terça-feira, julho 16, 2019

Boia 23




Não podemos ficar parados diante do clamor popular pela volta do Bóia.
O novo episódio do podcast menos ouvido do hemisfério deveria se debruçar nos resultados da etapa carioca da WSL mas preferiu ignorar completamente o pretérito imperfeito e cuidar do futuro do presente.
João Valente e Julio Adler comentam (repetidamente) como o surfe é percebido por dentro e por fora. Por que Julio evita e foge do substantivo Atleta quando se refere aos surfistas e João tenta, sem sucesso, definir a modernidade do surfe lateral do Italo e Gabriel.
J.Bay aparece brevemente, assim como Olimpíadas, o declínio do Império Australiano no topo do ranking e questões que podem envolver filosofia - ou não.
23 é dia de Jorge, cantava (canta ainda!) nosso estimado Benjor, aproveitamos a deixa para não falar de nenhum Jorge, nem Ben, nem Jesus.
Haja louça!

Café Tacvba no Tiny Desk Concert!



The Damned Street of Dreams 




João Valente e Rodrigo Pimentão gastaram a ponta dos dedos e massa cinzenta para fazer a Visão Surf

http://visao.sapo.pt/edicoes_impressas/2019-06-17-VISAO-lanca-edicao-especial-sobre-Surf

https://www.surfersjournal.com/

domingo, junho 30, 2019

Batucada

Mike Tyson e Filipe Toledo ? Leia até o final



[Eu sei o que voce está pensando.
Uma semana depois ?
Esse cara não pode ser sério…
Todo mundo já escreveu sobre o Oi Rio Pro, por que vou perder meu tempo lendo isso agora ?
Não leia.
Faça algo melhor, não há o menor sentido em escrever sobre campeonatos de surfe.
Ou não…]


Quinta feira, 20/06/2019, primeiro dia do Oi Rio Pro em Saquarema, Pico de Itaúna com ondas boas para o surfista médio, terríveis para quem tinha ainda as imagens da Barrinha em 2018 vivas na memória.

Filipe Toledo em posição semelhante à um toureiro na arena, esticado dentro do tubo, impetuoso, quase arrogante.

Aquilo aconteceu (é bom lembrar), caros amigos, logo em seguida à Copa dos Fundadores no Rancho do Tio Kelly, arrasando com as expectativas de ondas ruins na sequência da mecânica perfeita da natureza artificial de Lemoore.
As previsões para esse ano eram tão boas, ou melhores!, quanto em 2018 e todo primeiro dia decorreu em um grande anti-climax do show da Barrinha.
Jorravam notas abaixo de 6, Ace Buchan reconhecia que a escala do novo chefe dos juízes, Pritamo Ahrendt, era bem mais baixa, exigência mais alta, do que os anteriores.

Simultaneamente ao aborrecidíssimo seeding round, a WSL anunciou que o alardeado acordo com a transmissão exclusiva no Facebook (https://www.worldsurfleague.com/posts/292059/world-surf-league-and-facebook-announce-grounbreaking-distribution-deal) tinha ido pro vinagre pouco mais de um aninho depois do inacreditável gabanço da Tia Sophie (https://digiday.com/media/world-surf-leagues-live-viewership-grown-removing-exclusivity-facebook-live-deal/).

Duas ondas acima de 8 - Yago 9 e Filipe 8


Sexta feira, 21/06/2019, recomenda-se calar se não tiver algo de bom pra dizer.

Duas ondas acima de 8 - Wade 8.5 e Jordy 8.33 em 20 Baterias


Sabado, 22/06/2019, logo cedo já apareciam imagens duma Barrinha de terral, água azul e cilindros ocos e rápidos bastante para fazer inveja ao melhor dia de The Box.
É aqui que começa a fazer diferença a saída do Kieran Perrow do circuito.
KP era o cara que defendia esse tipo de condições para o Tour, advogava mesmo, desafiando competidores e diretores de prova ao teste final - pra dentro!

[Um tubo do João Chumbinho, filmado pelo Mateus Werneck, no final de tarde da sexta espalhou-se depravadamente pela grande rede com enorme rapidez.]

Uma pergunta enorme era repetida silenciosamente na cabeça de cada um dos fãs fissurados - quando iremos para Barrinha ?

Após um início morno, por que não aborrecido ? A categoria feminina foi lançada ao mar numa condição em Itaúna que clamava por revisão.
Slater assumiu, uma vez mais, o papel de protagonista e levou Pat O’Connell para testemunhar ao vivo o que seria o óbvio na cabeça de todos - Tubos a granel.

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Se a WSL já estava decidida ou não, nunca saberemos, fato é que o Oi Rio Surf Pro fez a tão esperada mudança para o canto direito logo em seguida a divulgação das imagens dos canudos em velocidade assustadora - canudos e divulgação!

Perdemos, público fiel e aflito, 3 longas horas de o que pode ter sido as melhores ondas de 2019, salvo The Box e suas limitações.


Resultado, cinco ondas acima de 8 em apenas 8 disputas


Entra Slater versus Toledo.

Parem pra pensar que Slater surfou essas ondas pesadas e espetaculares por quase duas horas antes da chamada final pra Barrinha - 47 anos.

Não é pouca coisa.

A bateria foi o ponto alto do dia, deixando tudo que aconteceu depois com um certo gosto amargo no canto da boca - culminando com a contusão do João Florence.


Domingo 23/06/2019,

Com ondas bem piores do que no dia anterior, Barrinha parecia mais afeita ao que tivemos em Duranbah na primeira etapa, com apostas altas nas junções, bem mais do que nos tubos.
Steph foi vítima do excesso de espera, deixando caminho livre para Sally e Carissa desmontar sua liderança.

Nas quartas masculinas, ninguém foi capaz de completar uma onda decente, ficando para Julian, mesmo derrotado, a única nota 8 da fase.

Percebeu-se uma grande preocupação do plantel de juízes para evitar achatar demais as notas das semis.
Vimos, um tanto boquiabertos, notas completamente fora da escala imposta pelo Head Judge até agora, até o final do ano poderemos avaliar melhor se foram justas ou não.

Dito isso, Toledo fez de novo!

Não é coincidência que 21 anos antes dessa vitória do Filipe, numa segunda feira de maio 1988, Mike Tyson destruiu Michael Spinks em 91 segundos, único lutador que a imprensa julgava capaz de enfrentar a selvageria do jovem Tyson.
Ambos estavam invictos, 
Tyson tinha 34-0 (30 Nocautes!)
Spinks tinha 31-0 (21 Nocautes)

Toledo enfrentou Jordy Smith na final em Saquarema e resolveu tudo bem antes da metade da bateria - de mesma forma que abateu Kikas nas semis.
Toledo é Tyson no seu auge, com virtudes e defeitos semelhantes, queixo de vidro e tudo mais.
O que vimos Toledo fazer novamente no Rio é façanha de poucos grandes esportistas (me recuso a chamar surfistas de atletas por pura implicância com o termo) agigantando-se na presença da grande multidão, alimentando-se da paixão e transformando pressão em resultado.

Voltando à 1988, o especialista em boxe, Bert Sugar disse que o fã quer ver o adversário decapitado.
O fã não quer ver uma luta justa ou uma mera derrota - quer ver seu campeão arrancando a cabeça do outro camarada.
Tyson entregava esse tipo de embate aos milhões de admiradores e curiosos - uma besta enjaulada solta!
Em um minuto e meio, Mike Tyson acabou com o sonho dos especialistas de ver Spinks fazendo uma luta dura, talvez até ganhando!
91 segundos e Spinks agonizava na lona.
Sem saber onde era chão nem teto.
A esquerda do Tyson entrou como uma bola de aço demolindo uma parede.


Na Barrinha, foram as direitas do Filipe que nocautearam um a um, como no ano passado.

Depois da derrota humilhante no Oeste da Austrália, Toledo mostrou que é capaz de levantar e lutar.

Com a incerteza da gravidade da contusão do John Florence e a pouco provável consistência do Kolohe, Filipe tem em J. Bay a chance de mais um nocaute, rumo ao tão sonhado título.

Na sua cola, o pesadelo local, Jordy Smith, o novo eleito da WSL (de olho no Japão 2020) Kanoa Igarashi e Ítalo Ferreira, letal em toda e qualquer condição.

Mais distante, alguém que pode (cada vez mais) transformar simples disputas em batalhas campais, um renovado Kelly Slater com uma ou duas coisas a provar, Medina e Julian Wilson esperando pelo momento certo de brilhar.

A corrida, a luta, está apenas começando.



quinta-feira, junho 13, 2019

Boia 22

O tempo urgia e era hora de reunir Bruno Coutinho, João Valente e Júlio Adler para falar de coisas sérias.

Nesse Bóia 22 (dois patinhos na lagoa, número de maluco) sentamos para conversar sobre o epitáfio do John Peel, as diferentes possibilidades de surfar The Box pela primeira vez em plena bateria, a libertação do Caio Ibelli, o peso da cruz que carrega Filipe Toledo, a impertinente convocação do ISA games em setembro no Japão, estabelecemos uma prévia para a próxima etapa em Saquarema e não escapamos do tradicional obituário com a perda do Roky Erickson.
Tudo isso sem perder a ternura, jamais.

Teenage dreams, so hard to beat!







John Peel gets Teenage Kicks epitaph







O Documentário sobre os The Undertones que Peel participou...







quinta-feira, junho 06, 2019

A Caixa

Amigos para sempre...



Kolohe Andino deve odiar John Florence.

São muitos anos de humilhação transmitida ao vivo para milhares de pessoas.
Aquilo é a America partida, um havaiano com o nome mais comum que há (homenagem da mãe, Alexandra, ao gesto de respeito do John F. Kennedy Jr. ao bater continência no funeral do seu pai, presidente dos EUA, assassinado), do outro lado está o garoto dourado da Califórnia, ironicamente com nome havaiano - Kolohe.
Um nascido no meio de um turbulento relacionamento dos pais e criado por uma mãe valente, solteira e decidida a oferecer uma vida de sonho aos três filhos em pleno North Shore anos 90.
Enquanto isso, Dino Andino, o pai, criava Kolohe no ambiente mais competitivo do sul da Califórnia em San Clemente, onde tudo acontece.
Os dois se encontram faz tempo, bem antes de todo circo que os cerca hoje, mas já com um mar de expectativas (e contratos!) enormes desde muito cedo.
Kolohe tem o recorde de títulos nacionais (9, Bobby Martinez tinha 7), aos 15 venceu a categoria aberta e se tornou o mais novo campeão da história da NSSA.
A mesma NSSA que formou as carreiras do Tom Curren, Kelly Slater, Rob Machado, Andy e Bruce Irons, Shane Dorian e quem mais voce conseguir lembrar.
Pra completar, Kolohe foi o primeiro filho de um campeão nacional ao igualar o feito do pai.
Todo esse histórico rendeu-lhe os melhores contratos que um jovem profissional poderia sonhar - Nike, Target, Red Bull, Oakley.
John John surfava Pipe com 7 anos e Waimea pequeno (Pinballs) antes de completar 10 anos, aos 13 já competia no Triple Crown, campeão mais jovem aos 19.
Sempre foi uma guerra silenciosa- talvez a maior jamais conhecida.

Uma história estranhamente mal explorada pela WSL.

Antes de falar da final, pausa para lembrar da onda do campeonato - onda do ano até agora.


8.17

Martin Potter ainda não acreditava no que testemunhara.

- Continuamos a procurar falhas no surfe do Ítalo, sem sucesso…
Na sua primeira onda em The Box, Ítalo escreveu seu nome na história definitivamente.
Matt Warshaw perguntou publicamente se alguém discordava que aquela teria sido a melhor primeira onda surfada de todos tempos, comparando com Curren em J. Bay (ressaltando que foi a segunda…) e todas outras que nosso ilustre historiador é capaz de lembrar.
Silvana em Honolua Bay 2009 ?
Acho particularmente interessante que os dois surfistas mais atirados tenham saído do Rio Grande do Norte.
Jadson foi heróico uma vez mais - como tantas outras, nos enchendo de orgulho.
Foi o cala boca de dedo em riste depois das baterias desalentadoras do Toledo e Rodrigues.
Se existe uma onda em 2019 que representa tudo que a WSL precisa para vender o surfe como esporte profissional de alto risco e desempenho extraordinário, essa onda foi do Ítalo em The Box.
Quis os deuses que a nota fosse um ridículo 8,17.
No jogo do Bicho é Águia e Cachorro, joguei o numero, sem piscar, Milhar, Grupo e Dezena - paguei dois dias de almoço no boteco.
Se eu fosse o Ítalo, mudava meu numero para 817 na WSL.


Bode Velho

Carlos Leite, o 11º, sai da primeira parte do Tour entre os Top 10.
Existe muita incerteza na participação do Careca no circuito desse ano.
Será que ele, ou alguém próximo, acreditou na possibilidade de mais um título mundial ou a classificação para a Olimpíada é seu objetivo final ?
De qualquer forma, estamos diante de um momento ímpar em qualquer modalidade esportiva.
Entre os 10 primeiros temos a distancia de 25 anos do mais jovem pro mais velho.
Lembramos imediatamente do George Foreman, pugilista peso pesado, campeão mundial (não unificado) aos 45 anos.
Fez uma luta absolutamente fenomenal contra o campeão Evander Holyfield em 1991, batendo firme com golpes que pareciam uma marreta em parede de tijolos.
Slater parece mais disposto a igualar o feito de outro boxeador, Bernard Hopkins, campeão mundial pela Federação Internacional de Boxe na categoria dos meios-pesados, 49 anos de idade!
Do jeito que vamos, Kelly nos sinaliza com mais alguns anos de luta entre os melhores do mundo.
A cena da queda de braço com os meninos foi imensa.
Faz pensar se isso tudo, o circo da WSL, a tensão das disputas, as possibilidades de condições que o favoreçam e os (poucos) momentos de supremacia, são a única coisa que realmente importa na sua vida.
Uma derradeira vitória seria um adiamento ou a certeza triunfal da aposentadoria ?

Ca, North America

Temos metade dos Top 10 vindos dos EUA e se colocar Kanoa (hoje competindo pelo Japão) de volta, fica com a maioria, 6, isolados como nação dominante.
Kanoa, aliás, roubou da Califórnia o que seria o primeiro título do estado americano em 10 anos, como observou Steve Shearer no site Beachgrit(https://beachgrit.com/2019/05/corona-bali-protected-japan-steals-californias-first-ct-event-win-ten-years/).
Pra nossa sorte, Havaí e o resto não se misturam.
Para o azar deles, nas olimpíadas ninguém liga se os havaianos não se consideram americanos e todos são farinha do mesmo saco.
Último título mundial da Califórnia foi em 1990, Tom Curren - 29 aninhos atrás!
Ao menos Lakey Peterson aparenta ter um título na manga.
Entre as meninas, mulheres, a fila para Califórnia ganhar vem desde Kim Mearing, 1983…


A Caixa

Questionada sobre a legitimidade de uma etapa no Oeste da Austrália, a WSL terá sempre o argumento, The Box.
Um dia em The Box equivale a 5 anos de renovação e uma onda como aquela com tubo e golfinhos não há dinheiro que pague.


Caio

Atualmente meu surfista brasileiro predileto é o Caio Ibelli e já explico.
Primeiro, pela injustiça gigantesca de perder a vaga de convidado, ou melhor, de não receber a vaga reservada à contundidos.
Segundo, Caio viaja na moita.
Lembro de um voo, Recife-Noronha, antes do Hang Loose pro e lá estava Caio, sozinho, discreto e silencioso, não esqueço porque Ibelli era campeão mundial junior de 2012.
Nesse ano, Caio tem entrado no lugar do Adriano, ainda se recuperando da lesão em Portugal no ano passado.
Todas suas derrotas foram vendidas caro, duas contra Toledo e uma na repescagem pra Jordy e Christie.
Em WA, Caio bateu Medina, Slater e Jordy, todos candidatos ao título e em grande forma.
Na semi, caiu diante do campeão numa bateria que rende uma bela discussão entre critérios de julgamento.
Aposto na classificação do Caio pra 2020 sem precisar do WQS.


Florence

Querem saber de uma coisa ?
Os braços esvoaçantes do João são aflitivos, na minha humilde e abusada opinião.
Ross Willians, que também jogava os braços pra cima feita uma líder de torcida, poderia tentar consertar esse flerte que Florence tem com a mediocridade.
Dito isso, as curvas são admiráveis…
Quem diria que Florence viria com tanta força nesse início de ano depois de um ano afastado ?
Alguns sinais são claros.
Aquele John John que ficava alheio às mazelas dum combate não voltou pro circuito.
Esse modelo 2019 está disposto a lutar pelas migalhas, disputar remada, surfar feio, escolher onda merda pra fazer a nota e o escambau.
Resta saber, quando ele começar a falhar, quem estará pronto para investir e lucrar nos erros dele.
A corrida hoje já não é mais pelo título.
A corrida é pela coroa na cabeça do havaiano.

quinta-feira, maio 30, 2019

Boia 21



Música ambiente japonesa para celebrar a primeira vitória do Kanoa.
Nesse 21º episódio do Bóia, tratamos do Corona Bali Protected com todo cuidado que o assunto merece.
Nos detemos nos desempenhos dos protagonistas e deixamos uma pergunta no ar,
Quando Medina começar a ganhar que vai conseguir parar o trator ?
Truques mentais do Careca diabólico, surfe de borda versus surfe de fundo, a força das redes sociais no jogo da WSL e Steph!
Steph ocupa o podcast como tambem ocupa os corações apaixonados pela linha pura que a australiana desenha na onda.
Tradição e empoderamento feminino numa atrasada pro tubo que nenhum homem foi capaz de fazer.
Steph é a nossa Simone de Beauvoir de biquini!
Foi, de longe!, a melhor surfista do campeonato.
As mulheres nunca estiveram tão bem representadas no Tour.



Ou em mais de 10 plataformas diferentes

quarta-feira, maio 29, 2019

O Surfe antigo era mais inteligente




O leitor já conhece minha admiração bovina pelo Nélson Rodrigues. Uma devoção que escorre pelo canto da boca cada vez que batuco essas teclas e percebo a distancia solar que nos divide - eu e Nelson.
Desafio qualquer um a pegar num livro de crônicas do Reacionário (apelido carinhoso…) e resistir à vontade de sair escrevendo e opinando sobre tudo e todos, como se não houvesse tempo a perder.
A frase que me pegou no predileto da estante (À sombra das chuteiras imortais : crônicas de futebol / Nelson. Rodrigues ; seleção e notas Ruy Castro. — São Paulo : Companhia das. Letras, 1993.) foi tão boba quanto absolutamente atemporal, 

O futebol antigo era mais inteligente.

O texto protesta contra a parada do campeonato carioca durante o verão e despeja nostalgia do tempo que o carioca vestia-se (sempre! mesmo no verão) dos pés à cabeça como na Europa.
É divertidíssimo e merece ser lido (leia abaixo).

Na última sexta feira terminou a 3ª etapa do CT da WSL em Keramas, Bali, enquanto Jakarta ardia, graças a (re)eleição do presidente Joko Widodo, derrotando o general Prabowo Subianto pela segunda vez consecutiva.
O general, casado com uma das filhas do falecido ditador Suharto, ficou inconformado com o resultado e seus eleitores (quase 60 milhões!) foram para as ruas protestar, alegando suposta fraude - lembra alguma coisa ?
Eleição na Indonesia é coisa tão séria que a BBC estima 270 mortes na exaustiva apuração dos votos - https://www.bbc.com/news/world-asia-48083051

Se o julgamento da WSL fosse levado até as últimas consequências em Bali, podem apostar que teríamos fogo no palanque, como acontecia no Festival de Ubatuba nos anos 70.

Sorte nossa o surfe não despertar essas vibrações negativas nas pessoas - pelo menos não ao vivo.


O Surfe antigo era mais inteligente

O melhor surfe feito em Keramas foi antigo.
A começar pelo mais bem realizado, falo da Steph.
Quero que Kanoa, Slater, Filipe, Flores, todos eles vão se roçar nas ostras de Uluatu.
Quem surfou o fino foi a Steph…
A nota 10 foi de uma sutileza, tão feminina e delicada quanto bruta, verdadeira contradição do que é o surfe em 2019.
No momento em que se discute o que merece ser julgado como excelente, quando reavaliamos todos tipos de aéreos e colocamos as cartas na mesa para, juntos, (re)descobrir o que vale nota e o que não vale. Nesse momento crucial da evolução do julgamento - e por que não do surfe profissional como um todo ? - vem a Steph e mostra o que já sabemos desde que o surfe é surfe.
Uma onda bem surfada é imbatível.
Mark Richards diz isso já faz mais de uma década, o surfe bem feito sempre vence.
E hoje no Tour quando voce fala de surfe bem feito, com todas suas sutilezas e sofisticações, ninguém se aproxima da Senhorita Gilmore.
Acham que exagero ?
Justo.
Permitam que eu defenda um pouco mais o meu ponto de vista.
Existe o surfe conquistado pelo talento absurdo e uma forma física exuberante como Medina, um verdadeiro atleta.
Toledo traz um tipo de surfe acrobático quase circense ao tour, e isso é fundamental para o esporte seguir em frente como competição.
Temos Slater, representando a longevidade, o eterno desafio entre o velho e o novo.
Posso escolher cada um dos surfistas e novamente tecer loas, um a um.
Mas não.
Ficamos na Steph.
Ela simboliza toda história do surfe em poucos movimentos e sua nota 10 em Keramas foi exatamente isso, a elegância traduzida em tradição.
Nós não vimos um homem durante todo evento atrasar dentro do tubo como Stephanie.
Nenhum.
Se quiséssemos partir para uma analogia estética e histórica, Steph estaria simulando Lopez, MP, Rabbit, Shaun, Curren, Carroll, Slater e Irons, tudo duma vez só - numa única manobra.
Antiga!
Atrasada e tubo.
Pacific Vibrations.
Morning of The Earth.
Performers.
Momentum.
Modern Collective.
A onda da Steph entraria em qualquer um desses filmes.



Akila

5’8'' ou 5'9''Alguma coisa em torno de 18 3/8″ e 18 1/2″ talvez 2 1/4″na borda,
Outro capítulo interessante da etapa de Bali foi o desempenho do bom velhinho, Kelly Slater - aquele que já estava acabado e deveria sair de fininho, sem chamar atenção.
O Careca optou por um quiver inteiro de Akila Aipa, seu amigo de outros carnavais - 30 e tantos carnavais…
A escolha vai muito alem do que nossos olhos podem ver, a quase perda do amigo Sunny Garcia tem um peso imenso na decisão.
Depois do choque coletivo, terrível realidade do Sunny tentar tirar a própria vida, o abalo foi sentido por todo universo do surfe.
Mas na WSL, precisamente naquela pequena galáxia do surfe profissional, ninguém foi tão próximo do Sunny quanto Kelly.
O efeito é devastador.
E duradouro.
Todas ligações que não fizemos para dizer qualquer bobagem e reforçar o amor e a amizade pelo camarada que lutava contra depressão.
A libertação pode estar numa última vitória para dedicar ao amigo, ou mesmo em cada disputa entre passado x presente x futuro.
Caso da bateria KS X FT.
Afirmo sem medo que a única batalha importante de fato em Bali não foi a dos manifestantes em Jakarta.
Percebam o exagero, Slater contra Toledo foi até agora a única bateria que interessa em 2019.

Novo

Toledo fazia as maiores médias e não só…
Todas ondas que ficariam na memória até a terceira quarta de final eram do Filipe.
Keramas é a onda do Filipe - mais ainda que Trestles ou J. Bay, diria eu.
Para além da velocidade e dinamismo, Toledo busca novos ângulos instintivamente, por puro talento bruto e porque ele simplesmente pode fazer o que ninguém mais faz, como no 8.60 nas oitavas contra Callinan, possivelmente a onda mais mal julgada de todo evento.
Na primeira manobra, Toledo inventa um novo jeito de atacar a onda, rasga embaixo do lipe e volta encoberto pelo próprio leque monstruoso de água com gotas grossas.
Emenda direto num aéreo perfeito, que começa numa cavada clássica, elástica e profunda.
Revejam a onda.
Aquilo era um 9 alto - quiçá um 10!
Colocando em perspectiva o surfe do Toledo em 2019, o que ele faz hoje é mais ou menos a mesma coisa que Slater fazia em 92/93, inovação e reinvenção.

Velho

Bode velho, brincou Ricardinho ao comentar (em português) uma postagem do Kelly Slater no Instagram.
Seus truques não funcionam mais, desafiou o pai do Filipe.
Aparentemente, funcionam sim.
O intervalo entre as oitavas e as quartas roubou parte do embalo que vinha Filipe e permitiu que Slater empurrasse toda responsabilidade da vitória para o brasileiro.
Durante a bateria, Toledo foi sugado para o jogo do Slater, bem observado pelo Potter, uma disputa de tubos. Anulando o que Toledo poderia render melhor e entortando a lógica do jogo.
Como nas partidas de volta das semi finais da Champions.
A glória do esporte é sua imprevisibilidade.
Com 47 anos de idade, Slater é a encarnação do improvável e, por que não ? Do impossível.
O coroa ocupa a 9ª colocação no ranking da WSL, na frente do atual campeão mundial, Gabriel Medina.

Ouro

Ano passado alguém apostou em Kanoa Igarashi para a disputa do título mundial no ano que precede a Olimpíada no Japão.
Fazia, e ainda faz, todo sentido.
A Asia é o grande mercado para o crescimento da WSL como marca no futuro próximo e Japão tem um histórico longo de fidelidade com o surfe profissional.
Sem apostar em conspirações, é perfeitamente aceitável que um surfista mezzo Japa e mezzo Norte-Americano, fluente em 5 idiomas, treinado por um australiano, patrocinado por um gigante do mercado de bebidas energéticas austríaco e por mais meia dúzia de empresas multinacionais, todas entre os líderes de mercado de cada segmento (Quiksilver, Red Bull, Oakley, Audi, Sharp Eye, Visa, Kinoshita Group and Dior).
Seu perfil na pagina da WSL nos informa que Kanoa tem uma equipe da TV japonesa o acompanhando no circuito e ele está ganhando fama na China, Taiwan e Coréia.
Dito isso, achei que ele perdia pro Kelly na semi e pro Jeremias na final.

Antiguidade é posto

Peço que me perdoem por não ter escrito sobre Bells, o horário infame bagunça não apenas os dias do campeonato como também acumula tarefas para os seguintes.
Em Bells ficou uma pergunta no ar que ainda permanece,
Quando Medina vai começar a vencer e quem será capaz de para-lo ?
A volta do john Florence já começou a mexer com a rotina dos brasileiros no topo do pódio.
Esqueçam a narrativa óbvia dos supostos desejos da WSL (como eu mesmo faço acima!) e concentrem nas vagas olímpicas.
Medina e Slater fora.
Já imaginaram ?
Entre os top 10 apenas um australiano, em 10º!
Temos muito o que conversar durante esse ano.



ENCOURAÇADO DE SOL

Nelson Rodrigues

Amigos, ao contrário do que se pensa, o Brasil nem sempre foi um país tropical. No tempo de Machado de Assis, ou de Epitácio Pessoa, ou de Paulo de Frontin, o sujeito andava de fraque, colete, colarinho duro, polainas, o diabo. As santas e abomináveis senhoras da época se cobriam até o pescoço. Em suma: — o brasileiro vestia- se como se isto aqui fosse a Sibéria, o Alasca, sei lá.
Hoje não. Procura-se um fraque e não se encontra um fraque. Os mais vestidos andam seminus. No passado, o sujeito que entrasse sem gravata num bonde — era de lá expulso a patadas. E, agora, anda-se de biquíni nos lotações. Um sol hediondo vai derretendo as catedrais e amolecendo os obeliscos. Não há dúvida: — somos finalmente tropicais.
Olhem as nossas praias. A nudez jorra aos borbotões. Em 1905, o turista que visse Machado de Assis havia de anotar no caderninho: — “Este é o povo mais vestido do mundo!”. Em nossos dias, o mesmo turista havia de escrever inversamente: — “Este é o mais despido dos povos!”. Pois bem. E, no entanto, vejam vocês: — ocorre aqui uma reação curiosíssima.
Sim, diante do calor, o brasileiro esperneia e pragueja. O que fazem com o futebol chega a ser burlesco. Em pleno verão, suspendem os clássicos e as peladas. O Maracanã cerra as suas portas. Todas as botinadas são proibidas. E ninguém percebe o absurdo. O justo, o lógico, o adequado é que um craque tropical,
como o nosso, jogue no verão e descanse no inverno.
Não me venham com o argumento de higiene. Para um tropical,
a higiene é um sol homicida. E se reclamamos, se esbravejamos, se
uivamos contra o sol, cabe uma dúvida honesta. É possível que sejamos tropicais por engano. E, nesse caso, certo estaria Machado de Assis ao pôr fraque e galochas, assim desafiando o hediondo sol do meio-dia.
O futebol antigo era mais inteligente. O jogador entrava em campo e os jogos caniculares tinham mais élan, mais saúde, mais euforia. Por exemplo: — em 1910, ano em que o Botafogo foi campeão. Naquele tempo, o Brasil era tropical sem o saber. Lembro que um craque alvinegro, famosíssimo, jogava com uma vasta toalha felpuda enrolada no pescoço. Quarenta graus à sombra e ele varava o campo como um centauro de cobertor.
E nunca houve, no velho futebol, nenhuma insolação. Pelo contrário: — o craque tinha uma resistência de hipopótamo. Na célebre gripe espanhola morreu todo mundo. A mortandade foi pior do que a da primeira batalha do Marne. Mas como eu ia dizendo: — uns morriam e outros eram enterrados. E, quando o sujeito relutava em morrer, era liquidado a pauladas como uma ratazana. Muito bem: — só os jogadores de futebol sobreviveram.
Não havia Departamento Médico nos clubes. Mas o sol potencializava o jogador e o protegia contra o tifo, a malária e a peste bubônica. Sim, bons tempos em que o Brasil não era ainda tropical ou por outra: — não sabia que o era! O craque usava bigodões imensos, carapuça e mais: — seus calções escorriam até as canelas. Lindo, lindo. E assim, encouraçado de sol, abarrotado de calor, o craque ou o perna-de-pau eram uma bastilha deslumbrante de saúde.
[O Globo, 13/4/1964]