quinta-feira, abril 08, 2010

Diario dos Sinos X e XI


vitoria 42 na lista e aumentando

Despacho final dos sinos

Hoje (dois dias atras) foi um dia morto pra todos nós.
Inevitavel deixar de mencionar a morte estupida do Ledo.
Trabalhei com ele por 2 ou 3 anos e nunca fui censurado ou chamado atenção pelo conteudo das cretinices que escrevia para a Inside.
Pena.
Lamento.
Talvez o Rip Curl Pro (oba!) va para Johanna, diz um dos educados trogloditas que trabalham na segurança.
Cada dia aqui é uma nova descoberta de quanto voce é capaz de adivinhar dessa gente tão finória e segura dos seus conceitos - leia-se pre-conceito.
Tenho acompanhado aqui da Australia, como acompanhava no Brasil, a cobertura direta nos saites que merecem visita.
De todos eles, desde a primeira etapa, o swellnet tem sido disparado o melhor, simplesmente pelo fato de ter um camarada que escreve excepcionalmente bem e o faz com a maior das virtudes, honestidade.
Steve Shearer é um australiano convicto (sem trocadilho), desses que usa chapeu de feltro a la Nat Young e camisas com mensagens importantes.
Sua cobertura no Gold Coast foi a coisa mais saborosa que li nos ultimos tempos.
Shearer bota no bolso Lewis Samuels.
Tem mais conhecimento de causa e envolvimento emocional com o assunto.
Taí a grande vantagem dele sobre o resto que pipoca diariamente nos saites e blogues da vida, Shearer tem paixão pelo surfe e isso transborda dos textos.
Nunca é aquele coisa blase e distante como gosta de fazer o professor de literatura Chas Smith.
Dito isso, voltemos assunto que nos desviamos pra essa breve introdução - melhor dizendo, preconceito.

Esse mundo é uma bola
No oitavo dia da cobertura, Shearer teve o prazer de conhecer Edinho, um dos integrantes da equipe ESPN Brasil que tenho o prazer de dividir uma belissima casa aqui em Torquay.
Edinho já foi editor da Hardcore dum jornalzinho muito bacana que infelizmente acabou chamado Nutz.
Antes disso tudo e acima disso tudo, Edinho é surfista, desses que passou parte da vida viajando em busca de ondas e que troca qualquer coisa por uma caída rapida n'água.
Edinho fala baixo e pausadamente, tem sempre um sorriso e é dificil achar alguem que tenha um senão pra dizer dele.
Shearer, como todo os outros australianos que conheci até agora, ja tem uma ideia pre-concebida dos brasileiros, Edinho, Julio ou Francisco.
Somos todos deslumbrados com o surfe e cegos admiradores do primeiro mundo.
Lemos pouco e mal, fomos mal nutridos e nossa ideia é de civilização é parca.
Na maior parte, não somos confiaveis.
Assim somos lidos por essa corja.

Não é culpa deles, o nivel cultural medio aqui é duma pobreza de conto do Dickens e outros idiomas são completamente ignorados.
Uma das fugas desse deserto de ideias é o surfe, onde o sujeito pode desfilar sua nobre ignorância pelo mundo até atingir alguma iluminação.
Não há exceção.


Aereo numero 379 do Medina

Maria Joahanna

Hey Kelly, goody lucky in Brasil, disse um conterraneo enquanto o campeão do evento se trocava no estacionamento.
Obrigado, respondeu, sem sotaque.
Nessa altura ja tinhamos passado por chuva e sol, vitorias e derrotas, alegria e tristeza, altos e baixos.
Melhor olhar no meu Moleskine, tão em moda, usados por velhas raposas do jornalismo como a nova geração usa Smartphones e Laptops.

Paisagens rasas como a cabeça dos australianos

Duas linhas depois

Fosse eu irresponsavel escreveria isto.

Ainda no estacionamento, Fanning chega feliz e oferece um bem-humorado Bon Jour
ao Michel Bourez e sua turma.
Bourez foi a primeira vitima do Slater, cabe dizer.
As ondas em Johanna são apetitosas, tres bancos se oferecem aos surfistas. Um mais a esquerda d'onde montaram as barracas do Rip Curl Pro (opa!), melhor deles, uma canhota campeã, irresistivel.
No meio, um banco de direitas com ocasionais esquerdas e um longo e muitas vezes delicioso inside.
Mais ao longe, fora do campo de visão dos juizes, em frente a uma pedra, outro banco, tão bão quanto os outros dois, direitas e esquerdas - sem ninguem.
Johanna é o tipo da praia que sonhamos quando imaginamos um dia de surfe perfeito com os amigos.
Bancos, não valas.
Quase selvagem, um pouco do ato civilizatorio pra nos dar banheiros, estacionamento, latas de lixo.

Escolho um lugarzinho na praia pra me esparramar.

Em seguida chega o Taj e seu treinador Johhny Gannon, um ex-jogador de futebol metido a galã de hollywood, e sentam logo ao meu lado.
Jordy e Travis Logie aparecem e sentam ao lado do Taj.
Tento ouvir algo, desisto.
Ponho os fones e logo Josh Rouse começa a cantar uma das musicas que em breve entrarão nas favoritas, The Man Who Doesn't Know How To Smile.
Joel e Ace Buchan estavam la fora na direita fazendo uma bateria morna e aborrecida.
Na proxima bateria estariam Bobby e Jadson.
Lembro de ter chegado na praia e ter pensado, hoje ta pro Jadson e Mineiro.
Jadson ficou em nono e é disparado o melhor novato no circuito até o momento.
Mineiro teve uma bateria fraquissima contra Taj. ALguma coisa aconteceu ali que deixou os dois muito pertubados, a pressão da briga pela liderança começa a afetar Taj que vence mais pelo erro do Mineiro do que pelo seu merito.
Jordy tem tanta certeza de que é invencivel que perder para o surfista mais em forma do mundo, Mick Fanning.
Joel perde inacredtivalmente apatico para Bobby que finalmente escolhe as maravilhosas esquerdinhas que quebram em frente ao palanque.
Desde cedo Medina faz o que quer e o que não quer na esquerda.
Muitas vezes o surfe mais interessante esta ali e não na competição.
Bobby da um dos melhores aereos de todo dia, um lien air. Um grande amigo, Alexandre, fazia capas e tabuas de skate, Avant-Garde. Ele adorava o Neil Blender, cara que deu o nome ao aereo (Neil ao contrario).
Slater ignorou Bede.
Ja contei como Slater chegou na praia ?
Mancando, andando devagar como se pisasse em vidro.
Bourez e Bede ja tinham ido.
Quem seria o proximo ?


Quem podia esperar que Martinez escolheria surfar em outra onda ?

Limpin' wizard
Independente do que acontecesse, Taj e Jordy continuariam numero 1 e 2, mas Slater e Fanning se vingaram do nono lugar no Gold Coast.
Bobby Martinez, por mais incrivel que possa parecer, escolheu surfar num lugar onde ninguem tinha surfado e justo contra Slater - numa semi final.
Perdeu sem reação, como se não quisesse incomodar KS.
Fanning acabou com Taj com seu comportamento silenciosamente agressivo, intenso.
Um sujeito desavisado pode ficar assustado com a intesidade do olhar do Fanning, mas ele é incapaz de negar um aperto de mão ou um abraço ao seus companheiros.
Curren e Occy fizeram mais uma das melancolicas batalhas dos titãs.
Curren quando veste a lycra rejuvenece trinta anos e surfa como se o tempo tivesse esperando por ele.
Chovia demais na praia durante as semis, fui me proteger na unica tenda que havia.
Quando a final foi pra agua, parada a chuva, me afastei um pouco para uma duna.
La estava Nick Carroll, jornalista que tanto me influenciou. Desta vez não vacilei.
Fanning e Slater começam a bateria caindo em ondas bobas.
Muita tensão entre esses dois, digo.
Nick completa, Em dias como esses, longos, os caras ja surfaram tres ou quatro vezes e estão exaustos.
Leio seus textos desde quando aprendi ingles, ele gargalha de satisfação.
Não são muitos caras que voce pode aprender lendo, aprendi muito lendo voce e Derek Hynd, continuo.
Ele agradece polidamente.
Nessa altura, Fanning ja surfou duas ondas boas e a bateria parece resolvida.
Nick insinua que Fanning ja resolveu a pendenga e eu lembro que Slater é imprevisivel.
Slater apronta.
Começa uma onda enterrado e de repente, do nada, voa alto e radiante.
8.67
Nick perde a linha, Massive overscored, MASSIVE!
Slater surfa com uma 5'8'', alguns dizem 5'7'', outros 5'6'', round pin, Al Merrick, justa, firme e veloz.
Fanning, Taj e Slater tem pranchas excepcionalmente pequenas nos pes, reparem a mensagem.



Encerrada a final, Fanning senta-se numa duna sozinho e fita o infinito.
Frustração e desespero pairam, ele quase chora mas duas crianças chegam e pedem seu autografo, Mick sorri e assina os posters.
Fanning é um dos homens mais importantes que o surfe ja teve no circuito.
Bom carater, companheiro, passional, verdadeiro.
Cada dia admiro mais esse camarada.
E que surfista ele é!
Slater competiu com o pé contundido, tomou duas pilulas me conta Peter Joli Wilson.
Quem recomendou as pilulas é um famoso jogador de rugby, que toma duas antes de cada partida para aguentar as dores.
Peter brinca dizendo que as pilulas podem ser ou nao enhancing drug.
Eu, muito serio, jogo a pergunta, será que são como as que baniram Neco em 2006 ?
Ele balança a cabeça como quem não quer nem saber desse assunto.
O diario continua enquanto a viagem durar e quando puder.
Daqui para Sydney.
A saudade é grande.
A saudade mata a gente canta Edu Lobo.
Eu morro todo dia longe de casa.


Troco cutbacks e rasgadas por comida e bebida

17 comentários:

André Côrtes disse...

quase estive lá, eu acho muito bom o texto em forma de diário, porque nos leva junto.
obrigado Julio!

Anônimo disse...

Julio , sentir o preconceito desses caras a todo instante apenas por ter nascido em determinada patria , e no minimo repugnante .

Parabens pela cobertura, sensacional.

abs
Pedro Themudo

Mauricio disse...

Sozinho nada Juliones!
Um exército de internautas te acompanhou letra a letra, ops...onda a onda!
Por aqui, muita onda.
Abs

Anônimo disse...

Valeu pela carona. Por ter deixado agente viajar para o "Bells" com você. Foi demais poder acompanhar Diario dos Sinos.

abraço,
Lobo

JKF disse...

divinal. fazendo as maravilhas de um português em Singapura...

Paulinho "paul" disse...

Valeu Julio!!!

Cobertura(epa!)de campeonato perfeita,
O surf Brasileiro agradece.
Uma pergunta, vai rolar o diario das loiras no Brasil?

Grande abraço.

rodrigo rozenbaum disse...

Se fosse o mineiro tomando essas pilulas, iriam forçar ele fazer anti-doping.
Porque ninguem diz pro Slater fazer? Se eu fosse o Fanning, eu levantava essa bandeira.

Anônimo disse...

Otima cobertura, Julio.
Se o nível cultural médio dos Australianos não é dos melhores, o nosso também não faz inveja a ninguém.
Sim , eles tem razão, nós Brasileiros lemos muito pouco, você já viu as estatísticas?

saudações
Planctom, Santos/SP

Edu Moraes disse...

que venha o Brasil!!,
essa Goiabada estava o "creme"
Parabens Julio

euamolongboard disse...

Fuck them. Deu altas onda em frente ao meu apartamento.Fiquei quase 6 horas dentro dagua. Só sei sobre Bells, pq te acho foda. Os caras do Circuito Mundial? Que saco.....

Anônimo disse...

Excelente esse comentário lado a lado com o Tio Nick. Quer dizer então que ele se bolou com as notas dadas pro Slater.
É galera, avisa pro resto que o careca vai pro 10 com tudo, e dificilmente não leva.

Abraço,

Bruno Rozenbaum

Anônimo disse...

Uma batida e um aéreo rodando, meio espalhafatoso e com uma finalização, no máximo, esforçada, no meio da espuma. E a onda nem era da série, nem bem formada... Nota: 8,67!

Na boa, ASP, não mete essa!

Gabiru

La Brasa disse...

o melhor foi a legenda do curren [ele próprio um legend]... "surf for food... and drink"...
the greatest beggar in the wolrd, hahah

Viva La Brasa disse...

gabiru, seguinte:
contra o medina o fanning caiu de cara no aley e forçou a barra na finalização das 2 melhores ondas...
o aley do kareca foi louco, o cara voltou praticamente so com o pé de trás na prancha e ainda completou...
se a nota foi over, o mick provou do seu ´proprio remédio.
a essa altura, todo mundo sabe que o julgamento da asp não é exatamente "imparcial"...
os caras têm seus favoritos, que já entranm na água c/ meia bateria ganha.
fuck contests.

Tom Veiga disse...

Cobertura animal mesmo, parabens Julio, seria animal vc estar em todas...rs

paulo marreco disse...

realmente, o melhor -e foi genial- é a legenda da foto do Curren, hehe! Não que todo o resto não esteja ótimo!

Niegà disse...

Nick Carrol? Sim. Derek Hynd? Ainda tambem.... mais sobretudo Dave Parmenter e aquel primer trip na Alaska para a Surfer mag. Brutal!

E ancho que pronto vou a ter que añadir Julio Adler a la lista de leituras da surf preferidas. Parabens!

Niegà