domingo, setembro 02, 2007

Post-scritum

[Post-scritum para Surf Portugal, 23 de Setembro de 2003]

MR versus Cheyne Horan, MP versus Rabbit, Dora e Fain, Occy contra Curren.
Rivalidade hostil era assim: surfista de lycra azul se alonga na areia, tenta afrouxar a tensão que vai crescendo com a proximidade do soar estridente da buzina. Nesse mesmíssimo tempo o desafiante vestido com a lycra vermelha range os dentes, imagina o adversário encurralado, fudido, numa situação constrangedora, esperando pelo golpe final da espada justa dos vitoriosos.
Quando azul se levanta e cruza o olhar com o vermelho, inverte-se a coisa toda: aquele que respirava com retidão, olhos fechados, totalmente centrado, fuzila o oponente, que por sua vez fita o chão assustado.

Rivalidade era Prost contra Senna na fórmula 1 (1984/94), ‘Metaforicamente, Senna quer me matar’, dizia Prost.
Corrida após corrida se enfrentavam, um contra o outro.
Foda-se o resto.
O negócio é pessoal.
Mark Richards chamava Cheyne de ‘Brat’, algo em torno de pentelho, pra manter o padrão do horário nobre, ‘little brat’ quando o sangue esquentava.
Cheyne vinha ao Brasil ganhar o Waimea 5000 e Richards corria atrás do evento seguinte no Japão- lembram daquelas setinhas enfezadas que saíam dos olhos do bandido ? Pois bem.
Michael Peterson saiu duma bateria enlouquecido por ter perdido pro seu ‘sparring’, Wayne Bartholomeu, andou determinado até seu algoz e encerrou o assunto:’voce é um merda, Rabbit!’.
Andy pode rasgar a foto do Slater, mas quantas vezes será capaz de destruí-lo numa bateria ? (ficou provado que sim, quantas vezes fosse necessário).
O sistema da A.S.P. se mostra falho quando evita o confronto dos maiores rivais dessa nova era.
Occy foi o único surfista a manter uma margem de vitórias em cima de um imbatível Curren nos fins dos anos 80, isso alimentou 200 anos de dentes rangendo, desde Oceanside até Bell’s.
Andy teve apenas um rival até agora: Mick Campbell.
A pressão que precedia os verdadeiros combates entre os dois beirava a paixão ufanista, vide o murro que Mick deu na cara do Andy em Hossegor.
É possível que aquele soco tenha acordado Irons para o que viria pela frente e o fez deixar de disputinhas menores e concentrar-se no que lhe interessava: um título mundial.
Andy cansou de perder para Parko, Saca, Pedro Henrique, Campbell(que vergonha esses pro-juniors faz essa gente passar).
Uma estratégica mudança de patrocínio, da MCD para Billabong, ajudou no trajeto rumo à coroa do WCT, mas não foi capaz de satisfazer a vontade de saber-se reconhecido como melhor do mundo.
Bruce sempre foi considerado melhor – o próprio Andy já entrava, e ainda entra, na disputa com o caçula como quem se desculpa por não ter tanto talento bruto.
Por isso tantas derrotas pro irmão: excesso de respeito.
Parecido com Sunny e Derek Ho.
Por mais que houvesse um abismo entre o desempenho dos dois, Garcia sempre sucumbia diante do imenso respeito que guardava por Derek.
Se vale o que está escrito, Kelly Slater é o melhor surfista do mundo
, o maior de todos tempos, e Andy, mais um Bi-campeão mundial (partindo pro tri, quem sabe ?).
Ainda não é suficiente.
O WCT precisa ver os dois competindo por todos cantos, Bell’s, Kirra, Pipe, J. Bay, Teahupoo, Cloudbreak, então teremos um circuito de sonho.

[Nota: em 2007, Andy é tri, um dos mais talentosos e competitivos surfistas de sempre, possível canditado ao tetra ainda em nesse ano se os dois aussies não abrirem muito bem os olhinhos azuis - ou seriam verdes ? Pombas! e nem faz quatro anos...]

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