sexta-feira, abril 25, 2014

Bells 2013

[Aproveitando a deixa do Bells de 2014, publico aqui a resenha Facit do evento de 2013]


O indomável

Horas depois da extraordinária vitória do Adriano de Souza em Bells, a imprensa estrangeira tentava, ainda meia tonta, explicar o que todos acabavam de testemunhar.
Afinal de contas, Bells é o evento mais tradicional do mundo, mais de 50 anos sem parar, e a lista dos seus vencedores é a mais verdadeira lista de surfistas de ponta que há, mais ainda que a lista dos campeões mundiais da ASP.
Vejam só, Nat Young, Terry Fitzgerald, Jeff Hackman, MP, Mark Richards, Simon Anderson, Cheyne Horan, Carroll, Curren, Pottz, Occy, Sunny, Hoy, Dorian, Andy, Taj, Slater, Parko, Fanning...
Foi Shane Dorian que cunhou a famosa frase, Nenhum prego jamais venceu em Bells, naturalmente  defendendo seus interesses, mas isso não vem ao caso.
Adriano conhece bem a história dos eventos da ASP e tem como objetivo, alem do óbvio título de campeão mundial, fincar bem seu nome como grande surfista nos principais campeonatos do circuito.
Poucas horas depois do Mineiro literalmente quebrar o sino, o saite do jornal Tracks, quase tão antigo quanto o Rip Curl Bells Easter classic, descrevia a seguinte cena:
No banquete comemorativo dos 50 anos do campeonato de Bells, foram convidados todos campeões desde 1962, homens e mulheres.
Na oportunidade, foi lançado tambem o livro Bells, a praia, o campeonato e os surfistas do Michael Gordon (irmão daquele simpático câmeraman que entretia a todos com assovios e sorrisos).
Mineiro comprou um livro e foi, de mesa em mesa, catando os autógrafos de cada um dos campeões, mostrando respeito e devoção pela história do esporte que lhe deu tudo.
Essa é uma diferença fundamental entre Adriano e todo resto da sua geração e mais jovens, respeito pela história.

Filipe, o pequeno grande Homem

Alguem ainda se recorda das dúvidas que pairavam em torno do Filipe Toledo ?
Responsável por uma das manobras mais impressionantes de todo campeonato, Filipinho surfou com total abandono em Bells e só não mais à frente por ter enfrentado o melhor surfista de todo evento, Jordy Smith.
Precisamos apenas de cuidado ao tentar avaliar as ondas do rapaz e levar em consideração que, mesmo com um surfe de altíssimo nível, Toledo ainda tem muito o que aprender no tour.
O primeiro ano de todos debutantes é para absorver toda e qualquer informação que puder, mesmo que, como Bobby Martinez, ele vença um evento.
Um quinto em Bells é um belo começo.


O poderoso Panda

Ainda melhor do que ver Willian Cardoso bater Slater numa bateria sensacional, foi ler os comentários atônitos dos gringos perguntando sobre o Panda.
Aonde se escondia esse cara ?
Finalmente um surfista power de verdade saindo do Brasil
É o novo Richard Cram
Como esse cara não está no circuito mundial ?
As respostas são faceis.
Cardoso não se escondia, apenas competia no WQS, circuito solenemente ignorado pela imprensa e até mesmo pela própria ASP.
Um circuito sem prestígio nenhum como o WQS é praticamente um limbo entre o mais completo anonimato e os top 32.
Tirando dois ou tres eventos pingados no planeta Prime, o resto não serve nem pra encher a barrinha do lado nos maiores saites de surfe por aí.
O Panda é um produto desse circuito desalmado que serve tambem como uma espécie de organização militar, onde os cadetes devem se submeter aos mais enlouqecidos desejos dos mais graduados em nome duma possível aceitação.
Os top 32 são os oficiais, a turma do WQS são os recrutas e as grandes marcas, o estado maior.
Willian Cardoso era um recruta dedicado, seria o equivalente a um sargento hoje, tem mais horas de batalha que muito malandro nos top e deseja os escalpes com mais fúria e paixão do que todos americanos e australianos juntos.
O que acontece com o Panda hoje é a mesma coisa que passou Tiago Pires antes de entrar no tour, sempre perto da vaga, sempre batendo na trave e surfando tanto quanto seus pares no WCT.
Voltando a bateria contra Slater, Cardoso mostrou ao público com quantos litros d'água se faz uma cachoeira.
Enquanto Slater buscava os tubos apertadinhos, o Panda enterrava seus quase 90 kilos de músculos na parede do bowl de Bells e deixava todos boquiabertos.
O resultado foi uma derrota com gosto especial de merda para o careca, justo no ano que ele anunciou estar comprometido.
E desta vez, não tinha juíz pra culpar, nem falta de ondas, nem prancha...

Raoni Gigante

Juro que não aguento mais ouvir os locutores se referindo ao Raoni como matador de gigantes.
Raoni não é matador de gigantes, Raoni É um gigante!
Ele mesmo escreveu isso no twitter depois de vencer Joel Parkinson.
A lista de baixas é grande e do mais alto nível, Slater em Portugal, Fanning, Occy, Parko, todos quando disputavam títulos.
Raoni é o tipo de sujeito que cresce nesse ambiente de tensão.
Coisa de quem tinha que cair, desde pequeno, nos maiores mares em Itaúna, uma das ondas mais fortes do Brasil.
O cara ganhou um evento em Sunset, por Deus do Céu!
Evitem se referir ao Raoni com essa expressão cafona e ridícula que os gringos inventaram por absoluta falta de recursos no próprio idioma.
Raoni é um gigante, Pôrra!

Ao meu comando

Steve Shearer, meu jornalista predileto nesse mundinho cão das coberturas do WCT, aproximou-se do Mineiro e disparou, como voce está se sentido agora que toda atenção da imprensa é dedicada ao Gabriel Medina e seu futuro título mundial.
Ainda estávamos nas primeiras fases e Adriano respondeu altivo, É verdade, todos falam dele, mas se voce perceber, nos últimos cinco anos, estive sempre nos top 5. Não sou mais uma zebra. Eu sou candidato ao título.
Mineiro poliu seu surfe aos poucos e foi se livrando da sua cavada em dois tempos para o Bells deste ano, claramente observando o que funciona e o que não funciona no julgamento.
Um amigo meu disse que Mineiro compete com o livro de regras debaixo do braço e está coberto de razão.
A inteligência do Adriano vai bem mais longe do que enxergam nossos pobres companheiros de imprensa.
Mineiro sabe como ler uma onda e como estudar seu ataque pra cada uma delas, ao contrário de algum dos seus adversários que confiam somente no talento.
Voce não se mantem nos top 5 sem muito esforço instinto competitivo.
Vitórias em Jeffreys, Supertubos e agora Bells.
Adriano crava seu nome no Olimpo não apenas como maior competidor brasileiro de todos tempos, mas um dos maiores e mais ferrenhos competidores de todos tempos.
Seu nome agora figura ao lado do Nat Young, Terry Fitzgerald, Jeff Hackman, MP, Mark Richards, Simon Anderson, Cheyne Horan, Carroll, Curren, Pottz, Occy, Sunny, Hoy, Dorian, Andy, Taj, Parko, Fanning e Slater.
E em 2013, ninguem está mais próximo dum título mundial do que Adriano de Souza.

10 fatos que (tambem) marcaram o Rip Curl Pro Bells 2013

1 - Adriano venceu seu primeiro evento para seu novo patrocinador, a marca cearense Pena - todo investimento já teve retorno.

2 - Alejo voltou ao seu melhor e deve voltar pros top 10

3 - Carissa Moore fez chover em Bells e dificilmente perde o título em 2013

4 - Apesar da vitória da Carissa, Steph ainda tem a linha mais pura e bela em Bells - podemos incluir aqui mais da metade dos top 32.

5 - Nat Young sentiu-se em casa nas direitas geladas de Bells, mas a ajuda do Maurice Cole foi preciosa.

6 - A cara do CJ quando Mineiro usou corretamente a prioridade na terceira fase foi uma das cenas mais divertidas do evento

7 - O vigor com que Adriano badalou o sino até quebrar!

8 - Jornalistas australianos e americanos finalmente mostraram respeito, e arrisco até dizer, reverência ao surfe brasileiro.

9 - Parko jogou fora mais uma das suas providenciais vantagens depois da derrota do Careca

10 - Chupa Careca!


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