segunda-feira, dezembro 21, 2015

Por quem dobram os sinos ?


[Resenha dos campeonatos de Bells e Margies, abril de 2015]

Ever tried. Ever failed. No matter. 
Try Again. Fail again. Fail better. 

Samuel Beckett


3… 2… 1!

Pausa para o jogo do século XXI

As histórias dos grandes retornos são as que mais fascinam.
Um sujeito, ou time, acuado com medo do fracasso supremo é capaz de coisas que até o homem duvida.

Final da Champions, 25 de maio de 2005, entre Milan e Liverpool, jogo que ficou conhecido como O Milagre de Instambul. 70.000 pessoas presentes.

O esquadrão do Milan meteu 3 logo no primeiro tempo, sem pena.
O time italiano tinha Kaka, Dida e Cafu, Seedorf, Maldini, Pirlo, Crespo e Shevchenko.
Liverpool foi pro intervalo e seu técnico, o espanhol Rafa Benitez, convenceu os 11 homens a lutar como se fosse o último dias das suas vidas.

De volta pro segundo tempo, em mágicos 6 minutos o time inglês empatou o jogo, embalado pela torcida ensandecida cantando o poderoso hino You´ll Never Walk Alone - mesmo que seus sonhos sejam varridos e arrasados, você nunca estará sozinho!

Encerrada a surpreendente partida, vieram as cobranças dos penaltis, vitória do Liverpool, 3 x 2.

Esse foi apenas um dos grandes exemplos que o esporte insiste em nos ensinar, nunca desista, principalmente se quase 40.000 torcedores apaixonados te empurram pra frente.

Já dizia Taylor Knox (que ganhou apenas um evento em toda carreira no WCT), quem desiste nunca será um vencedor e um vencedor nunca desiste. 

Tenha Adriano de Souza na cabeça durante o resto do texto.


Por quem dobram os sinos ?

Mal deu tempo para digerir a vitória do Filipinho na primeira etapa e já estávamos todos completamente envolvidos com a previsão de ondas do Rip Curl Pro em Bells.
A euforia era enorme, alimentada pela possibilidade de ondas pequenas, e a esperança dum segundo triunfo do furacão Toledo - principalmente se lembrarmos do jeito que foi a lavada.

Ou mesmo a tão aguardada volta do Medina ao pódio.
Especulava-se tudo, Slater, Florence, Julian, Taj… incrivelmente o nome do Mineirinho não era assim tão repetido.
Justo ele, campeão em 2013, mais experiente do conterrâneos no WSL, vindo de um terceiro lugar no Gold Coast, eliminando o favorito local Mick Fanning na quarta de final.

A primeira fase foi um banho de água fria, todos brasileiros perderam, Medina foi o único que sobreviveu.

Um pequeno abalo foi suficiente pra fazer Toledo acordar e simplesmente destroçar os havaianos Dusty Payne e Seabass.

Durante todo campeonato o surfe beirou o sofrível, com médias baixas e nível de surfe que nos faz duvidar várias vezes desse formato engessado.

A onda de Bells carrega uma história que se confunde com a própria história do surfe profissional.

Foi ali que Michael Peterson consolidou a lenda de maior competidor do seu tempo e também foi ali que Mark Richards começou a fantástica corrida que lhe daria quatro títulos mundiais.
Todos grandes surfistas já vencerem em Bells, Carroll, Curren, Potter, Andy, Sunny, Occy, Parko, Fanning, Slater.
Existe uma mística no lugar que não permite que o circuito se afaste dali, mesmo com toda antipatia que existe hoje com a onda.

A gritaria acusando Bells de ser uma onda cheia, sem graça, encontra coro por todo lado e até faz algum sentido, mas o esporte precisa dos seus símbolos e Bells é um dos nossos poucos templos obrigatórios.

Nem que fosse apenas para reverenciar passos fundamentais para a evolução do surfe, como a (re)invenção do surfe de backside pelo Wayne Lynch nos anos 60, ou a afirmação da triquilha como equipamento funcional por Simon Anderson nos 80.

O ritual reconhece a história sem deixar de apontar pra frente, basta lembrar da final entre Fanning e Slater em 2012, uma derrota doída do Careca, com nota 10 e full rotation executado à perfeição e tudo.

Bells é uma onda de repetição, nos últimos 20 anos tivemos Sunny Garcia, Parko e Andy Irons vencendo 3 vezes cada, Slater e Fanning (como já veremos) mais 4 cada um.

Bells Bowl, 4 a 6, Terral

Desta vez não vimos as condições perfeitas, a suposta onda capaz de elevar o surfe de garotos ao próximo degrau.
2015 será lembrado como o ano do julgamento confuso.
Jordy e Jadson foram duas vítimas dessa confusão.
Jordy, como bem percebeu Steve Shearer, astuto jornalista australiano, sofre com o preconceito que armou-se em torno dele de que o sul africano não seria tão eficiente em ondas pesadas de verdade quanto é nas direitas da sua predileção - J. Bay, Testles, Snapper, Bells.
O fato dele ser descartado numa corrida séria ao título amassa suas notas contra o peso de um Fanning, ou Parko - supostamente candidatos legítimos.
Mas isso são apenas suposições e nós sabemos que nada disso faz sentido.

Jadson foi melhor que Fanning nas oitavas.
Em nenhum momento o Macaco Albino foi o surfista do campeonato, nem ele nem Mineiro.
Os dois foram eliminando a concorrência silenciosamente, sem nenhum alarde, com a frieza de um assassino contratado.

Quando se encontraram na final, em ondas horríveis, mexidas, deformadas, seria a terceira vez na temporada em apenas dois eventos.
Uma vitória pra cada um, sendo que Adriano ignorou Mick nas quartas do Quik Pro.
Tinham contas para acertar.
Mineiro foi preciso, Fanning ligeiramente mais insinuante.
O resultado foi como deveria ser, polemico, suado, por que não justo ?
Veremos isso logo adiante, na etapa de Margaret River…


Acabei de ganhar do melhor surfista do mundo!

A Arte da ficção

Permitam que se use aqui um pequeno trecho da entrevista do escritor americano Ernest Hemingway, notório também pela sua queda por touradas, corridas de cavalos, caçadas e guerras, em 1954, num café em Madri.

Hemingway pergunta ao seu entrevistador,
Voce costuma ir às corridas ?

O entrevistador responde,
Sim, as vezes.

Hemingway,
Então voce le os programas das corridas…Ali voce tem a verdadeira arte da ficção.

A mesma coisa acontece quando lemos a lista das baterias do campeonato.
O papel aceita tudo.

Quando todos sites, inclusive a WSL, começaram a analisar o quão grande poderiam ficar as ondas em Margaret River, a expectativa de assistirmos um evento da magnitude do Fiji Pro de 2012 parecia iminente.

Parko teria encomendado uma prancha de 8’, pela primeira vez em muitos anos o fã poderia ver seu surfista preferido usando as gunzeiras fora do Havaí.

Na minha cabecinha doente, recordava-me de um campeonato em 1990, que aparecia no primeiro Sarge surfing Scrapbook, uma serie de videos que o fotografo Paul Sargeant fazia nos anos 90.
Margaret River ainda era um mistério nessa época, pouco aparecia nas revistas ou filmes.
No jornal Tracks, Derek Hynd descreveu as condições como 15’ a 20’, as maiores já vistas fora do North Shore na ASP.
O Tahitiano Vetea David surfou com uma 8’6’’, Tom Curren conseguiu uma 9’1’’.
Ainda não se falava em The Box.

Corta para 2015, voce olha a lista de baterias da primeira fase, nome por nome, depois ouve o locutor falando que The Box tem quase 10 pés de onda.
Aquilo é um moedor de carne.
O túmulo dos goofys.
Tambem é o sonho do Kieran Perrow, surfista mediano que sempre se destacou nessas condições extremas.
KP tem a chance de expor essa nova geração ao ridículo e fará de tudo para isso - ou não.
As médias são lamentavelmente baixas.
Slater vence a sua bateria com um total de 8,2.
Ninguem faz mais de 16 pontos em toda primeira fase!

A segunda fase começa com a derrota do Medina e Toledo.

Nada empolga muito até Owen Wright se atirar em duas ondas que serão repetidas à exaustão nos próximos 10 anos.
Sua irmã, Tyler, gritava do canal pra ele não dropar a bomba - ainda mais de costas pra onda.
Engraçado que foi preciso um goofy pra mostrar como se faz naquela deformação de onda…

O campeonato parecia feito sob medida para Owen, Slater e John John.
Ondas enormes, pesadas, perfeitas mas nem tanto.
Nenhum brasileiro entrava nas listas de favorito.
Mineiro sobrevivia com a garra de sempre e já era o dono da camisa amarela depois que Fanning perdeu para Jay Davies sem tanta empolgação.
Mas como resistir ao ataque do Slater em Margaret no terceiro e maior dia de competição ?

Tema de Kelly

São anos demais de circuito.
Ele já não tem mais a mesma energia, nem motivação.
A idade começa a lhe cobrar o preço.

Fale o que quiser do camarada, quando é chegada a hora de revelar sua majestade, Slater ainda é capaz de fazer o impossível.
No meio dos 34 existe muita gente que faz o diabo, cada um dos seu jeito, em determinadas condições, mas Slater molda as condições ao seu bel prazer e as transforma em arte.
Seu 10 contra o pobre coitado do Glen Hall podia ser um 15 - fácil.
Surfando com uma prancha abaixo da média, uma mera 6’3’’, bat tail (rabeta batman), Slater fez uma linha anormal numa das maiores ondas da bateria, entubou com a categoria de sempre, saiu limpo, rasgou usando toda parede como quem desejasse acariciar um dragão começando pela cabeça e terminando com a ponta da cauda.
O que ele não sabia, nem esperava, é que tinha um Mineiro no meio do caminho…

Ace Buchan, 16 de março de 2009

No blogue que Adrian Buchan escrevia no Surfline, muito bem escrito diga-se de passagem, Ace refletia sobre a primeira etapa e concluia que competir em alto nível no circuito mundial não é para qualquer um, a pressão é enorme e o sujeito tem que gostar da batalha, dizia ele.
Veja o que Ace escreveu sobre Adriano,

Por isso Adriano é  bem sucedido, porque ele ama a disputa. Obviamente ele surfa muito, mas ele ama a competição. Na primeira fase ele quase remou por cima do Jordy para defender sua liderança (2009). É por isso que Kelly tem(tinha) nove títulos. Mesmo podendo confiar no seu talento para avançar mais da metade do tempo, quando necessário ele afronta seu oponente e briga pelas migalhas. 
No final do dia é o surfe que fala mais alto, voce não quer se engalfinhar pra passar a bateria. Para mim, é disso que o esporte é feito e por isso é tão empolgante. Ver pessoas se testando em situações de aperto e tendo que brigar por aquilo. Eu amo aquilo!

Nós aqui na Hardcore tambem amamos isso, Ace!

Aqui é Mineiro, porra!

John John era o Milan, irresistível, atropelando todo mundo, cartel de vitórias arrasador, repleto de jogadores caros e talentosos - metendo 3 gols no primeiro tempo da final e praticamente decidindo o jogo.

Mineiro pode ser representado pelo Liverpool, um time aguerrido, mas desacreditado, liderado por um técnico mestre na estratégia e que não desiste jamais.
Depois de ter lutado tanto e chegado tão perto de ser o primeiro campeão mundial brasileiro, Adriano viu Medina roubar seu sonho.
Ou parte dele.
O sonho de ser campeão mundial permanece.

O primeiro gol foi marcado no Quik Pro, vice em Bells, oitavas já garante a lycra amarela pro Rio.
Agora vamos pros penaltis.

Na folha das baterias, uma bateria entre Slater e Adriano num mar de mais de 8 pés resulta num massacre, só que não.
Desde 2010, em Porto Rico, De Souza já enfrentou Slater 10 vezes e perdeu apenas uma.
Ninguem no circuito entendeu melhor como funciona o jogo.
Eu sei que tenho que ser melhor do que ele (Slater) nos 30 minutos, porque nunca serei melhor que ele fora das baterias, declarou Adriano para a adorável Chelsea quando saiu do mar.

Mineiro é um dos únicos, senão o único a ter um retrospecto de 100% pra cima do Gabriel Medina, são 6 x 0 e isso não é pouco!

Alem de eliminar Slater, Mineiro ainda tinha o herói local, Taj Burrow (que vai ser papai!) pela frente.
Surfando com o livro de regras debaixo do braço, sem errar, escolhendo as ondas com perfeição e, principalmente, sem cair da prancha, Adriano foi batendo os seus penaltis até o triunfo final.

Exultante ao sair da final contra Florence, Mineiro ajoelhou no chão, agradecendo aos céus e ao seu anjo da Guarda, Ricardo dos Santos, pela glória alcançada.

Eu acabei de ganhar do melhor surfista do planeta!

A consciência brutal de se reconhecer inferior ao camarada que ele derrotou mostra uma maturidade digna de quem está pronto para cumprir seu destino.

E todos nós sabemos que Mineiro não vai descansar enquanto não levantar o caneco de campeão mundial.








5 comentários:

Massa de Água disse...

De fato, Margaret River foi o que embalou mineiro para a vitória, foi o evento que simbolizou a jornada desse herói.

Anônimo disse...

Júlio, já estou ansioso pelo seu texto reverenciando o nosso guerreiro incansável Mineiro, detalhando cada degrau superado nessa escalada digna do monte Everest.
Saudações e boas ondas.
Bruno Rozenbaum

Chico Padilha disse...

Esse é "o" texto do título mundial.

Renato disse...

Sensacional, texto maravilhoso, parabéns!

Anônimo disse...

Júlio, tá na hora de voltar com o blog, o ct bate à porta..