelas duas ondas pro Fanning!

O Careca diabólico tinha virado, subitamente, uma criança carente, aflita e insegura em busca de alento.
Nos dava a impressão que a qualquer momento ele iria abraçar todo mundo e pedir colo.
Ele sabia que era o campeão de fato, mas não de direito - não desta vez.
Na sua cabeça, todo plano estava feito, Fanning perdia, ele fazia a final contra JJF, ganhava e se aposentava com todas glórias sonhadas.
Quando acordou, Slater se deu conta que os outros sonhos tambem se tornam realidade.

Seus adversários tem tantos sonhos...

Miguelito, sonhando acordado

domingo, fevereiro 02, 2014

Valter e as ondas


Valter e sua arte - Foto Agobar Jr


Valter é um sujeito comum, feito eu e voce, exceto pelo talento absurdo que Deus lhe deu para pegar onda.
Quando sobe na prancha, Valter deixa de ser uma cara normal e vira uma especie de divindade pro resto da multidão que lota a praia.
O pessoal tem uma baita admiração pelo Valter.
Mas ele pouco se importa com isso, Valter gosta é de pegar onda - e o que ele gosta ainda mais é de onda ruim.
Sim, voce leu certinho, onda ruim.
Fechada, mexida, sem força, buracão, pequena, grande, estilhaçada, torta, feia, porcaria de onda.
Por ter tanto talento pra surfar, Valter age como mais ou menos como Brando fazia na escola.
Explico, Marlon Brando sabia que era o menino mais bonito do colégio, mais carismático, as gatonas se derretiam por ele e Brando as ignorava por puro despeito.
Brando, sempre um provocador, escolhia as rejeitadas simplesmente pra chocar.
Valter, por outro lado, não quer chocar ninguem, quer apenas se divertir.
Nos dias clássicos, a turma senta na areia e assiste Valter desenhar as curvas mais lindas nas ondas que sobram - raramente ele dropa a maior do dia ou mesmo disputa onda no pico.
O maior talento do Valter é transformar lixo em arte, assim como um Arman (Google nele!), ou, pra usar um exemplo mais atual e brasileiro, Vik Muniz.
Onda perfeita, reflete Valter, qualquer um surfa.
Quero ver encaixar numa craca a 100 por hora e acertar a junção, sem voar braço pra tudo quanto é lado.
A cena descrita acima não dura mais que 10 segundos, parem pra pensar nisso.
Valter acha muita graça nos amigos que desprezam onda ruim - e não são poucos os que debocham dele.
É que Valter não curte gastar a grana suada em longas viagens, existem outras prioridades, família antes dessas extravagâncias e estamos conversados.
Volta um amigo da Indonésia, passa horas contando das ondas formidáveis que surfou, o luxo do barco, a cerveja gelada, os bons companheiros que teve a sorte de conhecer e Valter acha um barato tudo aquilo, sinceramente.
Não pensei voces que Valter nunca viajou! 
Ele viajou sim, quando ainda era solteiro, não tinha filhos, e ele viajou um bocado.
Até hoje os locais se recordam das ondas do Valter naqueles picos isolados do Oeste da Austrália, ou no Kauai, mesmo nas Filipinas tem gente que não esquece o jeito elegante do brasileiro cabeludo.
Acontecia, quase sempre, do Valter voltar pra casa e logo na primeira semana, alguma coisa mágica acontecia, como por exemplo, voltando da Indonesia pegar um Ipanema de leste, daqueles que a onda corre paralela a praia e ninguem consegue passar pelas sessões super rápidas.
Nesses dias impossíveis, Valter ia lá e pegava a onda do dia.
A turma se reunia final de tarde e cada uma das testemunhas daquele momento sublime descrevia a onda, igual a Desert Point.
Que ninguem se engane achando que Ipanema - ou qualquer outro pico aqui no SalveLindo-  quebra, ou quebrou, alguma vez como Desert Point, mas com Valter Ipanema virava Pipe, J. Bay, Puerto - era o dom do cara.
Sua maior alegria era comparar os melhores, e piores, dias na sua praia com as ondas mais cobiçadas do planeta.
Nelson Rodrigues, cronista que criou o estilo mais copiado da nossa imprensa (que o diga Jabor, todos dias, mil vezes!) dizia que não podia nem atravessar o túnel que já sentia um estrangeiro.
Valter tinha essa mesma estranha sensação.
Era capaz de surfar um dia clássico em Padang incomodado ao saber que o Leme quebrou olímpico.
Sentia um baita desconforto quando estava longe das suas tão amadas praias.
Não conseguia entender porque buscar tanto uma coisa que estava ali tão perto.
O que Valter procurava, desde moleque, cavucando buraco na areia pra pegar tatuí, soltando pipa nos dias de sudoeste, jogando pelada na praia, ou pegando onda, não era a perfeição.
Valter buscava simplesmente a diversão e nada o divertia mais que um dia de onda ruim.
Ele era feliz assim.
E fazia a alegria de quem o cercava.

Valter é um sujeito comum, feito eu e voce, exceto pelo fato que ele ama onda ruim.

quinta-feira, outubro 17, 2013

OBA ! Radin de Pia 28



1 Get Smart Theme The Ventures
2 Cannabis (instrumental) Serge Gainsbourg
3 Balada Cavernosa  Lula Côrtes & Má Companhia
4 Weed On The Tree, Forty On The Floor Tommy Guerrero & Gadget
5 Silencio Ojos de Brujo
6 Mira como viene Jarabe de Palo
7 Light My Fire Maysa
8 The Grown Folks Thing O.C. Tolbert
9 I've Told Every Little Star Linda Scott
10 House of bamboo - Earl Grant
11 When I Take My Sugar To Tea Boswell Sisters
12 Vai ser bom Fevers
13 Like A Virgin The Lords of the New Church
14 Love Removal Machine (Bonus Track) The Cult
15 Crash The Primitives
16 You Know Who Your Friends Are The Pretenders
17 Rocket Man (I Think It's Going to Be a Long, Long Time) Kate Bush
18 Billy Prefab Sprout
19 Lost Weekend (7" version) Lloyd Cole & the Commotions
20 Cruel to Be Kind (Feat. Nick Lowe) Wilco
21 Flying Around The Sun With Remarkable Speed Giant Sand
22 Your Waiting Mark Eitzel
23 I Should Have Known Better She & Him
24 I Should Have Known Better The Beatles



domingo, setembro 29, 2013

Surfista a beira de um ataque de nervos

[Escrito no final de Julho de 2013]



Sem surfar desde janeiro.
Sabem o que é isso ?
Lá se vão seis meses de molho, ou melhor, sem molho, nosso molho predileto, de água salgada.
Os sintomas são terríveis, deixei de consultar diariamente os saites de previsão de onda, ganhei peso, empalideci, a paciência encurtou de maneira assustadora.
Nem revista de surfe dá vontade de ler.
Fred disse certa vez, tentando consolar Brunin, um amigo que tinha entrado (ou caído) de cabeça na ciranda do mercado financeiro, que naquele momento ele era (ou estava) mais surfista do que nunca tinha sido.
Brunin se questionava sobre suas escolhas, já não sobrava tanto tempo para surfar, família em plena ebulição, o vislumbre dum futuro brilhante numa prestigiada instituição financeira, mudança do Rio pra Zampa - pairava a dúvida, sonho ou pesadelo.
Pôrra Fred, não sou mais surfista...!
Fred, o amigo mais velho, esclarecido, vivido, sabedoria adquirida pela própria experiência, tratou de aliviar o jovem e atormentado camarada.
Bruno, voce nunca foi tão surfista quanto agora...
Na época achei o gesto bonito, diria até generoso, mas o tempo é uma velha sacana que atravessa a rua sem olhar e te manda a merda quando voce pede para que ela atravesse na faixa dos pedestres.
Seis meses sem surfar pode deixar um sujeito enlouquecido - e voce não lerá essa frase em outras publicações que não sejam especializadas em surfe.
Eu nunca fui menos surfista do que nesse exato momento em que escrevo, cervical ardendo em dor, braço direito adormecido, pavio curto.
Mesmo lendo os 350 saites de surfe, folheando as pilhas de revistas que insistem em chegar mensalmente, ignorando meu desgosto, mesmo assistindo os trocentos videozinhos no Vimeo, Youtube e atochando o DVD com quinquilharia que vai dos anos 40 até ontem.
Trocava essa merda toda por uma bela - e longa - caída em Grumari.
Essa seria a única maneira honesta comigo mesmo de sentir-me surfista novamente.
Voce não entendeu nada, Julio... Discordaria o leitor mais afobado.
Num diálogo improvável, responderia eu que já não bato muito bem da bola e tenho extrema dificuldade para entender coisas simples.
Seis meses atrás, diante de questões complicadas, faria como aconselhava Tom Blake e 97% dos textos piegas nas revistas (e saites) de surfe, iria surfar pra esfriar a cabeça e tudo se resolveria como num passe de mágica.
Tento um banho frio, não consigo o resultado esperado.
Pesquiso passagens para Peru, Maldivas, Indonésia, Tahiti, fingindo que há dinheiro para gastar, apenas para passar o tempo - tempo que eu deveria estar dedicando ao pai Mar.
A patroa tem toda paciência do mundo comigo, e é preciso, um marido surfista em casa, seis meses sem surfar, é como uma fera enjaulada - obrigado a dieta vegetariana.
Sim, sei que já passei dessa fase, tenho 45 anos, não sou mais um garoto, meu corpo compreende isso com perfeição, mas minha cabeça teima em me contrariar.
Não são voces que dizem, a idade está na cabeça ?
Drummond não dizia que, Todo mundo é bom quando não usa a cabeça ?
Nesses últimos cento e tantos dias, tenho usado a cabeça demais e corpo de menos.
Voce que chega ao final dessa revista ainda com fôlego para encarar mais um texto, sabe do que estou falando.
Quantas vezes se viu obrigado a esse exílio involuntário ?
E o que fez para evitar a mais completa loucura ?
Aposto na família, trabalho, os amigos não dão muita bola pra essas coisas coisas não - só quando chega a hora de abotoar o paletó, e haja tapinha nas costas.
Se alguem hoje chegar e me disser, Julio, voce nunca foi tão surfista quanto agora, juro que mando pra aquele lugar.






 


Ps -
Brunin fez a escolha certa.
Hoje, mesmo morando em Zampa, surfa muito mais do que eu.


Ps 2 -
Como diria o velhinho filósofo no filme do Woody Allen, somos a soma das nossas escolhas...



[We're all faced throughout our lives with agonizing decisions, moral choices. Some are on a grand scale, most of these choices are on lesser points. But we define ourselves by the choices we have made. We are, in fact, the sum total of our choices. Events unfold so unpredictably, so unfairly, Human happiness does not seem to be included in the design of creation. It is only we, with our capacity to love that give meaning to the indifferent universe. And yet, most human beings seem to have the ability to keep trying and even try to find joy from simple things, like their family, their work, and from the hope that future generations might understand more.]

quarta-feira, setembro 11, 2013

Como Portugal devorou o Surfe


[Artigo do João Capucho para o Jornal I sobre a fragilidade da ASP e a força do Surfe Português]


Tomada de posse da ZoSea.  Em 2013, os dois circuitos mundiais profissionais de surf disputados sobre a égide da ASP – Association of Surfing Professionals oferecerão, na categoria masculina, uma premiação monetária total de 8.6 milhões de dólares, distribuídos entre os 4.5 milhões das 10 provas do WCT (World Championship Tour ou, “Grand Slam” se preferirem) e os 4.1 milhões oferecidos pela soma dos 29 eventos do circuito mundial de qualificação (WQS ou World Qualifying Series). Apesar da crescente popularidade do surf, esta cifra corresponde ao segundo ano consecutivo em que se regista uma redução na premiação total dos eventos da ASP, depois de, em 2011, se terem atingido os níveis recorde históricos de 10.7 milhões de dólares repartidos por 50 eventos (masculinos). Coincidência ou não, 2013 marca também o ano de viragem no modelo de governo da ASP, naquilo que muitos erradamente consideraram como uma privatização (a ASP, ainda que associativa, já era privada, ie dos socios) mas que em boa verdade corresponde a uma cedência dos direitos de exploração à Zosea, um grupo media sem historial e aparentemente constituido para o efeito, cedência esta articulada com contratação de um novo CEO para a nova organização conjunta a qual também, naturalmente, recebe um novo modelo de votação interna. Em resumo, uma clara incorporação de competencias media, de marketing desportivo e de revenda de direitos de televisão de que a ASP claramente necessitava e que portanto tem efectivamente condições para resultar.
Consequências da crise. Esta alteração, expectável, visa pois, naturalmente a diversificação das fontes de receita dos vários circuitos (com maior incidência no WCT), altamente dependentes do financiamento da “troika” Rip Curl / Billabong / Quilksilver, os três gigantes da indústria do surfwear que dominavam os destinos (os votos) da “antiga” ASP mas que foram varridos por uma forte redução das vendas em todo o mundo e, como sociedades abertas (ie, cotadas em bolsa – excepto Rip Curl) por consequente insatisfação dos seus accionistas. Tais alterações de politica na nova ASP, em meu entender, terão de materializar-se na angariação de um ou mais umbrella sponsors para o WCT, na venda por atacado dos direitos de TV, no pay-per-view ou na subscrição das transmissões em directo dos eventos, como ainda muito provavelmente na bilhética e no merchandise global (por oposição ao merchandise evento a evento), tornando desta forma o surf num produto com o mix de receitas semelhante ao futebol (para simplificar, 33,3% sponsoring, 33,3% direitos TV, 33,3% bilhética e merchandise). Em termos práticos, para os fãs e espectadores, pelo fim da gratuitidade seja no local de prova seja, mais provavelmente, no conforto do sofá ou da secretária.
Dream Tour Estas mudanças materializar-se-ão primeiro nos eventos do WCT, o principal produto, e implicarão certamente acesas discussões sobre a sua difícil compatibilidade com o conceito de Dream Tour, ou melhor, ondas perfeitas em paraísos tropicais remotos com água quente e cristalina. Este – o Dream Tour – tem, a meu ver, os dias contados mesmo na ressaca de um fenomenal evento nas ilhas Fidji ou no arranque idilico nas direitas de Keramas em Bali. Os direitos de TV e o pay-per-view implicam que os eventos pensem mais em que está a vê-los do que em quem está a “fazê-los”.  Porque, quem os vê é quem paga a quem os faz. Provas urbanas como o Rio de Janeiro tenderão a ganhar um peso reforçado e/ou a serem complementadas com provas em piscinas com ondas artificiais (e receitas de bancada) e a “vida boa” de apenas 10 eventos de 11 dias cada tem os dias contados. Veja-se por exemplo, a ingenuidade ou o “amadorismo” de arrancar Fidji, em pleno prime-time na Europa, com uma competição não oficial de um dos patrocinadores da prova e deixar o fillet mignon para quando um vasto continente...estava a dormir. Tudo tende a aproximar-se do modelo da Formula 1 e do Moto GP com 14 a 16 provas, mantendo-se, por exemplo, o núcleo duro de Taiti, Havai, Califórnia, Europa (Portugal, Espanha ou França) e Austrália (Kirra ou Bells) às quais se juntarão novas provas, de duração mais curta e horários mais certos, isto é e, menos (ou nada) dependentes da “onda perfeita”. E mesmo assim, desenganem-se os mais puristas pois no Moto GP, as provas asiáticas disputam-se à noite para “bater certo” com os habitos dos espectadores europeus, os seus maiores fãs.
Os números não mentem. Discordará de mim a corrente mais puritana do surf que tem hoje, gratuitamente na TV ou in-situ, um espectáculo de primeira água (na verdadeira acepção da palavra) mas que, no fundo, não é sustentável. E tanto não o é que, os números não mentem. A enorme visibilidade do WCT correspondeu, desde 2007, a um crescimento médio anual de 9% na premiação monetária mas, no mesmo período, a premiação monetária do WQS cresceu apenas a uma taxa anual de 4% e, desde 2010, tem caído a pique, com o nº de eventos a baixar de 46 paragens naquele ano para 29 este ano. Pior. A crise na Europa agravou o cenário e, depois de quatro anos consecutivos (2007 a 2010) com mais de 12 eventos de qualificação no Velho Continente, em 2013 realizam-se apenas 4 (!!) campeonatos, contra 5 em 2012 e 8 em 2011. Significa isto que o cobertor que se usou para tapar a cabeça do WCT foi ficando cada vez mais curto e destapou os pés do WQS, a base, que vai morrendo de frio e definhando.
Alterações radicais necessárias Tais factos implicam pois que, também o WQS terá de sofrer alterações radicais que, em meu entender podem passar pelo fim dos “Primes” (um conceito vago “entalado” entre um WCT barato, sem o ser, e um WQS de 6 estrelas caro, sem necessitar de o ser), pela redução dos graus para apenas 3 ou 4 níveis (numa medida semelhante ao ténis que tem apenas os ATP 250, 500, 750 e 1000 antes dos Grand Slam e Masters) e, admito, para alguma regionalização da qualificação e atribuição de vagas para o WCT por região (como os mundiais de futebol da FIFA), diminuindo desta forma o custo de participação e aumentando os fees e quotas da própria ASP através da participação de mais surfistas. Não é preciso inventar a roda. Desportos comercialmente evoluidos e disputados à escala global, já encontrararam mecanismos, camadas ou fases/qualifiacações, locais, nacionais, continentais e mundiais para as suas competições. E estas mudanças podem também contribuir para a captação de regional sponsors, uma camada acima dos local/event sponsors. A médio prazo, com este modelo consolidado, o surf feminino, em clara ascensão, visibilidade e sex-symbols deve, como no tenis aquando da criação da WTA como cisao da competição feminina da ATP, seguir o seu caminho.
Portugal no mapa do surf mundial Portugal, quer através da Federação – limitada na acção por ser apenas afiliada na ISA - quer através dos patrocinadores e organizadores deve estar preparada para este caminho e deve ser, por um lado, mais selectivo e, por outro, mais exigente com a ASP. Com várias autarquias e autonomia(s) a quererem levar para o seu município ou região, num ano de eleições autárquicas, o titulo da “melhor onda”, o investimento do país – que estimo em quase 50% de oriundo de fundos públicos  – em provas da ASP, corresponderá, em 2013, e apenas na prova masculina, a cerca de 950 mil dólares de prémios monetários distribuídos por 3 eventos, quase 11% do total dos prémios pagos por todo o tour da ASP, quando, em 2007, os 4 eventos masculinos cá disputados apenas correspondiam a 3% do total. Este peso não tem a mínima correspondência nem na participação de atletas portugueses nem na presença de competentes gestores, técnicos, árbitros ou profissionais portugueses nas instâncias da ASP, muito por culpa da nossa incapacidade de arranjar consensos, trabalhar em rede e apagar pequenas rivalidades locais. Tudo isto, creio, vai, ou melhor, tem de mudar.

segunda-feira, setembro 09, 2013

How Portuguese Devour Surfing


[João Capucho explains how fragile ASP is - and how strong a simple Country can be]

In 2013, the ASP’s two professional male surfing tours will grant a total purse of 8.6 million dollars, 4.5 of which being given to surfers at the World Championship Tour (WCT) 10 stops and the remainder coming from the World Qualifying Series ‘(WQS) 29 events throughout the globe. Despite surfing’s increasing popularity, this means total prize money has decreased for two consecutive years up from an historically record figure of roughly 11 million dollars and 50 events in 2011. This has coincided in time with a radical change in ASP’s governance model which has been (wrongly) named as a takeover on the ruling body of professional surfing. Basically, what the ASP did was a full sale of its  rights over  its major competitions to an apparently freshly incorporated, unknown media group named ZoSea Media. Towards event license owners – corporate surfing brands - ZoSea assumed the responsibility of putting in place the WCT and, regarding surfers, it has promised them the much awaited pension plan and, of course, extra prize-money, in exchange for their voting rights on the organization. This allowed Zosea to appoint a new ASP management team bringing new marketing and business skills and probably the end of the historical governance model by ex-professional surfers and more salted eyebrows.
With the WCT funding needs highly dependent on a troubled RipCurl / Quiksilver and Billabong troika, this deal came with no surprise as these companies – who had voting rights on the former ASP – dramatically need to cut their costs to cope with falling revenues worldwide. However this will fuel a dramatic change in the ASP’s business model and revenue breakdown in the world surfing tour(s). In fact, ZoSea will have to speed up some measures that have been postponed or skipped by former managers f the Organization. First, the WCT must rapidly find an umbrella or naming sponsor. Second, the ASP (ZoSea) will have to (re) sell its TV rights either as a bulk and/or to as a pay-per-view scheme forcing its million fans worldwide to start paying for something they’ve always had for free in the past. Moreover, as an umbrella sponsor pops up it will probably go beyond on merchandising products and, last but not least, the end of this-absolutely-free show (the WCT) may be closer as paid tickets is probably needed as another source of revenues. Definitely this will put surfing side by side with mature, developed and solid sports where sponsorships, tv rights, merchandising & tickets account, in equal portions, for every event revenue breakdown.
These much needed changes would first crystallise on the WCT and may be incompatible with the so-called Dream Tour, surfing events in remote tropical places with pristine water, palm trees and scarcely populated areas. Even in the aftermath of three stand out events in Bali, Fiji and Tahiti, the sale of TV rights and pay-per-view turn spectators into owners, fans into clients and, for example, time differences with Europe, the US and Brazil will probably have more to say than the intrinsic value of any given surfing spot. Urban beaches events like the ones of Rio, coupled with artificial wave events and shorter waiting periods will account for a larger portion of an WCT that will most likely include not 10 but 14 to 16 stops as the Formula 1 or the Moto GP world tour. Core ASP events such as Hawaii, Tahiti, Jeffrey’s Bay, Bells Beach will hopefully be kept as virgins but new venues, shorter events and, most probably, lower quality or artificial surf sports will bring the much needed extra dollars to surfers and organisers (ZoSea) and, as it happens with Moto GP and Formula 1, their schedules will rely more on the timetable zones and availability rather than offshore winds or adequate tides. The last Volcom event in Fiji was anecdotic and amateurship seemed to rule. On a week night, at 11 pm, Central European Time, millions of fans were waiting for the action to start in epic conditions but event organizers decided to start with a non-official competition (which, by the way, as a very similar name to the WQS of the ASP) leaving the fllet-mignon of the world’s top surfers to late night hours in Europe. Ridiculous.
However this is a mere realistic preview of what may be yet to come. The WCT is, no doubt, a prime sports show but it is totally free for both the spectators at home and at the beach and this has proved to be unsustainable. Sponsors either lacked or put their money on safe harbours (events) causing serious damages on the WCT foundation: the WQS. Since 2007, total purse in the (male) WCT posted a compound annual growth rate of 9% but, in the same period, prize money in the (male) WQS grew by a mere 4% per annum. Moreover it experienced a dramatic fall since 2010 when surfers had 46 events worldwide quite above this year’s 29 stops. Sovereign debt crisis and sluggish economies in Europe had an important role on this. From 2007 to 2010, the Old Continent had 12 WQS events but, in 2013, you can count them with the fingers of one of your hands. As we say in Portugal, someone put a blanket to cover its head but its feet (the WQS) ended up being uncovered, cold, with a long lasting flu with breathing problems, metaphorically speaking.
This means that the WQS itself will have to face, perhaps, its biggest revolution since it was created back in 1992. In order to avoid cannibalisation, the new ASP must put an end to the so called Prime events which are nothing but a vague concept, something in-between a cheap WCT and a 6 star WQS yet much more expensive.  It should get some inspiration in the ATP 250, 500, 750 and  ATP1000 events and get a new grid with only four level of events. It should also take in account that the current model is obsolete as it is very expensive for, say, an aspirational European surfer to start its international career with qualifying events in Brazil, Australia, Mexico or Japan. This means that surfing should also get further inspiration with soccer and start thinking about continental rather than global entries to the WCT. This would mean, for example, that Europe, Americas, Africa, Asia and Australia would have allocated entries to the WCT thus reducing the costs of participation of surfers, broadening the number of ASP members, turning surfing into a truly global sport and eventually bring new regional or continental  sponsorship opportunities. Just look for the Portuguese example. In 2013, Portugal, a small 10 million people country in Western Europe, will account, in 2013, for more than 11% of the ASP total (male) events purse, up from a mere 3% in 2007. Moreover its first ASP event was held in 1989 and it has always belong to the ASPs calendars since then. However, on one hand, this has absolute no relation with the percentage of surfers ranked in the .WQS, judges in the judges panel or even managers in the ASP scope. Ironically, out of the 3 events held in Portugal, 1 is a WCT and 2 are Prime WQS all of them with closed doors to a significant number of good young Portuguese surfers.
More changes may be seen in the horizon: girls. The ASP has historically disdained the Women tour. The girls, themselves, also have their share in the fail. However, in the past two years, female surfers have been granted a lot of media and air time, as both their sex appeal and performance raised to unprecedented levels. This may force a peaceful spin-off on the ASP like the one we saw 40(!) years ago in WTA (Women Tennis Association).


sexta-feira, agosto 16, 2013

Cauli




Olha, não fica aborrecido, preciso te dizer uma coisa, ao pé da orelha- aqui entre nós.
Tenho pena dos camaradas que não ouviram o esporro da pancada que era a batida de backside do Cauli.
Ouvia-se de longe.
Aquilo era o cartão de visita do camarada - Pà! muito prazer, Cauli Rodrigues.
O rapaz mais jovem e atento pergunta quem foi Cauli - e pergunta com razão.
Não se fala muito do Cauli.
Eu mesmo, que sustento uma coluna mensal desde 1993, escrevo muito mais sobre Curren e Slater do que Cauli.
Em 2013, quase quarenta anos depois de ter surgido como promessa do surfe brasileiro, Cauli ainda surfa  com a mesma paixão dos seus primeiros anos, antes do sol nascer, quando pode.
A motivação dele sempre foi a superação, afinal de contas um dos seus companheiros mais leais era o surfista mais competitivo daquela geração, o campeoníssimo Pepê Lopes.
Pepê se destacava em tudo que fazia, e ainda vencia sem dó nem piedade quem passasse pela sua frente. Foi assim com hipismo, surfe e voô livre.
Quando juntava Pepê e Cauli, não tinha pra ninguem.
Era uma mistura de talento, determinação, sorte (sem sorte não se chupa nem um picolé, escreveu Nelson Rodrigues) e uma disciplina quase militar.
Em 1976, quando o circuito mundial de surfe profissional dava seus primeiros passinhos, Pepê terminou em 18º lugar, competindo em apenas 4 campeonatos. O australiano Peter Towned ganhou o circuito malandramente com 10 eventos nas costas - só ele e Ian Cairns competiram tanto, e entenderam o mecanismo dum circuito com raking.
Faço questão de recordar que, em 76, Pepê ganhou o Waimea 5000 aqui no Arpoador e foi o primeiro brasileiro a fazer uma final no Havaí, no Pipe Masters.
Cauli reparou que na foto dos seis finalistas do campeonato mais prestigiado do mundo, Pipe Masters, Pepê era o único que trazia uma logomarca na sua prancha, o JB do Jornal do Brasil, um dos principais jornais da época, hoje quase extinto - disponível apenas na internet.
Pepê era portanto o único legitimamente patrocinado.
Podem procurar no google.



A memória do Cauli é prodigiosa, diz que o grande talento da sua turma não era ele e sim o Paulo Aragão, que deveria ter ido mais longe.
Muita gente nos anos 70 deveria ter ido mais longe, era uma época de sobreviventes, nem todos sobreviveram.
Cauli apostou sempre num tipo diferente de viagem, as que tinham destino certo e data de volta.
Isso porque ele queria, já em 77, ser um surfista profissional. E não queria ter que fazer bermuda, nem prancha pra resistir, queria simplesmente surfar melhor do que todo resto.
Todo mundo se virava do jeito que dava para continuar surfando, tirava fotos, escrevia textos, fazia camisetas, trazia um contrabandozinho pra fazer um algum.
Cauli experimentava modelos diferentes de pranchas e melhorava seu desempenho a cada caída.
De 77/78 até 85 não havia dúvidas sobre quem era o melhor surfista do Brasil.
Rico era o mais popular, mas Cauli era a referência dentro d'água.
Medina ou Adriano não seriam possíveis sem o pioneirismo do Cauli.
No entanto, Medina e Adriano nem desconfiam quem seja, ou quem foi, Carlos Felipe da Veiga Lima, o surfista que vislumbrou o Brazilian Storm muito antes de todos.
Num exagero extremo, posso até afirmar que Cauli foi pioneiro até nas garfadas históricas da A.S.P.
Quando todo mundo virava os bicos das pranchas para o Havaí, Cauli emburacou pra Austrália atrás do melhor surfe do mundo.
E do outro lado do mundo, na terra do Rabbit, PT, MR, MP e Kanga, brasileiro não tinha vez.
Quando a biquilha virou a prancha de 9 entre 10 surfistas do mundo, Cauli manteve-se fiel a monoquilha porque precisava da firmeza duma grande quilha central para cavar e bater reto.
A influência do Cauli era tão grande, que a garotada adiava o quanto podia aderir à biquilha para poder surfar como Cauli.
Um garoto que impressionava muito na Barra da Tijuca no início dos anos 80, só usava monoquilhas - se chamava Dadá Figueiredo.



De 1977 até 1996 Cauli pontuou na ASP, primeiro competindo ferozmente contra os melhores do mundo e depois apenas em esparsos eventos realizados no Rio de Janeiro.
São tres décadas de dedicação a um sonho que sempre foi dele, o sonho de mostrar que aqui no Brasil tínhamos surfistas tão bons quanto lá fora.
As duas últimas capas da revista Surfing são com brasileiros, Medina e Ricardinho - seguidas!
Se antes, no longínquo tempo da batalha dura e desleal, era difícil qualquer reconhecimento da comunidade estrangeira, hoje estamos consagrados com páginas dupla quase todos meses na imprensa internacional.
Já nem faz assim tanta diferença, não é verdade ?
Lembrem-se que um camarada planejou isso, 40 anos antes, treinar, falar bem inglês, viajar, competir, com seriedade e determinação.
Como Mineiro, Medina, Alejo, Pupo, Felipe, Jadson...
É hora de parar de chorar e sorrir para as câmeras famintas pela novidade.
O título mundial nunca foi tão desimportante.
Que porrada tinha o Cauli!