quarta-feira, abril 06, 2016

A revolução foi televisionada

[Texto de maio 2015, para a Revista Hardcore e Surf Portugal]


Um certo domingo em 1991

Teco Padaratz mal podia conter seu sorriso ao entrar ao vivo no Esporte Espetacular, domingão de sol, praia cheia - cheia, não, lotada.

Abarrotada.

Tinha qualquer coisa naquele sorriso no canto da boca que denunciava tantas memórias, sonhos e desejos que até o próprio Teco duvidava.

Em 1991, a cobertura do evento carioca da ASP, Alternativa Pro, primeira das duas etapas do circuito mundial pré-WCT que tínhamos no Brasil (a outra era o Hang Loose Pro), comentava com espanto as dimensões que o surfe tomava, Pedro Falcão escreveu assim na então mais vendida,

O português Nuno Jonet fez a locução e no domingo decisivo havia cerca de 10 mil pessoas na praia. 

Flávio Padaratz precisou de proteção policial para escapar do assédio dos fãs

"Isso tá maior que a torcida do Curren no Op

declarou o campeão mundial de 1988 Barton Lynch, antes da semifinal.

Estávamos todos em êxtase com a enorme atenção que o surfe ganhava no despertar da década, Rede Globo, Bandeirantes, todos grandes jornais, imprensa especializada, fanzines e rádios juntos pela popularização do surfe brasileiro. O frenesi subia pela espinha de cada entusiasta.
A hora era agora e ninguém seria capaz de escapar da febre do surfe que chegava chegando.

Quase 25 anos depois, a febre não passou de uma gripe e agora se anuncia como epidemia.

Explico, pela terceira vez, depois do namoro inicial nos 70 e os alucinados 80, o surfe parecia embalado nos 90 pra ganhar de vez o coração dos brasileiros.

Apenas em 2015 podemos ler na capa dum jornal popular (verdadeiramente popular, não os jornalões) que  - Fla, Flu e Vasco não fazem nem marola - A Onda agora é outra (Jornal Extra, Rio de Janeiro, segunda feira, 18 de maio de 2015), comparando o sagrado futebol de domingo com a conquista do Filipe Toledo na etapa brasileira do circuito mundial.

Não há prova mais viva e retumbante da chegada do surfe ao povo.
Aquele povo que não pode, ou não quis, ir até a praia fazer parte dos 30.000 torcedores gritando e fazendo todo tipo de barulho apoiando seus irmãos.

Caso rolasse uma lágrima pelo rosto ainda perplexo do Teco, ninguém ia estranhar.

Dentro d’água, Filipe Toledo em transe competitivo ignorava tudo que acontecia - a única coisa que interessava era não cair da prancha.

Quando Filipinho não cai da prancha, nada o detém.

A revolução está ao vivo

Kelly Slater recebeu a mensagem em 2013, durante a etapa francesa do Tour.

Quartas de final, Slater X Toledo, ondas de um metro, perto da beira.
Toledo com 17 anos contra Slater aos 41.
Uma bateria que parecia resolvida no papel, o Careca já tinha batido Filipe na quarta fase e a França adora Kelly - sempre adorou.
Filipe vinha de dois 25ºs e dois 13ºs, começara bem o ano com dois 5ºs mas perdeu o trilho.
Slater, por outro lado, começou 2013 com uma vitória na Goldie, outra em Fiji, um 2º em Tehupoo e não parecia disposto a perder pra ninguém fora dos top 5.

Foi uma destruição completa.

Jornalistas estrangeiros tentavam desesperadamente achar um motivo para a mudança de foco, mas a verdade é que Toledo amadurecia seu surfe elétrico e criativo para se adaptar ao WCT e dois anos depois, o mundo estaria aos seus pés.

Definindo o indefinível

Brad Gerlach definindo o surfe do Filipe para o site Beachgrit:

Ele é tecnicamente superior - então ele nem pensa. Surfa de uma maneira tão espontânea que você nunca sabe o que ele vai fazer.
Ele mesmo não sabe.
E isso é foda!
O que me surpreende em muitos caras que vejo por aí é que são muito confiantes mas parecem conservadores quando competem.
Filipe está sempre empolgado em ir surfar!
A postura dele é boa, mas seu pé da frente a principal razão da superioridade.
Ele não usa o pé da frente como Bede ou até mesmo como Conner (Coffin, treinado pelo Gerlach) se voce quer saber.
Slater também é assim.
Dane (Reynolds) também sabe usar o pé da frente como ninguém, mas também sabe usar o pé de trás.
O pé da frente é a aceleração.
Voce usa todo seu peso e cintura no pé da frente pra acelerar.
Quando voce coloca peso demais no pé de trás, há um atraso quando voce muda pro pé da frente.
Filipe tem pleno domínio do pé da frente, então ele nunca perde tempo tirando de um e passando pro outro, ficando agarrado em cima da onda… 
E a principal razão dele conseguir acertar tantos aéreos é que ele sabe onde vai cair antes de decolar.
Quanto melhor surfista voce é, mais devagar a onda se apresenta pra você.
Pro Filipe, a onda parece lenta e ele tem tempo suficiente pra pensar exatamente o que vai fazer.
É uma coisa linda de ver.

Devo acrescentar que pouca gente no mundo do surfe hoje pensa a técnica em tão alto nível quanto Brad Gerlach.


Nada como um dia atrás do outro

O que acontece agora na WSL não tem precedentes.

Mineiro em primeiro, Toledo em segundo.

Se 2014 foi impressionante pelo domínio do Medina, logo no ano seguinte o Brasil mostra que Gabriel não foi apenas um fenômeno isolado.

Em quatro eventos, cedo demais para qualquer previsão honesta, a nação dominante deixou de ser Australia ou Estados Unidos e passou a ser o Bananão.
E atenção que Gabriel ainda nem entrou no jogo.
Não se enganem com o atual campeão mundial.
Ele tem só 21 anos e ainda mastiga os louros do título pensando no doce sabor da vitória.
Não é difícil imaginar Medina arrastando duas ou tres etapas daqui pra frente, entrando na briga pelo caneco, com Mineiro, Toledo e Fanning. 
Se não acontecer nesse ano, no ano seguinte ele volta com tudo.
Slater ganhou seu primeiro em 92, deixou Derek Ho ganhar em 93 e saiu enfileirando 5 títulos de 94 a 98.
A bola está em jogo.

Fascinante transição

Eu sei que Italo teve uma atuação incrível, assim como Jadson, mas tudo que vamos lembrar em 5 ou 10 anos é o desempenho do Filipe.
O sul africano Craig Jarvis, ex-editor da revista Zig Zag e um dos mais argutos observadores do circuito escreveu suas impressões pro Tracks australiano sobre o evento:

Filipe Toledo venceu o Oi Rio Pro, e venceu o campeonato com possivelmente a melhor performance (prefiro desempenho, mas vou respeitar o clichê) jamais vista no surf profissional. Os superlativos fluem com facilidade: os melhores aéreos já realizados em uma competição, a melhor performance em um campeonato, o surf mais progressivo, a multidão mais selvagem, o maior público, e o maior evento de surf de todos os tempos. Um surfista que literalmente mudou a forma como assistimos o surf. Filipe merece cada um destes superlativos, transformando fechadeiras de merda de um beach break nos maiores aéreos do dia com a agilidade de um ginasta Olímpico. Aos 20 anos de idade Filipe tem o mundo à sua frente.


O maior site de surfe do mundo, Surfline, escreveu que Toledo é,
O melhor surfista de ondas pequenas jamais visto.
Palavras deles, não minhas.

Se no ano passado havia muita desconfiança em cada conquista do Medina, agora, como disse o jornal citado no início do texto, a onda é outra.
Somos nós, os brasileiros, que devemos pedir calma aos estrangeiros, nem tanto ao mar, nem tanto à terra.
O mais absurdo disso tudo é que talentos como Owen Wright, Julian Wilson, Parko, Taj, Florence, Slater e Jordy Smith já nem entram mais nas discussões sobre título.
Se antes era raro ler uma linha sequer sobre as atuações dos brasileiros nas coberturas publicadas fora daqui, a coisa mudou de figura.

Não demora teremos, como em 1999 (Neco em primeiro, Fia em segundo, Ribas em terceiro no US Open), tres surfistas entre os 4 primeiros.

Desde 2011 um surfista brasileiro não vencia em casa, o grito estava entalado na garganta e a festa nunca foi tão linda.







10 coisas que não vamos esquecer do Oi Rio Surf Pro 2015

1 - A distancia do Filipe pro resto nunca foi tão grande e as duas notas 10 evidenciaram isso.

2 - Atuação do Mineiro na primeira fase foi de outro mundo.
Puro coração, sem deixar a estratégia de lado.
Poucas vezes a torcida delirou tanto…

3 - A Medinamania chegou pra ficar.
É hora do Mauricio de Souza criar logo um personagem em quadrinhos pro Gabriel.
A histeria em torno do rapaz é de impressionar até quem já esteve do outro lado, como Slater.

4 - Já não temos mais um palanque, aquilo era uma cidade.

5 - A WSL está mudando o jeito do publico se relacionar com o surfe profissional - e isso é um elogio.
A diferença entre o evento de 2015 com os últimos 3 anos é gigantesca.

6 - Desta vez na transmissão a maioria era de gente que merece e deve ser ouvida.
Pedro Muller é a melhor aquisição que a WSL poderia fazer e acompanhado do Fabio Gouveia, Renan Rocha e eventualmente do Teco, fica ainda melhor.
Binho Nunes cairia bem nessa turma.

7 - A cobertura da grande imprensa.
Nunca o surfe foi visto por tanta gente com lente de aumento.
Mesmo com uma quantidade enorme de sandices, entre mortos e feridos salvaram-se todos.
O saldo foi positivo.

8 - A polemica da água imunda.
Aquela região tem água imprópria desde os anos 90, mas foi bom que o biólogo Mario Moscatel tenha aproveitado a atenção e jogado luz no assunto.
Em tempo, São Conrado nunca foi uma alternativa real pros eventos cariocas.
Desde que foi especulado pela primeira vez, uma exigência dos surfistas, nenhuma houve palanque alternativo - pela mesma poluição de 2015.

9 - Uma semana depois de terminado o campeonato, ainda era possível ver Filipe Toledo passeando no Shopping, ou John Florence de rolezinho pela cidade.
O circo se recusa a ir embora.
Rumores que Florence convidou Medina e Toledo para gravar uma sequencia do seu filme novo aqui no Rio de Janeiro.

10 - A festa.
Como esquecer a festa ?















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