sexta-feira, maio 27, 2016

Diario de Sagres

Um Rei no seu reino
Sagres, 24 de Maio 2016

Foram quase quatro horas de trem até chegar a Lagos, vindo de Lisboa.

E já chegava atrasado para o jantar.

Não é facil sentar numa mesa onde estão já acomodados, Wolfgang Bloch, Andrew Kidman, Sandow Birk e Rusty Miller.

A sensação é estranha.

Alguma coisa de não pertencer a mesma estirpe daquela turma e ao mesmo tempo aceitar que, afinal de contas, somos todos apenas surfistas famintos de experiências e sedentos de histórias, nada mais.

Sobra-me a cabeceira, copo de vinho à frente, chouriço alentejano e uma vontade enorme de ouvir todas conversas paralelas.

João Rei, anfitrião do Sagres Surf Culture, me recebe com um sorriso largo e uma pergunta,

Já comeu, Júlio ?

Esse é o quinto ano que João faz isso aqui acontecer e ainda me custa acreditar que nessa primeira edição internacional, sou o único a falar portugues.

Sagres 



Sagres, 27 de Maio 2016

Passaram-se tres dias tão intensos que não houve tempo sequer para escrever.

Fizemos uma caminhada guiada de duas horas, um geólogo e uma bióloga nos explicando os pormenores da fauna e da flora dessa costa assustadoramente bela.

Paramos para almoçar na praia de __________ e Rusty Miller, 73 anos, trocou a roupa e deu um mergulho no mar gelado do Algarve como se fosse a coisa mais natural do mundo - e é!

A energia do homem é fenomenal.

Lars, o fotografo alemão que nos acompanhava, bufava e resmungava em ingles,

Como pode o Rusty ter caminhado por duas horas, descido o despenhadeiro e já está lá em cima nos esperando enquanto eu mal consigo me aguentar em pé depois de subir o barranco...

João tambem nos preparou uma visita guiada ao Forte e ao Farol, acompanhados pelo historiador Artur de Jesus que parecia tão encantado com as histórias que contava quanto seus ouvintes.

Ao final do passeio, diante de tanta informação, era dificil saber quem estava mais deleitado, nós com a riqueza dos detalhes dos reis e navegadores portugueses, ou o Artur ao perceber que estava ali diante de figuras com trajetórias de vida tão ou mais fascinantes do que alguns dos seus personagens.

Nem todos, nomeadamente Rusty, duas vezes finalista do Duke Kahanamoku em Sunset, pioneiro das bombas havaianas, primeiro surfista em Uluatu - ainda por cima filmado por Alby Falzon em agosto de 1971 e eternizado no clássico Morning of the Earth.







domingo, maio 22, 2016

O que passa na sua cabeça ?

[Coluna Sopa de Tamanco, Abril 2016]

Havai, 2011 Era pré ataques virtuais



Hoje tive saudade do tempo anterior ao nosso.

Um tempo onde os amigos se encontravam sem querer, dois ou três anos sem se ver, sem se falar, e ficavam verdadeiramente felizes de se encontrar novamente.

Eu sinto falta dessa sensação.

Acho que não fomos feitos para acompanhar todo e qualquer movimento que um amigo faz ou deixa de fazer.

Deveria haver um mistério em cada pessoa e uma surpresa em cada encontro.

Pode parecer papo de velho, e é papo de velho, mas acreditem, havia menos atrito.


Tenho um grande amigo, desses que voce faz festa quando esbarra e passa duas horas conversando sem perceber que o tempo passou.

Na vida toda, devo ter o encontrado umas tantas vezes, nada que justifique uma amizade profunda e celebrada, mas sempre tive grande alegria em ve-lo.

Graças as redes sociais, passei a ter contato quase diário com o camarada.

No inicio, um grande alivio poder reduzir as distancias, finalmente acompanhar o que passava por aquela cabeça arguta e atenta, primeiro pelo seu blogue, depois através de outras ferramentas.

Era bacana ter a sensação de estar mais uma vez no banco do carona, voltando do Hang Loose pro em Imbituba, discordando de quase tudo e concordando com o que restava.

Aos poucos percebi que sua participação, postagens, era bem acima do média dos outros contatos, ou seja, tínhamos ali quase uma narração em tempo real do que passava, ou não passava, pela cabeça do camarada.

Não preciso disso, pensei.

O que era antes um conforto, tornou-se fardo e voce imediatamente passa a se incomodar com aquilo.

Mesmo quando voce ainda é adolescente e mora em casa com seus pais e irmãos, não é necessário saber tanto assim o que se passa na cabeça deles, existe um filtro natural pra isso, chama-se bom senso e serve pra quem fala e pra quem escuta - substitua por quem escreve e quem le.

Por mais que voce tente se esquivar, acaba por julgar tanta informação derramada ali na sua frente, nem que seja apenas um ralo certo e errado.

A armadilha é essa, a falsa proximidade que estas situações criam e suas possíveis consequências.

De repente, voce se dá conta que talvez no proximo encontro real não se repita a festa dos últimos três ou quatro e tudo que havia pra ser dito já foi virtualmente dito, ou escrito, e os dois são atingidos por enorme enfado…

Exceto se no meio disso tudo entrar uma escapadela pra pegar onda em algum lugar remoto, sem a multidão faminta, sem os gritos, sem as disputas.

Nesse caso específico e improvável, os dois velhos amigos serão apenas isso, 

dois velhos amigos.

O surfe seria apenas uma desculpa para deixar tudo de lado e ir pro mar lavar a alma - sim, eu também uso essa palavrinha tão maltratada pelos surfistas…

Dentro d’água voltamos ao que há de mais primitivo nas relações e nas reações.

E ao final de uma boa onda surfada, esquecemos tudo (os mecanismos de agressão, de defesa, as posições hierárquicas no grupo e a delimitação de território) e ao ver o amigo, estamos prontos para o abraço.



Esse é, apenas, um dos motivos que eu surfo.

quarta-feira, abril 06, 2016

A revolução foi televisionada

[Texto de maio 2015, para a Revista Hardcore e Surf Portugal]


Um certo domingo em 1991

Teco Padaratz mal podia conter seu sorriso ao entrar ao vivo no Esporte Espetacular, domingão de sol, praia cheia - cheia, não, lotada.

Abarrotada.

Tinha qualquer coisa naquele sorriso no canto da boca que denunciava tantas memórias, sonhos e desejos que até o próprio Teco duvidava.

Em 1991, a cobertura do evento carioca da ASP, Alternativa Pro, primeira das duas etapas do circuito mundial pré-WCT que tínhamos no Brasil (a outra era o Hang Loose Pro), comentava com espanto as dimensões que o surfe tomava, Pedro Falcão escreveu assim na então mais vendida,

O português Nuno Jonet fez a locução e no domingo decisivo havia cerca de 10 mil pessoas na praia. 

Flávio Padaratz precisou de proteção policial para escapar do assédio dos fãs

"Isso tá maior que a torcida do Curren no Op

declarou o campeão mundial de 1988 Barton Lynch, antes da semifinal.

Estávamos todos em êxtase com a enorme atenção que o surfe ganhava no despertar da década, Rede Globo, Bandeirantes, todos grandes jornais, imprensa especializada, fanzines e rádios juntos pela popularização do surfe brasileiro. O frenesi subia pela espinha de cada entusiasta.
A hora era agora e ninguém seria capaz de escapar da febre do surfe que chegava chegando.

Quase 25 anos depois, a febre não passou de uma gripe e agora se anuncia como epidemia.

Explico, pela terceira vez, depois do namoro inicial nos 70 e os alucinados 80, o surfe parecia embalado nos 90 pra ganhar de vez o coração dos brasileiros.

Apenas em 2015 podemos ler na capa dum jornal popular (verdadeiramente popular, não os jornalões) que  - Fla, Flu e Vasco não fazem nem marola - A Onda agora é outra (Jornal Extra, Rio de Janeiro, segunda feira, 18 de maio de 2015), comparando o sagrado futebol de domingo com a conquista do Filipe Toledo na etapa brasileira do circuito mundial.

Não há prova mais viva e retumbante da chegada do surfe ao povo.
Aquele povo que não pode, ou não quis, ir até a praia fazer parte dos 30.000 torcedores gritando e fazendo todo tipo de barulho apoiando seus irmãos.

Caso rolasse uma lágrima pelo rosto ainda perplexo do Teco, ninguém ia estranhar.

Dentro d’água, Filipe Toledo em transe competitivo ignorava tudo que acontecia - a única coisa que interessava era não cair da prancha.

Quando Filipinho não cai da prancha, nada o detém.

A revolução está ao vivo

Kelly Slater recebeu a mensagem em 2013, durante a etapa francesa do Tour.

Quartas de final, Slater X Toledo, ondas de um metro, perto da beira.
Toledo com 17 anos contra Slater aos 41.
Uma bateria que parecia resolvida no papel, o Careca já tinha batido Filipe na quarta fase e a França adora Kelly - sempre adorou.
Filipe vinha de dois 25ºs e dois 13ºs, começara bem o ano com dois 5ºs mas perdeu o trilho.
Slater, por outro lado, começou 2013 com uma vitória na Goldie, outra em Fiji, um 2º em Tehupoo e não parecia disposto a perder pra ninguém fora dos top 5.

Foi uma destruição completa.

Jornalistas estrangeiros tentavam desesperadamente achar um motivo para a mudança de foco, mas a verdade é que Toledo amadurecia seu surfe elétrico e criativo para se adaptar ao WCT e dois anos depois, o mundo estaria aos seus pés.

Definindo o indefinível

Brad Gerlach definindo o surfe do Filipe para o site Beachgrit:

Ele é tecnicamente superior - então ele nem pensa. Surfa de uma maneira tão espontânea que você nunca sabe o que ele vai fazer.
Ele mesmo não sabe.
E isso é foda!
O que me surpreende em muitos caras que vejo por aí é que são muito confiantes mas parecem conservadores quando competem.
Filipe está sempre empolgado em ir surfar!
A postura dele é boa, mas seu pé da frente a principal razão da superioridade.
Ele não usa o pé da frente como Bede ou até mesmo como Conner (Coffin, treinado pelo Gerlach) se voce quer saber.
Slater também é assim.
Dane (Reynolds) também sabe usar o pé da frente como ninguém, mas também sabe usar o pé de trás.
O pé da frente é a aceleração.
Voce usa todo seu peso e cintura no pé da frente pra acelerar.
Quando voce coloca peso demais no pé de trás, há um atraso quando voce muda pro pé da frente.
Filipe tem pleno domínio do pé da frente, então ele nunca perde tempo tirando de um e passando pro outro, ficando agarrado em cima da onda… 
E a principal razão dele conseguir acertar tantos aéreos é que ele sabe onde vai cair antes de decolar.
Quanto melhor surfista voce é, mais devagar a onda se apresenta pra você.
Pro Filipe, a onda parece lenta e ele tem tempo suficiente pra pensar exatamente o que vai fazer.
É uma coisa linda de ver.

Devo acrescentar que pouca gente no mundo do surfe hoje pensa a técnica em tão alto nível quanto Brad Gerlach.


Nada como um dia atrás do outro

O que acontece agora na WSL não tem precedentes.

Mineiro em primeiro, Toledo em segundo.

Se 2014 foi impressionante pelo domínio do Medina, logo no ano seguinte o Brasil mostra que Gabriel não foi apenas um fenômeno isolado.

Em quatro eventos, cedo demais para qualquer previsão honesta, a nação dominante deixou de ser Australia ou Estados Unidos e passou a ser o Bananão.
E atenção que Gabriel ainda nem entrou no jogo.
Não se enganem com o atual campeão mundial.
Ele tem só 21 anos e ainda mastiga os louros do título pensando no doce sabor da vitória.
Não é difícil imaginar Medina arrastando duas ou tres etapas daqui pra frente, entrando na briga pelo caneco, com Mineiro, Toledo e Fanning. 
Se não acontecer nesse ano, no ano seguinte ele volta com tudo.
Slater ganhou seu primeiro em 92, deixou Derek Ho ganhar em 93 e saiu enfileirando 5 títulos de 94 a 98.
A bola está em jogo.

Fascinante transição

Eu sei que Italo teve uma atuação incrível, assim como Jadson, mas tudo que vamos lembrar em 5 ou 10 anos é o desempenho do Filipe.
O sul africano Craig Jarvis, ex-editor da revista Zig Zag e um dos mais argutos observadores do circuito escreveu suas impressões pro Tracks australiano sobre o evento:

Filipe Toledo venceu o Oi Rio Pro, e venceu o campeonato com possivelmente a melhor performance (prefiro desempenho, mas vou respeitar o clichê) jamais vista no surf profissional. Os superlativos fluem com facilidade: os melhores aéreos já realizados em uma competição, a melhor performance em um campeonato, o surf mais progressivo, a multidão mais selvagem, o maior público, e o maior evento de surf de todos os tempos. Um surfista que literalmente mudou a forma como assistimos o surf. Filipe merece cada um destes superlativos, transformando fechadeiras de merda de um beach break nos maiores aéreos do dia com a agilidade de um ginasta Olímpico. Aos 20 anos de idade Filipe tem o mundo à sua frente.


O maior site de surfe do mundo, Surfline, escreveu que Toledo é,
O melhor surfista de ondas pequenas jamais visto.
Palavras deles, não minhas.

Se no ano passado havia muita desconfiança em cada conquista do Medina, agora, como disse o jornal citado no início do texto, a onda é outra.
Somos nós, os brasileiros, que devemos pedir calma aos estrangeiros, nem tanto ao mar, nem tanto à terra.
O mais absurdo disso tudo é que talentos como Owen Wright, Julian Wilson, Parko, Taj, Florence, Slater e Jordy Smith já nem entram mais nas discussões sobre título.
Se antes era raro ler uma linha sequer sobre as atuações dos brasileiros nas coberturas publicadas fora daqui, a coisa mudou de figura.

Não demora teremos, como em 1999 (Neco em primeiro, Fia em segundo, Ribas em terceiro no US Open), tres surfistas entre os 4 primeiros.

Desde 2011 um surfista brasileiro não vencia em casa, o grito estava entalado na garganta e a festa nunca foi tão linda.







10 coisas que não vamos esquecer do Oi Rio Surf Pro 2015

1 - A distancia do Filipe pro resto nunca foi tão grande e as duas notas 10 evidenciaram isso.

2 - Atuação do Mineiro na primeira fase foi de outro mundo.
Puro coração, sem deixar a estratégia de lado.
Poucas vezes a torcida delirou tanto…

3 - A Medinamania chegou pra ficar.
É hora do Mauricio de Souza criar logo um personagem em quadrinhos pro Gabriel.
A histeria em torno do rapaz é de impressionar até quem já esteve do outro lado, como Slater.

4 - Já não temos mais um palanque, aquilo era uma cidade.

5 - A WSL está mudando o jeito do publico se relacionar com o surfe profissional - e isso é um elogio.
A diferença entre o evento de 2015 com os últimos 3 anos é gigantesca.

6 - Desta vez na transmissão a maioria era de gente que merece e deve ser ouvida.
Pedro Muller é a melhor aquisição que a WSL poderia fazer e acompanhado do Fabio Gouveia, Renan Rocha e eventualmente do Teco, fica ainda melhor.
Binho Nunes cairia bem nessa turma.

7 - A cobertura da grande imprensa.
Nunca o surfe foi visto por tanta gente com lente de aumento.
Mesmo com uma quantidade enorme de sandices, entre mortos e feridos salvaram-se todos.
O saldo foi positivo.

8 - A polemica da água imunda.
Aquela região tem água imprópria desde os anos 90, mas foi bom que o biólogo Mario Moscatel tenha aproveitado a atenção e jogado luz no assunto.
Em tempo, São Conrado nunca foi uma alternativa real pros eventos cariocas.
Desde que foi especulado pela primeira vez, uma exigência dos surfistas, nenhuma houve palanque alternativo - pela mesma poluição de 2015.

9 - Uma semana depois de terminado o campeonato, ainda era possível ver Filipe Toledo passeando no Shopping, ou John Florence de rolezinho pela cidade.
O circo se recusa a ir embora.
Rumores que Florence convidou Medina e Toledo para gravar uma sequencia do seu filme novo aqui no Rio de Janeiro.

10 - A festa.
Como esquecer a festa ?















segunda-feira, dezembro 21, 2015

Por quem dobram os sinos ?


[Resenha dos campeonatos de Bells e Margies, abril de 2015]

Ever tried. Ever failed. No matter. 
Try Again. Fail again. Fail better. 

Samuel Beckett


3… 2… 1!

Pausa para o jogo do século XXI

As histórias dos grandes retornos são as que mais fascinam.
Um sujeito, ou time, acuado com medo do fracasso supremo é capaz de coisas que até o homem duvida.

Final da Champions, 25 de maio de 2005, entre Milan e Liverpool, jogo que ficou conhecido como O Milagre de Instambul. 70.000 pessoas presentes.

O esquadrão do Milan meteu 3 logo no primeiro tempo, sem pena.
O time italiano tinha Kaka, Dida e Cafu, Seedorf, Maldini, Pirlo, Crespo e Shevchenko.
Liverpool foi pro intervalo e seu técnico, o espanhol Rafa Benitez, convenceu os 11 homens a lutar como se fosse o último dias das suas vidas.

De volta pro segundo tempo, em mágicos 6 minutos o time inglês empatou o jogo, embalado pela torcida ensandecida cantando o poderoso hino You´ll Never Walk Alone - mesmo que seus sonhos sejam varridos e arrasados, você nunca estará sozinho!

Encerrada a surpreendente partida, vieram as cobranças dos penaltis, vitória do Liverpool, 3 x 2.

Esse foi apenas um dos grandes exemplos que o esporte insiste em nos ensinar, nunca desista, principalmente se quase 40.000 torcedores apaixonados te empurram pra frente.

Já dizia Taylor Knox (que ganhou apenas um evento em toda carreira no WCT), quem desiste nunca será um vencedor e um vencedor nunca desiste. 

Tenha Adriano de Souza na cabeça durante o resto do texto.


Por quem dobram os sinos ?

Mal deu tempo para digerir a vitória do Filipinho na primeira etapa e já estávamos todos completamente envolvidos com a previsão de ondas do Rip Curl Pro em Bells.
A euforia era enorme, alimentada pela possibilidade de ondas pequenas, e a esperança dum segundo triunfo do furacão Toledo - principalmente se lembrarmos do jeito que foi a lavada.

Ou mesmo a tão aguardada volta do Medina ao pódio.
Especulava-se tudo, Slater, Florence, Julian, Taj… incrivelmente o nome do Mineirinho não era assim tão repetido.
Justo ele, campeão em 2013, mais experiente do conterrâneos no WSL, vindo de um terceiro lugar no Gold Coast, eliminando o favorito local Mick Fanning na quarta de final.

A primeira fase foi um banho de água fria, todos brasileiros perderam, Medina foi o único que sobreviveu.

Um pequeno abalo foi suficiente pra fazer Toledo acordar e simplesmente destroçar os havaianos Dusty Payne e Seabass.

Durante todo campeonato o surfe beirou o sofrível, com médias baixas e nível de surfe que nos faz duvidar várias vezes desse formato engessado.

A onda de Bells carrega uma história que se confunde com a própria história do surfe profissional.

Foi ali que Michael Peterson consolidou a lenda de maior competidor do seu tempo e também foi ali que Mark Richards começou a fantástica corrida que lhe daria quatro títulos mundiais.
Todos grandes surfistas já vencerem em Bells, Carroll, Curren, Potter, Andy, Sunny, Occy, Parko, Fanning, Slater.
Existe uma mística no lugar que não permite que o circuito se afaste dali, mesmo com toda antipatia que existe hoje com a onda.

A gritaria acusando Bells de ser uma onda cheia, sem graça, encontra coro por todo lado e até faz algum sentido, mas o esporte precisa dos seus símbolos e Bells é um dos nossos poucos templos obrigatórios.

Nem que fosse apenas para reverenciar passos fundamentais para a evolução do surfe, como a (re)invenção do surfe de backside pelo Wayne Lynch nos anos 60, ou a afirmação da triquilha como equipamento funcional por Simon Anderson nos 80.

O ritual reconhece a história sem deixar de apontar pra frente, basta lembrar da final entre Fanning e Slater em 2012, uma derrota doída do Careca, com nota 10 e full rotation executado à perfeição e tudo.

Bells é uma onda de repetição, nos últimos 20 anos tivemos Sunny Garcia, Parko e Andy Irons vencendo 3 vezes cada, Slater e Fanning (como já veremos) mais 4 cada um.

Bells Bowl, 4 a 6, Terral

Desta vez não vimos as condições perfeitas, a suposta onda capaz de elevar o surfe de garotos ao próximo degrau.
2015 será lembrado como o ano do julgamento confuso.
Jordy e Jadson foram duas vítimas dessa confusão.
Jordy, como bem percebeu Steve Shearer, astuto jornalista australiano, sofre com o preconceito que armou-se em torno dele de que o sul africano não seria tão eficiente em ondas pesadas de verdade quanto é nas direitas da sua predileção - J. Bay, Testles, Snapper, Bells.
O fato dele ser descartado numa corrida séria ao título amassa suas notas contra o peso de um Fanning, ou Parko - supostamente candidatos legítimos.
Mas isso são apenas suposições e nós sabemos que nada disso faz sentido.

Jadson foi melhor que Fanning nas oitavas.
Em nenhum momento o Macaco Albino foi o surfista do campeonato, nem ele nem Mineiro.
Os dois foram eliminando a concorrência silenciosamente, sem nenhum alarde, com a frieza de um assassino contratado.

Quando se encontraram na final, em ondas horríveis, mexidas, deformadas, seria a terceira vez na temporada em apenas dois eventos.
Uma vitória pra cada um, sendo que Adriano ignorou Mick nas quartas do Quik Pro.
Tinham contas para acertar.
Mineiro foi preciso, Fanning ligeiramente mais insinuante.
O resultado foi como deveria ser, polemico, suado, por que não justo ?
Veremos isso logo adiante, na etapa de Margaret River…


Acabei de ganhar do melhor surfista do mundo!

A Arte da ficção

Permitam que se use aqui um pequeno trecho da entrevista do escritor americano Ernest Hemingway, notório também pela sua queda por touradas, corridas de cavalos, caçadas e guerras, em 1954, num café em Madri.

Hemingway pergunta ao seu entrevistador,
Voce costuma ir às corridas ?

O entrevistador responde,
Sim, as vezes.

Hemingway,
Então voce le os programas das corridas…Ali voce tem a verdadeira arte da ficção.

A mesma coisa acontece quando lemos a lista das baterias do campeonato.
O papel aceita tudo.

Quando todos sites, inclusive a WSL, começaram a analisar o quão grande poderiam ficar as ondas em Margaret River, a expectativa de assistirmos um evento da magnitude do Fiji Pro de 2012 parecia iminente.

Parko teria encomendado uma prancha de 8’, pela primeira vez em muitos anos o fã poderia ver seu surfista preferido usando as gunzeiras fora do Havaí.

Na minha cabecinha doente, recordava-me de um campeonato em 1990, que aparecia no primeiro Sarge surfing Scrapbook, uma serie de videos que o fotografo Paul Sargeant fazia nos anos 90.
Margaret River ainda era um mistério nessa época, pouco aparecia nas revistas ou filmes.
No jornal Tracks, Derek Hynd descreveu as condições como 15’ a 20’, as maiores já vistas fora do North Shore na ASP.
O Tahitiano Vetea David surfou com uma 8’6’’, Tom Curren conseguiu uma 9’1’’.
Ainda não se falava em The Box.

Corta para 2015, voce olha a lista de baterias da primeira fase, nome por nome, depois ouve o locutor falando que The Box tem quase 10 pés de onda.
Aquilo é um moedor de carne.
O túmulo dos goofys.
Tambem é o sonho do Kieran Perrow, surfista mediano que sempre se destacou nessas condições extremas.
KP tem a chance de expor essa nova geração ao ridículo e fará de tudo para isso - ou não.
As médias são lamentavelmente baixas.
Slater vence a sua bateria com um total de 8,2.
Ninguem faz mais de 16 pontos em toda primeira fase!

A segunda fase começa com a derrota do Medina e Toledo.

Nada empolga muito até Owen Wright se atirar em duas ondas que serão repetidas à exaustão nos próximos 10 anos.
Sua irmã, Tyler, gritava do canal pra ele não dropar a bomba - ainda mais de costas pra onda.
Engraçado que foi preciso um goofy pra mostrar como se faz naquela deformação de onda…

O campeonato parecia feito sob medida para Owen, Slater e John John.
Ondas enormes, pesadas, perfeitas mas nem tanto.
Nenhum brasileiro entrava nas listas de favorito.
Mineiro sobrevivia com a garra de sempre e já era o dono da camisa amarela depois que Fanning perdeu para Jay Davies sem tanta empolgação.
Mas como resistir ao ataque do Slater em Margaret no terceiro e maior dia de competição ?

Tema de Kelly

São anos demais de circuito.
Ele já não tem mais a mesma energia, nem motivação.
A idade começa a lhe cobrar o preço.

Fale o que quiser do camarada, quando é chegada a hora de revelar sua majestade, Slater ainda é capaz de fazer o impossível.
No meio dos 34 existe muita gente que faz o diabo, cada um dos seu jeito, em determinadas condições, mas Slater molda as condições ao seu bel prazer e as transforma em arte.
Seu 10 contra o pobre coitado do Glen Hall podia ser um 15 - fácil.
Surfando com uma prancha abaixo da média, uma mera 6’3’’, bat tail (rabeta batman), Slater fez uma linha anormal numa das maiores ondas da bateria, entubou com a categoria de sempre, saiu limpo, rasgou usando toda parede como quem desejasse acariciar um dragão começando pela cabeça e terminando com a ponta da cauda.
O que ele não sabia, nem esperava, é que tinha um Mineiro no meio do caminho…

Ace Buchan, 16 de março de 2009

No blogue que Adrian Buchan escrevia no Surfline, muito bem escrito diga-se de passagem, Ace refletia sobre a primeira etapa e concluia que competir em alto nível no circuito mundial não é para qualquer um, a pressão é enorme e o sujeito tem que gostar da batalha, dizia ele.
Veja o que Ace escreveu sobre Adriano,

Por isso Adriano é  bem sucedido, porque ele ama a disputa. Obviamente ele surfa muito, mas ele ama a competição. Na primeira fase ele quase remou por cima do Jordy para defender sua liderança (2009). É por isso que Kelly tem(tinha) nove títulos. Mesmo podendo confiar no seu talento para avançar mais da metade do tempo, quando necessário ele afronta seu oponente e briga pelas migalhas. 
No final do dia é o surfe que fala mais alto, voce não quer se engalfinhar pra passar a bateria. Para mim, é disso que o esporte é feito e por isso é tão empolgante. Ver pessoas se testando em situações de aperto e tendo que brigar por aquilo. Eu amo aquilo!

Nós aqui na Hardcore tambem amamos isso, Ace!

Aqui é Mineiro, porra!

John John era o Milan, irresistível, atropelando todo mundo, cartel de vitórias arrasador, repleto de jogadores caros e talentosos - metendo 3 gols no primeiro tempo da final e praticamente decidindo o jogo.

Mineiro pode ser representado pelo Liverpool, um time aguerrido, mas desacreditado, liderado por um técnico mestre na estratégia e que não desiste jamais.
Depois de ter lutado tanto e chegado tão perto de ser o primeiro campeão mundial brasileiro, Adriano viu Medina roubar seu sonho.
Ou parte dele.
O sonho de ser campeão mundial permanece.

O primeiro gol foi marcado no Quik Pro, vice em Bells, oitavas já garante a lycra amarela pro Rio.
Agora vamos pros penaltis.

Na folha das baterias, uma bateria entre Slater e Adriano num mar de mais de 8 pés resulta num massacre, só que não.
Desde 2010, em Porto Rico, De Souza já enfrentou Slater 10 vezes e perdeu apenas uma.
Ninguem no circuito entendeu melhor como funciona o jogo.
Eu sei que tenho que ser melhor do que ele (Slater) nos 30 minutos, porque nunca serei melhor que ele fora das baterias, declarou Adriano para a adorável Chelsea quando saiu do mar.

Mineiro é um dos únicos, senão o único a ter um retrospecto de 100% pra cima do Gabriel Medina, são 6 x 0 e isso não é pouco!

Alem de eliminar Slater, Mineiro ainda tinha o herói local, Taj Burrow (que vai ser papai!) pela frente.
Surfando com o livro de regras debaixo do braço, sem errar, escolhendo as ondas com perfeição e, principalmente, sem cair da prancha, Adriano foi batendo os seus penaltis até o triunfo final.

Exultante ao sair da final contra Florence, Mineiro ajoelhou no chão, agradecendo aos céus e ao seu anjo da Guarda, Ricardo dos Santos, pela glória alcançada.

Eu acabei de ganhar do melhor surfista do planeta!

A consciência brutal de se reconhecer inferior ao camarada que ele derrotou mostra uma maturidade digna de quem está pronto para cumprir seu destino.

E todos nós sabemos que Mineiro não vai descansar enquanto não levantar o caneco de campeão mundial.








segunda-feira, novembro 23, 2015

Tudo Azul



A revista Surfer de Junho desse ano - que saiu em abril- traz uma matéria sobre o livro Blue Mind, (Editora Little, Brown and Company; EUA - Julho 2014) do biólogo americano Wallace J. Nichols.

A teoria de Nichols é que a água nos oferece o maior atalho para a felicidade.

Simples assim.

Depois de pesquisar durante anos a relação do homem com a água, junto de psicólogos, neurocientistas, surfistas, mergulhadores e toda sorte de gente que luta pela conservação da natureza, Nichols chegou a uma série de conclusões que acabou por virar um dos livros mais emblemáticos dos lista dos mais vendidos do New York Times.

Blue Mind começa por mostrar que todos nós somos gerados e já nascemos cercados de água, com o tempo somos obrigados a aprender a viver longe dela - ou sem ela em volta.

Vamos secando - para usar uma metáfora bem adequada.

De certa maneira, diz o livro, passamos boa parte da vida tentando voltar para aquela sensação boa que nos remete as primeiras memórias de ser vivo.

Os estudos de Nichols testam as reações do cérebro em diferentes ambientes aquáticos.

Se levarmos em consideração que tanto nosso corpo quanto o planeta Terra é composto por mais de 70 % de água, não é assim tão difícil imaginar o poder de cura, ou apenas bem estar, que o mar possui.
Isso sem contar que os oceanos são responsáveis por metade do oxigênio da nossa atmosfera.

Citando dois psicólogos ambientais, Stephen e Rachel Kaplan, ele menciona dois estados diferentes de atenção: dirigido e involuntário
O primeiro representa o nosso estado de alerta quando aplicado a uma tarefa ou decisão- dirigir um carro, enviar um email, ou escolher qual prancha usar. 

O outro, ocorre quando estamos num ambiente distante do nosso habitat normal, da nossa rotina, ainda assim com alguma familiaridade para não oferecer ameaça e manter nossa cuca fresca e engajada - numa tradução livre.
É um estado de deriva (um termo náutico, como observa Nichols), podemos também chamar de contemplativo, que a água causa.

Nós temos todos sentimos isso. Olhando para o mar, como um dos hipnotizados pelo mar dos livros de Melville
Tudo parece estático, ao mesmo tempo mudando sutilmente - um veleiro, uma gaivota, a maré esvaziando.

Essa é a atenção involuntária, que nós surfistas, assim como mergulhadores e pescadores, nos submetemos quase todos os dias e que, segundo o livro, nos coloca nesse estado que ele chama de Blue Mind.

Você nem precisa estar de frente pro mar.
Pode acontecer numa floresta, ouvindo música no metrô, mesmo em plena aula de matemática, olhando a fotografia duma onda de sonho…

Os estudos apontam para uma série de reações químicas que emprestam ao cérebro sensações que normalmente, principalmente nos dias de hoje, são as vezes alcançadas somente com ajuda de drogas.

Parece papo de maluco, e é.

As pesquisas realizadas mostram que quando estamos próximos da água produzimos uma galáxia de neuro-químicos que nos fazem sentir bem, como dopamina (prazer e inovação), serotonina (bem estar e paz), endorfina (euforia e ausência de dor), oxitocina (amor e união), Gaba (Ácido gama-aminobutírico = serenidade) e até mesmo os endocanabinóides, nossa própria capacidade de criar algo semelhante ao princípio ativo da maconha, reduzindo a ansiedade.

Tudo isso acontece dentro da sua cachola, acredite.

O livro apresenta exemplos de casos perdidos, como um veterano da guerra do Golfo, Bobby Lane.
Lane voltou completamente perdido, desajustado, sofreu traumas sérios na cabeça, não conseguia falar direito, sofria de trauma pós guerra, viciado na super medicação que recebia, resolveu cometer suicídio.
Tentou a morte por policiais, quando um ex combatente faz algo para provocar um oficial até ser alvejado, porque como guerreiro ele mesmo não teria coragem de tirar sua vida.
Bobby acabou fazendo uma aula de surfe numa organização chamada Operation Surf, em Santa Cruz, na Califórnia.
Tres tentativas e ele estava surfando. Meses depois, o veterano recuperou a alegria de viver, descreve Nichols.

Junior Faria procurando azul em preto e branco - Por Jair Bortoleto


Acreditando ou não nas teorias de Nichols, a mensagem é poderosa,

A água é tanto amante quanto mãe, assassino e doador de vida, fonte e dreno... 
Água desencadeia a criança desinibida em todos nós, destravando a nossa criatividade e curiosidade. 
Intuímos os sentimentos uns dos outros, antes mesmo da nossa mente consciente ter tido tempo para processá-los: 
empatia é fundamental aqui. 
Se a água nos permite libertar o nosso eu interior, então ele poderia ser o antídoto para as telas que nos mantêm acordados, ansiosos e espasmódicos.
Em um mundo superaquecido e desidratado, voce precisa de água e a água precisa de você.

A coisa vai adiante,

Na nossa mentalidade ocidental, nós super valorizamos tanto a ciencia que, a ideia de ficar sentado, imóvel, na esperança de transcender parece comica e seus praticantes são motivo de chacota.

Água, conclui Nichols, Medita voce!

Gosto de imaginar o dia em que seremos todos esse senhor de chapéu, apontando para as memórias nem tão distantes, inventando histórias tentando ainda impressionar a escolhida, passados mais de 40 anos ao seu lado... - Foto do Jair Bortoleto

sexta-feira, julho 03, 2015

Acorda, James Jones!

[Texto de Maio de 2014, publicado nas Revistas Hardcore e Surf Portugal]
Itaúna vista e fotografada pelo Smorigo


Acorda James Jones que hoje tá enorme.
Foi o jeito que Bolonha arrumou pra me acordar na minha primeira vez competindo em Saquarema.
Num distante 1988, todos éramos jovens suficiente para dormir em qualquer canto, no meu caso, em cima das capas de prancha, embaixo duma escada, tinha que dar sorte.
Eu já tinha estado em Saquarema antes, quase 3 horas num ônibus, 250 paradas até finalmente chegar na cidade, depois se vira pra chegar na praia.
A praia é Itaúna, a lendária onda que os surfistas mais velhos se referem como a melhor onda do Brasil, é tambem a mais forte, mais traiçoeira, mais perigosa.
Meus piores pesadelos envolviam Itaúna grande e campeonatos.
Sentamos na areia, eu e Marcos, na nossa frente as maiores ondas que já tínhamos visto.
Afinal eram verdade as historias que os surfistas mais velhos nos contavam, depois de sumir por algum tempo e surgir com um sorriso estranho no canto da boca, olhos vermelhíssimos e um cheiro que não parecia com nada que estávamos acostumados em casa - seria algo de comer ?
Cada vez que eram repetidos, os relatos iam ganhando drama e pitadas de horror para acentuar a coragem dos protagonistas e deixar a garotada de boca aberta.
Uma delas falava de um mar clássico, nos idos de 75, ou 76, ninguém lembrava direito a data. O que eles não esqueciam, e cada vez que mencionavam data e local os olhares se transformavam, eram as ondas gigantes e perfeitas.
Teve gente que tentou entrar e não conseguiu e também teve gente que nem ousava pensar em varar a arrebentação.
Rico de Souza, que já era Rico de Souza nessa época, uma autêntica celebridade do nosso jovem esporte, enfrentou as bombas com uma 8’6’’, ficou em terceiro.
Cadinho, Ricardo Meyer, também conhecido pela sigla RK que fazia os melhores skates do país ainda nos anos 70, ficou em segundo, possivelmente surrando com a sua Bill Stonebraker 8’6’’ (essa prancha quebrou ao meio em outro dia épico, ali perto de Saquá, na laje de Jaconé, 10 pés!).
Betão, o extraordinário Betão, surfou nesse dia com uma prancha nove pés (9’4’’) pra ganhar o primeiro Festival de Saquarema.
Se antes desse campeonato Betão já era temido, respeitado e admirado por todos, depois de ganhar justamente esse evento, foi alçado a categoria de lenda viva.
Lá estava eu, sentadinho nas areias de Itaúna, quase 20 anos depois do Festival de 1975, testemunhando diante dos meus próprios olhos uma final entre Daniel Friedman e Picuruta Salazar em ondas fantásticas.
Daniel naquela galhardia de sempre, impecável em cima da prancha, sem um movimento desajeitado, sem excessos, numa linha pura e atemporal.
Enquanto isso, Picuruta atacava as paredes com um jeito diferente e moderno, também elegante, mas também selvagem e agressivo.
Me recordo duma foto do Cauli, se bobear nessa mesmo ano, uma foto pequena, preto e branco, a legenda mencionava algo referente a maior onda já fotografada no Brasil - uma esquerda gigantesca, cascuda, ameaçadora.
Tudo isso veio à tona quando Bolonha me acordou naquele distante e cinzento dia em Saquarema, Acorda James Jones que hoje tá enorme!
Acordei, respirei fundo, preparei a prancha e fui enfrentar meus demônios. Passei em segundo lugar, deixando dois camaradas que se consideravam surfistas de onda grande para trás.
Tenho enorme dificuldade de escrever sobre meu passado de competidor, talvez por sempre identificar um exagero nas auto referências dos amigos colunistas. Ou por ter consciência da minha desimportância.
Esse texto foi provocado por uma breve estadia em Saquarema, motivado pelo Quiksilver Prime.
Nós não temos Indonésia, nem Havaí, nem Taiti.
Não temos um lugar especial que é reconhecido em todo planeta como referência de onda boa.
O que nós temos, é Saquarema, onde o tempo não passa, onde o tempo cisma de voltar repetidamente, ora para assombrar, ora para te alegrar.

Otavio Pacheco e Itaúna, um caso de amor profundo...


terça-feira, junho 16, 2015

Entre Medina e Carlin

Oráculo



O comediante americano George Carlin resolveu provocar o moralismo americano em 1972 e inventou uma piada no seu show que chamava-se, Sete palavras que você nunca pode dizer na Televisão.
Ele simplesmente enumerava as sete e as declamava, desafiador, em ordem, shit, piss, fuck, cunt, cocksucker, motherfucker e tits.

Nem é preciso traduzir, pois não ?

Carlin, um gênio do humor, não perdia uma única oportunidade de listar as palavras nos seus shows, no rádio e onde quer que fosse.

Não que houvesse de fato uma lista de palavras proibidas na época, aquilo era apenas uma brincadeira com o puritanismo da sociedade americana, no entanto o caso foi parar na suprema corte dos Estados Unidos porque um pai ficou indignado quando seu filho de 15 ouviu as palavras em rede nacional na radio.

O caso ficou famoso e foi responsável pelas regras que ainda hoje, em 2015, vigoram nas transmissões de radio e TV dos 50 estados dos EUA - entre 6 da matina e 10 da noite, nada de palavrão.

Consta que Fuck é pronunciado 506 vezes no filme O Lobo de Wall Street (5 indicações ao Oscar, inclusive de roteiro e uma batelada de prêmios) do Martin Scorcese.

A expressão Fuck, que pode ser verbo, substantivo ou mera vírgula, dependendo da situação já não assusta tanto assim o grande público.
O vice presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, sussurrou no ouvido de vossa excelência o senhor Obama em rede nacional durante a assinatura do projeto de reformas para saúde, It’s a big fucking deal…

Um frio na espinha foi sentido de norte a sul - mais no sul.

Pra nossa sorte, as transmissões dos campeonatos de surfe não são assim tão rígidas, ou pelo menos não deveriam ser.


Eu queria agradecer aos meus 6628371 patrocinadores...


Quando Peter Mel resolveu entrevistar Gabriel Medina poucos minutos depois da polemica derrota para o anão de jardim do tour, Glen Hall, sabia dos riscos.

Qualquer sujeito sensato que trabalha com esportes tem consciência de quanto pode ser explosiva uma declaração com os nervos a flor da pele.

Não faz muito tempo, ainda em março desse ano, o sueco Zlatan Ibrahimovic, uma das maiores estrelas do futebol mundial, declarou publicamente que a França era um país de merda e que não merecia o seu time, PSG (Paris Saint Germain).
PSG tinha perdido por 3 a 2 para o Bordeaux e Ibra estava furioso - ele joga na França!

O leitor mais exaltado reclama que os exemplos não são os melhores.

Existem melhores, vejam Slater, Fanning, ou Bobby Martinez…

Medina foi provocado e caiu na armadilha fácil de dizer o que pensava. As escolhas do Kieran Perrow ganharam vaia coletiva na internet, não conheço uma pessoa que não queria ver o Quik Pro nas rampinhas de Duranbah.

Até aí, morreu o Neves…

Criticar as decisões do todo poderoso Comissário geral da entidade não me parece nada de tão grave.
A coisa mais natural do mundo é um jogador questionar os juízes, até mesmo o técnico ou presidente. Nem por isso merece ser punido, ou criticado.

Nosso Ayrton Senna, sempre citado como exemplo de esportista, desancava o presidente da FIA, Jean-Marie Balestre sem cerimonia.
Em 1989, depois de desclassificado injustamente, Senna chamou Balestre de desonesto pra baixo.

Mais uma vez ainda em 2015, Serena Willians entrou em parafuso quando perdeu uma partida no torneio Hopman Cup, pertinho de Snnapers, lá na Australia.

Mesmo em eventos extremamente civilizados e aborrecidos como Cricket, os caras perdem a cabeça.

Dito isso, percebam que Medina nunca se descontrolou diante do microfone.
Ele apenas tentou ser um pouco mais expontâneo do que o esperado e entrou pela cano pela absoluta falta de traquejo da equipe de transmissão da WSL.

Peter Mel estava entrevistando um campeão mundial!
Querem repetir a frase acima 3 vezes, por favor ?
Voce não tira o microfone do campeão mundial quando ele está falando, seja o que for falar - é uma questão de hierarquia e de bom senso.

Quando o campeão fala, nós ouvimos, pronto.

A dupla de patetas na transmissão ficou sem ação quando entraram de supetão no ar, fingiram que nada aconteceu e chamaram a propaganda…

Mais uma prova da alarmante falta de tato da WSL em lidar com o assunto.
O cara tava fulo e todos esperávamos pela bomba.
Chega de bons garotos e discursos decorados.
O surfe, e todos esportes, precisam é de um bom conflito para acirrar as disputas e apimentar o jogo.

Dana White, melhor caso de promotor de eventos bem sucedido da atualidade, incentiva seus lutadores a vociferar contra os oponentes.

O esporte se alimenta disso, atrito!

O público se identifica com os ídolos nas suas frustrações da mesma forma que se projeta nas conquistas. 

O que fizeram com Medina foi molecagem, coisa de amadores. 
Gente que ainda não está preparada pra lidar com algo maior do que já tem nas mãos.

Com a nova direção da WSL, não teremos essa faísca que tanto faz falta ao circuito, pense em Kelly versus Andy incendiando o circo.
Ao menor sinal de fogo, os caras vão pegar extintor, chamar bombeiros e chamar o comercial da Samsung… 


segunda-feira, maio 04, 2015

Molecagem

[Texto de 26.11.2014]

Quem é o Vira-lata ?


          Estamos em dezembro de 2014, um ano difícil para a grande maioria dos leitores dessa revista.

Perdemos uma Copa do mundo em casa.

Uma Copa ganha antecipadamente várias vezes pelos gênios do futebol.

Tivemos uma eleição apertada e disputada como um clássico do brasileirão.

O discurso raivoso aflorou de tudo quanto era buraco.

Sujeito caminhava tranquilo pela rua e de repente saía um iradinho da primeira esquina.

O surfista tinha uma fuga, Medina liderou o circuito mundial de ponta a ponta, exceto por um percalço chamado Travis Logie, justo no Rio de janeiro.

Quando esse texto chegar até você, é possível que já tenhamos um campeão mundial.

O tricolor Nelson Rodrigues enxergava de olhos fechados


Caso contrário, nosso afamado complexo de vira-latas, tão alardeado por Nelson Rodrigues, virá a tona uma vez vez mais.

Da mesma maneira que colocaram a culpa do vexame diante da seleção alemã no fato jogador ter nascido no Brasil, ou da política brasileira ser do jeito que é porque, afinal, somos todos brasileiros - a desculpa de não termos um título é a uma sina, uma marca.

Invertemos o mérito e o transformamos em vergonha.
Faz tempo que é assim.

Quando ainda não tínhamos títulos no futebol, o cronista Nelson Rodrigues destrinchava nosso complexo de inferioridade.

Era exatamente como hoje.

Tudo que vinha de fora era bom - bom não, melhor.

Toda e qualquer coisa que não fosse feita no Brasil era melhor.

Homens e produtos estrangeiros eram superiores.

Quantas pessoas voce conhece hoje, dezembro de 2014, que ainda pensam dessa mesma forma ?

Quase 60 anos depois de criada a expressão complexo de vira-latas…

Um título do Medina não será suficiente para aplacar a vergonha que se esconde atrás de cada assustado que sonha com um passaporte seja qual for, contanto que não traga Brasileiro na primeira página.

Os aviltados gritarão bem alto, Tambem, olha esse povo que nos deram… Brasileiro aceita tudo.

Chile, 1962, sem legenda


Recorro então ao texto que Nelson Rodrigues escreveu quando ganhamos não o primeiro título mundial, na Copa de 1958, mas o segundo, na Copa do Chile em 1962.

Quando triunfamos em 58 decretou o fim da nossa permanente sensação de subalterno, passados apenas 4 anos essa irresistível força bovina que nos arremessa pra baixo da mesa voltava com a força dos aflitos.

Até mesmo os próprios europeus, à semelhança dos australianos e americanos do mundinho do surfe, já acreditavam na nossa condição secundária.

Percebam como é parecido o momento do surfe em 2014 e o futebol em 1962.

Mesmo como Fabinho Gouveia, Victor Ribas, Teco, Neco, Burle, Resende, Maya, Phil, mesmo com Yago e Lucas Silveira ainda tem gente que aponta com um rasgo de embaraço, Coitados, são brasileiros…

O descaso não é deles, é nosso.

Nelson Rodrigues reconhecia um pessimista pelo cheiro, foi pra eles que publicou na revista Fatos & Fotos em 1962 esse texto reproduzido abaixo.

[Após quatro anos de meditação sobre o nosso futebol, o europeu desembarca no Chile. 
Vinha certo, certo, da vitória. 
Havia, porém, em todos os seus cálculos, um equívoco pequenino e fatal. 
De fato, ele viria a apurar que o forte do Brasil não é tanto o futebol, mas o homem. 
Jogado por outro homem o mesmíssimo futebol, seria o desastre. Eis o patético da questão: — a Europa podia imitar o nosso jogo e nunca a nossa qualidade humana. 
Jamais, em toda a experiência do Chile, o tcheco ou o inglês entendeu os nossos patrícios. 
Para nos vencer, o alemão ou o suíço teria de passar várias encarnações aqui. 
Teria que nascer em Vila Isabel, ou Vaz Lobo. 
Precisaria ser camelô no largo da Carioca. 
Precisaria de toda uma vivência de botecos, de gafieira, de cachaça, de malandragem geral.
Aí está: — no Velho Mundo os sujeitos se parecem, como soldadinhos de chumbo. 
A dessemelhança que possa existir de um tcheco para um belga, ou um suíço, é de feitio do terno ou do nariz. Mas o brasileiro não se parece com ninguém, nem com os sul-americanos. 
Repito: o brasileiro é uma nova experiência humana. 
O homem do Brasil entra na história com um elemento inédito, revolucionário e criador: a molecagem.]

A molecagem não é o jeitinho brasileiro de não fazer as coisas, pelo contrário, é o jeito de fazer as coisas.
Nutro um certo desprezo pelos deslumbrados com o que vem de fora.
Pra ficar somente no futebol, vou abusar do recurso de citar e, golpe baixo, encerro com Carlos Drummond de Andrade.

O difícil, o extraordinário, não é fazer mil gols, como Pelé. É fazer um gol como Pelé.

Quero crer que difícil não é fazer o que Medina fez nesse ano, mas fazer do jeito que Gabriel fez…

Todo grande texto nasce desses momentos de silencio e solidão