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sexta-feira, janeiro 30, 2009

Rabbit larga o osso

Stay young, keep your wheels in motion



Rabbit from julio Adler on Vimeo.

domingo, outubro 19, 2008

Admiravel gado novo*

[Tempestade em copo d'agua>Revista Surf Portugal # 187>Agosto 2008]



O Rombo em Contexto 1
Antes do início do circuito de surf da International Professional Surfers, não existiam critérios objectivos para os convidados dos campeonatos profissionais no Havai. A maior parte dos convites era distribuída aos havaianos, em reconhecimento das suas prestações no free surf segundo as observações dos organizadores e da comunidade local. Um método habitual entre os que sonhavam em competir ali era escrever cartas aos organizadores das provas, a explicar que eram excelentes surfistas e, basicamente, a implorar por um lugar, nem que fosse de suplente.


Bustin down the door tem lágrimas e isso quase sempre denuncia um documentário piegas, melado, chorão.
No surfe não há muito espaço para lágrimas.
Estamos eternamente associados a belos sorrisos e celebração, quem duvida que o surfe é diversão ?
Nos é vendido assim, em embalagens muito bem boladas, coloridas, lacinho dourado e tudo.
Quantas vezes voce já se pegou respondendo a pergunta besta e fácil - o que o surfe representa na sua vida- com um cliche aborrecido.
Frase que nos resume: O melhor surfista é aquele que mais se diverte.
Pois Bustin down the door, filme dirigido por Jeremy Gosch exibe nosso lado escuro e fascinante.
A diversão ali tem outras formas completamente fora de moda hoje em dia.

O Rombo em Contexto 2
O rastilho dos acontecimentos da temporada de 76/77 foi um artigo escrito por Wayne Bartholomew intitulado, precisamente, ‘Bustin’ Down the Door’. Até hoje Rabbit afirma que, apesar da agressividade do título e do tom auto-celebratório do surf que estava a fazer, o conteúdo geral do artigo era absolutamente reverente e respeitoso para com os surfistas havaianos. Eis alguns excertos fundamentais: “O facto é que quando és um puto emergente da Austrália ou de África, não podes simplesmente entrar pela porta dos fundos e esperar receber um convite para os campeonatos profissionais no Havai. Tens de arrombar a porta da frente antes que eles te ouçam bater. (…) Para chamar a atenção mediática e competitiva, tínhamos de entrar nos dias mais animais em Pipeline e Sunset e, literalmente, tentar o impossível.”




Kanga é uma besta

Ian Cairns era um brutamontes com rara habilidade para machucar paredes volumosas e assustadoras. Vinha do inóspito oeste da Austrália (nasceu em Kew, perto de Victoria), quase dois metros de altura, loiro, forte como um rinoceronte, dono duma rasgada de front-side estupidamente violenta.
Kanga, como o chamavam, cresceu surfando os reefs perto de casa em Margareth River, foi um monte de vezes campeão regional, representou a Austrália em dois mundiais, 70 e 72, chegou no Havaí botando pra quebrar.
A banca era tanta que ganhou o Smirnoff Pro em 1973 com 21 anos, foi segundo no Duke Kananamoku Classic de 74, em 25 pés de onda em Waimea ficou em primeiro no Duke de 1975 e segundo no Smirnoff no mesmo ano.
Sua arrogância e agressividade quase custou-lhe a vida no inverno havaiano de 76: Comprei uma espingarda, dormia com um bastão de baseball debaixo do travesseiro. Se aqueles caras tentassem me pegar novamente, eu dava um jeito de chegar no carro (onde estava a espingarda) e matava um, disse Ian Cairns lembrando da ocasião que o caçaram como cão ladrão pelo North Shore.
Kanga é um dos principais personagens do documentário produzido por ninguem menos que o campeão mundial de 77 e mocinho dessa bela e trágica fábula, Shaun Tomsom.


O Rombo em Contexto 3
Ian Cairns liderava o ataque demencial às ondas, sempre na companhia do seu jovem “protegido”, Wayne ‘Rabbit’ Bartholomew. Ambos protagonizaram momentos de antologia, como a ocasião em que, acabados de desembarcar do avião, entraram num Pipeline gigante e, mesmo (ou exactamente por isso) a ver que as direitas não passavam de horrendos close outs, Cairns ordenou a Rabbit: “é proibido ir para a esquerda”. Sem outra opção, ambos entregaram-se então a um duelo suicida para ver quem se deixava ficar com o estilo mais casual dentro das enormes cavernas.




Pitu (Shaun The Prawn)

Shaun Tomsom dava raiva, confessa Phill Jarratt (autor, entre outros, do clássico Mr. Sunset), educado, articulado, surfista fenomenal e ainda por cima fazia enorme sucesso entre as mulheres.
Alem disso tudo, Shaun é um surfista que todos admiram desde sempre, sem manchas nem desvios em mais de 30 anos nos holofotes. A idéia de fazer um filme sobre esse tempo tão falado e tão pouco compreendido pela indústria bilionária que impulsiona o surfe no século 21 partiu dele. Foi Shaun que uniu um timaço de entusiastas, entre eles Jarratt, que escreveu o texto, Matt Warshaw que pesquisou e o inusitado narrador, indicado duas vezes ao Oscar, o ator Edward Norton.
Shaun voltou à cena faz uns 5 anos, depois de quase 15 trabalhando quieto no seu canto, sem ser muito celebrado.
Falava-se pouco dele nos anos 90, era raro alguem lembrar que Shaun foi o primeiro dos surfistas de ponta a surfar com as pranchas do Al Merrick e passava temporadas em Santa Barbara testando os foguetes, surfando Rincon e influenciando Curren, Mearing, os irmãos George e quem quer que lá aparecesse.
Slater é a evolução de Tomsom, sem cabelos.
Pela primeira vez, vemos Shaun falar dos anos setenta com os dentes trincados, sem o romantismo babaca que cerca a época.
Eu tinha ciúmes, eu queria estar no lugar dele, relembra Shaun quando fala de Mark Richards no Smirnoff de 1974, a primeira oportunidade daqueles jovens de participar dos grandes eventos havaianos.
Bustin Down the door revela de onde vem a chama que incendiava Rabbit, MR e Shaun, num tempo distante onde os vencedores não eram acusados de vender sua alma.

Rombo em Contexto 4
O ataque a Rabbit ocorreu dentro de água em Sunset Point no dia do seu desembarque para a temporada de 76/77. Quando o viram a chegar ao pico, um grupo de heavy locals dispersou o crowd e cercou o australiano, agredindo-o até a perda dos sentidos. Depois disso, Rabbit teve de passar dias seguidos escondido na mata, pois ninguém lhe dava abrigo com receio de represálias. Outros também sofreram perseguições e espancamentos. Ao fim de umas semanas, a família Aikau, por intermédio do seu mais proeminente membro, Eddie, amenizou a situação, acedendo em encenar um julgamento público no qual os australianos receberam a permissão para surfar no North Shore e competir nas provas.




Sexo e tubos

Dos cinco cavaleiros do apocalipse, Ian Cairns, Shaun, Rabbit, Peter Towned e MR ( opa! o sexto, primo do Shaun, Michael Tomsom tambem está lá.), Ian e PT eram os veteranos, Shaun a grande promessa, Rabbit o rebelde e Mark Richards o fenômeno.
No seu segundo inverno, em 1975, com absurdos 18 anos, venceu o Smirnoff em Waimea e o World Cup em Sunset (isso sem falar no vice do Coke Classic em casa, na Austrália) pilotando as letais guns de Tom Parrish com o raiozinho da Lighting Bolt.
Numa analogia, Richards seria um misto de Andy Irons e Mick Fanning, ambos acomodados num corpo comprido, curvado e desajeitado.
Alias, Andy e Mick tem juntos a mesma quantidade de títulos que MR ganhou na sua curta carreira - Richards abandonou o circuito em 82, depois do quarto título mundial, tinha 26 anos, mesma idade que Fanning quando venceu seu primeiro...
Grande rival de Shaun no filme clássico que batizou a geração, Free Ride, Richards aprendeu a shapear cedo (com 15 anos!) e se viu obrigado a criar uma prancha que se adaptasse ao seu estilo, completamente diferente do resto.
Partindo duma prancha esquisita com duas quilhas que Reno Abellira levou para Austrália em 76, MR foi aperfeiçoando a biquilha até que em 1979 ninguem mais seria capaz de superá-lo com suas cavadas precisas e rasgadas curtas e rápidas, pedra fundamental do surfezinho que voce e eu fazemos hoje.
Numa das histórias mais bacanas do filme, Rabbit conta que para entrar num dos eventos exclusivos para convidados em 74, ele, MR e Shaun escreveram cartas para os organizadores dos campeonatos implorando por uma vaga.
No Smirnoff, dos 24 convidados, 22 eram havaianos. Fred Hemmings, organizador, avisa que abriu uma vaga. A tensão aumenta e todos esperavam que sua carta tivesse efeito na decisão. Hemmings chama Mark Richards, que vibra com a chance, mas antes de pegar a camiseta de competição, MR precisa pagar os 50 dólares da inscrição. MR não tem essa grana. Rabbit poderia ficar ali calado e esperar que Fred chamasse outro, mas num gesto nobre, empresta as 50 pratas para Richards.
Mark Richards, então com 17 anos, vence sua primeira bateria em Sunset, deixando pra trás os havaianos Sam Hawk, Larry Bertleman e Michael Ho.
Naquela noite o barulho era ensurdecedor e na manhã seguinte aqueles jovens veriam as maiores ondas de suas vidas na baía de Waimea.
Rabbit agradeceu a Deus por ter emprestado a grana e não ter que enfrentar aquelas bestas.
MR não tinha alternativa.

O Rombo em Contexto 5
O título de 1976, oficialmente o primeiro título mundial de surf profissional, atribuído a Peter Townend foi, na verdade, outorgado em retrospecto. Chegados ao fim do ano, dois dos organizadores das provas havaianas, Randy Rarick e Fred Hemmings, fundaram a IPS e, com a ajuda de PT, que sistematizara meticulosamente todos os resultados dos campeonatos disputados nesse ano, chegaram à conclusão de que o australiano tinha sido aquele que acumulara mais pontos, mesmo sem ter vencido nenhuma prova. Durante a cerimónia comemorativa do título inaugural da IPS, num clube de canoagem em Waikiki, os jornais queriam uma fotografia a PT com a taça. O único problema era que não havia taça nenhuma. Vai daí, alguém foi a sala de troféus do clube, agarrou num qualquer, escondeu a placa das inscrições e Townend lá pôde ser fotografado para a posteridade.





Os dentes ou a vida

'Eu e Shaun tinhámos um pacto: aconteça o que acontecer, complete o drope. Use todo sua habilidade, todo seu talento, todo seu instinto.'
Pipe não era uma onda muito surfada por back-siders e aquela geração tinha o compromisso de quebrar todos tabus.
Wayne 'Rabbit' Bartholomeu passou parte do inverno de 77 escondido no mato. O simples fato dele ter apanhado do jeito que apanhou, perder os dentes, receber o castigo de ter sua cabeça a prêmio, assim como Kanga, e resistir como resistiu, é admirável.
Tudo por um texto quase inocente que escreveu para a revista Surfer e que emprestou o nome à sua biografia, Bustin Down the door, inspiração do documentário.
Rabbit foi o visionário que não teve medo, ou alternativa, de constatar que seu futuro seria surfar.
Estavam sentados na beira do mar, depois daqueles dias mágicos de surfe no North Shore, ele e seu amigo e adversário Shaun Tomsom:
O que voce vai fazer daqui pra frente, Rab ?
Eu vou me tornar surfista profissional.
Aquilo soou estranho para Shaun. Surfista profissional ? Que idéia mais maluca e fascinante...
Aqueles homens estavam ali, no meio do caldeirão que era o inverno havaiano, sedentos por reconhecimento, por fama e pelo pouco dinheiro que seria suficiente para aguentar até o próximo campeonato.
PT e Ian Cairns seriam responsáveis pela criação, junto de Randy Rarick e Fred Hemmings, da IPS entidade que precedeu ASP, escreveram regras que até hoje permanecem, inventaram um circuito do nada e ainda terminaram primeiro e segundo em 76.
No ano seguinte, Shaun cumpriu seu destino e tornou-se campeão mundial do primeiro circuito pra valer e em 78 Rabbit finalmente pode levantar seu caneco.
De 79 até 82 Mark Richards reinou.
Em 1983, a dupla PT e Kanga tomaram a IPS de Hemmings e criaram a ASP.


O Rombo em Contexto 6
No final da atribulada temporada de 76/77, o australiano Peter Drouyn apareceu no Havai durante a reunião onde se apresentava o circuito mundial de 1977, avançando a informação de que o primeiro evento da temporada, a ser disputado em Burleigh Heads, iria estrear um novo formato de competição, criado por ele próprio, e chamado man-on-man. Na sua biografia, Rabbit recorda o momento em tons épicos: “Drouyn deu a notícia como Moisés a anunciar os dez mandamentos. ‘Há uma nova frente de combate no surf profissional. Chama-se Burleigh Heads, chama-se surf man-on-man e quero ver sangue na água! Nós somos os gladiadores!’”




Pe na porta

Deixei o filme de lado para falar dos Homens por trás dos mitos e ainda há muito para escrever.
A trilha é empolgante e comovente, tem T. Rex, Rolling Stones tocando Paint it Black e, claro, Fame do Bowie, talvez numa homenagem ao Rabbit.
A edição é elegante como uma rasgada do Ian ou uma cavada do PT.
Bustin Down the door não tem uma mensagem endereçada ninguem, não tem recados ou moral, tem histórias bem contadas por quem as viveu intensamente e nunca vão se livrar delas.
O filme vai contra toda linha do romantismo oportunista que paira hoje pelas redações, ilhas de edição e line-ups. Desta vez existe sofrimento, dor, frustração, sacrifício, exatamente como na vida real, sem a maquiagem perversa da diversão pela diversão.
Bustin... é o nosso When we were kings.
Rabbit, Shaun, MR, PT, MT e Kanga não são os únicos responsáveis pelo que o surfe representa e se tornou hoje.
A indústria bilionária e os surfistas profissionais com salários milionários não devem a esses camaradas nada alem de respeito.
Sorte de quem reverencia seus ídolos dessa maneira.



O Rombo em Contexto 7
Referências significantes à era Bustin’ Down The Door através de livros e filmes
Filmes: Free Ride (Bill Delaney, 1977); Playgrounds in Paradise (Alan Rich, 1976); Tubular Swells (Dick Hoole/Jack McCoy, 1977); Stylemasters (Greg Weaver/Spyder Wills, 2006); Pipeline Masters (Stacy Peralta, 2006)
Livros: Bustin’ Down the Door (Wayne ‘Rabbit’ Bartholomew e Tim Baker - HarperSports, 1996); Mr. Sunset – The Jeff Hakman Story (Phil Jarratt – General Publishing Group, 1997); Eddie Would Go – The Story of Eddie Aikau, Hawaiian Hero (Stuart H. Coleman - MindRaising Press 2002), The Perfect Day – 40 Years of Surfer Magazine (Surfer Magazine, 2001), The Best of Surfer Magazine (Chronicle Books, 2007)


* Rombos em contexto por João Valente.



sexta-feira, setembro 26, 2008

Cada macaco no seu galho


A turma era da pesada


[Coluna Tempestade em copo d'água>Revista Surf Portugal # 186>Julho 2008]

Recebo um inesperado presente, Best of Surfer Magazine (Chronicle Books, EUA, 2007), caprichado trabalho de pescaria do excelentíssimo ex-editor da revista, Steve Hawk (sabiam que ele é irmão do Tony, sim, do skate), Chris Mauro e prefácio escrito pelo Dave Parmenter, com sagaz título, 'Existe mesmo esse negócio de escritor de surfe ?'.
A seleção dos textos pontua bem as diferentes eras que o surfe pasou desde que revista Surfer chegou em 1960, passando do início romântico ao hiper-profissionalismo, sem esquecer de todas viagens, pra dentro com Drew Kampion e pra fora com Kevin Naughton - ou vice-versa.
Cada macaco no seu galho, fui direto no fatídico 'Bustin' down the door' (Vol. 17 No. 5 Janeiro 1977) que custou ao atual presidente da ASP Rabbit Bartholomeu todos seus dentes.
A curiosidade ardia.
No caminho para página 72 me vi atraído pelo título dum artigo escrito pelo Gerry Lopez, Attitude Dancing (Vol. 17 No. 2 Junho 1976).
Cada texto é precedido duma pequena ambientação e voce periga ser fisgado quando menos espera como um marlin num livro do Heminghway.
Esse do Lopez dizia assim: '...Shaun Thomsom, Rabbit Bartholomeu, Ian Cairns e Mark Richards incomodavam a velha guarda, e sua mentalidade 'destruir, demolir e rasgar' contrastava asperamente com filosofia 'deixa rolar, irmão' da elite havaiana. O debate filosófico esquentava. Socos eram frequentes como palavras. Lopez, o arqueiro zen de Pipeline acalmou os ânimos quando desenhou um panorama da situação...'
Quem é capaz de resistir à um chamado desses ?
O reinado de Lopez chegava ao fim e toda sumptuosidade havaiana começava a ruir com a chegada barulhenta da geração Free Ride, homens que mudariam o surfe para sempre.
Elegantemente, Lopez respondia do jeito que dava em palavras o que ficava sem resposta dentro d'água.
Sutilmente, o Rei de Pipe sugeria que o novo surfe queria impor sua força à onda, enquanto a tradição havaiana era de 'ser um com a natureza(onda)'. O artigo é uma aula de história com requintes de sarcasmo do camarada famoso pela calma e classe ao surfar a onda mais temida do mundo no seu tempo. Lopez não perde uma única oportunidade de legitimar o surfe - e o estilo de vida - havaiano e esculhambar com a nova escola australiana.


Voando...

Que ninguem nos ouça mas Lopez ostenta uma fama nada condizente com sua imagem, de ser um tremendo rabeiro (dropinador ?), deve ser o ying ou o yang, não estou certo.
Mais um pedacinho: '...podemos rastrear a origem desses dois comportamentos, buscando as duas distintas filosofias de vida...Paralelos do pensamento ocidental versus oriental são inúmeros. Podemos argumentar que os A's (australianos, sul-africanos e cia) representam uma competitividade rude, desbravadora, enquanto os B's (Havaianos) tem mais afinidade com as culturas mais inertes do oriente (Cowboys versus índios ?). De qualquer maneira, o ocidental clássico 'pegar o touro pelos chifres' caracteriza o ataque dos A's. E a filosofia oriental é do tipo que diz 'é mais fácil andar na mesma direção do cavalo', ou 'pegue o que voce tem' dos B's é fundamental para seu estilo de vida - e de surfar.'
A lenha para a fogueira de vaidades cresce com as palavras.
Lopez intencionalmente quer mostrar ao leitor que esse novo gênero de surfe é uma distorção da pureza havaiana, algo bem próximo da balela atual de soul surfing, onde Joel Tudor faz modelos exclusivos para uma marca gigantesca e chama astutamente de Good Karma.
É tudo uma questão de grana.
Lopez vislumbrava seu reinado, e seu negócio, ameaçado.
Isso não faz seu texto menor, não senhor, até pelo contrário, o engrandece.
Sua precisão nos fatos é admirável, da mesma forma que suas cavadas bem embaixo da guilhotina de Pipeline.
Ali pelo final do seu texto, Lopez cita Drew Kampion, outro craque, não da prancha, mas do teclado da máquina de escrever, editor da Surfer na mágica época de 68 até meados de 70: 'Na maioria dos esportes, a estrutura determina os campeões. No surfe, os campeões é que determinam a estrutura'.
Uma frase certeira, atemporal, a deixa para o faminto novato Wayne Rabbit Bartholomeu dar sua versão dos fatos.
Rabbit cita os resultados nas Olimpíadas de 1976 pra empurrar o desempenho dos surfistas da época.
'Sem dúvida motivados pela notoriedade de Spitz, as estrelas da natação reduziram 95% dos recordes mundiais existentes e, pela primeira vez na história, notas máximas foram atribuídas para ginastas romenos e russos.'
Sr Bartholomeu tinha 22 anos quando escreveu isso.
O surfe profissional ainda sequer tinha nascido como conhecemos hoje, com circuitos e etc...
A batalha começava nos argumentos, um melhor do que o outro.
'Nenhum dos caras novos pode afirmar ser melhor do que esse grupo de surfistas bem estabelecidos, simplesmente porque Bk (Barry Kanaiapuni), Lopez, Hackman e Nat, pra citar alguns, tem sido uma enorme influência no surfe moderno, e ainda assim há espaços para indivíduos, conhecidos ou desconhecidos, serem reconhecidos simplesmente pela sua originalidade e criatividade...O negócio é que quando voce é um garoto emergente vindo da Austrália ou África do sul, voce não pode apenas entrar pela porta de trás (para ser convidado pros campeonatos no havaí). Voce tem que derrubar a porta antes que te ouçam chegar.
Desde aquela geração não tivemos ainda um grupo de surfistas tão determinados a mudar o curso do surfe, dentro e fora d'água, como eles.
Imaginem hoje, Slater (ou Machado) escrevendo na maior revista do mundo (o mundo era deste tamaninho...) sobre o jeito do Dane Reynolds e Jordy Smith surfarem e um dos dois, alem dos resultados em campeonatos, rebatessem os argumentos com a maior elegância e irreverência.
E ainda por cima vencer, vencer, vencer...


Quem resiste a categoria do Lopez ?

PS - A leitura dos dois artigos é um belo exercício para quem quer entender de onde viemos e para onde vamos.
O debate é bem mais antigo do que somos capazes de conceber.

quarta-feira, setembro 24, 2008

Pe na porta!




[Three issues after Gerry Lopez’s “Attitude Dancing” was published in SURFER in late 1976, young Australian Rabbit Bartholomew got his chance to respond on behalf of what are known today as the Free Ride revolutionaries, the enfants terrible who threatened to unseat the Old Guard on Oahu’s north shore.

"The fact is that when you are a young emerging rookie from Australia or South Africa you not only have to come through the backdoor...but you also have to bust that door down before they hear ya knocking."

In his treatise “Bustin’ Down the Door,” he described the other side of the cultural clash that stood to halt the radical, progressive surfing championed by the young Australian and South African surfers—and his title announced, in no uncertain terms, how they meant to achieve revolution. Though Bartholomew felt he made his case in a respectful tone, many Hawaiians seethed over Rabbit’s and his countrymen’s behavior in the water, and his essay, rather than quell their anger, had the opposite effect.

Weeks after “Bustin’ Down the Door” was published, Rabbit got in a tussle with Hawaiian legend Barry Kanaiaupuni during a competition in Australia. The following season on the North Shore would prove to be one Bartholomew would never forget. Death threats and punch-outs meted out by local surfers soon forced Rabbit and a handful of other Down Under crew to live in a state of siege in a nearby resort.

Fortunately, Hawaiian Eddie Aikau saw that things had gone too far. He and his highly-respected family stepped in and called together the aggrieved parties for some good old-fashioned ho’oponopono, the Hawaiian custom of putting things right in a group or family meeting. Held in a packed conference room at the Turtle Bay Hilton, this gathering of the tribes was a de facto public trial. The verdict: Rabbit had shown disrespect for the local people; he was banished from the North Shore, save only for his heats in the scheduled professional surfing contests.

Many believe that Aikau’s actions may have actually saved Rabbit’s life. It would be three years before he could return, and many more before he could stop looking over his shoulder. Today, Rabbit is the president of the Association of Surfing Professionals (ASP) and stands in good graces with the Hawaiian surfing community. Still, in a 2005 SURFER interview with editor Chris Mauro, Rabbit felt the sting of old wounds, observing that the affair “cut me in half as a man.
”]

Leia aqui o artigo original da Surfer (ou clica no titulo).

terça-feira, dezembro 04, 2007

Discoteca goiaba do surfista desatento III

[Nova coluna>Discoteca básica>Revista Surf Portugal>176]

Band on the Run - Paul McCartney & The Wings - Apple Records/EMI (7 de setembro de 1973)



'If I ever get out of here', canta Paul McCartney na canção título. A frase é emprestada do outro Beatle George Harrison, louco para fugir das intermináveis reuniões de negócio da gravadora Apple.
É uma música sobre fuga e todas suas metáforas.
Sem querer, Macca foi certeiro no coração duma esquisita turma que começava a sair pelo mundo sem lenço nem documento, mas cheia de sonhos e uma prancha debaixo do braço - sim amigos, viajava-se o mundo inteiro com apenas UMA prancha!
Sempre lembrado como o menino do quarteto fantástico de Liverpool, Paul McCartney era o mais surfista dos Beatles, foi ele que resolveu virar vegetariano quando ainda não era 'cool'.
Paul entrou na onda da meditação transcedental e abraçou ecologia antes do fuzuê, estava sempre um passo a frente dos outros Beatles, tomando atitudes corajosas como assumir publicamente que experimentou LSD, apesar de ter sido o últimos dos besouros a testar a nova droga.
Mas, que diabos, isso aqui deveria ser um texto sobre uma discoteca fundamental imaginária para surfistas e seus porques.
Band on the Run é clássico como uma cavada de Kemp Aaberg (em foto do John Severson), um tubo do Shaun em OTW ou uma triquilha do Simon Anderson.
O disco foi todo gravado na Nigéria, o que nos faz cogitar um possível encontro do casal McCartney com dupla viajante Naughton e Petersen num final de tarde em Lagos (quem sabe Shipwreck ?) derrubando uma cerveja gelada e contemplando ondas solitárias.
A fuga começa ali.
Quando Harry Hodge começou a filmar seu épico 'Band on the run' o projeto ainda não tinha esse título e provisoriamente chamava-se 'Four: the first time ever', título pouco inspirado, nítidamente influenciado pelo essencial Five Summer Stories.
Foi a canção de Paul McCartney que criou a magia do filme quando tudo já estava quase pronto - a canção e um belo contrato de direitos autorais.
O disco inteiro é, segundo a revista Rolling Stones, 'uma busca pela liberdade e um voô além das restrições que Linda e Paul viviam'.
'If I ever get out of here', repete McCartney, referindo-se a prisão que de alguma forma nos impede de realizar nossos desejos.
Todos nós em algum momento da vida temos essa dúvida.
Para um surfista, Tom Blake já avisava, basta pegar sua prancha e remar para fora, um pequeno atalho para liberdade, embora fugidio.
Paul McCartney escreveu um hino 'on the road', 'seu eu algum dia sair daqui', que caiu como uma luva para uma geração que queria, acima de tudo, sair de onde estivesse.

Band on the run

[Tempestade>Revista Surf Portugal>176]



Band on the Run

Na sua auto-biografia, Wayne 'Rabbit' Bartholomeu diz que perdeu o título mundial de 1977 porque envolvido num filme chamado 'Band on the Run'.
Rabbit tinha tudo apontado para seu primeiro triunfo no recem-criado circuito mundial, liderou a maior parte do ano e estava no auge da sua forma aos 23 anos.
Na etapa final, perna havaiana então com quatro grandes campeonatos (Smirnoff, Pipeline Masters, Duke e World Cup), Shaun Thomsom, um jovem e promissor sul-africano, realizou melhor campanha e sagrou-se o segundo campeão mundial de surfe da era moderna.
Esses são os fatos.
Band on the run não é um filme que será lembrado pelo resultado final, mas pelas histórias (e estórias) que aconteceram longe das câmeras.
A aventura toda começa com Harry Hodge, ou Hollywood Harry, como era conhecido pela sua mania de grandeza, um jornalista com fama de aventureiro que tinha feito um filmeco com relativo sucesso no underground australiano, Liquid Gold.
Harry decide fazer um filme de surfe definitivo, um novo 5 summer stories para o grande público, algo astronômico e megalômano bancado pelo fundo australiano de cinema e a Coca Cola australiana.
Segundo Rabbit, Harry Hodge aproximou-se (entenda da maneira que quiser) de uma secretária do Australian Film Commission para conseguir o financiamento, Hollywood Harry era antes de mais nada um sedutor.
Sem entender muito de cinema, Hodge convenceu Paul Nielsen, Bruce Raymond, Brian Cregan e Rabbit de rodar o planeta em busca de ondas perfeitas, exatamente como fez Bruce Brown quase 20 anos antes.
Paul Nielsen era um representante da escola tradional do power surf australiano, assim como Bruce Raymond, Brian Cregan era um novato que despontava para o emergente world tour e Rabbit já era Rabbit.
Band on the Run seria o primeiro filme com investimento maciço (apoio nas viagens para os surfistas e olhe lá) das pequenas gigantes da Surfwear, Quiksilver e Rip Curl.
Resumindo, a Quiksilver ainda engatinhava nos Estados Unidos, levada pelas mãos do campeão Jeff Hakman e entregue ao seu sócio e amigo Brian McNight de mão beijada. Hakman teve um estalo de intuição e foi atrás dos dois donos da pequenina Quiksilver para convece-los de licenciar a marca para o mercado americano. Hakman tinha acabado de se tornar o primeiro não-australiano a vencer o mais tradicional dos eventos australianos, o Rip Curl Bell's Beach, completamente alucinado de heroína,
A Rip Curl ainda era confeccionada num pequeno espaço improvisado em Torquay.
A trilha sonora do filme vale um texto à parte: J.J. Cale, Van Morrison e Paul McCartney and the Wings com a canção título.
Hodge esmerou-se tanto na escolha das músicas que criou um problema sério para liberação dos direitos de usar sucessos como Cocaine, de J. J. Cale e Band on the run do McCartney.
Agora, imaginem hoje, no meio dessa porcalhada políticamente correta e da ânsia do surfe ser reconhecido como esporte limpinho, imaginem uma canção chamada Cocaine na trilha de um filmaço de surfe ?
A cinematografia do filme acompanha as aspirações do seu diretor, contratando um tal de Jack McCoy, em fase de cisão da sua sociedade com Dick Hoole para cuidar da fotografia de dentro d'água - com o capricho de sempre.
Scott Ditrich, cineasta consagrado pelo clássico Fluid Drive, participou como câmera e editor - é possivel que tenha tambem tirado 'inspiração' para seu 'Rolling Thunder', dizem as más linguas.
Filmando desde 77, Harry Hodge começava a ficar aflito com a falta de roteiro enquanto a nova década se aproximava.
Convidou então o jornalista Drew Kampion, ex-editor da Surfing e conhecido pela visão filosófica que tinha da vida do surfista, para amarrar a narrativa.
Drew veio com a idéia de inventar uma estória nostálgica de um velho surfista (Paul Nielsen com 70 anos, intrepretado por Wal Attwool) que recordava o melhor do seu tempo enquanto o filme mostrava suas memórias: África do sul, Costa Basca, Califórnia e Havaí.
Harry Hodge imaginou o maior filme de surfe de todos tempos, quando começou com um baita orçamento e o que havia de melhor disponível no ramo. O que Harry não imaginou é que toda indústria do cinema iria mudar durante o período que ele faria o filme.
Em 1977 os filmes de surfe pipocavam como espinhas no rosto de um adolescente com péssimos habitos alimentares e a avidez do surfista era insaciável e capaz de manter pequenas salas de cinema cheias por todo verão.
Chegando o final da década, um aparelho eletrônico chamado vídeo-cassete (versão comercial do vídeo-tape usado na emissoras de TV) condenaria à morte os filmes de surfe das salas de cinema e declarava a independência dos espectadores as bilheterias.
Em 82, quando o filme foi lançado, Rabbit já tinha se tornado campeão mundial, a década de 70 já era distante como a pré-história e o surfe profissional explodia de vibrante competitividade.
Em 1982 Simon Anderson não era mais considerado louco e sua triquilha deixara de ser uma piada para virar símbolo duma nova era.
Harry Hodge perdeu tudo isso.
Ele estava lá para registrar o título do Shaun, filmou toda campanha do sensacional título do Rabbit, liderado de cabo a rabo e vencido por antecipação.
Tudo isso ficou de fora porque Harry se apegou demais ao estilo diário de viagem, deixando o filme datado quando lançado e excessivamente romântico para a nova década preocupada em se renovar sem olhar pra trás.
Mesmo assim, Band on the Run foi um sucesso nos cinemas, ainda que distante dos planos de Harry e do orçamento milionário do filme.
Rabbit perdeu um título, o surfe ganhou mais uma lenda.

domingo, setembro 02, 2007

Post-scritum

[Post-scritum para Surf Portugal, 23 de Setembro de 2003]

MR versus Cheyne Horan, MP versus Rabbit, Dora e Fain, Occy contra Curren.
Rivalidade hostil era assim: surfista de lycra azul se alonga na areia, tenta afrouxar a tensão que vai crescendo com a proximidade do soar estridente da buzina. Nesse mesmíssimo tempo o desafiante vestido com a lycra vermelha range os dentes, imagina o adversário encurralado, fudido, numa situação constrangedora, esperando pelo golpe final da espada justa dos vitoriosos.
Quando azul se levanta e cruza o olhar com o vermelho, inverte-se a coisa toda: aquele que respirava com retidão, olhos fechados, totalmente centrado, fuzila o oponente, que por sua vez fita o chão assustado.

Rivalidade era Prost contra Senna na fórmula 1 (1984/94), ‘Metaforicamente, Senna quer me matar’, dizia Prost.
Corrida após corrida se enfrentavam, um contra o outro.
Foda-se o resto.
O negócio é pessoal.
Mark Richards chamava Cheyne de ‘Brat’, algo em torno de pentelho, pra manter o padrão do horário nobre, ‘little brat’ quando o sangue esquentava.
Cheyne vinha ao Brasil ganhar o Waimea 5000 e Richards corria atrás do evento seguinte no Japão- lembram daquelas setinhas enfezadas que saíam dos olhos do bandido ? Pois bem.
Michael Peterson saiu duma bateria enlouquecido por ter perdido pro seu ‘sparring’, Wayne Bartholomeu, andou determinado até seu algoz e encerrou o assunto:’voce é um merda, Rabbit!’.
Andy pode rasgar a foto do Slater, mas quantas vezes será capaz de destruí-lo numa bateria ? (ficou provado que sim, quantas vezes fosse necessário).
O sistema da A.S.P. se mostra falho quando evita o confronto dos maiores rivais dessa nova era.
Occy foi o único surfista a manter uma margem de vitórias em cima de um imbatível Curren nos fins dos anos 80, isso alimentou 200 anos de dentes rangendo, desde Oceanside até Bell’s.
Andy teve apenas um rival até agora: Mick Campbell.
A pressão que precedia os verdadeiros combates entre os dois beirava a paixão ufanista, vide o murro que Mick deu na cara do Andy em Hossegor.
É possível que aquele soco tenha acordado Irons para o que viria pela frente e o fez deixar de disputinhas menores e concentrar-se no que lhe interessava: um título mundial.
Andy cansou de perder para Parko, Saca, Pedro Henrique, Campbell(que vergonha esses pro-juniors faz essa gente passar).
Uma estratégica mudança de patrocínio, da MCD para Billabong, ajudou no trajeto rumo à coroa do WCT, mas não foi capaz de satisfazer a vontade de saber-se reconhecido como melhor do mundo.
Bruce sempre foi considerado melhor – o próprio Andy já entrava, e ainda entra, na disputa com o caçula como quem se desculpa por não ter tanto talento bruto.
Por isso tantas derrotas pro irmão: excesso de respeito.
Parecido com Sunny e Derek Ho.
Por mais que houvesse um abismo entre o desempenho dos dois, Garcia sempre sucumbia diante do imenso respeito que guardava por Derek.
Se vale o que está escrito, Kelly Slater é o melhor surfista do mundo
, o maior de todos tempos, e Andy, mais um Bi-campeão mundial (partindo pro tri, quem sabe ?).
Ainda não é suficiente.
O WCT precisa ver os dois competindo por todos cantos, Bell’s, Kirra, Pipe, J. Bay, Teahupoo, Cloudbreak, então teremos um circuito de sonho.

[Nota: em 2007, Andy é tri, um dos mais talentosos e competitivos surfistas de sempre, possível canditado ao tetra ainda em nesse ano se os dois aussies não abrirem muito bem os olhinhos azuis - ou seriam verdes ? Pombas! e nem faz quatro anos...]