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quarta-feira, abril 06, 2016

A revolução foi televisionada

[Texto de maio 2015, para a Revista Hardcore e Surf Portugal]


Um certo domingo em 1991

Teco Padaratz mal podia conter seu sorriso ao entrar ao vivo no Esporte Espetacular, domingão de sol, praia cheia - cheia, não, lotada.

Abarrotada.

Tinha qualquer coisa naquele sorriso no canto da boca que denunciava tantas memórias, sonhos e desejos que até o próprio Teco duvidava.

Em 1991, a cobertura do evento carioca da ASP, Alternativa Pro, primeira das duas etapas do circuito mundial pré-WCT que tínhamos no Brasil (a outra era o Hang Loose Pro), comentava com espanto as dimensões que o surfe tomava, Pedro Falcão escreveu assim na então mais vendida,

O português Nuno Jonet fez a locução e no domingo decisivo havia cerca de 10 mil pessoas na praia. 

Flávio Padaratz precisou de proteção policial para escapar do assédio dos fãs. 

"Isso tá maior que a torcida do Curren no Op" 

declarou o campeão mundial de 1988 Barton Lynch, antes da semifinal.

Estávamos todos em êxtase com a enorme atenção que o surfe ganhava no despertar da década, Rede Globo, Bandeirantes, todos grandes jornais, imprensa especializada, fanzines e rádios juntos pela popularização do surfe brasileiro. O frenesi subia pela espinha de cada entusiasta.
A hora era agora e ninguém seria capaz de escapar da febre do surfe que chegava chegando.

Quase 25 anos depois, a febre não passou de uma gripe e agora se anuncia como epidemia.

Explico, pela terceira vez, depois do namoro inicial nos 70 e os alucinados 80, o surfe parecia embalado nos 90 pra ganhar de vez o coração dos brasileiros.

Apenas em 2015 podemos ler na capa dum jornal popular (verdadeiramente popular, não os jornalões) que  - Fla, Flu e Vasco não fazem nem marola - A Onda agora é outra (Jornal Extra, Rio de Janeiro, segunda feira, 18 de maio de 2015), comparando o sagrado futebol de domingo com a conquista do Filipe Toledo na etapa brasileira do circuito mundial.

Não há prova mais viva e retumbante da chegada do surfe ao povo.
Aquele povo que não pode, ou não quis, ir até a praia fazer parte dos 30.000 torcedores gritando e fazendo todo tipo de barulho apoiando seus irmãos.

Caso rolasse uma lágrima pelo rosto ainda perplexo do Teco, ninguém ia estranhar.

Dentro d’água, Filipe Toledo em transe competitivo ignorava tudo que acontecia - a única coisa que interessava era não cair da prancha.

Quando Filipinho não cai da prancha, nada o detém.

A revolução está ao vivo

Kelly Slater recebeu a mensagem em 2013, durante a etapa francesa do Tour.

Quartas de final, Slater X Toledo, ondas de um metro, perto da beira.
Toledo com 17 anos contra Slater aos 41.
Uma bateria que parecia resolvida no papel, o Careca já tinha batido Filipe na quarta fase e a França adora Kelly - sempre adorou.
Filipe vinha de dois 25ºs e dois 13ºs, começara bem o ano com dois 5ºs mas perdeu o trilho.
Slater, por outro lado, começou 2013 com uma vitória na Goldie, outra em Fiji, um 2º em Tehupoo e não parecia disposto a perder pra ninguém fora dos top 5.

Foi uma destruição completa.

Jornalistas estrangeiros tentavam desesperadamente achar um motivo para a mudança de foco, mas a verdade é que Toledo amadurecia seu surfe elétrico e criativo para se adaptar ao WCT e dois anos depois, o mundo estaria aos seus pés.

Definindo o indefinível

Brad Gerlach definindo o surfe do Filipe para o site Beachgrit:

Ele é tecnicamente superior - então ele nem pensa. Surfa de uma maneira tão espontânea que você nunca sabe o que ele vai fazer.
Ele mesmo não sabe.
E isso é foda!
O que me surpreende em muitos caras que vejo por aí é que são muito confiantes mas parecem conservadores quando competem.
Filipe está sempre empolgado em ir surfar!
A postura dele é boa, mas seu pé da frente a principal razão da superioridade.
Ele não usa o pé da frente como Bede ou até mesmo como Conner (Coffin, treinado pelo Gerlach) se voce quer saber.
Slater também é assim.
Dane (Reynolds) também sabe usar o pé da frente como ninguém, mas também sabe usar o pé de trás.
O pé da frente é a aceleração.
Voce usa todo seu peso e cintura no pé da frente pra acelerar.
Quando voce coloca peso demais no pé de trás, há um atraso quando voce muda pro pé da frente.
Filipe tem pleno domínio do pé da frente, então ele nunca perde tempo tirando de um e passando pro outro, ficando agarrado em cima da onda… 
E a principal razão dele conseguir acertar tantos aéreos é que ele sabe onde vai cair antes de decolar.
Quanto melhor surfista voce é, mais devagar a onda se apresenta pra você.
Pro Filipe, a onda parece lenta e ele tem tempo suficiente pra pensar exatamente o que vai fazer.
É uma coisa linda de ver.

Devo acrescentar que pouca gente no mundo do surfe hoje pensa a técnica em tão alto nível quanto Brad Gerlach.


Nada como um dia atrás do outro

O que acontece agora na WSL não tem precedentes.

Mineiro em primeiro, Toledo em segundo.

Se 2014 foi impressionante pelo domínio do Medina, logo no ano seguinte o Brasil mostra que Gabriel não foi apenas um fenômeno isolado.

Em quatro eventos, cedo demais para qualquer previsão honesta, a nação dominante deixou de ser Australia ou Estados Unidos e passou a ser o Bananão.
E atenção que Gabriel ainda nem entrou no jogo.
Não se enganem com o atual campeão mundial.
Ele tem só 21 anos e ainda mastiga os louros do título pensando no doce sabor da vitória.
Não é difícil imaginar Medina arrastando duas ou tres etapas daqui pra frente, entrando na briga pelo caneco, com Mineiro, Toledo e Fanning. 
Se não acontecer nesse ano, no ano seguinte ele volta com tudo.
Slater ganhou seu primeiro em 92, deixou Derek Ho ganhar em 93 e saiu enfileirando 5 títulos de 94 a 98.
A bola está em jogo.

Fascinante transição

Eu sei que Italo teve uma atuação incrível, assim como Jadson, mas tudo que vamos lembrar em 5 ou 10 anos é o desempenho do Filipe.
O sul africano Craig Jarvis, ex-editor da revista Zig Zag e um dos mais argutos observadores do circuito escreveu suas impressões pro Tracks australiano sobre o evento:

Filipe Toledo venceu o Oi Rio Pro, e venceu o campeonato com possivelmente a melhor performance (prefiro desempenho, mas vou respeitar o clichê) jamais vista no surf profissional. Os superlativos fluem com facilidade: os melhores aéreos já realizados em uma competição, a melhor performance em um campeonato, o surf mais progressivo, a multidão mais selvagem, o maior público, e o maior evento de surf de todos os tempos. Um surfista que literalmente mudou a forma como assistimos o surf. Filipe merece cada um destes superlativos, transformando fechadeiras de merda de um beach break nos maiores aéreos do dia com a agilidade de um ginasta Olímpico. Aos 20 anos de idade Filipe tem o mundo à sua frente.


O maior site de surfe do mundo, Surfline, escreveu que Toledo é,
O melhor surfista de ondas pequenas jamais visto.
Palavras deles, não minhas.

Se no ano passado havia muita desconfiança em cada conquista do Medina, agora, como disse o jornal citado no início do texto, a onda é outra.
Somos nós, os brasileiros, que devemos pedir calma aos estrangeiros, nem tanto ao mar, nem tanto à terra.
O mais absurdo disso tudo é que talentos como Owen Wright, Julian Wilson, Parko, Taj, Florence, Slater e Jordy Smith já nem entram mais nas discussões sobre título.
Se antes era raro ler uma linha sequer sobre as atuações dos brasileiros nas coberturas publicadas fora daqui, a coisa mudou de figura.

Não demora teremos, como em 1999 (Neco em primeiro, Fia em segundo, Ribas em terceiro no US Open), tres surfistas entre os 4 primeiros.

Desde 2011 um surfista brasileiro não vencia em casa, o grito estava entalado na garganta e a festa nunca foi tão linda.







10 coisas que não vamos esquecer do Oi Rio Surf Pro 2015

1 - A distancia do Filipe pro resto nunca foi tão grande e as duas notas 10 evidenciaram isso.

2 - Atuação do Mineiro na primeira fase foi de outro mundo.
Puro coração, sem deixar a estratégia de lado.
Poucas vezes a torcida delirou tanto…

3 - A Medinamania chegou pra ficar.
É hora do Mauricio de Souza criar logo um personagem em quadrinhos pro Gabriel.
A histeria em torno do rapaz é de impressionar até quem já esteve do outro lado, como Slater.

4 - Já não temos mais um palanque, aquilo era uma cidade.

5 - A WSL está mudando o jeito do publico se relacionar com o surfe profissional - e isso é um elogio.
A diferença entre o evento de 2015 com os últimos 3 anos é gigantesca.

6 - Desta vez na transmissão a maioria era de gente que merece e deve ser ouvida.
Pedro Muller é a melhor aquisição que a WSL poderia fazer e acompanhado do Fabio Gouveia, Renan Rocha e eventualmente do Teco, fica ainda melhor.
Binho Nunes cairia bem nessa turma.

7 - A cobertura da grande imprensa.
Nunca o surfe foi visto por tanta gente com lente de aumento.
Mesmo com uma quantidade enorme de sandices, entre mortos e feridos salvaram-se todos.
O saldo foi positivo.

8 - A polemica da água imunda.
Aquela região tem água imprópria desde os anos 90, mas foi bom que o biólogo Mario Moscatel tenha aproveitado a atenção e jogado luz no assunto.
Em tempo, São Conrado nunca foi uma alternativa real pros eventos cariocas.
Desde que foi especulado pela primeira vez, uma exigência dos surfistas, nenhuma houve palanque alternativo - pela mesma poluição de 2015.

9 - Uma semana depois de terminado o campeonato, ainda era possível ver Filipe Toledo passeando no Shopping, ou John Florence de rolezinho pela cidade.
O circo se recusa a ir embora.
Rumores que Florence convidou Medina e Toledo para gravar uma sequencia do seu filme novo aqui no Rio de Janeiro.

10 - A festa.
Como esquecer a festa ?















segunda-feira, dezembro 21, 2015

Por quem dobram os sinos ?


[Resenha dos campeonatos de Bells e Margies, abril de 2015]

Ever tried. Ever failed. No matter. 
Try Again. Fail again. Fail better. 

Samuel Beckett


3… 2… 1!

Pausa para o jogo do século XXI

As histórias dos grandes retornos são as que mais fascinam.
Um sujeito, ou time, acuado com medo do fracasso supremo é capaz de coisas que até o homem duvida.

Final da Champions, 25 de maio de 2005, entre Milan e Liverpool, jogo que ficou conhecido como O Milagre de Instambul. 70.000 pessoas presentes.

O esquadrão do Milan meteu 3 logo no primeiro tempo, sem pena.
O time italiano tinha Kaka, Dida e Cafu, Seedorf, Maldini, Pirlo, Crespo e Shevchenko.
Liverpool foi pro intervalo e seu técnico, o espanhol Rafa Benitez, convenceu os 11 homens a lutar como se fosse o último dias das suas vidas.

De volta pro segundo tempo, em mágicos 6 minutos o time inglês empatou o jogo, embalado pela torcida ensandecida cantando o poderoso hino You´ll Never Walk Alone - mesmo que seus sonhos sejam varridos e arrasados, você nunca estará sozinho!

Encerrada a surpreendente partida, vieram as cobranças dos penaltis, vitória do Liverpool, 3 x 2.

Esse foi apenas um dos grandes exemplos que o esporte insiste em nos ensinar, nunca desista, principalmente se quase 40.000 torcedores apaixonados te empurram pra frente.

Já dizia Taylor Knox (que ganhou apenas um evento em toda carreira no WCT), quem desiste nunca será um vencedor e um vencedor nunca desiste. 

Tenha Adriano de Souza na cabeça durante o resto do texto.


Por quem dobram os sinos ?

Mal deu tempo para digerir a vitória do Filipinho na primeira etapa e já estávamos todos completamente envolvidos com a previsão de ondas do Rip Curl Pro em Bells.
A euforia era enorme, alimentada pela possibilidade de ondas pequenas, e a esperança dum segundo triunfo do furacão Toledo - principalmente se lembrarmos do jeito que foi a lavada.

Ou mesmo a tão aguardada volta do Medina ao pódio.
Especulava-se tudo, Slater, Florence, Julian, Taj… incrivelmente o nome do Mineirinho não era assim tão repetido.
Justo ele, campeão em 2013, mais experiente do conterrâneos no WSL, vindo de um terceiro lugar no Gold Coast, eliminando o favorito local Mick Fanning na quarta de final.

A primeira fase foi um banho de água fria, todos brasileiros perderam, Medina foi o único que sobreviveu.

Um pequeno abalo foi suficiente pra fazer Toledo acordar e simplesmente destroçar os havaianos Dusty Payne e Seabass.

Durante todo campeonato o surfe beirou o sofrível, com médias baixas e nível de surfe que nos faz duvidar várias vezes desse formato engessado.

A onda de Bells carrega uma história que se confunde com a própria história do surfe profissional.

Foi ali que Michael Peterson consolidou a lenda de maior competidor do seu tempo e também foi ali que Mark Richards começou a fantástica corrida que lhe daria quatro títulos mundiais.
Todos grandes surfistas já vencerem em Bells, Carroll, Curren, Potter, Andy, Sunny, Occy, Parko, Fanning, Slater.
Existe uma mística no lugar que não permite que o circuito se afaste dali, mesmo com toda antipatia que existe hoje com a onda.

A gritaria acusando Bells de ser uma onda cheia, sem graça, encontra coro por todo lado e até faz algum sentido, mas o esporte precisa dos seus símbolos e Bells é um dos nossos poucos templos obrigatórios.

Nem que fosse apenas para reverenciar passos fundamentais para a evolução do surfe, como a (re)invenção do surfe de backside pelo Wayne Lynch nos anos 60, ou a afirmação da triquilha como equipamento funcional por Simon Anderson nos 80.

O ritual reconhece a história sem deixar de apontar pra frente, basta lembrar da final entre Fanning e Slater em 2012, uma derrota doída do Careca, com nota 10 e full rotation executado à perfeição e tudo.

Bells é uma onda de repetição, nos últimos 20 anos tivemos Sunny Garcia, Parko e Andy Irons vencendo 3 vezes cada, Slater e Fanning (como já veremos) mais 4 cada um.

Bells Bowl, 4 a 6, Terral

Desta vez não vimos as condições perfeitas, a suposta onda capaz de elevar o surfe de garotos ao próximo degrau.
2015 será lembrado como o ano do julgamento confuso.
Jordy e Jadson foram duas vítimas dessa confusão.
Jordy, como bem percebeu Steve Shearer, astuto jornalista australiano, sofre com o preconceito que armou-se em torno dele de que o sul africano não seria tão eficiente em ondas pesadas de verdade quanto é nas direitas da sua predileção - J. Bay, Testles, Snapper, Bells.
O fato dele ser descartado numa corrida séria ao título amassa suas notas contra o peso de um Fanning, ou Parko - supostamente candidatos legítimos.
Mas isso são apenas suposições e nós sabemos que nada disso faz sentido.

Jadson foi melhor que Fanning nas oitavas.
Em nenhum momento o Macaco Albino foi o surfista do campeonato, nem ele nem Mineiro.
Os dois foram eliminando a concorrência silenciosamente, sem nenhum alarde, com a frieza de um assassino contratado.

Quando se encontraram na final, em ondas horríveis, mexidas, deformadas, seria a terceira vez na temporada em apenas dois eventos.
Uma vitória pra cada um, sendo que Adriano ignorou Mick nas quartas do Quik Pro.
Tinham contas para acertar.
Mineiro foi preciso, Fanning ligeiramente mais insinuante.
O resultado foi como deveria ser, polemico, suado, por que não justo ?
Veremos isso logo adiante, na etapa de Margaret River…


Acabei de ganhar do melhor surfista do mundo!

A Arte da ficção

Permitam que se use aqui um pequeno trecho da entrevista do escritor americano Ernest Hemingway, notório também pela sua queda por touradas, corridas de cavalos, caçadas e guerras, em 1954, num café em Madri.

Hemingway pergunta ao seu entrevistador,
Voce costuma ir às corridas ?

O entrevistador responde,
Sim, as vezes.

Hemingway,
Então voce le os programas das corridas…Ali voce tem a verdadeira arte da ficção.

A mesma coisa acontece quando lemos a lista das baterias do campeonato.
O papel aceita tudo.

Quando todos sites, inclusive a WSL, começaram a analisar o quão grande poderiam ficar as ondas em Margaret River, a expectativa de assistirmos um evento da magnitude do Fiji Pro de 2012 parecia iminente.

Parko teria encomendado uma prancha de 8’, pela primeira vez em muitos anos o fã poderia ver seu surfista preferido usando as gunzeiras fora do Havaí.

Na minha cabecinha doente, recordava-me de um campeonato em 1990, que aparecia no primeiro Sarge surfing Scrapbook, uma serie de videos que o fotografo Paul Sargeant fazia nos anos 90.
Margaret River ainda era um mistério nessa época, pouco aparecia nas revistas ou filmes.
No jornal Tracks, Derek Hynd descreveu as condições como 15’ a 20’, as maiores já vistas fora do North Shore na ASP.
O Tahitiano Vetea David surfou com uma 8’6’’, Tom Curren conseguiu uma 9’1’’.
Ainda não se falava em The Box.

Corta para 2015, voce olha a lista de baterias da primeira fase, nome por nome, depois ouve o locutor falando que The Box tem quase 10 pés de onda.
Aquilo é um moedor de carne.
O túmulo dos goofys.
Tambem é o sonho do Kieran Perrow, surfista mediano que sempre se destacou nessas condições extremas.
KP tem a chance de expor essa nova geração ao ridículo e fará de tudo para isso - ou não.
As médias são lamentavelmente baixas.
Slater vence a sua bateria com um total de 8,2.
Ninguem faz mais de 16 pontos em toda primeira fase!

A segunda fase começa com a derrota do Medina e Toledo.

Nada empolga muito até Owen Wright se atirar em duas ondas que serão repetidas à exaustão nos próximos 10 anos.
Sua irmã, Tyler, gritava do canal pra ele não dropar a bomba - ainda mais de costas pra onda.
Engraçado que foi preciso um goofy pra mostrar como se faz naquela deformação de onda…

O campeonato parecia feito sob medida para Owen, Slater e John John.
Ondas enormes, pesadas, perfeitas mas nem tanto.
Nenhum brasileiro entrava nas listas de favorito.
Mineiro sobrevivia com a garra de sempre e já era o dono da camisa amarela depois que Fanning perdeu para Jay Davies sem tanta empolgação.
Mas como resistir ao ataque do Slater em Margaret no terceiro e maior dia de competição ?

Tema de Kelly

São anos demais de circuito.
Ele já não tem mais a mesma energia, nem motivação.
A idade começa a lhe cobrar o preço.

Fale o que quiser do camarada, quando é chegada a hora de revelar sua majestade, Slater ainda é capaz de fazer o impossível.
No meio dos 34 existe muita gente que faz o diabo, cada um dos seu jeito, em determinadas condições, mas Slater molda as condições ao seu bel prazer e as transforma em arte.
Seu 10 contra o pobre coitado do Glen Hall podia ser um 15 - fácil.
Surfando com uma prancha abaixo da média, uma mera 6’3’’, bat tail (rabeta batman), Slater fez uma linha anormal numa das maiores ondas da bateria, entubou com a categoria de sempre, saiu limpo, rasgou usando toda parede como quem desejasse acariciar um dragão começando pela cabeça e terminando com a ponta da cauda.
O que ele não sabia, nem esperava, é que tinha um Mineiro no meio do caminho…

Ace Buchan, 16 de março de 2009

No blogue que Adrian Buchan escrevia no Surfline, muito bem escrito diga-se de passagem, Ace refletia sobre a primeira etapa e concluia que competir em alto nível no circuito mundial não é para qualquer um, a pressão é enorme e o sujeito tem que gostar da batalha, dizia ele.
Veja o que Ace escreveu sobre Adriano,

Por isso Adriano é  bem sucedido, porque ele ama a disputa. Obviamente ele surfa muito, mas ele ama a competição. Na primeira fase ele quase remou por cima do Jordy para defender sua liderança (2009). É por isso que Kelly tem(tinha) nove títulos. Mesmo podendo confiar no seu talento para avançar mais da metade do tempo, quando necessário ele afronta seu oponente e briga pelas migalhas. 
No final do dia é o surfe que fala mais alto, voce não quer se engalfinhar pra passar a bateria. Para mim, é disso que o esporte é feito e por isso é tão empolgante. Ver pessoas se testando em situações de aperto e tendo que brigar por aquilo. Eu amo aquilo!

Nós aqui na Hardcore tambem amamos isso, Ace!

Aqui é Mineiro, porra!

John John era o Milan, irresistível, atropelando todo mundo, cartel de vitórias arrasador, repleto de jogadores caros e talentosos - metendo 3 gols no primeiro tempo da final e praticamente decidindo o jogo.

Mineiro pode ser representado pelo Liverpool, um time aguerrido, mas desacreditado, liderado por um técnico mestre na estratégia e que não desiste jamais.
Depois de ter lutado tanto e chegado tão perto de ser o primeiro campeão mundial brasileiro, Adriano viu Medina roubar seu sonho.
Ou parte dele.
O sonho de ser campeão mundial permanece.

O primeiro gol foi marcado no Quik Pro, vice em Bells, oitavas já garante a lycra amarela pro Rio.
Agora vamos pros penaltis.

Na folha das baterias, uma bateria entre Slater e Adriano num mar de mais de 8 pés resulta num massacre, só que não.
Desde 2010, em Porto Rico, De Souza já enfrentou Slater 10 vezes e perdeu apenas uma.
Ninguem no circuito entendeu melhor como funciona o jogo.
Eu sei que tenho que ser melhor do que ele (Slater) nos 30 minutos, porque nunca serei melhor que ele fora das baterias, declarou Adriano para a adorável Chelsea quando saiu do mar.

Mineiro é um dos únicos, senão o único a ter um retrospecto de 100% pra cima do Gabriel Medina, são 6 x 0 e isso não é pouco!

Alem de eliminar Slater, Mineiro ainda tinha o herói local, Taj Burrow (que vai ser papai!) pela frente.
Surfando com o livro de regras debaixo do braço, sem errar, escolhendo as ondas com perfeição e, principalmente, sem cair da prancha, Adriano foi batendo os seus penaltis até o triunfo final.

Exultante ao sair da final contra Florence, Mineiro ajoelhou no chão, agradecendo aos céus e ao seu anjo da Guarda, Ricardo dos Santos, pela glória alcançada.

Eu acabei de ganhar do melhor surfista do planeta!

A consciência brutal de se reconhecer inferior ao camarada que ele derrotou mostra uma maturidade digna de quem está pronto para cumprir seu destino.

E todos nós sabemos que Mineiro não vai descansar enquanto não levantar o caneco de campeão mundial.








segunda-feira, maio 04, 2015

Molecagem

[Texto de 26.11.2014]

Quem é o Vira-lata ?


          Estamos em dezembro de 2014, um ano difícil para a grande maioria dos leitores dessa revista.

Perdemos uma Copa do mundo em casa.

Uma Copa ganha antecipadamente várias vezes pelos gênios do futebol.

Tivemos uma eleição apertada e disputada como um clássico do brasileirão.

O discurso raivoso aflorou de tudo quanto era buraco.

Sujeito caminhava tranquilo pela rua e de repente saía um iradinho da primeira esquina.

O surfista tinha uma fuga, Medina liderou o circuito mundial de ponta a ponta, exceto por um percalço chamado Travis Logie, justo no Rio de janeiro.

Quando esse texto chegar até você, é possível que já tenhamos um campeão mundial.

O tricolor Nelson Rodrigues enxergava de olhos fechados


Caso contrário, nosso afamado complexo de vira-latas, tão alardeado por Nelson Rodrigues, virá a tona uma vez vez mais.

Da mesma maneira que colocaram a culpa do vexame diante da seleção alemã no fato jogador ter nascido no Brasil, ou da política brasileira ser do jeito que é porque, afinal, somos todos brasileiros - a desculpa de não termos um título é a uma sina, uma marca.

Invertemos o mérito e o transformamos em vergonha.
Faz tempo que é assim.

Quando ainda não tínhamos títulos no futebol, o cronista Nelson Rodrigues destrinchava nosso complexo de inferioridade.

Era exatamente como hoje.

Tudo que vinha de fora era bom - bom não, melhor.

Toda e qualquer coisa que não fosse feita no Brasil era melhor.

Homens e produtos estrangeiros eram superiores.

Quantas pessoas voce conhece hoje, dezembro de 2014, que ainda pensam dessa mesma forma ?

Quase 60 anos depois de criada a expressão complexo de vira-latas…

Um título do Medina não será suficiente para aplacar a vergonha que se esconde atrás de cada assustado que sonha com um passaporte seja qual for, contanto que não traga Brasileiro na primeira página.

Os aviltados gritarão bem alto, Tambem, olha esse povo que nos deram… Brasileiro aceita tudo.

Chile, 1962, sem legenda


Recorro então ao texto que Nelson Rodrigues escreveu quando ganhamos não o primeiro título mundial, na Copa de 1958, mas o segundo, na Copa do Chile em 1962.

Quando triunfamos em 58 decretou o fim da nossa permanente sensação de subalterno, passados apenas 4 anos essa irresistível força bovina que nos arremessa pra baixo da mesa voltava com a força dos aflitos.

Até mesmo os próprios europeus, à semelhança dos australianos e americanos do mundinho do surfe, já acreditavam na nossa condição secundária.

Percebam como é parecido o momento do surfe em 2014 e o futebol em 1962.

Mesmo como Fabinho Gouveia, Victor Ribas, Teco, Neco, Burle, Resende, Maya, Phil, mesmo com Yago e Lucas Silveira ainda tem gente que aponta com um rasgo de embaraço, Coitados, são brasileiros…

O descaso não é deles, é nosso.

Nelson Rodrigues reconhecia um pessimista pelo cheiro, foi pra eles que publicou na revista Fatos & Fotos em 1962 esse texto reproduzido abaixo.

[Após quatro anos de meditação sobre o nosso futebol, o europeu desembarca no Chile. 
Vinha certo, certo, da vitória. 
Havia, porém, em todos os seus cálculos, um equívoco pequenino e fatal. 
De fato, ele viria a apurar que o forte do Brasil não é tanto o futebol, mas o homem. 
Jogado por outro homem o mesmíssimo futebol, seria o desastre. Eis o patético da questão: — a Europa podia imitar o nosso jogo e nunca a nossa qualidade humana. 
Jamais, em toda a experiência do Chile, o tcheco ou o inglês entendeu os nossos patrícios. 
Para nos vencer, o alemão ou o suíço teria de passar várias encarnações aqui. 
Teria que nascer em Vila Isabel, ou Vaz Lobo. 
Precisaria ser camelô no largo da Carioca. 
Precisaria de toda uma vivência de botecos, de gafieira, de cachaça, de malandragem geral.
Aí está: — no Velho Mundo os sujeitos se parecem, como soldadinhos de chumbo. 
A dessemelhança que possa existir de um tcheco para um belga, ou um suíço, é de feitio do terno ou do nariz. Mas o brasileiro não se parece com ninguém, nem com os sul-americanos. 
Repito: o brasileiro é uma nova experiência humana. 
O homem do Brasil entra na história com um elemento inédito, revolucionário e criador: a molecagem.]

A molecagem não é o jeitinho brasileiro de não fazer as coisas, pelo contrário, é o jeito de fazer as coisas.
Nutro um certo desprezo pelos deslumbrados com o que vem de fora.
Pra ficar somente no futebol, vou abusar do recurso de citar e, golpe baixo, encerro com Carlos Drummond de Andrade.

O difícil, o extraordinário, não é fazer mil gols, como Pelé. É fazer um gol como Pelé.

Quero crer que difícil não é fazer o que Medina fez nesse ano, mas fazer do jeito que Gabriel fez…

Todo grande texto nasce desses momentos de silencio e solidão





quinta-feira, abril 23, 2015

Nova Era


As oito horas de surfe mais eletrizantes que já houve



Praia de Pipeline, 13:33 do dia 19.12.2014

Charles Medina olha fixo pro mar. 

Em volta dele, todos gritam é campeão, se mexem sem saber onde colocar os braços, chamam seu nome sem parar, surgem câmeras de todos lados, a confusão é total e Charlão (como os mais próximos carinhosamente o chamam) olha fixo pro mar.

Falta menos de 40 segundos pra terminar a bateria entre Mick Fanning e Alejo Muniz, a chance do australiano virar é inexistente, mas Charles olha fixo pro mar.
Ele já viu muitas baterias resolvidas nos 30 segundos finais e não quer correr esse risco.
O jogo só termina quando o juiz apita.
Com essa derrota do Fanning, Gabriel é campeão mundial, encerra-se a corrida, o drama chega ao fim.
Deus sabe o que passa na cabeça do camarada que viveu a disputa tão intensamente como ele.
De repente, junto com a contagem regressiva, Charles corre alucinadamente pro mar e mergulha de roupa e tudo.
Todo mundo em casa ou na praia também tem vontade de sair correndo enlouquecidamente.

Esse momento traduz a vontade que temos de simbolicamente abraçar Pipeline, a praia que nos deu o primeiro campeão mundial brasileiro.
Debaixo d’água é tudo silencioso, Charles precisa desse segundo de silencio.
Dizem que a água do mar lava tudo.
Lava as nossas mágoas, nossas dores, nossas tristezas.
A água do mar purifica.
Esse mergulho diz tanto sobre o título do Medina…
Foram 11 etapas, algumas vitórias, algumas derrotas, lágrimas de felicidade, poucas de decepção, é necessario mergulhar fundo.
Quando Charlão ressurge, já tem os dois braços apontados pro céu. O rosto sempre tão sisudo, sorri um sorriso largo.
O menino ganhou é hora de ir abraça-lo.

Uma breve historia do tempo

A ASP tinha tarefa ingrata, apenas dois dias para terminar o Pipe Masters, ondulação enfraquecendo, um título mundial para ser decidido e 27 baterias ainda por fazer.

Kieren Perrow, comissário e homem responsável pelas decisões mais importantes da entidade (ASP) durante o ano resolve realizar tudo em dia só.

No Havaí não é permitido campeonatos de surfe depois das 16:00 horas, tampouco começar antes das 8 da manhã.

Perrow faz as contas para encaixar 27 baterias em 8 horas.

Nunca aconteceu na história da ASP um dia como esse que vai se revelar.

Baterias simultâneas, redução do tempo, alteração das regras, sem a possibilidade de recomeçar - sem descanso.

Foram 10 dias de uma espera melancólica por ondas decentes.
Uma triagem com ondas boas, um primeiro dia digno da história do Pipe Masters e uma segunda fase atirada ao mar em condições adversas.

Era chegado o dia final.

Havia mais matematica envolvida.

Gabriel Medina seria campeão mundial se chegasse até a final, isso era claro.
Slater tinha alguma chance, voces sabem, mínima.
Fanning fungava no cangote.

O grande temor da torcida brasileira era o backdoor, supostamente ferramenta de vantagem dos adversários do Medina e nosso (dele) calcanhar de Aquiles.

Pois o dia 19 amanheceu com ondas melhores justamente para o Backdoor.
Problema nosso.



Voce já segue o Alejo ?

A última etapa do ano tem várias camadas diferentes.

O foco principal é na corrida ao título entre 3 surfistas, os outros 33 tem preocupações diferentes.
Alguns estão ali atrás de sobrevivência, motivos de sobra para atrapalhar qualquer um dos candidatos.

Vejam Alejo Muniz, 24 anos, décimo do ranking em 2011, prestes a se despedir do WCT/WSL 2015 depois de uma temporada negra, sem passar uma única vez pela  terceira fase, precisando ganhar o Pipe Masters para alcançar a qualificação.

Alejo sabia que sendo um dos surfistas com menos pontos enfrentaria os primeiros do ranking e poderia eventualmente ajudar seu amigo Gabriel Medina na luta pelo caneco.

Eis que os sonhos tornam-se realidade e, na terceira fase, Alejo enfrenta o invencível Slater em Pipe, especialidade do Careca.

Sabe quantas vezes o Slater já perdeu assim tão cedo em Pipe ?
Uma vez, em 1997, para o Johnny Boy Gomes - uma única e solitária vez, para um especialista em Pipeline.

Alejo, sem saber que era impossível, foi lá ganhou do Kelly Slater do jeito que gostamos, no ultimo minuto, tubaço no Backdoor.
Menos um na disputa com Medina.

Como nada tem dado muito certo pro Alejo nas competições em 2014, na quarta fase ele fez o total de 1.27 e foi pra repescagem…
O destino, esse velho sacana e sem cueca, colocou logo quem na repescagem junto do Alejo ?
Mick Fanning, último obstáculo entre Medina e a nossa Copa do Mundo do surfe.

Vejam como são as coisas, a sorte anda mesmo ao lado dos campeões.

Contra Alejo, Fanning foi incapaz de fazer uma nota superior a 2 (1.27 + 1.57 = 2.84)!
Na bateria seguinte, quartas de final, Alejo seria eliminado por Ace Buchan e daria adeus ao WCT (por enquanto) mas seria o personagem mais importante depois do Medina e Julian Wilson nesse dia inesquecível.

Siga o Alejo. 

Pausa para ouvir Julian Wilson

Digam o que quiser, temos que respeitar esse cara.

Antes do Pipe Masters, Julian não tinha chegado alem da terceira fase em nenhum campeonato nessa temporada, exceto por Bells Beach e precisava de um milagre para se classificar pelo ranking do WCT (já estava garantido pelo WQS).

Outro milagre o coroaria com o mais cobiçado título depois do mundial, o Triple Crown.
Depois de competir 6 vezes no mesmo dia e ficar na água por 3 baterias seguidas, Julian ganhou o Pipe Masters - há controvérsias…

Penso que devemos ouvi-lo.

Acho que eu estava realmente determinado a terminar o ano com uma campanha decente. Na minha primeira bateria fiz uma soma total de 1,5, na segunda fiz três ou quatro pontos, na quarta consegui seis nas minhas duas ondas, era uma evolução constante e eu continuei persistindo. 
É frustrante fazer notas baixas. 
Você passa a bateria, que é ótimo, mas é difícil de conquistar a auto confiança quando você não faz uma boa apresentação. Então finalmente achei uma onda boa na quinta fase e comecei a me divertir.
Gabriel tinha tido um dia incrível e estávamos os dois sentados lá fora, curtindo. Não houve disputa, sem nada. Ele preferia as esquerdas, de repente ele teve pegou aquela onda pro Backdoor e fez um 10. Foi quando essa última serie veio. Podíamos ver que era tinha um ângulo incrível. A segunda era maior e Gabe tinha prioridade. Ele disse: 'Eu quero a segunda ", por isso, fui na direita e ele pegou a maior pra esquerda, e foi incrível.

Abusado

Diante do desafio de enfrentar Dusty Payne na terceira fase, debaixo de uma pressão que dobraria o mais experiente dos competidores, Medina esperou pela onda da série e fez o de sempre - dominou.
A ameaça da derrota tem rondado o rapaz o tempo todo, desde a primeira etapa, Medina dá de ombros e segue em frente.
Os analistas passaram o ano inteiro tentando revelar o ponto fraco do Medina e campeonato após campeonato ele nos provava que o ponto fraco simplesmente não existia.
5 minutos finais da bateria contra Dusty, Medina tem a prioridade e o havaiano rema certo e firme numa onda para o Backdoor.
Gabriel decide ir, protegendo sua prioridade, desequilibra-se um pouco e mete pra dentro da direita que parece ser rápida demais para ser varada - ainda mais de back-side.
A praia explode quando Medina sai do tubo, braços pra cima.
Peter Mel, Big Wave rider, reportando direto da água, diz que podia perceber a aura de determinação na remada de volta do brasileiro.
A praia de Pipe transforma-se num estádio de futebol, cheia de bandeiras, de cantos de torcida, mãos esmurrando o ar.
Dusty está fora, Medina faz a melhor média da rodada.
Quarta fase, Gabriel x Toledo x Kerr, Filipe lidera, Medina precisa de um 8 baixo.
Faltando menos de 2 minutos, mais uma vez Medina encara sua suposta fraqueza, desta vez um tubo ainda mais profundo e difícil pro Backdoor - 8.84.
Na falta de adjetivos, penso no título do livro do Caco Barcellos - Abusado.
Abusado como Slater em 1992, campeão mundial e Pipe Master.
Abusado o suficiente para sair do mar durante sua bateria nas quartas, celebrar o título com a torcida ensandecida, conceder a protocolar entrevista como campeão mundial, abraçar e ser abraçado pelo amigos e familiares, retornar pra água e ainda vencer um aturdido Filipinho.
Abusado em arrancar uma nota 10 na final do Pipe Masters - para o Backdoor!
Senhoras e senhores, bem vindos à nova era.
Os estrangeiros são os outros.



5 Momentos mágicos do Pipe Masters

Slater volta



Contra Reef McIntosh, quando tudo parecia perdido, Kelly Slater pega duas ondas milagrosas num mar impossível


Jadson “Houdini” Andre 




No dia mais perigoso e tenebroso do Pipe Master, Jadson fez mágica e subitamente transformou uma onda fechada num 9.37 - seria um 10 fácil.


Alejo Brilha



Talvez a mais perfeita onda de todo evento, uma direita linda elimina Slater e deixa o caminho livre para Medina

Tom Carroll ainda reina em Pipe



Um retorno mais que esperado, Tom Carroll apimentou ainda mais a sua relação com Pipe e nos lembrou que, apesar dos 52 anos, quem manda ali é ele.


Gabriel Medina e Backdoor



O início de uma grande relação…





sexta-feira, abril 25, 2014

Bells 2013

[Aproveitando a deixa do Bells de 2014, publico aqui a resenha Facit do evento de 2013]


O indomável

Horas depois da extraordinária vitória do Adriano de Souza em Bells, a imprensa estrangeira tentava, ainda meia tonta, explicar o que todos acabavam de testemunhar.
Afinal de contas, Bells é o evento mais tradicional do mundo, mais de 50 anos sem parar, e a lista dos seus vencedores é a mais verdadeira lista de surfistas de ponta que há, mais ainda que a lista dos campeões mundiais da ASP.
Vejam só, Nat Young, Terry Fitzgerald, Jeff Hackman, MP, Mark Richards, Simon Anderson, Cheyne Horan, Carroll, Curren, Pottz, Occy, Sunny, Hoy, Dorian, Andy, Taj, Slater, Parko, Fanning...
Foi Shane Dorian que cunhou a famosa frase, Nenhum prego jamais venceu em Bells, naturalmente  defendendo seus interesses, mas isso não vem ao caso.
Adriano conhece bem a história dos eventos da ASP e tem como objetivo, alem do óbvio título de campeão mundial, fincar bem seu nome como grande surfista nos principais campeonatos do circuito.
Poucas horas depois do Mineiro literalmente quebrar o sino, o saite do jornal Tracks, quase tão antigo quanto o Rip Curl Bells Easter classic, descrevia a seguinte cena:
No banquete comemorativo dos 50 anos do campeonato de Bells, foram convidados todos campeões desde 1962, homens e mulheres.
Na oportunidade, foi lançado tambem o livro Bells, a praia, o campeonato e os surfistas do Michael Gordon (irmão daquele simpático câmeraman que entretia a todos com assovios e sorrisos).
Mineiro comprou um livro e foi, de mesa em mesa, catando os autógrafos de cada um dos campeões, mostrando respeito e devoção pela história do esporte que lhe deu tudo.
Essa é uma diferença fundamental entre Adriano e todo resto da sua geração e mais jovens, respeito pela história.

Filipe, o pequeno grande Homem

Alguem ainda se recorda das dúvidas que pairavam em torno do Filipe Toledo ?
Responsável por uma das manobras mais impressionantes de todo campeonato, Filipinho surfou com total abandono em Bells e só não mais à frente por ter enfrentado o melhor surfista de todo evento, Jordy Smith.
Precisamos apenas de cuidado ao tentar avaliar as ondas do rapaz e levar em consideração que, mesmo com um surfe de altíssimo nível, Toledo ainda tem muito o que aprender no tour.
O primeiro ano de todos debutantes é para absorver toda e qualquer informação que puder, mesmo que, como Bobby Martinez, ele vença um evento.
Um quinto em Bells é um belo começo.


O poderoso Panda

Ainda melhor do que ver Willian Cardoso bater Slater numa bateria sensacional, foi ler os comentários atônitos dos gringos perguntando sobre o Panda.
Aonde se escondia esse cara ?
Finalmente um surfista power de verdade saindo do Brasil
É o novo Richard Cram
Como esse cara não está no circuito mundial ?
As respostas são faceis.
Cardoso não se escondia, apenas competia no WQS, circuito solenemente ignorado pela imprensa e até mesmo pela própria ASP.
Um circuito sem prestígio nenhum como o WQS é praticamente um limbo entre o mais completo anonimato e os top 32.
Tirando dois ou tres eventos pingados no planeta Prime, o resto não serve nem pra encher a barrinha do lado nos maiores saites de surfe por aí.
O Panda é um produto desse circuito desalmado que serve tambem como uma espécie de organização militar, onde os cadetes devem se submeter aos mais enlouqecidos desejos dos mais graduados em nome duma possível aceitação.
Os top 32 são os oficiais, a turma do WQS são os recrutas e as grandes marcas, o estado maior.
Willian Cardoso era um recruta dedicado, seria o equivalente a um sargento hoje, tem mais horas de batalha que muito malandro nos top e deseja os escalpes com mais fúria e paixão do que todos americanos e australianos juntos.
O que acontece com o Panda hoje é a mesma coisa que passou Tiago Pires antes de entrar no tour, sempre perto da vaga, sempre batendo na trave e surfando tanto quanto seus pares no WCT.
Voltando a bateria contra Slater, Cardoso mostrou ao público com quantos litros d'água se faz uma cachoeira.
Enquanto Slater buscava os tubos apertadinhos, o Panda enterrava seus quase 90 kilos de músculos na parede do bowl de Bells e deixava todos boquiabertos.
O resultado foi uma derrota com gosto especial de merda para o careca, justo no ano que ele anunciou estar comprometido.
E desta vez, não tinha juíz pra culpar, nem falta de ondas, nem prancha...

Raoni Gigante

Juro que não aguento mais ouvir os locutores se referindo ao Raoni como matador de gigantes.
Raoni não é matador de gigantes, Raoni É um gigante!
Ele mesmo escreveu isso no twitter depois de vencer Joel Parkinson.
A lista de baixas é grande e do mais alto nível, Slater em Portugal, Fanning, Occy, Parko, todos quando disputavam títulos.
Raoni é o tipo de sujeito que cresce nesse ambiente de tensão.
Coisa de quem tinha que cair, desde pequeno, nos maiores mares em Itaúna, uma das ondas mais fortes do Brasil.
O cara ganhou um evento em Sunset, por Deus do Céu!
Evitem se referir ao Raoni com essa expressão cafona e ridícula que os gringos inventaram por absoluta falta de recursos no próprio idioma.
Raoni é um gigante, Pôrra!

Ao meu comando

Steve Shearer, meu jornalista predileto nesse mundinho cão das coberturas do WCT, aproximou-se do Mineiro e disparou, como voce está se sentido agora que toda atenção da imprensa é dedicada ao Gabriel Medina e seu futuro título mundial.
Ainda estávamos nas primeiras fases e Adriano respondeu altivo, É verdade, todos falam dele, mas se voce perceber, nos últimos cinco anos, estive sempre nos top 5. Não sou mais uma zebra. Eu sou candidato ao título.
Mineiro poliu seu surfe aos poucos e foi se livrando da sua cavada em dois tempos para o Bells deste ano, claramente observando o que funciona e o que não funciona no julgamento.
Um amigo meu disse que Mineiro compete com o livro de regras debaixo do braço e está coberto de razão.
A inteligência do Adriano vai bem mais longe do que enxergam nossos pobres companheiros de imprensa.
Mineiro sabe como ler uma onda e como estudar seu ataque pra cada uma delas, ao contrário de algum dos seus adversários que confiam somente no talento.
Voce não se mantem nos top 5 sem muito esforço instinto competitivo.
Vitórias em Jeffreys, Supertubos e agora Bells.
Adriano crava seu nome no Olimpo não apenas como maior competidor brasileiro de todos tempos, mas um dos maiores e mais ferrenhos competidores de todos tempos.
Seu nome agora figura ao lado do Nat Young, Terry Fitzgerald, Jeff Hackman, MP, Mark Richards, Simon Anderson, Cheyne Horan, Carroll, Curren, Pottz, Occy, Sunny, Hoy, Dorian, Andy, Taj, Parko, Fanning e Slater.
E em 2013, ninguem está mais próximo dum título mundial do que Adriano de Souza.

10 fatos que (tambem) marcaram o Rip Curl Pro Bells 2013

1 - Adriano venceu seu primeiro evento para seu novo patrocinador, a marca cearense Pena - todo investimento já teve retorno.

2 - Alejo voltou ao seu melhor e deve voltar pros top 10

3 - Carissa Moore fez chover em Bells e dificilmente perde o título em 2013

4 - Apesar da vitória da Carissa, Steph ainda tem a linha mais pura e bela em Bells - podemos incluir aqui mais da metade dos top 32.

5 - Nat Young sentiu-se em casa nas direitas geladas de Bells, mas a ajuda do Maurice Cole foi preciosa.

6 - A cara do CJ quando Mineiro usou corretamente a prioridade na terceira fase foi uma das cenas mais divertidas do evento

7 - O vigor com que Adriano badalou o sino até quebrar!

8 - Jornalistas australianos e americanos finalmente mostraram respeito, e arrisco até dizer, reverência ao surfe brasileiro.

9 - Parko jogou fora mais uma das suas providenciais vantagens depois da derrota do Careca

10 - Chupa Careca!