terça-feira, janeiro 10, 2017

Meu Vagabundo preferido




[Fotos Luis Blanco, a maioria delas, pelo menos]

Entrevista realizada em 2012

         Allan Weisbecker viveu 200 vidas e sabe contar, cada uma delas, como poucos.

Fez tráfico do melhor fumo colombiano (maconha, não tenha dúvida) para os Estados Unidos, testemunhou o mítico inverno havaiano de 1969 (aquele que Greg Noll surfou ua maior onda em Makaha, saiu d’água e largou o surfe), evitou lutar no Vietnã, venceu o único campeonato que participou em Biarritz 1970, dirigiu uma Kombi de Frankfurt até Casablanca para conseguir o mais puro Haxixe, perdeu tudo que tinha, escreveu roteiro para o seriado mais bem sucedido dos anos 80- Miami Vice - e quando tudo parecia correr bem, vendeu tudo, comprou um motor home e meteu o pé na estrada, de Nova Iorque até a Costa Rica, atrás do seu sumido companheiro de aventuras.

Dos seus tres livros, dois tiveram os direitos de filmagem comprados por estrelas de Hollywood, John Cusack comprou os direitos de Cosmic Banditos e Sean Penn do In Search of Captain Zero - Allan brigou com os dois apesar de ter recebido pequenas fortunas por cada um deles.

Seu terceiro livro, Can’t You Get Along With Anyone, é sobre seu exílio espontâneo em Pavones na Costa Rica e sua inquestionável habilidade para se meter em confusão.
De volta para Montauk, em Nova Iorque, Allan tem passado parte dos seus últimos 5 anos numa dessas cidadezinhas esquecidas pelo tempo, na região mais perigosa do México (existe um alerta na embaixada para cidadãos americanos não irem para lá), trabalhando no seu filme, Water Time, o diário de viagem de um louco.

Meu fascínio por figuras que se confundem com o vagabundo romântico da literatura, aquele que por algum motivo sabe determinado segredo, conhece as estradas e tem sempre uma lição no bolso rasgado, esse fascínio me empurrou para encontrar Allan Weisbecker, quase 20 anos depois de te-lo conhecido numa ilhazinha perdida no Caribe.




Segunda feira 11:02 AM - Aeroporto de Houston - plataforma B - portão 80

Em Houston, o aeroporto tem 5 terminais, cada um deles maior do que qualquer aeroporto brasileiro - ou pelo menos é essa a sensação que temos.
Daqui a menos de meia hora estarei voando para Zihuanatejo, Mexico, encontrar com um escritor que considero fundamental na nossa cultura de praia.

Conheci Allan Weibsecker numa ilhota do Caribe em 1994, os dois atrás da mesma coisa- motivos diferentes.

Eu era um surfista profissional agressivo, ou como Allan definiu, cocky braziliano, mal traduzindo, brasileiro marrento.

A competição era a desculpa que eu tinha para permanecer fazendo o que mais gostava e desta vez surgia a oportunidade de simplesmente viajar e fazer algumas fotos para justificar a grana mixuruca que recebia do patrocinador.

Lembro bem do dia que nos conhecemos, ele cordial e curioso veio nos cumprimentar, minutos depois estávamos entornando uma gelada e conversando sobre coisas sem importância. 

Por puro despeito, jogo na conversa uma informação que muito me divertia quando usada no momento adequado, sabia que o americano comum só usa 10 % de todo vocabulário ? Provoquei.

Allan riu e deu de ombros, deve ter contado até 5 pra não me mandar à merda, e concordou cinicamente.

Pediu com muito cuidado para que eu procurasse a tradução do seu livro no Brasil, Cosmic Banditos, leia e me diga o que acha, disse com real interesse.

Nunca achei, até a véspera da viagem, comprei na estante virtual por cinco mangos.
Qual não foi minha surpresa quando li a orelha do livro e percebi com algum orgulho que Rui Castro escreveu de forma entusiasmada sobre o livro.

Mais bacana ainda ler a informação do autor, Pouco se sabe sobre Allan Weisbecker e ele deseja que continue assim.

Saladita é uma esquerda preguiçosa que se esparrama por uma bancada sem muitos riscos por um longo tempo. Uma onda surfada do pico até a praia vale por quase uma semana de surfe em qualquer lugar do Brasil - longa!

Numa palapa (casebre) na beira da praia, bem na frente do lugar certo para dropar a onda, Alan acompanha o movimento do mar, sentado no seu escritório improvisado, a imagem perfeita da fusão dos dois ícones dessa vida derramada no mar, John Severson e Hemingway.

Severson fundou as estruturas que seduziram Weisbecker para o ato irresponsável de correr as ondas e Hemingway, puxa vida, Hemingway foi Hemingway.

Allan não mora ali, mas passa parte do seu tempo escondido dos compromissos, ou melhor, completamente comprometido com seu ideal, pegar onda até não poder mais.

Nossas conversas não tinham hora pra começar, nem acabar, simplesmente aconteciam calorosa e religiosamente todas noites, recheadas de Jalapeño, Coronas e El Jimador, Tequila preferida do cara.



Allan - Tenho ido pra esquerda toda minha vida. Morei em Pavones, conhece ? Esquerda longa, muito mais longa que essa e muito mais rápida!

Julio - Sendo regular e tendo todo planeta pra explorar, voce sempre escolheu longas esquerdas pra viver. Ir para esquerda é uma preferência ou uma ideologia ?

Allan - Ha! Ideologia ?! 
Engraçado isso. Até quando morei no Havaí eu só ia pra esquerda, morava com dois goofies, perto de Pipe e Rocky Point. Sempre acabávamos por surfar esquerdas, me acostumei com isso.
Eu curto. As vezes voce se habitua com uma coisa que teoricamente não é bom pra voce, como quando voce tem uma namorada que é um saco, mas tem algo nela que mexe contigo ? Talvez seja assim.

Julio - Voce estava no Havaí em 1969, o ano que entrou para história como dos mais ricos em lendas do surfe moderno. Greg Noll dropou a onda que foi considerada durante anos como a maior jamais surfada e depois abandonou o surfe porque não havia mais nada a ser feito como surfista.
Apenas estar no Havaí naquele ano e testemunhar tudo já seria um feito...

Allan - Feito ? Eu não fiz nada exceto ser estúpido suficiente de não dar ouvidos aos bombeiros quando eles foram na minha casa e recomendaram que fosse para algum lugar seguro porque o mar iria destruir tudo.

Eu disse, ok, vamos sair...e ao invés de sair, eu e meu amigo enchemos um cachimbo com Haxixe e fomos pro telhado fumar...se voce acha que isso é um feito...que tal estúpido ?

Julio - Nem todo mundo teve a chance e a habilidade de escrever sobre isso...

Allan - Bem, isso é outra coisa. Me lembro de ir surfar Sunset nesse dia e ficar com muito medo do mar não parar de subir. Voce precisa entender que isso aconteceu numa época que não tinha toda essa informação disponível de hoje, bóias, satélites, saites...

Quando voce remava pra fora naquele tempo, num dia que o mar estava subindo muito, voce estava sempre...eu não sou um surfista de ondas grandes, como Greg Noll e os outros caras. Sou de Nova Iorque, caras como Greg Noll sempre me deixaram nervoso. Em 69 voce remava pro outside num dia com as ondas crescendo e nunca sabia se teria que passar as próximas tres horas remando pra fora. Se o mar subisse até ficar com 50 pés o que voce faria ?

Julio- Dickie Cross morreu num dia como esse... (Nota - Dickie Cross e Woody Brown surfavam Sunset num dia que o mar ficou fora de controle e tentaram sair por Waimea. Woody sobreviveu, Cross nunca mais foi visto.)

Allan - Exato!
Não é como hoje, a surfistada de hoje tem que entender isso, é absolutamente diferente.
Existe o medo... mar subindo e subindo... (Allan dá uma risada nervosa, como que lembrasse o medo naquele instante e dá um belo gole na tequila)



Julio - O que voce estava fazendo no Havaí em 69 ?
Allan - Evitando o exército -pra começar...
Julio - Quantos anos voce tinha ?
Allan - 19
Julio - Exatamente a idade de ir pro Vietnã... Todo mundo tinha um esquema pra fugir da guerra, não ?
Allan - Claro! Eu estava na universidade e consegui uma transferência para o Havaí. Disse aos meus pais que ia estudar lá, consegui um empréstimo do governo e fui.
Me lembro perfeitamente, custava 130 Dólares o semestre! Isso era quanto custava pra estudar no Havaí.
Julio- E voce se formou ?
Allan - Não! Por causa do swell! Por causa do swell ! Aquela ondulação mudou minha vida! Mudou tudo!
Minha casa foi destroçada, meu amigo e eu, os dois tinham acabado de fumar haxixe marroquino, éramos hippies - Hippies e surfistas - nos olhamos e pensamos, o que vamos fazer agora ?
Não temos mais casa...
Bem, por que não vamos para Marrocos surfar ?
Isso foi no dia seguinte do swell que destruiu nossa casa. O que estou dizendo, e eu digo isso claramente no meu livro (Captain Zero), o swell de 69 mudou completamente minha vida.
Julio - E voces foram ?
Allan - Certamente. Peguei o dinheiro que tinha do empréstimo para terminar a faculdade e fomos para Marrocos.
Julio - Quão selvagem era o norte da África em 70 ?
Allan - Não fomos direto pra lá. Planejamos voar para a Alemanha, comprar uma Kombi e dirigir até Marrocos.
Julio - E fizeram isso ?
Allan - Sim. Voamos para Frankfurt, entramos na primeira loja da Wolkswagem que encontramos e compramos uma Kombi. Preta, tinha escrito Vat 69 (marca de Uísque) nas laterais, a polícia sempre nos parava achando que tínhamos bebida no carro...
Julio - Devem ter surfado ondas fantásticas no caminho...
Allan - Nada. Dirigimos direto através dos alpes italianos e depois para o estreito de Gibraltar, onde pegamos o Ferry para atravessar o Mediterrâneo. Não surfamos até chegar em Marrocos.
Julio - E como voces acharam as ondas ?
Allan - Isso é outra coisa que o surfista de hoje jamais vai compreender. Naquela época não tínhamos qualquer informação sobre o lugar. Olhávamos no mapa, identificávamos as bocas de rio, recortes na costa e íamos sem saber o que encontrar. Encontramos uma onda excelente. Os garotos que estão lendo isso nunca terão esse tipo de experiência- é completamente diferente.
Onde voce for hoje em dia tem um surf-camp! Um surf-camp ?! (Allan enfia o dedo na goela como quem vai vomitar)
Bem, estávamos em Marrocos e soubemos que nas montanhas poderíamos comprar um quilo de haxixe por 80 Dólares e vender por uns 2.000 nos Estados Unidos, então começamos a bolar um esquema...
Julio - Quando voce se deu conta que poderia se safar fazendo aquilo ?
Allan - Sempre soube que daria certo. Nunca houve dúvida.
Julio - Como assim ?
Allan - Porque eu tinha 20 anos, nada pode dar errado quando voce tem 20 anos. Voce não teme nada.
Julio - E como voce conseguia mandar para os EUA ?
Allan - Fizemos amizade com uns caras na marinha americana. Esses foram os melhores. Tinha uma base americana em Marrocos e os caras surfavam! E um dos caras que surfava trabalhava nos correios! (Allan leva as mãos à cabeça e berra, Oh My God!)
Era tudo muito fácil.
Fizemos um acordo, eu comprava alto-falantes, coisas do gênero, empacotava e, ao invés de simplesmente enviar para os EUA, o cara carimbava, devolver para o destinatário (return to sender)...Então tinha vindo dos EUA! Nem passava pela alfândega!
Estava voltando pro país, por que eles abririam ?
Mandávamos 20 ou 30 quilos por mês e fazíamos um bom dinheiro.




Julio - Mudando de assunto, quais são sua influências ? Sei que Kurt Vonnegut é uma delas...
Allan - Não consigo pensar em nenhuma outra. Dizem que sou influenciado pelo Hunter S. Thompsom, não concordo.
Julio - Não vejo nenhuma semelhança sua com Hunter S, me perdoa... Acho que as pessoas tendem a te associar com ele por causa das drogas e do tema do seu primeiro livro, Cosmic Banditos, loucura e ansiedade...
Allan - Por mim, tudo bem. 
Jack Kerouack foi outra influência, embora inconsciente, foi definitivamente uma influência. Li os livros dele quando era mais novo e queria muito ser igual a ele. Mas só fui começar a escrever muitos anos mais tarde e já não lembrava dos livros assim tão bem...
Julio - Acha que seu estilo vem duma honestidade brutal ?
Allan - Voce ainda não leu meu último livro ? Can’t You Get Along With Anyone ? Tem gente que acha que é demasiadamente honesto. Isso pode ser um problema as vezes.



Honey, co-produtora e assistente do filme que Allan tem se dedicado nos últimos 5 anos se aproxima e ganha um pedaço generoso de quesadilla. Honey é uma cadela fiel e simpática, companheira do velho Allan até quando ele viaja de avião - já falamos mais disso.
O carinho que Allan demonstra pelo cão é comovente, paternal. Nesses momentos, a figura de quase dois metros parece frágil e doce, distante da imagem durona que aprendemos nos seus livros.

Julio - Quando voce resolveu se interessar por física quântica ?
Allan - Por volta dos anos 80. Comecei a ler sobre o assunto e me fascinei. Já leu alguma coisa ? É Fascinante. Louco...
Julio - Sou um pouco cético...
Allan - Mas isso não tem nada a ver! Física quântica é ciência! Voce não pode ser cético com a ciência. Não é uma filosofia, cara. Meu computador e o seu funcionam por causa da física quântica. Eles não fariam as coisas que fazem se não fosse por isso.
Em níveis atômicos e subatômicos até as coisas mais ridículas, como essa mesa onde estamos comendo agora, é tudo uma questão de probabilidade, não está aqui de fato. (bate tres vezes na madeira) Voce precisa ler um pouco sobre física quântica, vai abrir seus olhos sobre quão maluco é esse mundo.
Julio - Voce acredita em diferentes dimensões ?
Allan - Não dessa forma. As coisas não são do jeito que parecem. Tudo é essencialmente nada. Parece loucura, não é. Se voce pegar um átomo e imaginar que ele é do tamanho do sistema solar, o núcleo será do tamanho desta mesa. E não há nada a não ser campos eletromagnéticos...Eu não estou brincando. Não há nada exceto elétrons voando por todo lado. Isso aqui parece sólido (bate novamente na mesa), mas é apenas eletromagnetismo. Não consigo explicar...
Julio - Mas voce gosta dessa sensação...
Allan - Gosto da idéia. É tudo baseado nas probabilidades....
Julio - Voce gosta de dirigir, né ? Tem dirigido por toda vida, grandes distâncias...
Allan - Estou cansado, sabe ? Eu e esse cão já passamos por muito...
Julio - Voce sempre tem um cão ao seu lado. Não casou, não teve filhos, mas sempre tem um cão junto de voce. Acha que o cão é mesmo o melhor amigo do homem ?
Allan - Claro. Eu digo que ela é minha melhor amiga. O melhor cão que eu poderia ter. Eles não pedem muito... Ela está comigo desde 1999. Fui visitar minha mãe, na Carolina do norte e ela tinha me arrumado esse cão. Ela procurou nos jornais e achou Honey.
O dono disse que era um Rottweiller (Honey é uma vira lata que tem tanto de Rottweiller quanto o dono tem de latino)... voce não pode nem conseguir um cão sem alguem querendo te enganar..
Julio - Quando os cães entram na sua vida como a companhia definitiva ?
Allan - 1985...Uma namorada me deu Shiner, o cão que me acompanhou na viagem do Captain Zero. Ela me disse, voce não precisa de uma namorada, voce precisa é de um cão.
Voce sabia que eu viajo com ela na cabine do avião ?
Julio - Voce tá brincando ?
Allan - Sério! Certa vez estava viajando e vi essa mulher entrar no avião com seu cachorro e perguntei a ela como conseguia entrar na cabine com o animal.
Ela me disse que tinha um atestado médico dizendo que era emocionalmente dependente do cão e seu médico só a deixaria viajar com o cão ao lado.
A companhia aérea tem que arrumar vaga pro animal num caso extremo desses.
Eu pensei então...Hum, boa idéia! E consegui um atestado idêntico.

Julio - Voce ainda fantasia sobre casar e sossegar em algum canto ?
Allan - Não... Seria bom ter uma namorada... Meus padrões de beleza não mudaram, apesar da minha idade, continuo exigente...Voce fica mais velho e não é mais tão fácil, te digo isso.





Estamos todos cansados das longas remadas de volta ao lugar onde começa a onda.
São facilmente uns 300 metros em diagonal, 6 piscinas olímpicas repetidas pelo menos umas 20 vezes em cada surfada. Allan, de cima dos seus 64 anos, não se importa tanto assim com o exercício, eu, com meus 44 aninhos, sinto a fadiga chegando nos insistentes bocejos que aporrinhavam o entrevistado, Lá vem voce bocejando de novo!
Protestava Allan, levantando da mesa rumo a sua cabana. Fim de mais um dia.

Maior dia da viagem, alguma coisa perto do convencionou-se chamar de um metro, Allan só vai surfar depois das 10 da manhã, quando o sol está mais quente e a água fria não faz assim tanta diferença. De frio, já basta Montauk, sua cidade natal.
Allan usa um pranchão largo (meus braços mal conseguem abraçá-la), tem uma quilha enorme, meio solta, faz barulho as vezes debaixo d'água. Sei disso porque surfei os dois primeiros dias exclusivamente com a prancha dele. Poderia dizer aqui que um homem pode aprender muito sobre o outro pela prancha que ele usa, mas seria apenas um recurso literário imbecil. A prancha do Allan é suave, macia nos movimentos e veloz quando necessário, tenho a sensação de dirigir um caminhão.

Julio - E surfe profissional, voce alguma vez ligou pra isso ?

Allan - Nunca. Nunca pensei sobre isso... Entrei em apenas um campeonato na minha vida, e ganhei! Em Biarritz, 1970...
Julio - Biarritz ? 1970 ? Quero ouvir essa história...
Allan - Foi o primeiro campeonato intermacional que eles tiveram lá, tenho quase certeza...em Biarritz. Eu e meu amigo estávamos lá e os franceses queriam fazer um campeonato, então eles convidaram todo mundo...os australianos, os sul-africanos, havaianos...reuniram todos e disseram, vamos fazer um campeonato.
Ninguem se interessou, mas aí eles falaram, depois vai ter uma grande festa para comemorar o evento e todo mundo mudou de idéia. Terminaram por fazer o evento em Hossegor e eu ganhei...foi meu único campeonato e eu ganhei, é verdade.
Essa história está no meu último livro, eu começo o livro com ela.
Passamos toda primavera no Marrocos e no verão fomos para Biarritz, por causa das garotas...garotas francesas.
Uma das mulheres mais lindas que já tive foi essa garota francesa que decidiu me dar porque eu tinha ganho o campeonato - eu acho.
Ela era virgem.
Juro pela minha mãe.
Fui o primeiro, ela devia ter uns 16 anos, eu não falava francês, ela não falava inglês, não importava.
Ficamos juntos por uma semana...ela era alguma coisa...linda! Uau!
Julio - Voce teve um bocado de mulheres, por que escolheu ser um solitário ?
Allan - Não é mais minha escolha. Quando voce ficar mais velho vai entender...bem, voce é casado... Não é mais como antes, elas costumavam vir até a mim e agora...
Julio - É sempre uma escolha, não ?
Allan - Meu problema é que ainda tenho os mesmo padrões de exigência que eu tinha
aos 30 anos... uma garota precisa ter certas coisas...não é nada fácil quando voce é velho suficiente pra ser avô delas.
Julio - Mas sua namorada em Pavones não era tão novinha assim ?
Allan - Ela tinha uns 40 anos.
Mas ela louca! Era uma sociopata!
Que sorte a minha, finalmente acho uma mulher e ela é maluca...
Julio - Mas voce a amava...
Allan - Amava ? Só porque eu a aturava não quer dizer que a amasse. 
Aquela doida quase me matou...
Julio - Qual origem do nome Weisbecker ?
Allan - Alemanha, uma cidadezinha na Alemanha. Não sei muito sobre isso, exceto que meu avô teve um dos primeiros super-mercados do mundo em Nova Iorque. Era nos anos 30 ou 40, no Harlem...teoricamente, se meu avô não tivesse fodido com tudo, hoje em dia eu seria um desses herdeiros de impérios como A & P, mercearias, seria um multi milionário. Foi um dos primeiros super mercados... Weisbecker's...pode pesquisar nos jornais antigos.
Ainda tenho guardado os rótulos, Café Weisbecker, Manteiga de amendoim Weisbecker...
Julio - E o que os seus pais faziam ?
Allan - Depois do mercado falir, meu pai era um cara muito estranho...um esportista, curtia levantar pesos e entrou numa de fisiculturismo, fanático por forma física. Isso nos anos 50.
Julio - Devia ser bizarro naquela época...
Allan - Muito! Ele tinha que fazer seus próprios equipamentos de ginástica, seus pesos... Tenho fotos dele parecendo Arnold Shwarzeneger, nem tanto... Mas nesse estilo.
Ele gostava tambem de caça submarina, na mesma época em que apareceu o Jacques Cousteau com aquele filme, O Mundo Silencioso. Meu pai adorava o mar e sempre me levava com ele para todos programas que fazia. Comecei a mergulho quando tinha entre 7 e 8 anos. Posso te dizer que fui um dos primeiros no mundo a ter uma roupa de mergulho sob medida, com 10 anos!
No início do Captain Zero eu conto a história da primeira vez que meu pai me levou pra mergulhar em Montauk. A partir daquela experiência eu soube que estaria ligado ao mar para sempre.
Minha mãe era uma pessoa adorável...queria apenas que eu fosse feliz. Fui sempre muito  apegado a ela. Cuidei dela quando ela estava morrendo de cancer na Carolina do Norte...Estava voltando da viagem que fiz pra escrever Captain Zero e escrevi boa parte do livro perto dela...ela realmente se preocupava comigo, até o fim.
Eles se divorciaram nos anos 70 e meu pai virou um ermitão.
Julio - Parecido com voce...
Allan - As vezes me preocupo de estar ficando muito parecido com ele.
Mas não era saudável pra ele. Não há nada de errado em querer ficar só e desejar ser feliz na solidão, mas aquele tipo de solidão para ele não era saudável.
Julio - Qual a diferença da solidão dele e a sua ?
Allan - Voce não podia simplesmente conversar com ele sobre coisas sentimentais...nesse aspecto ele era bem alemão no jeito dele, fechado.
Quando eu era garoto, ele era um grande camarada, mas ao envelhecer não havia conversa com ele. Nas últimas vezes que o vi com vida, sentia que ele não queria muito papo - parte disso devia ser minha culpa - Sabe quando as pessoas não te dão muita intimidade ? 
Lamento não ter insistido mais com ele...Nunca perguntei a ele sobre a segunda guerra. Imagina o cara lutou dois anos na segunda guerra, na Alemanha! Matar pessoas e quase ser morto, como é ? Nunca conversamos sobre isso...





Julio - Sempre tive na minha cabeça essa imagem sua, talvez a mais famosa, voce sentado escrevendo com uma arma na mesa. Alguma vez precisou usa-la ?
Allan - Não. Nunca. 
Curioso voce perguntar isso. Estava investigando o assassinato de um americano na Costa Rica, Max Dalton, sempre gostei muito de fotografia...eu tinha colocado a câmera de um jeito...eu sabia o que estava fazendo. Queria que parecesse casual...
Essa foto já saiu em cada lugar... foi publicada em todo canto...
Julio - É uma foto que te representa...
Allan - Só de pensar que essa é uma foto que me representa, me assusta um pouco.
Não era nada demais... tinha a arma porque eu sabia que havia um perigo real, mas nunca tive que usá-la.

Julio - E seu desempenho surfando, voce ainda se preocupa com isso ?
Se sente diminuído quando não consegue fazer o que costumava fazer na prancha ?
Allan - Estou com 64 anos, há 3 anos atrás...bem, não estou surfando tão bem quanto antes, é muito claro. Posso te mostrar filmagens minhas de 3 anos atrás...
Ainda me preocupo com isso. Ainda não cheguei ao ponto de ser apenas aquele coroa que entra no mar e dá uma caídinha, sabe ?
2 ou 3 anos atrás eu podia afirmar que era um dos melhores surfistas de pranchão aqui...agora já não tenho mais essa certeza. Não vou ao bico com tanta frequência, nem mais tão fácil...tenho que me concentrar em fazer essas coisas agora.
Não me sinto velho. Sentado aqui conversando com voces, não me ocorre que tenho a idade pra ser avô do Junior ou do Blanco ou mesmo seu pai.
Esse é problema com as pessoas, todo mundo acha que é legal.
A maioria não é.

Julio - Voce tem uma certa obsessão por teorias conspiratórias, não gosto de chamar assim, mas não acho outro jeito...
Allan - Eu tambem não gosto do termo, é depreciativo. Sabe de onde vem esse nome ?
A CIA criou, em seguida ao assassinato do Kennedy, quando as pessoas começaram a questionar o que governo nos dizia, houve um memorando emitido pela CIA recomendando aos jornalistas e escritores para que usassem o termo conspiratório... Golpe conspiratório, ataque conspiratório... e cada vez que voce usa o termo está endossando gente que ganha vida mentindo pros outros. Odeio esse termo.
Passei a desconfiar de tudo depois de uns dois do 11 de setembro.
Quando houve o ataque, fiquei mesmo preocupado com uma guerra. Minha mãe tinha algum dinheiro na bolsa e liguei pro corretor, pedi pra tirar tudo.
Se vai haver guerra, é melhor estar preparado.
Quando o Japão atacou Pearl Harbour, eles não voltaram pra casa e ficaram quietinhos, eles atacaram as Filipinas! 
Achei que os árabes iam começar ataques por todo Estados Unidos, se eles conseguiram realizar o 11 de setembro... não seria difícil continuar os ataques se teve mesmo um planejamento... e depois de dois anos percebi que não haveria continuidade.
Comecei a me perguntar se fomos mesmo atacados por homens escondidos em cavernas no Oriente Médio, sério ???
Não dá pra engolir essa.

A menina que nos servia no restaurante na beira da praia vem nos avisar que aproxima-se a hora de fechar. Fomos comer o prato de domingo, Pimientos Rellenos, pimentão recheados com carne moída. 
Allan teve tempo de flertar com duas canadenses que se fizeram muito simpáticas e curiosas por aquele senhor de aspecto imponente, camisa rasgada, charuto pendurado na boca e uma sede que não tinha fim.
Fica acertado um encontro para o dia seguinte, não estaremos lá para saber se houve ou não.
Toco uma vez mais no assunto solidão.



Allan - Quer saber ? Descobri que a grande maioria das pessoas é desonesta e insensata - a maioria. 
Voces parecem fazer parte da exceção.
Julio - Não acho que é a maioria...
Allan - Tô te dizendo! A maioria tem a cabeça enterrada no rabo e roubarão sua grana se tiverem oportunidade. É assim que a maioria é, isso é apenas um fato.
Posso provar, pela minha própria experiência.
A única maneira de voce saber se tem um amigo de verdade é, se essa pessoa for de encontro aos seus próprios interesses para te ajudar porque é a coisa certa a fazer.
Essa é a única maneira.
Voce conhece o camarada por 40 anos, se uma situação dessas não vier a tona, voce nunca saberá.
Sou mais velho, passei por muitas coisas, acredite em mim.
Julio - Voce está sendo pessimista...
Allan - Voce não está compreendendo. Essa é a verdade. 
Deixa eu te dar um exemplo, voce e seu amigo, seu melhor amigo, estão sem um centavo, desesperados. Nenhum dos dois tem vínculo com nada, podem simplesmente sumir do mapa. 
Voce consegue arrumar 100.000 Dólares. Voce emprestaria todo seu dinheiro pro cara ?
Diria ao camarada, daqui a um ano me encontre na esquina de tal lugar porque eu quero minha grana de volta, voce faria isso ? Voce conhece alguem que seria capaz de fazer isso por voce ?
Essa é única forma de saber.
Julio - Essa é uma situação extrema.
Allan - Estamos falando de extremos. Já emprestei dinheiro para amigos próximos, muito próximos, que me encontraram algum tempo depois, olharam no meu olho e negaram ter pego dinheiro emprestado comigo.

Julio - Como voce inventou esse negócio de Bandito Books (Bandito Books é a editora do Allan - http://www.banditobooks.com) Voce já se sentiu como um bandido ?

Allan - Não sei como um bandido se sente, mas sei como é transgredir a lei.
Tentar ter a certeza que não vai ser pego, suponho que isso é um bandido.
Julio - Meio piratas, como nos filmes antigos ?
Sim, no livro Cosmic Banditos eu criei esse certo mito, de como um bandido deveria ser. Inspirado nos bandidos românticos dos velhos filmes. Na vinheta do meu saite tem o bandido definitivo, do filme O Tesouro de Sierra Madre (John Huston, EUA, 1948), falando - Badges ? We don't need no stinking badges!
É uma cena famosa, o bandido tentando se passar por polícia para passar pra trás um gringo ambicioso (Humphrey Bogart).
Usei esse cara como molde para o Jose do Cosmic Banditos.
Exceto que Jose fumava muita maconha, era amigo do gringo e obcecado por física quântica tambem.
Por que não ?
Um bandido deve ser obcecado por física quântica! Esse é o seu estilo de vida, caos e desordem!

Uma linda onda se desmancha na bancada enquanto um camarada qualquer flutua entre o bico e a rabeta da prancha. O silêncio é quebrado pelos latidos da Honey e o barulho de mais uma cerveja sendo aberta. O sol morre bem atrás das ondas, exatamente atrás.
Um momento besta que por alguns segundos ganha um ar psicodélico, falta apenas uma trilha de fundo do Caléxico.

Julio - Agora, conta essa história da HBO querer fazer uma série inspirada na sua vida...

Allan - Fui contactado pela HBO, eles queriam fazer uma série inspirada no Captain Zero. Expliquei pra eles que Sean Penn já tinha comprado os direitos desse livro, mas que meu último livro era ainda melhor para fazer uma série pra TV.
Mandei pra eles Can't you Get Along with Anyone, eles adoraram.
Disse pra eles que o conceito era o seguinte, uma pequena comunidade de surfistas numa cidadezinha no fim do mundo, sem lei, sem nada...ao estilo de Deadwood, conhece ?
Os caras amaram o conceito e chamaram um dos melhores produtores, Gene Kelly, e um dos mais premiados diretores da HBO, Tim Van Patten, esses caras já fizeram Sopranos, Deadwood, The Pacific, Boardwalk Empire...Coisa grande!
Então os caras ficaram empolgados com a idéia, trocamos emails, telefonemas, fizemos reuniões e decidiram fazer um piloto, primeiro episódio, é assim que funciona, sabe disso, não ?
É muito simples, custa no máximo uns 60.000 Dólares, pra esses caras isso não é nada.
Esses camaradas são premiados, já ganharam Emmys, Golden Globes, para eles é mole.
Tinhámos tudo encaminhado, pensei que era certo - negócio fechado.
Isso tudo aconteceu em janeiro desse ano.
Escrevi um primeiro tratamento do roteiro, ficou do cacete - eu sei porque mostrei para alguns amigos que trabalham na indústria- e de repente esses caras começaram a me deixar de lado e eu não conseguia imaginar por que os caras começaram a fazer isso.
Ainda fazíamos as reuniões, eles ainda pareciam gostar da coisas que eu produzia e, por algum motivo, não me deixavam participar das reuniões com a HBO, as reuniões que decidem o que será feito.
Os caras começaram a me dar desculpas esfarrapadas, esses caras não são moleques, são gente que a HBO pede para trazer idéias, certo ?
E lá estavam eles, sentados em cima da idéia, sem fazer nada.
E eu descobri, através de um fã que trabalha na HBO, não posso revelar quem é senão ele ou ela perderia o emprego, e um amigo que trabalha na CAA (Creative Artists Agency) - que tambem representa esses caras - que a HBO não trabalharia comigo por não concordar com a minha visão do mundo, minha visão política do mundo.
Eles descobriram que eu fiz um filme, Water Time, tá na internet (http://youtu.be/ktq3wpe3U44) onde eu exponho minhas opiniões sobre coisas como o assassinato do Kennedy. Lee Harvey Oswald não matou Kennedy, qualquer criança sabe disso, foi a CIA.
Mas eles, HBO, estão fazendo uma série sobre Lee Oswald e de como ele matou Kennedy, sabia disso ?
O que eu quero dizer é, preste atenção, se voce trabalha numa empresa que lida com comunicação, voce não consegue passar de um certo estágio se não tiver a visão certa, a opinião certa, ou seja, a visão deles.
HBO não quer que pessoas como eu tenham voz. Caso essa série fosse realizada e fizesse o sucesso de um Sopranos, por exemplo, a imprensa viria falar comigo e saberiam o que eu penso do mundo, correto ?
Eles não querem isso.
Então a HBO disse aos caras para não continuar com a série, mas evitar explicar o motivo, porque ficaria mal pra eles.
Pareceria uma lista negra - e é exatamente o que é.

Julio - Nunca te ocorreu que a HBO não gostou do seu roteiro ?
Allan - Não! Eles nunca leram.
O produtor e o diretor adoram tudo que eu escrevo. Seria uma série sobre surfe única, nunca nada foi feito parecido, nunca!
Sempre é a mesma história sobre campeonatos, ou quem desce a maior onda, quem consegue patrocínio - quem se importa ?
Isso é sobre gente que viveu a vida de verdade, que abriu mão de muita coisa pra viver num lugar distante e exótico, pra pegar onda. 
Julio - Pessoas como voce...
Allan - Sim, pessoas como eu e alguns conhecidos, gente boa e gente ruim. Gente de verdade.



Julio - Aos 64 anos de idade, voce sabe que tudo que fazemos é pelo surfe, não ?
Allan - Surfe já não é mais a razão principal.
Julio - E qual é ?
Allan - Escrever e fazer filmes.
Tem sido assim por algum tempo.
Julio - E Saladita ?
Allan - Estive aqui faz tempo, Troncones, não gostei do que vi.
Um dia resolvi passar a noite e fui ficando...
Não tinha nada, apenas alguns casebres, agora está crescendo.
Julio - Devia ter menos gente, né ?
Allan - Mesma coisa. Sabe como é ? Eles vem e vão... eu espero eles saírem e vou pra água. Tem sido assim desde sempre.
Se voce vive logo na frente da onda... Presta atenção, essa é uma boa regra, se eu tiver que dirigir pra pegar onda, estou no lugar errado.
Nunca dirija quando tem onda boa na sua frente e viva onde voce pode ver o pico.
Não é bom o suficiente se voce tem que caminhar até a onda para poder avaliar as condições. Voce tem que poder monitorar as ondas o tempo todo.

Nesse ponto, a conversa desvia para outro assunto, família e tudo que a envolve. Allan passa a ficar monossilábico, suas respostas incluem sons que querem dizer mais que palavras - grunhidos.
Insisto em afirmar que o surfe foi o motor por trás de toda essa aventura fantástica que foi, e é, sua vida.
Ele parece recordar algo impublicável, dá um longo gole na garrafa de Corona e se afasta.
Fim de papo.



domingo, julho 03, 2016

Picareta

O Gato e o felino, foto genial e definitiva do Jair Bortoleto


Houve um tempo onde nada mais importava do que o surfe que você assistia sentado na areia.

Na alvorada dos anos 80, ver Picuruta pegando onda era uma experiência inesquecível.

Quando ele surge, em 1981, no Waimea 5000, podemos dizer sem exagero que testemunhamos o nascimento do surfe moderno no Brasil.

Curioso é perceber agora, 35 anos depois, que Picuruta não era o mais radical, esse mérito era do Cauli.

Nem era o mais rápido, Fred voava nas marolas do Arpex e Prainha como nenhum outro - exceto talvez Joey Buran.

Tambem havia quem fosse mais criativo, lembramos logo do fenomenal Tinga.

Tampouco seria o melhor nos tubos, Valdir era o rei.

O que Picuruta tinha era exatamente o que todos outros tinham e uma coisa nova e diferente, o futuro.

Começava pela pisada.

Quando o caçula do clã Salazar ficava em pé, sua velocidade era instantânea, não precisava balançar os braços, mexer a prancha, ficar aflito, era magia pura.

Voces não viram porque ainda não havia câmeras na praia, apenas as fotograficas.

Nós sentávamos na areia para poder ver de perto os gringos na única vez que eles apareciam aqui no ano, era nossa chance de acompanhar as novidades, fosse uma biquilha double wing swallow com canaletas, uma cordinha com colorido diferente, um short Sundek, Katin ou Quiksilver, um colete Rip Curl ou parafina com aromas distintos.

A sede pela informação era tamanha que ninguém arredava pé da praia enquanto houvesse gente surfando.

Quando chegava um amigo que não pode faltar a aula, era recebido com um entusiasmo digno de veteranos de guerra ao descrever uma batalha,

Voce precisava ver a caverna incrível que o Jim Banks pegou no Castelinho!!!

 Dane Kealoha deu uma batida e todos vimos o fundo da prancha dele aqui na areia!!!


Quem contava um conto, aumentava um ponto e as histórias iam ganhando corpo e força a cada copo de mate Leão com limão.

Rico e Picuruta, dois nomes que andaram juntos nas paginas da Visual Esportivo 


Nenhum dos garotos tinha talento ou coragem para tentar a sorte nos internacionais, apenas Gugu Buchaul com alguma coisa em torno de 15 anos e um surfe dinâmico e eficiente, á frente de todos outros meninos, mas isso já deve ter sido em 82.

A verdade é que alguns surfistas tinham o status de deuses, Shaun Tomsom, Mark Richards, Cherne Horan, Dane, Mike Ho…

Aquela semaninha era nossa janela pro mundo e Picuruta entrou pela porta da frente, sem bater, sem avisar.

Não que ele fosse um completo desconhecido, de jeito nenhum.

Já se falava dele, mas os caras mais velhos eram seus adversários e não iam ficar falando de um santista com tanta reverencia.

Foi preciso que ele viesse aqui, na nossa frente, mostrar o quanto cortava a água quando rasgava, o tamanho dos leques que ainda insistiam em cair em gotas quando ele ja preparava a próxima manobra.

A turma sabia o que esperar dos gringos, sabia o que esperar do Cauli, do Fred, do Daniel, do Valerio, do Pitz, do Castejá, mas o que ninguém esperava era o Picuruta.

A violencia quando trazia a prancha de volta já avisava que precisaria de três quilhas pra aguentar os coices.

Um corpo compacto, firme, capaz de trocas de direção bruscas sem sacrificar a elegância.
Não vou entrar na mitologia dos santistas daquele tempo, isso vale um livro inteiro de histórias inacreditáveis para os rapazes exemplares de hoje.

Tudo bem, conto uma, sem dar nomes.

Naquela época havia ainda a figura do sorveteiro no calçadao do Arpoador, e o sujeito, desavisado, cada vez que ia servir uma concha de sorvete ao freguês, pegava a casquinha, abria o refrigerador, entregava o sorvete, recebia o dinheiro, dava o troco e tudo não demorava mais que dois minutos.

Pois os camaradas ficavam ali, em volta do sorveteiro, esperando a chance de poder roubar uma colherzinha…
Diante do mau humor do homem, enquanto ele servia uma casquinha, vinha um sacana e cuspia de lado dentro do carrinho.
A turma caía no chão de tanto rir e o pobre do sorveteiro ia ficando mais e mais irritado até decidir ir embora.

Pau comia direto, dentro e fora d’água.

Baterias com resultados duvidosos eram resolvidas no braço ou no grito.

Surfistas eram tudo, menos bons garotos e os festivais eram uma grande
oportunidade de negócios para alguns, se é que me fiz claro.

Nesse ambiente hostil, Almir, Lequinho e Picuruta tinham que sobreviver do jeito que dava.

Com 14, 15 anos, a gente sabia que não podia dar mole, senão rodava.

Todo mundo rodava.


Mas ninguém, ninguem mesmo, surfava como Picuruta.


Picareta

O Gato e o felino, foto genial e definitiva do Jair Bortoleto


Houve um tempo onde nada mais importava do que o surfe que você assistia sentado na areia.

Na alvorada dos anos 80, ver Picuruta pegando onda era uma experiência inesquecível.

Quando ele surge, em 1981, no Waimea 5000, podemos dizer sem exagero que testemunhamos o nascimento do surfe moderno no Brasil.

Curioso é perceber agora, 35 anos depois, que Picuruta não era o mais radical, esse mérito era do Cauli.

Nem era o mais rápido, Fred voava nas marolas do Arpex e Prainha como nenhum outro - exceto talvez Joey Buran.

Tambem havia quem fosse mais criativo, lembramos logo do fenomenal Tinga.

Tampouco seria o melhor nos tubos, Valdir era o rei.

O que Picuruta tinha era exatamente o que todos outros tinham e uma coisa nova e diferente, o futuro.

Começava pela pisada.

Quando o caçula do clã Salazar ficava em pé, sua velocidade era instantânea, não precisava balançar os braços, mexer a prancha, ficar aflito, era magia pura.

Voces não viram porque ainda não havia câmeras na praia, apenas as fotograficas.

Nós sentávamos na areia para poder ver de perto os gringos na única vez que eles apareciam aqui no ano, era nossa chance de acompanhar as novidades, fosse uma biquilha double wing swallow com canaletas, uma cordinha com colorido diferente, um short Sundek, Katin ou Quiksilver, um colete Rip Curl ou parafina com aromas distintos.

A sede pela informação era tamanha que ninguém arredava pé da praia enquanto houvesse gente surfando.

Quando chegava um amigo que não pode faltar a aula, era recebido com um entusiasmo digno de veteranos de guerra ao descrever uma batalha,

Voce precisava ver a caverna incrível que o Jim Banks pegou no Castelinho!!!

 Dane Kealoha deu uma batida e todos vimos o fundo da prancha dele aqui na areia!!!


Quem contava um conto, aumentava um ponto e as histórias iam ganhando corpo e força a cada copo de mate Leão com limão.

Rico e Picuruta, dois nomes que andaram juntos nas paginas da Visual Esportivo 


Nenhum dos garotos tinha talento ou coragem para tentar a sorte nos internacionais, apenas Gugu Buchaul com alguma coisa em torno de 15 anos e um surfe dinâmico e eficiente, á frente de todos outros meninos, mas isso já deve ter sido em 82.

A verdade é que alguns surfistas tinham o status de deuses, Shaun Tomsom, Mark Richards, Cherne Horan, Dane, Mike Ho…

Aquela semaninha era nossa janela pro mundo e Picuruta entrou pela porta da frente, sem bater, sem avisar.

Não que ele fosse um completo desconhecido, de jeito nenhum.

Já se falava dele, mas os caras mais velhos era seus adversários e não iam ficar falando de um santista com tanta reverencia.

Foi preciso que ele viesse aqui, na nossa frente, mostrar o quanto cortava a água quando rasgava, o tamanho dos leques que ainda insistiam em cair em gotas quando ele ja preparava a próxima manobra.

A turma sabia o que esperar dos gringos, sabia o que esperar do Cauli, do Fred, do Daniel, do Valerio, do Pitz, do Castejá, mas o que ninguém esperava era o Picuruta.

A violencia quando trazia a prancha de volta já avisava que precisaria de três quilhas pra aguentar os coices.

Um corpo compacto, firme, capaz de trocas de direção bruscas sem sacrificar a elegância.
Não vou entrar na mitologia dos santistas daquele tempo, isso vale um livro inteiro de histórias inacreditáveis para os rapazes exemplares de hoje.

Tudo bem, conto uma, sem dar nomes.

Naquela época havia ainda a figura do sorveteiro no calçadao do Arpoador, e o sujeito, desavisado, cada vez que ia servir uma concha de sorvete ao freguês, pegava a casquinha, abria o refrigerador, entregava o sorvete, recebia o dinheiro, dava o troco e tudo não demorava mais que dois minutos.

Pois os camaradas ficavam ali, em volta do sorveteiro, esperando a chance de poder roubar uma colherzinha…
Diante do mau humor do homem, enquanto ele servia uma casquinha, vinha um sacana e cuspia de lado dentro do carrinho.
A turma caía no chão de tanto rir e o pobre do sorveteiro ia ficando mais e mais irritado até decidir ir embora.

Pau comia direto, dentro e fora d’água.

Baterias com resultados duvidosos eram resolvidas no braço ou no grito.

Surfistas eram tudo, menos bons garotos e os festivais eram uma grande
oportunidade de negócios para alguns, se é que me fiz claro.

Nesse ambiente hostil, Almir, Lequinho e Picuruta tinham que sobreviver do jeito que dava.

Com 14, 15 anos, a gente sabia que não podia dar mole, senão rodava.

Todo mundo rodava.



Mas ninguém, ninguem mesmo, surfava como Picuruta.

Bigode e seu filho

sexta-feira, maio 27, 2016

Diario de Sagres

Um Rei no seu reino
Sagres, 24 de Maio 2016

Foram quase quatro horas de trem até chegar a Lagos, vindo de Lisboa.

E já chegava atrasado para o jantar.

Não é facil sentar numa mesa onde estão já acomodados, Wolfgang Bloch, Andrew Kidman, Sandow Birk e Rusty Miller.

A sensação é estranha.

Alguma coisa de não pertencer a mesma estirpe daquela turma e ao mesmo tempo aceitar que, afinal de contas, somos todos apenas surfistas famintos de experiências e sedentos de histórias, nada mais.

Sobra-me a cabeceira, copo de vinho à frente, chouriço alentejano e uma vontade enorme de ouvir todas conversas paralelas.

João Rei, anfitrião do Sagres Surf Culture, me recebe com um sorriso largo e uma pergunta,

Já comeu, Júlio ?

Esse é o quinto ano que João faz isso aqui acontecer e ainda me custa acreditar que nessa primeira edição internacional, sou o único a falar portugues.

Sagres 



Sagres, 27 de Maio 2016

Passaram-se tres dias tão intensos que não houve tempo sequer para escrever.

Fizemos uma caminhada guiada de duas horas, um geólogo e uma bióloga nos explicando os pormenores da fauna e da flora dessa costa assustadoramente bela.

Paramos para almoçar na praia de __________ e Rusty Miller, 73 anos, trocou a roupa e deu um mergulho no mar gelado do Algarve como se fosse a coisa mais natural do mundo - e é!

A energia do homem é fenomenal.

Lars, o fotografo alemão que nos acompanhava, bufava e resmungava em ingles,

Como pode o Rusty ter caminhado por duas horas, descido o despenhadeiro e já está lá em cima nos esperando enquanto eu mal consigo me aguentar em pé depois de subir o barranco...

João tambem nos preparou uma visita guiada ao Forte e ao Farol, acompanhados pelo historiador Artur de Jesus que parecia tão encantado com as histórias que contava quanto seus ouvintes.

Ao final do passeio, diante de tanta informação, era dificil saber quem estava mais deleitado, nós com a riqueza dos detalhes dos reis e navegadores portugueses, ou o Artur ao perceber que estava ali diante de figuras com trajetórias de vida tão ou mais fascinantes do que alguns dos seus personagens.

Nem todos, nomeadamente Rusty, duas vezes finalista do Duke Kahanamoku em Sunset, pioneiro das bombas havaianas, primeiro surfista em Uluatu - ainda por cima filmado por Alby Falzon em agosto de 1971 e eternizado no clássico Morning of the Earth.







domingo, maio 22, 2016

O que passa na sua cabeça ?

[Coluna Sopa de Tamanco, Abril 2016]

Havai, 2011 Era pré ataques virtuais



Hoje tive saudade do tempo anterior ao nosso.

Um tempo onde os amigos se encontravam sem querer, dois ou três anos sem se ver, sem se falar, e ficavam verdadeiramente felizes de se encontrar novamente.

Eu sinto falta dessa sensação.

Acho que não fomos feitos para acompanhar todo e qualquer movimento que um amigo faz ou deixa de fazer.

Deveria haver um mistério em cada pessoa e uma surpresa em cada encontro.

Pode parecer papo de velho, e é papo de velho, mas acreditem, havia menos atrito.


Tenho um grande amigo, desses que voce faz festa quando esbarra e passa duas horas conversando sem perceber que o tempo passou.

Na vida toda, devo ter o encontrado umas tantas vezes, nada que justifique uma amizade profunda e celebrada, mas sempre tive grande alegria em ve-lo.

Graças as redes sociais, passei a ter contato quase diário com o camarada.

No inicio, um grande alivio poder reduzir as distancias, finalmente acompanhar o que passava por aquela cabeça arguta e atenta, primeiro pelo seu blogue, depois através de outras ferramentas.

Era bacana ter a sensação de estar mais uma vez no banco do carona, voltando do Hang Loose pro em Imbituba, discordando de quase tudo e concordando com o que restava.

Aos poucos percebi que sua participação, postagens, era bem acima do média dos outros contatos, ou seja, tínhamos ali quase uma narração em tempo real do que passava, ou não passava, pela cabeça do camarada.

Não preciso disso, pensei.

O que era antes um conforto, tornou-se fardo e voce imediatamente passa a se incomodar com aquilo.

Mesmo quando voce ainda é adolescente e mora em casa com seus pais e irmãos, não é necessário saber tanto assim o que se passa na cabeça deles, existe um filtro natural pra isso, chama-se bom senso e serve pra quem fala e pra quem escuta - substitua por quem escreve e quem le.

Por mais que voce tente se esquivar, acaba por julgar tanta informação derramada ali na sua frente, nem que seja apenas um ralo certo e errado.

A armadilha é essa, a falsa proximidade que estas situações criam e suas possíveis consequências.

De repente, voce se dá conta que talvez no proximo encontro real não se repita a festa dos últimos três ou quatro e tudo que havia pra ser dito já foi virtualmente dito, ou escrito, e os dois são atingidos por enorme enfado…

Exceto se no meio disso tudo entrar uma escapadela pra pegar onda em algum lugar remoto, sem a multidão faminta, sem os gritos, sem as disputas.

Nesse caso específico e improvável, os dois velhos amigos serão apenas isso, 

dois velhos amigos.

O surfe seria apenas uma desculpa para deixar tudo de lado e ir pro mar lavar a alma - sim, eu também uso essa palavrinha tão maltratada pelos surfistas…

Dentro d’água voltamos ao que há de mais primitivo nas relações e nas reações.

E ao final de uma boa onda surfada, esquecemos tudo (os mecanismos de agressão, de defesa, as posições hierárquicas no grupo e a delimitação de território) e ao ver o amigo, estamos prontos para o abraço.



Esse é, apenas, um dos motivos que eu surfo.