quarta-feira, abril 07, 2010

Diario dos Sinos VIII & IX


Minha aposta para vencer aqui, diz Potter.

Despacho VIII e IX

Preciso correr.
Hoje ja é depois de amanha no diario.


13, meu numero de sorte

13th # é uma praia parecida com Moçambique em Floripa, no maximo um meio da Barra misturado com praia do Rosa, nos seus dias mais inspirados.
Para os amigos de Portugal, diria que lembra bastante os Belgas.
Chegamos na praia 13th 10 minutos antes de começar o dia de competições, ceu nublado, praia cheia embora dia trabalho.
Impressionante a quantidade de crianças e cachorros na praia.
Raramente uma familia aparece com menos de 2 crianças, esse é um país em desenvolvimento, arrisco dizer, pela coragem que a turma tem de colocar tanta gente nesse mundão de Deus.
Na maré vazia, manhãzinha, as ondas tem no maximo meio metro e não são la muito simpaticas, 3 horas mais tarde na maré cheia, ja terão triplicado em tamanho e simpatia.
As 10 primeiras baterias são ainda na maré baixa, Medina apavora Damien Hobgood, Bede, Bobby, Jordy e Dane passam meio que raspando.
Neco passa uma bateria, grande noticia.
Assisto boa parte dessas baterias ao lado do Francisco, homem forte da Rip Curl em Portugal.
Francisco é um surfista entusiasmado, no bom e velho estilo de gente que torce pra quem surfa bem e não simplesmente pra quem defende suas cores.
Não há ninguem mais empolgante do que Dane Reynolds no momento, diz ele.
Concordo veemente.
Pergunto se o evento em Portugal terá o mesmo apoio que teve em 2009, Francisco alerta que a situação não é a mesma do ano passado e que, economicamente, a coisa tá ficando preta.
Importante mesmo é saber que o evento não esta ameaçado, vem com toda força pra decidamente colocar Portugal de volta no circuito mundial e ainda especula, Por que não podemos usar a Ericeira, ou até mesmo Carcavelos num futuro proximo ?
De Torquay pra Johanna é mais longe do que Lisboa/Peniche.

Sorrio imaginando as possibilidades.

Tio Nick
Somos todos filhos de Deus.
Dentro d'agua encontro Nick Carroll, surfando com uma Maurice Cole, não maior do que 5'10'', azulzinha, igual a prancha que Slater tem sido surfando por aqui.
Pr'um jornalista de surfe voce passa bastante tempo na agua, pensei em dizer.
Sento um pouco mais embaixo, series de bem mais de um metro aparecem com frequencia, esquerdas, longas e com tenras paredes.
Nick tenta remar numa bomba, uma das maiores que vieram até o momento, não consegue, fica puto e diz alguma coisa que não compreendo mas entendo perfeitamente.
Nick é um dos meus jornalistas prediletos, tenho vontade de me apresentar mas estou cansado demais de tanto remar e o cara não fica parado um segundo pr'eu poder me aproximar, respirar fundo e fazer a devida introdução (epa!).

•Bird Rock Cafe
Da praia, vamos direto pro pub local, eu, Neco e Marco Polo.
Neco e Polo estão hospedados na casa dum local que recebe brasileiros aqui desde Peterson, Vitinho e cia.
Ele e sua familia não estão, a familia esta em Melbourne e ele, bem, como dizer isso sem drama ? Ele foi escalar o Everest.
Todos conhecem Neco e Polo no Pub, não apenas o conhecem como são efuzivamente celebrados.
Pela primeira vez, me sinto na Australia que conhecia das revistas.
Ace Buchan chega pra jantar com seus pais, jovens, bem apresentados.
Feitas as apresentações, Neco se levanta e passa a proxima meia hora em pé conversando com os coroas.
A mãe do Ace é sul-africana, muito bonita, o pai australiano, serio, voz firme e tom baixo.
Adrian Buchan é um camarada diferente dos outros no tour, escreve bem, tem ate livro publicado e blogue.
Os irmãos Gudauskas tambem frequentam o lugar, eles e o californiano Nate Yeomans, todos comprimentam Neco e Polo com entusiasmo.
Jay Thompsom aparece la pra afogar as magoas duma derrota sofrida la na praia 13.
Bottle é um gigante de quase dois metros de altura, coloca as duas mãos no ombro do Marco Polo e diz, eu adoro esse cara!
Ele ainda nem tomou a primeira cerveja.
Luke Munro vem logo atras, mais calado, provavelmente ruminando a pior bateria da historia do Bells, 2.43 contra Jadson.
Em questão de minutos estaremos todos conversando como velhos amigos, Polo pagando cervejas e compensando seu ingles resmumido com sorrisos e infinita generosidade.
Vou ficar até a final, quero ver o que os caras que ganham tão fazendo, diz ele.
Humildade é ainda uma das maiores virtudes.
Visto uma camisa do Benfica, laranja, presente da minha sobrinha que nadava pelo clube em 2007.
Um dos australianos pergunta se é a camisa da seleção holandesa, puxa a carteira e mostra seu sobrenome, Van Der alguma coisa e me paga uma cerveja.
Munro diz que nunca esteve no Rio e tem curiosidade de saber como é la.
Ele conta que ja divertiu nos bordeis de Floripa, faço um breve resumo da Centauros, ele olha pra cima como quem pensa em algo insubstituivel e faz as contas do tempo que terá no Brasil.
Parte da minha missão na Australia é entrevistar Neco para a edição de Julho da Hardcore.
Os ultimos 4 dias passei tentando cerca-lo para uma conversa, Neco é famoso por arredio a entrevistas.
Depois que finalmente consigo começar, o dificil agora é faze-lo parar de falar.
Paramos as 2 da manhã, dormindo em pé.
Neco é um homem de excessos e tem uma bateria dura no dia seguinte - Parko.




•Winki e o dentuço
Quando chegamos na praia, Mineiro e Taj já deram seus shows.
Mal da tempo de ver Dane perder pro Roy Powers que surfa com uma prancha do Andy Irons, assim como Dane na primeira etapa no Gold Coast.
Saca vira uma bateria nervosa contra Dan Ross e Owen Wright descobre que a vida no tour é completamente diferente da descompromissada vida de convidado.
Com o corte de 45 para 32 no meio do circuito, a pressão na turma de baixo, e isso inclui todos novatos, é enorme.
Jadson é o unico que resiste e não toma conhecimento do titio Taylor Knox. Mineiro o espera nas escadas e repete, Keep building, keep building, como um mantra.
Aproveito a deixa e assisto algumas baterias ao lado deles.
Pouca gente tem mais conhecimento de como funciona um evento do world tour como Mineiro.
A consciencia que ele tem das notas e situações das baterias é impressionante - um envolvimento total e absoluto.
Seu melhor inicio de ano, ne ?
Não, ano passado foi melhor, responde Adriano sem perder tempo nas contas.
Po, digo eu, dois quintos, no minimo...
Nessa ltura ele ja fez rapidamente as contas.
20 pontos, conclui.
Eu retruco que 20 pontos não são nada e ele diz que Heitor Alves não se classificou por 5 pontos.
Nada escapa aos olhos atentos do Mineiro.
Nada.

Walking down the line
Fiquei com a musica do Dylan na cabeça,
I'm walking down the line...To tell about my troubled mind...
Fanning e Parko, numero um e dois de 2009 iriam surfar contra os nossos e quando alguem enfrenta os nossos, o sangue ferve e a coisa se torna pessoal.
Bem, nem tanto pra mim se querem saber.
Medina contra Fanning foi uma lição, como surfar uma onda alinhada sem perder velocidade, moderno, confiante, impiedoso.
Se o jogo do Medina é aereo, Fanning incorporou o espirito e deu o aereo mais bem executado do evento até agora.
Não sei se voces lembram, mas antes de se machucar seriamente, Fanning tinha um belo repertorio de aereos no pe, por precaução eles foram sendo deixados de lado e agora, 2010, contra a sensação da artilharia da nova geração, Mick Fanning mostrou que sabe jogar esse jogo se necessario, mas com uma diferença sutil, maturidade.
Medina impressionou a todos aqui na Australia e tudo aponta para um futuro brillhante.
A Rip Curl inclusive ja quer freiar o impeto que arremessava o garoto para o WQS como se não houvesse tempo a perder.
Percebendo que talvez seja cedo demais para joga-lo no mundo competitivo, Gary Dunne quer que Medina viaje mais para surfar ondas perfeitas e escolha determinados eventos para competir.
Vale lembrar que tambem com 16 anos, aqui mesmo nessa praia em 1987, Nicky Wood, grande esperança australiana para ameaçar o dominio americano do Tom Curren, venceu o Bells Pro, ganhando inclusive do proprio Curren em grande forma.

Meu pe de jacarandá
Dusty x Slater
Momentum x Modern Collective
Com um broken foot, dizia Mineiro.
Eu queria saber se Jadson e Mineiro torciam pra nova geração ou pelo Kelly.
Torço pelo Owen. E pelo Jordy, pelo Dane...Esses caras são gente fina e surfam pra caralho
, respondeu Jadson.
Dusty é meio pela...
Pela ou não, Dusty fez a manobra do campeonato até agora contra Kelly mas não resistiu ao truques mentais de Jedi que Slater jogou contra ele.
Slater se machucou em Bells tentando voltar dum aereo reverse quando um backwash empurrou seu pé pra cima.
No dia seguinte, quando acordou, seu pé estava inchado e dolorido, ele achou que tinha quebrado e foi direto até o hospital de Geelong para uma radiografia.
Nesse meio tempo, Belly, seu escudeiro, ja tinha avisado a ASP que Slater não iria competir.
Quando veio o resultado do raio X, ainda faltavam 40 minutos para sua bateria, Slater pediu uma injeção para suportar a dor e ligou confirmando que iria competir - pra azar do havaiano.
Mais uma vez, como sempre acontece, depois do Slater sair da agua, o publico virou as costas para a bateria seguinte e debandou.


O tour pode ser solitario pra quem perde

Taj x Andy
Um sonho de bateria num sonho de mar, se querem saber minha opinião sobre o momento de ambos, la vai.
Andy esta em processo de limpeza, precisa se readaptar ao tour e melhora a cada etapa.
Resta saber se consegue manter interesse em tepas como Brasil.
Taj, outra conversa, vive o grande momento da sua carreira.
Focado, confiante, preciso.
Alguma coisa me diz que não dura depois da perna australiana.
Posso estar errado.
Continuo achando que ele faz muita manobra pela metade e ganha pontos como se fossem inteiras - reassistam as ondas.

Parko x Neco
Uma guerra de intensidade mental.
Dois surfistas completamente diferentes em todos aspectos.
Parko com arcos longos e manobras diversificadas enquanto Neco se repete e usa pouco a parede da onda.
Ele sabe disso e quer mudar.
Com 34 anos é um pouco mais dificil mas pro sujeito que ja se reinventou tantas vezes, o recomeço é combustivel.

19 comentários:

Lucas Franceschini disse...

Curto muito seus textos Julio!

Anônimo disse...

Melhor que assistir ao "Heats on Demand". Muito melhor! abs, maximus

SurfOnLine disse...

Ler as histórias de quem tem leitura e conhecimento, é ler uma outra história... Nas análise ou na torcida, o mais refinado comentário... é "ídalo"!!!

Fabio disse...

Se eu usasse chapéu, esse seria o momento de tirá-lo…
Excelente comentário, Julio.
E com os meus botoes (esses eu tenho), fico imaginando como seria se vc pudesse cobrir todas etapas…
Julio no WT 2010??
Ai sim farei questao de usar um “Aba Larga”.

Henrique Vasquez disse...

REalmente percebe-se como o Mineiro consegue dosar o surf na bateria, conforme adversário, mar e scores.
O muleque me parece muito vivo...
abraço

Anônimo disse...

Bom saber que nao vao botar o Medina pra correr o QS todo. Tem que viajar muito antes que nem o Owen que ja chegou pronto pras ondas do circuito. Se eu fosse patrocinador dele, botava ele para terminar o colegio e nao se tornar mais um idiota que nao consegue dar uma entrevista decente. Fora dagua tambem se faz imagem do surfista.

Anônimo disse...

Julio , mar gigante aqui no Rio !!!

Posto 5 sorrindo ....

Show de cobertura amigo ..

abs

Themudo

LULA "Bird Man" Gajinasss disse...

Júlio. Tô viciado no seu blog. Seus comentários sobre todos os aspectos do que acontece nas etapas do WCT (perdão, WT)são muito legais e nos aproximam muito de tudo. Continue sagaz, esprirtuoso e - por que não - escrotinho (pra que não me entenda mal, explico que aqui no Nordeste esse termo significa "tirador de sarro"). Abraço. LULA. Recife/PE (Shark City)

Anônimo disse...

É impressão minha ou a VB tem feito maravilhas pela tua produtividade? E a inspiração do Shearer também deve ter ajudado. Afinal, é sempre bom constatar que ainda faz sentido escrever (bem!) sobre surfe competitivo. Melhor cobertura online do evento, como os gringos (e o Mineiro, provavelmente) gostam de dizer, hands down!
Bala

Angu dos Gosmas disse...

Julio,

Você poupou o Neco.
Mas tudo bem, ele faz parte da história do surf brasileiro. A verdade é que o sistema de julgamento mudou, e não há mais espaço para alisadores. Realmente, quem não souber surfar na cartilha da New School, estará fora do mainstream. Quem realmente se reinventa - sem babação de ovo - é o KS. Vai ser difícil encontrar alguém que venha a realizar a transição de escolas com a sua leitura.
A Surfer publicou há alguns anos uma matéria sobre o OCCY destacando que dos veteranos, ele foi o único a realizar o pig dog com classe. Só que a diferença - hoje - é nascer dando aéreo...

Julio Cesar disse...

Alguma sorfe_uér ou alguma gigante da mídia especializada pra bancar o Julio pra rodar as etapas do Tour comentando.... Sem babar ovo, a melhor cobertura do WT aqui no bananão..... Parabéns

tiberio disse...

eh e se aproxima a guilhotina! talvez velhos nomes vao estar de fora da corrida ate o fim do ano.. com tantos aéreos, estilos e novas expectativas,de verdade nao vou sentir falta dos mais conservadores no wt... que se reiventem em outro lugar, em outra era!!

Anônimo disse...

Ai Julio, obrigado pelas informações precisas e objetivas de quem conhece muito bem os personagens que fazem parte desse circuito alucinante. Concordo com teu comentario sobre o Taj. E acho que no fim do ano AI eh Top 5.

J.A ( o outro) disse...

Falou tudo Julio:
Maturidade.
tem a nova geraçao com surf explosivo pecando pela ansiedade. E a meia duzia de veteranos fora de serie ainda comandando com bastante classe o pelotão.
Pena estarmos no ultimo dia do campeonato.Seus textos (ja excelentes ) melhoram a cada dia. abs

marcus disse...

boa Marreco! esta cobertura não chega a atingir as 6 propostas, mas em 5 chega, e a q falta foi bem substituida pelo humor(o q um bom passeio não faz?!).


ps - e nos comentários ainda descobri q sou goofy.

abs,

Viva La Brasa disse...

olha só:
na bateria que venceu medina, mico fanning mandou um aley oop e caiu de cara.
na final contra fanning, kareca slater mandou um aley oop alto e na base.
8.93, yellowman segundão.
o mundo roda.
tipo um alley oop.

Anônimo disse...

O Medina não tinha que estar na escola nessa época do ano? Até o Kelly e o Taj atrasaram suas entradas no WCT em um ano para terminarem a escola. Até o Pato terminou a escola na Itália quando foi contratado pelo Milan por 17 milhões de Euros!!! Cadê os pais desse muleque?!

Anônimo disse...

Tá esculachando cada vez mais nos comentários.
A parte no Birds Rock Cafe traz a vibe total do momento.
Vou ser repetitivo, mas já é unanimidade faz tempo, vç tem que arrumar um jeito de fazer a cobertura geral do WT.

Bruno Rozenbaum

Niegà disse...

Agora que ja lei a crónica, ja puedo olhar os heats on demand para comprender tudo.

Parabens!

Niegà