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sexta-feira, setembro 26, 2008

Cada macaco no seu galho


A turma era da pesada


[Coluna Tempestade em copo d'água>Revista Surf Portugal # 186>Julho 2008]

Recebo um inesperado presente, Best of Surfer Magazine (Chronicle Books, EUA, 2007), caprichado trabalho de pescaria do excelentíssimo ex-editor da revista, Steve Hawk (sabiam que ele é irmão do Tony, sim, do skate), Chris Mauro e prefácio escrito pelo Dave Parmenter, com sagaz título, 'Existe mesmo esse negócio de escritor de surfe ?'.
A seleção dos textos pontua bem as diferentes eras que o surfe pasou desde que revista Surfer chegou em 1960, passando do início romântico ao hiper-profissionalismo, sem esquecer de todas viagens, pra dentro com Drew Kampion e pra fora com Kevin Naughton - ou vice-versa.
Cada macaco no seu galho, fui direto no fatídico 'Bustin' down the door' (Vol. 17 No. 5 Janeiro 1977) que custou ao atual presidente da ASP Rabbit Bartholomeu todos seus dentes.
A curiosidade ardia.
No caminho para página 72 me vi atraído pelo título dum artigo escrito pelo Gerry Lopez, Attitude Dancing (Vol. 17 No. 2 Junho 1976).
Cada texto é precedido duma pequena ambientação e voce periga ser fisgado quando menos espera como um marlin num livro do Heminghway.
Esse do Lopez dizia assim: '...Shaun Thomsom, Rabbit Bartholomeu, Ian Cairns e Mark Richards incomodavam a velha guarda, e sua mentalidade 'destruir, demolir e rasgar' contrastava asperamente com filosofia 'deixa rolar, irmão' da elite havaiana. O debate filosófico esquentava. Socos eram frequentes como palavras. Lopez, o arqueiro zen de Pipeline acalmou os ânimos quando desenhou um panorama da situação...'
Quem é capaz de resistir à um chamado desses ?
O reinado de Lopez chegava ao fim e toda sumptuosidade havaiana começava a ruir com a chegada barulhenta da geração Free Ride, homens que mudariam o surfe para sempre.
Elegantemente, Lopez respondia do jeito que dava em palavras o que ficava sem resposta dentro d'água.
Sutilmente, o Rei de Pipe sugeria que o novo surfe queria impor sua força à onda, enquanto a tradição havaiana era de 'ser um com a natureza(onda)'. O artigo é uma aula de história com requintes de sarcasmo do camarada famoso pela calma e classe ao surfar a onda mais temida do mundo no seu tempo. Lopez não perde uma única oportunidade de legitimar o surfe - e o estilo de vida - havaiano e esculhambar com a nova escola australiana.


Voando...

Que ninguem nos ouça mas Lopez ostenta uma fama nada condizente com sua imagem, de ser um tremendo rabeiro (dropinador ?), deve ser o ying ou o yang, não estou certo.
Mais um pedacinho: '...podemos rastrear a origem desses dois comportamentos, buscando as duas distintas filosofias de vida...Paralelos do pensamento ocidental versus oriental são inúmeros. Podemos argumentar que os A's (australianos, sul-africanos e cia) representam uma competitividade rude, desbravadora, enquanto os B's (Havaianos) tem mais afinidade com as culturas mais inertes do oriente (Cowboys versus índios ?). De qualquer maneira, o ocidental clássico 'pegar o touro pelos chifres' caracteriza o ataque dos A's. E a filosofia oriental é do tipo que diz 'é mais fácil andar na mesma direção do cavalo', ou 'pegue o que voce tem' dos B's é fundamental para seu estilo de vida - e de surfar.'
A lenha para a fogueira de vaidades cresce com as palavras.
Lopez intencionalmente quer mostrar ao leitor que esse novo gênero de surfe é uma distorção da pureza havaiana, algo bem próximo da balela atual de soul surfing, onde Joel Tudor faz modelos exclusivos para uma marca gigantesca e chama astutamente de Good Karma.
É tudo uma questão de grana.
Lopez vislumbrava seu reinado, e seu negócio, ameaçado.
Isso não faz seu texto menor, não senhor, até pelo contrário, o engrandece.
Sua precisão nos fatos é admirável, da mesma forma que suas cavadas bem embaixo da guilhotina de Pipeline.
Ali pelo final do seu texto, Lopez cita Drew Kampion, outro craque, não da prancha, mas do teclado da máquina de escrever, editor da Surfer na mágica época de 68 até meados de 70: 'Na maioria dos esportes, a estrutura determina os campeões. No surfe, os campeões é que determinam a estrutura'.
Uma frase certeira, atemporal, a deixa para o faminto novato Wayne Rabbit Bartholomeu dar sua versão dos fatos.
Rabbit cita os resultados nas Olimpíadas de 1976 pra empurrar o desempenho dos surfistas da época.
'Sem dúvida motivados pela notoriedade de Spitz, as estrelas da natação reduziram 95% dos recordes mundiais existentes e, pela primeira vez na história, notas máximas foram atribuídas para ginastas romenos e russos.'
Sr Bartholomeu tinha 22 anos quando escreveu isso.
O surfe profissional ainda sequer tinha nascido como conhecemos hoje, com circuitos e etc...
A batalha começava nos argumentos, um melhor do que o outro.
'Nenhum dos caras novos pode afirmar ser melhor do que esse grupo de surfistas bem estabelecidos, simplesmente porque Bk (Barry Kanaiapuni), Lopez, Hackman e Nat, pra citar alguns, tem sido uma enorme influência no surfe moderno, e ainda assim há espaços para indivíduos, conhecidos ou desconhecidos, serem reconhecidos simplesmente pela sua originalidade e criatividade...O negócio é que quando voce é um garoto emergente vindo da Austrália ou África do sul, voce não pode apenas entrar pela porta de trás (para ser convidado pros campeonatos no havaí). Voce tem que derrubar a porta antes que te ouçam chegar.
Desde aquela geração não tivemos ainda um grupo de surfistas tão determinados a mudar o curso do surfe, dentro e fora d'água, como eles.
Imaginem hoje, Slater (ou Machado) escrevendo na maior revista do mundo (o mundo era deste tamaninho...) sobre o jeito do Dane Reynolds e Jordy Smith surfarem e um dos dois, alem dos resultados em campeonatos, rebatessem os argumentos com a maior elegância e irreverência.
E ainda por cima vencer, vencer, vencer...


Quem resiste a categoria do Lopez ?

PS - A leitura dos dois artigos é um belo exercício para quem quer entender de onde viemos e para onde vamos.
O debate é bem mais antigo do que somos capazes de conceber.

domingo, janeiro 28, 2007

MOTE (clica aqui e compra o filme)

[Escrito no dia 3 de Maio de 2002, encomenda da Surf Portugal pela ocasião do lançamento da edição comemorativa de 25 anos do 'Morning of the Earth'em DVD]



MP de peito aberto

Enquanto os americanos realizavam aqueles filmes caretas, com narrativas didáticas, uma verdadeira profilaxia de informações, David Nuhiva caminhando na prancha, cultura de praia enlatada para Hollywood, nessa mesma época, final dos anos 60, a Austrália afundava-se na contra cultura, no L.S.D. e pranchas com 2 pés menores.
A primeira manifestação veio com 'Evolution'(1969), de Paul Witzig, que chocava a audiência com o primeiro ataque de backside registrado em filme, Wayne Lynch com apenas 15 anos!, Março de 69, na costa oeste de Victoria.
Em seguida, George Greenough, um milionário excêntrico de Santa-Barbara, muda-se para 'Down-under' e investe seu tempo e dinheiro criando uma obra-prima: “Innermost Limits of pure fun”(1970), muito provavelmente o mais importante filme de surfe de sempre.
Nat Young relata em seu livro, 'Nat’s Nat and that’s that'(Nymboida press, 1988), 'Foi nessa época (1971) que me fascinei pelo cogumelo Psylocida cubensis, conhecido como ‘Gold Top’. Havia uma regra no nosso pequeno grupo, se achássemos um no caminho para a praia tínhamos que come-los. A experiência com esses cogumelos foi semelhante às de Bunker Spreckles no Hawaii com o Peiote. Eu me sentia como um herói, um guerreiro, era capaz de tudo…'
Esse tempo descrito pelo 'Animal' Nat Young, é fabulosamente documentado no filme 'Morning of the earth'(1972) de 'Albie Falzon.
É exatamente sobre esse filme incrível que vou estrear essa nova coluna onde a Surf Portugal vai contar histórias de diretores, surfistas, vídeos, cameras, filmes, músicas e ondas que compôem a arte dos filmes de surfe.


Nat goiabando

Freiras e cogumelos

Albie Falzon trabalhava numa editora, fazia o desenho gráfico das páginas de uma publicação para Igreja Católica e um belo dia saindo para almoçar, conversava com duas freiras, que lhe perguntaram: qual o seu sonho ? o que voce deseja fazer da sua vida ?
Albie, perpelexo, olhou pros lados, pensou, pensou, olhou pra cima e respondeu na buxa: - Gostaria de fazer um filme maravilhoso e positivo sobre o mundo…
E elas disseram, ‘voce vai realizar seu sonho, meu filho’, foi então quando ele começou a filmar 'Morning of the earth'.
Desde que os primeiros filmes de Bud Browne chegaram na Austrália em 1957 (Surfmovies, Albie Thoms, Shore thing, 1999, AU), Albie Falzon sabia que queria filmar e editar uma daquelas jóias. Já colaborava como fotógrafo para Bob Evans, editor da ‘Surfing world’ e pioneiro na exibição e confecção dos filmes de surfe na Australia.
Associou-se a outros surfistas, David Elfick e John Witzig, e criaram a primeira publicação ‘up-to-date’ australiana, o jornal 'Tracks'.
O Tracks tinha uma linha editorial voltada para ecologia, debates sobre drogas, nudismo e tudo que viesse da cultura ‘hippie’, que fundia-se com o estilo de vida dos surfistas.
Comprou uma Boileau 16mm e começou a filmar os amigos, logo estava viajando para filmar o campeonato nacional em Bells, mas decepcionou-se com as imagens e resolveu que competição, definitivamente, não era seu filão.
A sequencia inicial de 'Morning of the earth' foi filmada numa cratera de vulcão no Kauai com filme infra-vermelho e editada com imagens que Falzon costurava na intenção de criar a ilusão de que o espectador estava testemunhando a própria criação do mundo.
' O filme comça mesmo quando Nat Young dropa duas esquerdas em Whale Beach.' Conta Falzon.
A costa norte de New South Wales era completamente dasabitada e tinha ondas incríveis, como Angourie, Broken heads e centenas de ‘points’ para direita. A vida simples na fazenda, criando galinhas, colhendo cogumelos, fumando ganja, morando em casas de árvore, como Chris Brock, e principalmente surfando ondas perfeitas e desertas.
Nat Young e amigos são retratados no filme como uma comunidade alternativa, sem as preocupações de uma vida atribulada com as guerras, do Vietnã e Coréia, sem as crises na política Européia e sul-americana, completamente alheios ao movimento circular do mundo, detidos apenas nos movimentos das marés.

Michael Peterson

Michael Peterson mostra ao resto dos surfistas espalhados pelo mundo que o trilho de Kirra acelera a velocidades absurdas, seu cut-back de frações de segundos ficou eternizado como o momento mais influente do surfe moderno.
Curren atingiu a maturidade quando conseguiu aprimorar os movimentos de MP. Slater ainda procura o seu…


Ulu anos antes das hordas de lutadores

Descoberta

Continuando sua obsessão pelo inusitado, Falzon, queria fugir do tradicional Hawaii/OZ. Precisava de algo mais…transcedental. Se oriente, rapaz.
Numa das sequências mais memoráveis do filme, Albie Falzon leva o grommet Steve Cooney, 15 anos, e Rusty Miller, outro americano apaixonado pela Austrália, para a ilha de Bali. Este é o primeiro documento das ondas balinesas, idéia de um dos seus sócios, David Elfick, agora produtor associado de empreitada.
As imagens de Uluatu, com Cooney e Rusty caminhando no reef, ondas no fundo, camêra lenta, é o momento sublime do filme.
Só pelo fato de revelarem as ondas quilométricas ondas balinesas, 'Morning of the earth' já nascia clássico.
Mas tinha mais…

Fitz, Lopez e Barry

Quando voltou de Bali, Falzon conseguiu ainda um finaciamento de 20.000 Dólares para terminar seu filme e devolveu 200.000 ao Australian Film Development Corporation com faturamento de público.


Fitz no trilho

Terry Fitzgerald tinha o jogo de corpo mais elegante da nova geração, poses de um ginasta e uma ridícula projeção nas curvas- nem tanto quanto Barry Kanaiapuni, o havaiano que dominou Sunset como Lopez fez em Pipe.
A última parte do filme é dedicada ao Hawaii e traz um jovem Lopez tomando a coroa de Butch Van Artsdalen como novo e inquestinável Pipeline Master, ainda em 71.
Barry Kanaiapuni eleva a arte de surfar Sunset à alta Performance, desfazendo o que seus ancestrais criaram como mero divertimento e devoção religiosa, tornando-o um verdadeiro ataque às paredes poderosíssimas que desbavam sobre sua cabeça.
Fitz foi o primeiro, são tantos os primeiros nesse filme…, campeão profissional mundial, se houvesse circuito em 75. Em Morning…. Ele surfa Rocky point com um backside inovador e altamente estiloso, isso sem mencionar Sunset.

A trilha sonora foi feita sob encomenda, depois do filme editado, e lançada pela Warner australiana e foi o primeiro filme australiano a receber o disco de ouro. Como o filme não tem narrativa, as canções contam a história e retratam tão bem essa época que até hoje voce pode achar o CD nas lojas certas.
“O filme definitivamente capturou os hábitos daquele tempo e sem qulaquer tipo de comentário ou diálogo. É uma percepção. Tem mais sentimento no filme do que em qualquer representação acurada.” Diz Steve Cooney.

Foi lançado em 97 uma edição especial comemorativa dos 25 anos de Morning of the earth pela distribuidora inglesa Chilli Video – hoje responsável pela produção dos programas do WCT/ASP.

Albie Falzon continua trabalhando com surfe, dirigiu Metaphysical para a Quiksiver em 97, entre outras coisas, por exemplo, outra obra-prima, “Can’t step twice on the same piece of water”, uma brincadeira com “Gato em teto de zinco quente”