A turma era da pesada
[Coluna Tempestade em copo d'água>Revista Surf Portugal # 186>Julho 2008]
Recebo um inesperado presente, Best of Surfer Magazine (Chronicle Books, EUA, 2007), caprichado trabalho de pescaria do excelentíssimo ex-editor da revista, Steve Hawk (sabiam que ele é irmão do Tony, sim, do skate), Chris Mauro e prefácio escrito pelo Dave Parmenter, com sagaz título, 'Existe mesmo esse negócio de escritor de surfe ?'.
A seleção dos textos pontua bem as diferentes eras que o surfe pasou desde que revista Surfer chegou em 1960, passando do início romântico ao hiper-profissionalismo, sem esquecer de todas viagens, pra dentro com Drew Kampion e pra fora com Kevin Naughton - ou vice-versa.
Cada macaco no seu galho, fui direto no fatídico 'Bustin' down the door' (Vol. 17 No. 5 Janeiro 1977) que custou ao atual presidente da ASP Rabbit Bartholomeu todos seus dentes.
A curiosidade ardia.
No caminho para página 72 me vi atraído pelo título dum artigo escrito pelo Gerry Lopez, Attitude Dancing (Vol. 17 No. 2 Junho 1976).
Cada texto é precedido duma pequena ambientação e voce periga ser fisgado quando menos espera como um marlin num livro do Heminghway.
Esse do Lopez dizia assim: '...Shaun Thomsom, Rabbit Bartholomeu, Ian Cairns e Mark Richards incomodavam a velha guarda, e sua mentalidade 'destruir, demolir e rasgar' contrastava asperamente com filosofia 'deixa rolar, irmão' da elite havaiana. O debate filosófico esquentava. Socos eram frequentes como palavras. Lopez, o arqueiro zen de Pipeline acalmou os ânimos quando desenhou um panorama da situação...'
Quem é capaz de resistir à um chamado desses ?
O reinado de Lopez chegava ao fim e toda sumptuosidade havaiana começava a ruir com a chegada barulhenta da geração Free Ride, homens que mudariam o surfe para sempre.
Elegantemente, Lopez respondia do jeito que dava em palavras o que ficava sem resposta dentro d'água.
Sutilmente, o Rei de Pipe sugeria que o novo surfe queria impor sua força à onda, enquanto a tradição havaiana era de 'ser um com a natureza(onda)'. O artigo é uma aula de história com requintes de sarcasmo do camarada famoso pela calma e classe ao surfar a onda mais temida do mundo no seu tempo. Lopez não perde uma única oportunidade de legitimar o surfe - e o estilo de vida - havaiano e esculhambar com a nova escola australiana.
Voando...
Que ninguem nos ouça mas Lopez ostenta uma fama nada condizente com sua imagem, de ser um tremendo rabeiro (dropinador ?), deve ser o ying ou o yang, não estou certo.
Mais um pedacinho: '...podemos rastrear a origem desses dois comportamentos, buscando as duas distintas filosofias de vida...Paralelos do pensamento ocidental versus oriental são inúmeros. Podemos argumentar que os A's (australianos, sul-africanos e cia) representam uma competitividade rude, desbravadora, enquanto os B's (Havaianos) tem mais afinidade com as culturas mais inertes do oriente (Cowboys versus índios ?). De qualquer maneira, o ocidental clássico 'pegar o touro pelos chifres' caracteriza o ataque dos A's. E a filosofia oriental é do tipo que diz 'é mais fácil andar na mesma direção do cavalo', ou 'pegue o que voce tem' dos B's é fundamental para seu estilo de vida - e de surfar.'
A lenha para a fogueira de vaidades cresce com as palavras.
Lopez intencionalmente quer mostrar ao leitor que esse novo gênero de surfe é uma distorção da pureza havaiana, algo bem próximo da balela atual de soul surfing, onde Joel Tudor faz modelos exclusivos para uma marca gigantesca e chama astutamente de Good Karma.
É tudo uma questão de grana.
Lopez vislumbrava seu reinado, e seu negócio, ameaçado.
Isso não faz seu texto menor, não senhor, até pelo contrário, o engrandece.
Sua precisão nos fatos é admirável, da mesma forma que suas cavadas bem embaixo da guilhotina de Pipeline.
Ali pelo final do seu texto, Lopez cita Drew Kampion, outro craque, não da prancha, mas do teclado da máquina de escrever, editor da Surfer na mágica época de 68 até meados de 70: 'Na maioria dos esportes, a estrutura determina os campeões. No surfe, os campeões é que determinam a estrutura'.
Uma frase certeira, atemporal, a deixa para o faminto novato Wayne Rabbit Bartholomeu dar sua versão dos fatos.
Rabbit cita os resultados nas Olimpíadas de 1976 pra empurrar o desempenho dos surfistas da época.
'Sem dúvida motivados pela notoriedade de Spitz, as estrelas da natação reduziram 95% dos recordes mundiais existentes e, pela primeira vez na história, notas máximas foram atribuídas para ginastas romenos e russos.'
Sr Bartholomeu tinha 22 anos quando escreveu isso.
O surfe profissional ainda sequer tinha nascido como conhecemos hoje, com circuitos e etc...
A batalha começava nos argumentos, um melhor do que o outro.
'Nenhum dos caras novos pode afirmar ser melhor do que esse grupo de surfistas bem estabelecidos, simplesmente porque Bk (Barry Kanaiapuni), Lopez, Hackman e Nat, pra citar alguns, tem sido uma enorme influência no surfe moderno, e ainda assim há espaços para indivíduos, conhecidos ou desconhecidos, serem reconhecidos simplesmente pela sua originalidade e criatividade...O negócio é que quando voce é um garoto emergente vindo da Austrália ou África do sul, voce não pode apenas entrar pela porta de trás (para ser convidado pros campeonatos no havaí). Voce tem que derrubar a porta antes que te ouçam chegar.
Desde aquela geração não tivemos ainda um grupo de surfistas tão determinados a mudar o curso do surfe, dentro e fora d'água, como eles.
Imaginem hoje, Slater (ou Machado) escrevendo na maior revista do mundo (o mundo era deste tamaninho...) sobre o jeito do Dane Reynolds e Jordy Smith surfarem e um dos dois, alem dos resultados em campeonatos, rebatessem os argumentos com a maior elegância e irreverência.
E ainda por cima vencer, vencer, vencer...

Quem resiste a categoria do Lopez ?
PS - A leitura dos dois artigos é um belo exercício para quem quer entender de onde viemos e para onde vamos.
O debate é bem mais antigo do que somos capazes de conceber.
























