terça-feira, fevereiro 17, 2015

Silencio eloquente

Carlos Mudinho, um Homem religioso que merece a devoção dos que vivem o surfe

As mãos dele falam tanto quanto os seus olhos.
Cada palavra que ele quer dizer é explicada com uma quantidade de recursos fantástica, exatamente igual ao jeito dele pegar onda.
Os movimentos dos braços indicam distancias, caminhos e são sempre acompanhados de uma absurda agilidade com quadril e as pernas - absurdo para um senhor de 60 anos.
Carlos Mudinho é um dos meus surfistas preferidos, dentro e fora d’água.


Nem todos conhecem ou sequer ouviram falar do Mudinho, quem o viu surfar não esquece jamais.
Mudinho tem a classe dos grandes de toda história.
Descende direto da linhagem que passa por Phil Edwards, Mickey Dora, Barry Kanaiapuni, Curren e John John.
Alguem já escreveu que elegância é economia de gestos e Carlos Mudinho surfando representa como ninguem essa frase.
A surdez nunca foi obstáculo, aprendeu a ler lábios - e ondas.
Não há um instante de silêncio ao lado dele, os sons jorram numa explosão eloquente, se faz tão claro quanto um apresentador de jornal das oito.
A expressão Mestre tem mais de um sentido quando penso no Carlos Mudinho - Profissão e vocação.


Pura Categoria


Os surfistas brasileiros não são especialmente famosos pelo estilo, mas sim, temos alguns exemplos que não fariam feio no quesito graça em cima de uma prancha.
Rapidamente, sem pensar muito, relembrem comigo, Fabio Gouveia, Picuruta, Pitzalis, Castejá e Daniel, uma lista pequena dos mais influentes e estilosos prancheiros da nossa curta história.
Gente que, por obra divina ou muito trabalho duro pra conter os ímpetos, fez a escolha da beleza antes da objetividade.
Hoje é justamente o inverso, objetividade antes da beleza, ou seja, a grande maioria que começa a surfar prefere aprender logo a fazer uma penca de manobras, voar e rodopiar, sem dar a menor bola pro estilo.
Mudinho unia (ainda une!) funcionalidade e estética.

Não vi a fase de ouro dele, final dos anos 60 e início dos anos 70, fui conhece-lo apenas nos 80, quando os pranchões tiveram um renascimento e foi criado um circuito brasileiro, e mundial, de pranchão - paralelo ao de surfe profissional.
Enquanto a maioria da macacada tentava surfar com uma 9’6’’ como se estivesse de 5’10’’, Mudinho levava pra dentro das baterias um surfe clássico e poderoso baseado numa postura firme e uma intimidade fenomenal com as bordas da prancha.
Aquilo era música para os olhos.

Toda vez que ele ia pra água, mágica acontecia, avançando ou não nas competições.
E quanto maior o mar e melhores as ondas, mais distante ficava o desempenho do Mudinho pra todo resto.
Nat Young era o único que acompanhava o ritmo - ritmo dos anos 60, entenda-se.
Ao contrário da maior parte dos caras que competiam no circuito dos pranchões, Mudinho parecia apenas interessado em esticar seu tempo surfando e melhor desculpa não havia para os quarentões levar adiante a vida de surfista.
Shaper que atravessou cinco décadas fazendo pranchas de qualidade inquestionável, ainda hoje seus pranchões são considerados obras de arte.
Quando comecei a surfar, minha primeira prancha foi uma Carlos Mudinho 7’2’’ vermelha com um raio branco, presente do namorado (hoje marido) da irmã mais velha.
O fascínio começou ali.
Quando fiz a lista de mais de 80 entrevistados para a série 70 e tal do canal OFF, destaquei que uma entrevista com Mudinho não era apenas necessária - era fundamental.
Tentei explicar, sem sucesso, a importância dele.
Ensinou Rico (e outros!) a shapear no final dos anos 60, venceu eventos importantes, explorou e desbravou como poucos o litoral de norte a sul do Brasil e surfou, e aqui enfatizo novamente, surfou - e surfa! - de forma sublime.

Mudinho no Pier em 1972



Mudinho mora hoje em São Pedro da Aldeia, surfa quando pode, dá aulas para surfistas surdos e aguarda com alguma ansiedade pela sua aposentadoria para poder surfar mais.
Pesquisando na grande rede, percebo que celebra-se pouco a arte desse camarada que é possivelmente o surfista brasileiro mais menosprezado pela imprensa.
Achei uma excelente entrevista feita por outro surfista surdo, Renato Nunes (http://carlosmudinho.blogspot.com.br), que fazia a tradicional pergunta, qual foi o grande momento da juventude...
A resposta conta tantas histórias que merece ser publicada na íntegra.

Uma vez, em 1967 teve uma forte ressaca no mar, as ondas quebravam de 4 metros e rolavam bem atrás do pontal do Arpoador. Foi super sufocante para atravessar a arrebentação e ficar bem longe da praia, como se estivesse em alto mar. Foi fora do comum. Peguei ondas grandes com uma 9’4 noserider Surfboard House. Nesse dia só entraram na água alguns longboarders corajosos como Geraldo, Persegue, Armando Serra, Penho, João (ex-marido da Fernanda Guerra, primeira surfista brasileira) e outros que não me lembro o nome. O meu outro momento marcante foi quando ganhei o campeonato Extra Magno 1967 na praia do Arpoador. Com experiência de apenas um ano de longboard. Fui homenageado como revelação do ano.

Encontrei-o dia desses num almoço da velha guarda promovido pelo generoso Armando Serra, não mudou nada.
Mesma energia, mesma eloquência de sempre.
Queria passar mais tempo surfando ao lado do Mudinho para aprender mais...





segunda-feira, fevereiro 02, 2015

Rato

Rato e Reno Abellira trocando uma idéia


Amizade,
partiu mais um dos nossos.
Alguem já escreveu isso, surfista é muito careta.
Somos uns assustados.
Na teoria, admitimos a liberdade e irresponsabilidade.
Na prática, a conversa é outra.
O folclore é bonito à distancia, preferimos o insosso e inodoro de pertinho.
É mais limpinho.
No documentário Futebol, do Arthur Fontes e João Moreira Salles, uma obra prima do cinema nacional, Paulo Cesar Caju aparece como um personagem fascinante no terceiro episódio.

Timaço! Júnior Marvin, Jacob Miller, Paulo Cézar Caju e Bob Marley jogando uma pelada na casa do Chico Buarque em 1980


Caju é o típico malandro carioca, mas não é qualquer malandro, Caju foi um dos maiores jogadores da história e jogou nos quatro grandes times do Rio, Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco. Era extrovertido, vestia-se de forma excêntrica, era um esbanjador, mulherengo e festeiro sem par.
Foi tricampeão mundial no Mexico em 70 com a seleção brasileira do Pelé, Tostão e Jairzinho.
Enquanto assistia o documentário, ia percebendo as semelhanças entre o PC Caju e Paulo Proença, surfista que não tive a oportunidade de ver no auge, nos hoje tão celebrados anos 70.

Proença era conhecido como Rato, ou Ratão, voces sabem o que o apelido significa, não adianta explicar.
Quando comecei a pegar onda em 1981, Rato já era uma lenda passada, viva na memória, sem nada pra impressionar um garoto de 13 anos.
Isso, até ve-lo em ação num dia clássico no Quebra-mar, principal pico de surfe do Rio no meio dos anos 80.

Curioso é que não foi jeito alegre e expressivo do Rato surfar que me abalou, foi justamente o fato do cara entrar remando num dos picos mais bem protegidos pelos locais, passar batido por todo mundo, ir diretamente lá pra trás do pico, chegar, sentar na prancha, checar quem estava por perto e virar um tabefe na cara de um pobre coitado que não tinha a menor noção do porque de levar uma bifa.
Tem que respeitar, tem que respeitar, repetia o Rato em voz alta, olho rútilo, encarando todos nos olhos.
Ele não tinha dado o tapa por nenhum motivo aparente, naquela época o pau cantava dentro e fora d’água direto.
Aquele era o código que o Rato conhecia para dizer aos locais do Quebra mar que estava ali em paz, virou a mão na cara do sujeito haole.

Fiquei muito intrigado com a figura.
Anos mais tarde, fizemos uma viagem juntos para Florianópolis.
O Rato estava sempre sem camisa, calça de Bali, copo na mão, fosse no aeroporto, na praia, na noitada.
Chegando em Floripa, depois daquela conversa de avião que não chega a lugar nenhum, descobri que o camarada não usava carteira de identidade, nem de motorista.
Nunca tive essas merdas, dizia ele, tirando um passaporte meio amassado do bolso e mostrando o documento como um delegado federal numa batida de jogo ilegal.
Um careta como eu ainda se choca com essas coisas, esse absoluto desprezo pelas convenções e liberdade auto declarada.
Em duas horas de hotel na Joaquina, Ratão já estava devidamente acompanhado duma bela loira ao lado e uma gelada na mão.
Detalhe, ele não tinha levado um tostão!
Existem os caras que tem recordações fantásticas da vida alucinada que viveram nos anos 70 e existem outros que nunca deixaram de viver essas aventuras.
Proença era um deles - um dos últimos.

Outra história dele, escatológica, ainda nos anos 80.
Arpoador, último Waimea 5000, praia lotada, calçadão apinhado de gente assistindo o campeonato, dia de sol, final de semana.
Chamada para Paulo Proença, quinta bateria da primeira fase, eis que surge, meio afobado, o próprio Rato, na nossa frente.
Apesar de novo, eu herdara uma coleção de revistas Brasil surf e conhecia Proença por ter sido capa de duas edições.
A turma de amigos ao lado, conhecia o Rato dali mesmo, do Arpoador.
Naquela época, os luxuosos predios da beira da praia tinham belos jardins, muito bem cuidados por mestres em jardinagem, com flores de cores variadas e relva bem aparada e macia.
Ratão chegou nervoso, conferiu quem tinha por perto, viu aquele bando de garotos observando o campeonato com cara de bobos e, como ginasta ou contorcionista, fez um movimento tão rápido quanto imperceptível.
Avançou em direção ao primeiro jardim que encontrou, abaixou-se, arriou o calção e antes que o porteiro do prédio pudesse sequer esboçar qualquer reação, aliviou-se ali mesmo.
Pôrra Mermão, tava precisando mandar esse barro… Agora tô levinho!
Olhamos uns para os outros, sem saber direito o que dizer, ou o que fazer.
O porteiro xingava a todos, sem exceção, tivemos que correr, porque até explicar que não conheciámos o maluco daria muito trabalho.
Paulo Proença era um personagem digno de história em quadrinho.
Certa vez combinei de fazer, junto com o cartunista e humorista Allan Sieber um livro só com essas histórias que mais parecem inventadas do que reais.
As histórias que não são contadas por pudor, ou por cuidado.
O surfe atual é tão asséptico, tão perigosamente sem graça e orientado para o público abobalhado que as virtudes que nos fizeram diferentes de todo resto, hoje nos envergonha.
Caminhamos para o mais absoluto enfado com esse monte de frases repetidas, sem humor, sem imaginação e sem a mínima espontaneidade.
O futebol tem o Paulo Cesar Caju, nós tínhamos Paulo Proença.

PS - Por sorte, e mérito do Roberto Moura que bravamente produziu com seus próprios recursos uma série ainda inédita na TV, temos essa bela entrevista do Paulo Proença disponível no Vimeo da Massangana Filmes.

Em quase 10 minutos, Rato nos faz rir como sempre com suas histórias impagáveis.



quarta-feira, janeiro 07, 2015

Surfando com Ernest Ranglin

 • 
At 82, legendary guitarist Ernest Ranglin still plays the ska, reggae and jazz that he's championed and helped perfect for more than half a century. Ranglin was a key figure in shaping the sounds of ska — influenced by New Orleans jazz and R&B — in Jamaica in the late 1950s. But most of the world wouldn't hear of ska until producer Chris Blackwell teamed Ranglin up with a Jamaican singer named Millie Small. Together, they recorded "My Boy Lollipop," a song that became a smash at the height of Beatlemania and helped put ska and Jamaican music on the map forever.
You've probably also heard Ranglin if you've seen the James Bond film Dr. No — particularly the scenes set in Jamaica. The effects of Ranglin's fluid and rhythmic playing on Jamaican music, from mento to reggae, are deep and long-lasting. But his work as a jazz artist is equally amazing, and here at the Tiny Desk he does a bit of everything, including music from his lyrical and wonderful album Bless Up. So watch as this humble, charming gentleman makes magic on guitar, with his talented young band Avila holding down the beat.
Set List
  • "Surfin"
  • "Jones Pen"
  • "Avila (Oscar's Song)"
  • Direto do NPR 





















Ernest Ranglin from jasapaal on Vimeo.

segunda-feira, janeiro 05, 2015

Olimpo derrotado

[Cobertura da primeira vitória do Gabriel Medina em 2014, o início de uma longa e inesquecível Jornada]

De olho em algo muito maior do que apenas uma porrada no lipe...


O que fica na memória é a sequência fantástica de nocautes: Mick, Taj e Parko – Pow, Pow, Pow! Isso, só na conta do Medina. Mineiro e Pupo derrubaram Owen, Kerr e Slater.Temos, numa rápida contagem, 15 títulos mundiais e uma infinidade de Top 5 entre esses senhores.

Quem diria, 17 anos atrás, que os brasileiros deixariam um rastro de destruição desse porte nas areias do Super Bank – na verdade na água – logo na primeira etapa do ano...
Apresso-me em responder, com fatos, quem sonhava com esse momento: Peterson Rosa e Neco Padaratz – e Adriano.

O campeão do Quiksilver Pro 2014 ainda não tinha feito três anos de idade quando Slater venceu o Bronco na final do então Billabong Pro de 1997. Neco Padaratz ficou na semi, também diante de Kelly.

Adriano, na sua estreia no WCT, arrancou um terceiro em 2006, com apenas 19 anos, gostou tanto que decidiu fazer três finais na Goldie: 2009, 2010 e 2012. Os números servem para mostrar como uma vitória se constrói. Ela começa bem antes de Gabriel acabar com a festa dos australianos e fincar a bandeira brasileira no lugar mais alto do pódio.



Troca de guarda

Na Nova ASP, a expressão americana “terra de oportunidades” ganha novo significado. A nova direção quer mudanças e nada melhor do que nós, reconhecidamente mercado emergente, para dar a partida nos novos negócios.

Gabriel nem precisou usar seus superpoderes para superar um por um dos seus adversários no caminho do título. Durante todo o tempo, Medina parecia mandar uma mensagem como esta: “Pessoal, esse é o meu jogo e eu jogo do jeito que eu quiser”. Cada onda foi surfada apenas com o esforço suficiente para abater o oponente, sem exageros, sem firulas. Como Curren fez tantas vezes antes e como Kelly aprendeu a fazer como ninguém. A carta na manga, a arma secreta, tem lugar e hora para ser usada.

Medina aprendeu isso.


Doces rivais

Quase duas semanas depois de impor a quinta derrota seguida ao onze vezes campeão mundial, Adriano publicou uma foto de uma onda do Slater no Instagram com a seguinte legenda: “Como usar o espaço da onda, mesmo ganhando do Kelly na Gold, é nessa foto que eu observo a perfeição, tenho conhecimento que falta muito ainda”. Sempre conectado, Kelly respondeu: “Você é um sujeito bacana, Adriano”.

Mineiro tem uma maneira diferente de abalar o Careca, alguma coisa balança as estruturas do camarada que antes parecia tão imune aos encantos alheios. Talvez esse seja o jeito de Adriano repetir aquele famoso “Eu te amo”, que Kelly disse para Andy antes da final do Pipe Masters de 2003.

Não há hoje, no Circuito Mundial, ninguém tão preparado, obstinado e combativo como Adriano de Souza. Até Slater reconhece isso.

Quando inverter o sentido tem outro significado


Se quer uma revolução, faça você mesmo

A grande notícia na página da (Nova) ASP antes de começar o Quik Pro era o retorno de Owen Wright. Fazia todo sentido, afinal, o camarada tinha se apresentado com candidato ao título mundial em 2011, fazendo três finais seguidas com Slater. Após passar toda a temporada de 2013 de molho, recuperando-se de uma contusão, Owen era uma aposta certa. Ou não?

Perguntem a Miguel Pupo...

Pupo é um rapaz calado, fala mansa, boa praça, sempre com sorriso no rosto quando cruza com um companheiro, lembra até um pouco outro goofy brasileiro famoso pela velocidade e estilo, Victor Ribas.

Victor também não chamava muita atenção até um belo dia disputar o título mundial com Occy e Taj e levar a decisão para o Hawaii. Até hoje, o terceiro lugar no ranking de 1999 ainda não foi superado [Nota do Autor: em 2014 a história muda].

Não estamos aqui para falar do Victor, contemporâneo do pai do Miguel, Wagner Pupo.
Estamos aqui para mostrar que nem toda força da indústria consegue ganhar uma bateria.

Na terceira fase do Quiksilver Pro, Miguel Pupo silenciosamente aniquilou Owen Wright, dando cabo das expectativas da máquina de comunicação da ASP. Pupo foi possivelmente o surfista brasileiro mais elogiado pela imprensa estrangeira nessa primeira etapa – o que não deixa de ser uma grande conquista. Cada vez mais, Miguel vai crescendo debaixo dos nossos narizes como grande surfista.

Perguntem a Josh Kerr...


O serrote e a marreta

Existem alguns detalhes fundamentais na extraordinária vitória do Medina.

Número 1: ele nunca foi o melhor surfista do evento, mas venceu cada um dos principais favoritos com uma precisão cirúrgica.

Número 2: Gabriel rompeu barreiras, primeiro goofy em dez anos a vencer na Gold Coast – Mick Lowe bateu Andy Irons numa final complicada em Rainbow Bay em 2004.

Número 3: essa é a primeira vez que iniciamos o ano na frente do ranking.

Número 4 (talvez o mais importante): Gabriel não se deu ao luxo de voar.

Existe um dado novo nessa história: a partir de agora, já não somos mais francoatiradores, todos os olhos estão apontados para Medina, Mineiro, Pupo e cia. Passamos de caçadores a caça. Se antes nós reclamávamos do julgamento, agora é a vez deles – vide comentários abaixo de toda e qualquer publicação sobre a primeira etapa. São muitas primeiras vezes, tudo novo.

Como disse muito bem Adriano, eles (gringos) já têm onde se espelhar, sobram as referências do que fazer e como fazer, enquanto para os brasileiros é sempre uma surpresa porque ninguém trilhou esse caminho ainda – de ganhar o título mundial.
Gabriel tem um retrospecto excelente contra Taj, Mick, Slater e Parko, o problema é outro brasileiro, chamado Adriano de Souza, que tem 4 x 0 em cima dele.

Imaginem se a disputa do título ficar entre esses dois camaradas? Num tempo de mudanças, de troca de guarda, tudo pode acontecer.


quarta-feira, dezembro 24, 2014

Adolfo e a curra do jornalismo tradicional




Adolfo Sá escreve muito.
Manja o sujeito que voce pede pra escrever uma frase e ele imprime 14 páginas de texto impecável ?
Voce não conhece ele porque o cabra vem de Sergipe e o mundo do surfe vai, no máximo, do extremo sul até a capital do Rio de Janeiro.
O nordeste é solenemente ignorado pelas revistas de surfe, salve raríssimas exceções que justificam a regra.
Adolfo tem um blog chamado Viva La Brasa que vai virar livro em breve e ninguém ao sul de Aracaju vai sequer saber que existiu.
Leio o Viva la Brasa desde 2006 ou 2007 avidamente, nada que se publica ali é raso, quando Adolfo resolve mergulhar num assunto, vai de garrafa e tudo - com trocadilho.
O Cartunista Allan Sieber foi quem me apresentou ao Adolfo, jornalista de guerrilha que me identifiquei na mesma hora.
Suas entrevistas são longas e curiosas como conversas de botequim e os perfis que Adolfo cisma de fazer de vez em quando tem um fôlego absurdo de pesquisa.
O que o Viva la Brasa publicava não tem nada parecido na nossa imprensa chapa branca tupiniquim.
Binho Nunes foi o escolhido para um dos extensos papos em 2009, as respostas são tão antológicas quanto as perguntas,

Adolfo - Você foi convidado para competir na etapa final do mundial, o Pipe Masters. Neste evento, Kelly Slater garantiu seu 4º título mundial ao vencer uma semifinal histórica contra Rob Machado, Mark Occhilupo começou sua volta por cima ao chegar na final depois de passar pelas triagens, e vc foi mais uma vez o azarão, roubando o show nas primeiras fases p/ terminar o evento em 9º lugar. Foi a única oportunidade que vc teve na vida de disputar o Masters, certo?

Binho - Sim, foi minha única oportunidade e assim que recebi o convite pulei dentro; em 95 eu estava morando no Hawaii, já tinha feito semifinal em Sunset e estava bem seguro, nunca achei Pipe perigoso porque nunca tinha parado pra pensar nas pedras afiadas que tem no fundo, coisas de moleque querendo mudar o mundo...
Então fui que fui, morava numa casa cheia de amigos, queria mudar os parâmetros do surf brasileiro, achava todo mundo careta e com um surf antiquado, então agarrei essa chance com unhas e dentes, surfei Pipe com prancha bem menor do que a dos caras que estavam na competição, fiquei orgulhoso por ter passado pelo Taylor Knox na primeira fase e pelo Jeff Booth na segunda, perdi pro Derek Ho que tirou um 10 e um 9... Mas saí da água como se tivesse ganho a bateria, o locutor me comparou ao Tom Carroll naquelas condições, pois dei uma rasgada embaixo do lip que a praia toda gritou quando desapareci e depois apareci no meio da espuma branca gigante... Tá certo que o locutor babou meu ovo me comparando ao Tom Carroll... Sei que estava bem longe das atuações dele e nunca vou chegar lá... Mas a comparação me abriu grandes portas no outside de Pipe, valeu locutor!

Ainda hoje fico arrepiado lendo uma entrevista dessas.
Adolfo também desenha suas histórias em quadrinho e adora escrever sobre musica.
Sou capaz de ficar horas passeando pelo Viva la Brasa, lendo e relendo os artigos - com títulos geniais, como Uma onda, Uma bunda, sobre os anúncios da Reef  -  que Adolfo escreve e mal posso esperar pelo seu livro.
Ainda me choca um pouco o fato do nordeste ser encarado como gueto aqui pela turma do sul maravilha.
Para os cariocas, passou de Campos é tudo paraíba e pros paulistas, qualquer um em cima do Rio já é baiano.
Pergunte das ondas nordestinas numa roda de amigos e ouça as gargalhadas soar forte e piadinhas aflorar sem cerimônia.
O desconhecimento é sem fim.
Possivelmente, a região nordeste é a que tem ondas de melhor qualidade em todo Brasil e nem incluo Fernando de Noronha nesse balaio.
Falo apenas dos fundos de pedra espalhados desde o Norte do Espírito Santo até lá em cima no Pará.
Sabendo que não há interesse nenhum nos seus surfistas e nas suas ondas, o Nordeste criou sua própria rede de comunicação e se auto-sustenta sem precisar de revistas, sites ou canais de TV caolhos.
Até mesmo as marcas que imperam no Nordeste vendem quase exclusivamente naquele mercado.
Pena que não haja curiosidade no que se passa nas praias de cima do litoral brasileiro.
Nossa primeira grande estrela de repercussão internacional veio lá da Paraíba, Fábio Gouveia, até hoje um dos surfistas mais carismáticos de toda história - e não me refiro exclusivamente ao Brasil.
Chico Padilha, outro paraíba de memória inesgotável e cultura bem acima da média, não cansa de nos alertar que toda hora surge um talento em algum canto de cima.
Carlos Burle, Jadson André, Eraldo Gueiros, Heitor Alves, Danilo Couto… Ia faltar espaço pra citar um pedacinho pequeno da história do surfe nordestino.
Por enquanto, fico feliz de saber que Adolfo Sá, cabra arretado de bom, vai lançar seu livro e desde já exijo que o leitor se esforce um bocadinho para achar o Viva la Brasa e invista algumas horas de leitura.
Satisfação garantida ou seu dinheiro de volta.



VIVA LA BRASA from Viva La Brasa on Vimeo.

sexta-feira, dezembro 05, 2014

Viagem pra dentro

A espera...


          Pilantragem suprema é citar textos longos.
Sempre andei acompanhado do Galeano, Eduardo Galeano, escritor uruguaio que escreve com sangue, suor e lagrimas.
Galeano gosta de contar histórias da America Latina, dos povos esquecidos, contos, fábulas, mitos e adora falar dos becos e esquinas que pouca gente vai se dar ao trabalho de conhecer.

Sua trilogia, Memória do fogo, foi premiada pelo Ministério da Cultura do Uruguai e recebeu o American Book Award (Washington University, EUA) em 1989, mas isso não tem a menor importância.
O que ele escreve, e principalmente o jeito dele escrever, é o que importa.
Numa edição especial de viagens - justamente numa época onde a aventura transformou-se num pacote simpático, suavemente parcelado em 12 vezes sem juros - não poderia faltar a leitura do Galeano para um tempo de mudanças.

Extraído do livro De Pernas Pro Ar – A Escola do Mundo ao Avesso (Editora LP&M, Brasil, 1999), o trecho a seguir carrega mais de uma mensagem.
Ele nos ensina, ou melhor, relembra uma coisa que já ouvimos antes, de maneiras diferentes, a verdade está na viagem, não no porto.
A viagem começa quando voce decide.
Me solidarizo com o leitor que viaja sem sair do lugar.
Nem todo mundo tem uma pequena fortuna para gastar em passagem e hospedagem num barco luxuoso do outro lado do mundo.
Pra ser mais específico, nem todo mundo tem sequer a grainha que é preciso para ir até o norte do Peru para pegar onda.
Pipa ? Saquarema ? Maresias ? Noronha ?
Quem disse que faz falta ?

Essa revista que voce tem nas mãos ajuda a vender esses sonhos.
A TV martela ondas azuis e perfeitas como se fosse a tarefa mais simples da face da terra entrar num avião e aterrissar numa ilha paradisíaca.
Pra muita gente é mais fácil desprezar a própria praia do que aprender, ou re-aprender a gostar dela.
Esquecem-se que essa mesma praia que hoje desdenham foi aquela que os ensinou a amar o mar.
Foi nessa mesma água suja e ondas ruins que voce ficou em pé pela primeira vez na prancha e nunca mais quis saber de outra coisa.
Toda memória que temos das nossas praias não podem ser apagadas pela fantasia da onda perfeita.
Afinal de contas, nossa referência de onda perfeita foi estabelecida exatamente naquele dia mágico da nossa infância.
Aconteceu com voce em 1987, com seu amigo mais velho em 1975, com o Greg Noll em 1949 e com Medina em 2001.
E acontece todos dias, igualzinho, com as mesmas sensações e os mesmos cheiros e texturas.
Galeano escreve sobre isso.


A natureza se realiza em movimento e também nós, seus filhos, que somos o que somos e ao mesmo tempo somos o que fazemos para mudar o que somos. 
Como dizia Paulo Freire, o educador que morreu aprendendo: “Somos andando”. 
A verdade está na viagem, não no porto. 
Não há mais verdade do que a busca da verdade. 
Estamos condenados ao crime? 
Bem sabemos que nós bichos humanos andamos muito dedicados a devorar o próximo e a devastar o planeta, mas também sabemos que não estaríamos aqui se nossos remotos avós do paleolítico não tivessem sabido adaptar-se à natureza, da qual faziam parte, e não tivessem sido capazes de compartilhar o que colhiam e caçavam. 
Viva onde viva, viva como viva, viva quando viva, cada pessoa contém muitas pessoas possíveis e é o sistema de poder, que nada tem de eterno, que a cada dia convida para entrar em cena nossos habitantes mais safados, enquanto impede que os outros cresçam e os proíbe de aparecer. 
Embora estejamos malfeitos, ainda não estamos terminados; e é a aventura de mudar e de mudarmos que faz com que valha a pena esta piscadela que somos na história do universo, este fugaz calorzinho entre dois gelos.

Eduardo Galeano,

De Pernas Pro Ar – A Escola do Mundo ao Avesso (Editora LP&M, Brasil, 1999)

terça-feira, novembro 04, 2014

sexta-feira, setembro 05, 2014

Uma Foto, Uma Musica

Foto do Russel Ord
[Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. 
Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. 
Quem sou eu no mundo? 
Essa indagação perplexa é o lugar-comum de cada história de gente. 
Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. 
Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. 
Ainda que seja mentira.]

quarta-feira, setembro 03, 2014

Pranchas que nos definem

Uma cavada maiúscula

A Cusparada

A cena mais representativa do cinema de surfe a tratar da relação homem x prancha é do clássico que fecha a década de 60, Evolution do australiano Paul Witzig.
Descrevo brevemente para conseguir melhor efeito, Wayne Lynch, então um adolescente e o mais revolucionário surfe de back side que já aparecera numa tela de cinema, pega sua prancha com desdém e a arremessa n'água.
Em seguida, cospe, certeiro, no fundo da prancha.
O jeito que Lynch tratava sua prancha, a mesma que é magistralmente conduzida à lugares e ângulos nunca antes vistos numas direitas que podem ser em qualquer um dos 150 picos no estado de Victoria. Eu queria dizer que o jeito que Lynch tratava a prancha é semelhante as paixões arrebatadoras das peças do Nelson Rodrigues, quase irracional, absolutamente instintivo.
Vendo a cena do garoto de 16 anos, possivelmente o melhor surfista do mundo em 68/69, esculhambando com a prancha, sua companheira, no mais violento desempenho jamais visto, chocava porque mostrava que Lynch queria mais daquele toco.
Certa vez, Lynch foi entrevistado por um desses camaradas que vive o passado intensamente em busca de respostas sobre a evolução das pranchas e perguntou a Lynch se ele era capaz de reproduzir a magia daquela revolucionária prancha.
A resposta de Lynch foi curta e rasteira, aquela prancha era uma merda na época e continuava uma merda hoje em dia e seu interesse era, e ainda é, em pranchas para evoluir seu surfe, mesmo aos 50 anos - na época.




Single fin x Twin Fin

1976, North Shore de Oahu, Shaun Thomsom e Mark Richards comparam suas pranchas.
Shaun mostra sua monoquilha Spider Murphy, 7'6'' cheia de curva pra encarar Pipeline e Richards exibe sua biquilha, shapeada por ele mesmo, inspirada nas pranchas que Reno Abelira surfou na Australia alguns anos antes.
Os dois são os líderes da revolução que convencionou chamar de Bustin' Down the Door, em outras palavras, Shaun e MR são os dois maiores surfistas do planeta naquele exato momento, ninguem duvidava disso.
O jeito que cada um atacava as ondas no Havaí aplicou o primeiro grande rompimento da década. 
A partir daquela cena do filme Free Ride, do Bill Delaney, o surfista escolhia se era Shaun ou MR, não tinha volta.
Ou melhor, tinha sim, voce podia escolher entre Larry Bertleman, que surfava com as stingers do Ben Aipa, ou as Pin Tails do Gerry Lopez, mas nem Lopez, nem o Rubber Man ganhavam títulos mundiais.
Mal comprando, seria como se Medina e John John aparecessem no principal filme de surfe do ano conversando sobre suas pranchas - e supostamente essas mesmas pranchas tivessem características completamente diferentes.
Logo em seguida, Shaun e MR aparecem surfando dum jeito que definiu o que era surfe de qualidade por quase 10 anos.
O grande momento do filme é quando MR dropa uma bomba em Off The Wall e Shaun vai atrás, super profundo, e os dois entubam juntos, triunfantes.



Bola de fogo, 1994

Ninguem acreditava ou concebia em 1994 que ondas maiores de 6 pés pudessem ser surfadas com uma 5'7''.
Eis que Sonny Miller, diretor americano da série The Search idealizada pelo gênio louco Derek Hynd e bancada pela Rip Curl, exibe evidências de vida extra terrestre sobre as ondas.
Foi em Bawa, uma direita tambem conhecida como Fishbowls, num ponto (então) remoto da Indonésia que Tom Curren aparece surfando com uma prancha emprestada, 5'7" x 19 1/4" x 2 1/8", fazendo o que então nenhum outro homem tinha tentado.
Curren deslizava ao som duma Jam session que ele mesmo distorcia a guitarra com toques psicodelicos a lá Hendrix.
Suas curvas eram tão suaves e precisas que a partir dali as fishes, antes pranchas relegadas a condições de menor impacto, subitamente se elevaram ao patamar de design válido para toda e qualquer onda.
Ainda em 94, Log Cabins quebrou enorme e la estava Curren testando os limites da sua Fireball.
A Fireball era criação do Tom Paterson, irmão do lendário Michael Peterson, e dizem as boas línguas que a 5'7'' do Curren tinha seis canaletas e um degrau no meio delas que chamava-se step bottom.
Se hoje qualquer loja de surfe bacana que se preze tem uma fishezinha pra expor, isso deve-se ao Curren, 1994, em Bawa e ao Sonny Miller.

É um trabalho duro, mas alguem teve que faze-lo - antes.

sexta-feira, junho 13, 2014

Just another fucking surfer...

Apenas outro surfista ?


Cara, tenho uma pergunta pra te fazer, por que não tem uma única onda do Curren no teu filme ?

Eu tinha acabado de assistir o Deeper Shade of Blue e apesar de ter adorado o filme do início ao fim, não entendia como um filme que conta a história do surfe e dos diferentes estilos de se divertir na onda não tinha o mais elegante de todos surfistas - me permitam abrir um parêntese imaginário pro Phil Edwards e Mickey Dora.
Conversava com Jack McCoy no ano passado durante o Primeiro SAL (Surf at Lisbon Surf Festival) e resolvi perguntar por mera curiosidade - minha e do João Valente (editor da Revista Surf Portugal) - e a resposta não foi menos que surpreendente.
He's just another fucking surfer, disse McCoy, mal traduzindo seria algo como, ele é apenas mais um surfista, pôrra!
Aquilo me chocou, mas Jack não parou por ali.
Qual foi a contribuição do Curren pro surfe ? Ele surfava bem, e daí ?
Tambem não tem onda do Occy no filme...
McCoy me olhava com alguma irritação, aquela não era o tipo de pergunta que ele preferia responder.
Um dia antes ele recebera o prêmio de melhor filme do Festival e eu tive a honra e o privilégio de entregar com toda reverência que a solenidade merecia.
Estávamos no saguão do hotel que a família McCoy se hospedava - estavam todos lá, esposa e casal de filhos, aproveitando o melhor que Lisboa tinha para oferecer e, de quebra, exibindo sua última obra prima.
Jack falou que pesquisou pro filme como nunca tinha feito antes, ele e Derek Hynd se reuniam e discutiam por horas a fio sobre o que era relevante ou não na história do surfe.
Separaram mais de oitenta diferentes perfis de todos surfistas que fizeram algum tipo de contribuição ao esporte nos últimos cem anos - divididos em mais de 17 categorias.
Assistiram e re-assistiram todos filmes que conseguiram botar as mãos, desde a época do Duke até Kelly Slater e companhia.
O primeiro corte do filme tinha mais de tres horas e meia!
O diretor havaiano, radicado na Austrália, disse que passou uns dois anos sem saber direito o que fazer com aquele catatau de imagens que tinha compilado.
A meta que ele e o caolho decidiram mirar era escolher surfistas que tinham feito algo grandioso na arte de surfar e deixado uma marca na areia, apontando pra frente.
Curren e Occy sempre estiveram entre os primeiros que fincaram a bandeira do desempenho em alto nível para minha geração. 
De repente me deparo com a possibilidade daquilo não representar absolutamente nada...
Foi um choque.
A escolha dos personagens não foi tarefa fácil, diz ele, muitas vezes Derek achava que um camarada merecia estar na lista por inúmeras razões e Jack discordava.
Outras vezes, Jack estava convicto que fulano era fundamental e Derek enlouquecia com a escolha.
O processo passava literalmente pela defesa de determinados casos como se estivessem numa corte de justiça, até que finalmente os dois concordassem.
McCoy vacila por um instante e Valente continua a pergunta que fiz, ainda mais implicante e elaborada, 
Jack, voce reconhece que fazer um filme sobre a história do surfe e não colocar uma onda do Curren, ou melhor, colocar mas não dar sequer o crédito é como uma blasfêmia, não ?
McCoy sorri um sorriso muito do sacana e conta mais uma das suas irresistíveis histórias,
Voces sabem que a premiére mundial do Deeper Shade of Blue foi em Santa Barbara ?
(Detalhe, Tom Curren é de Santa Barbara)
Nós dois, eu e João, ficamos ainda mais curiosos...
Terminado o filme, seguia McCoy com sua descrição, eu perguntava pras pessoas, o que voce achou do filme ? e tudo que me respondiam era, Cadê o Tom Curren ?
Bom, voce quer mesmo saber ? Ele é um excelente surfista, mas não fez muito pelo surfe.
All Merrick, que fazia suas pranchas, deveria ter mais reconhecimento...
A lista de gente que ficou fora do filme é grande, diz Jack, sem pena do que ficou pra trás.
Ele passa a enumerar as pessoas que não são nem citadas no filme, todos balançamos a cabeça em consentimento.
Não resisto fazer uma última pergunta, e todo esse material, toda essa pesquisa...
Voce não tem vontade de continuar contando todas essa histórias ?

Do alto dos seus 62 anos, Jack responde com um suspiro, longo e profundo.