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segunda-feira, novembro 23, 2015

Tudo Azul



A revista Surfer de Junho desse ano - que saiu em abril- traz uma matéria sobre o livro Blue Mind, (Editora Little, Brown and Company; EUA - Julho 2014) do biólogo americano Wallace J. Nichols.

A teoria de Nichols é que a água nos oferece o maior atalho para a felicidade.

Simples assim.

Depois de pesquisar durante anos a relação do homem com a água, junto de psicólogos, neurocientistas, surfistas, mergulhadores e toda sorte de gente que luta pela conservação da natureza, Nichols chegou a uma série de conclusões que acabou por virar um dos livros mais emblemáticos dos lista dos mais vendidos do New York Times.

Blue Mind começa por mostrar que todos nós somos gerados e já nascemos cercados de água, com o tempo somos obrigados a aprender a viver longe dela - ou sem ela em volta.

Vamos secando - para usar uma metáfora bem adequada.

De certa maneira, diz o livro, passamos boa parte da vida tentando voltar para aquela sensação boa que nos remete as primeiras memórias de ser (estar) vivo.

Os estudos de Nichols testam as reações do cérebro em diferentes ambientes aquáticos.

Se levarmos em consideração que tanto nosso corpo quanto o planeta Terra é composto por mais de 70 % de água, não é assim tão difícil imaginar o poder de cura, ou apenas bem estar, que o mar possui.
Isso sem contar que os oceanos são responsáveis por metade do oxigênio da nossa atmosfera.

Citando dois psicólogos ambientais, Stephen e Rachel Kaplan, ele menciona dois estados diferentes de atenção: dirigido e involuntário
O primeiro representa o nosso estado de alerta quando aplicado a uma tarefa ou decisão- dirigir um carro, enviar um email, ou escolher qual prancha usar. 

O outro, ocorre quando estamos num ambiente distante do nosso habitat normal, da nossa rotina, ainda assim com alguma familiaridade para não oferecer ameaça e manter nossa cuca fresca e engajada - numa tradução livre.
É um estado de deriva (um termo náutico, como observa Nichols), podemos também chamar de contemplativo, que a água causa.

Nós todos sentimos isso.
Olhando para o mar, como um dos hipnotizados pelo oceano dos livros de Melville
tudo parece estático, ao mesmo tempo mudando sutilmente - um veleiro, uma gaivota, a maré esvaziando.

Essa é a atenção involuntária, que nós surfistas, assim como mergulhadores e pescadores, nos submetemos quase todos os dias e que, segundo o livro, nos coloca nesse estado que ele chama de Blue Mind.

Você nem precisa estar de frente pro mar.
Pode acontecer numa floresta, ouvindo música no metrô, mesmo em plena aula de matemática, olhando a fotografia duma onda de sonho…

Os estudos apontam para uma série de reações químicas que emprestam ao cérebro sensações que normalmente, principalmente nos dias de hoje, são alcançadas somente com ajuda de drogas.

Parece papo de maluco- e é.

As pesquisas realizadas mostram que quando estamos próximos da água produzimos uma galáxia de neuro-químicos que nos fazem sentir bem, como dopamina (prazer e inovação), serotonina (bem estar e paz), endorfina (euforia e ausência de dor), oxitocina (amor e união), Gaba (Ácido gama-aminobutírico = serenidade) e até mesmo os endocanabinóides, nossa própria capacidade de criar algo semelhante ao princípio ativo da maconha, reduzindo a ansiedade.

Tudo isso acontece dentro da sua cachola, acredite.

O livro apresenta exemplos de casos perdidos, como um veterano da guerra do Golfo, Bobby Lane.
Lane voltou completamente perdido, desajustado, sofreu traumas sérios na cabeça, não conseguia falar direito, sofria de trauma pós guerra, viciado na super medicação que recebia, resolveu cometer suicídio.
Tentou a morte por policiais, quando um ex combatente faz algo para provocar um oficial até ser alvejado, porque como um guerreiro, ele mesmo não teria coragem de tirar sua vida.
Bobby acabou fazendo uma aula de surfe numa organização chamada Operation Surf, em Santa Cruz, na Califórnia.
Tres tentativas e ele estava surfando. Meses depois, o veterano recuperou a alegria de viver, descreve Nichols.

Junior Faria procurando azul em preto e branco - Por Jair Bortoleto


Acreditando ou não nas teorias de Nichols, a mensagem é poderosa,

A água é tanto amante quanto mãe, assassino e doador de vida, fonte e dreno... 
Água desencadeia a criança desinibida em todos nós, destravando a nossa criatividade e curiosidade. 
Intuímos os sentimentos uns dos outros, antes mesmo da nossa mente consciente ter tido tempo para processá-los: 
empatia é fundamental aqui. 
Se a água nos permite libertar o nosso eu interior, então ele poderia ser o antídoto para as telas que nos mantêm acordados, ansiosos e espasmódicos.
Em um mundo superaquecido e desidratado, voce precisa de água e a água precisa de você.

A coisa vai adiante,

Na nossa mentalidade ocidental, nós super valorizamos tanto a ciencia que a ideia de ficar sentado, imóvel, na esperança de transcender parece comica e seus praticantes são motivo de chacota.

Água, conclui Nichols, Medita voce!

Gosto de imaginar o dia em que seremos todos esse senhor de chapéu, apontando para as memórias nem tão distantes, inventando histórias tentando ainda impressionar a escolhida, passados mais de 40 anos ao seu lado... - Foto do Jair Bortoleto

segunda-feira, maio 04, 2015

Molecagem

[Texto de 26.11.2014]

Quem é o Vira-lata ?


          Estamos em dezembro de 2014, um ano difícil para a grande maioria dos leitores dessa revista.

Perdemos uma Copa do mundo em casa.

Uma Copa ganha antecipadamente várias vezes pelos gênios do futebol.

Tivemos uma eleição apertada e disputada como um clássico do brasileirão.

O discurso raivoso aflorou de tudo quanto era buraco.

Sujeito caminhava tranquilo pela rua e de repente saía um iradinho da primeira esquina.

O surfista tinha uma fuga, Medina liderou o circuito mundial de ponta a ponta, exceto por um percalço chamado Travis Logie, justo no Rio de janeiro.

Quando esse texto chegar até você, é possível que já tenhamos um campeão mundial.

O tricolor Nelson Rodrigues enxergava de olhos fechados


Caso contrário, nosso afamado complexo de vira-latas, tão alardeado por Nelson Rodrigues, virá a tona uma vez vez mais.

Da mesma maneira que colocaram a culpa do vexame diante da seleção alemã no fato jogador ter nascido no Brasil, ou da política brasileira ser do jeito que é porque, afinal, somos todos brasileiros - a desculpa de não termos um título é a uma sina, uma marca.

Invertemos o mérito e o transformamos em vergonha.
Faz tempo que é assim.

Quando ainda não tínhamos títulos no futebol, o cronista Nelson Rodrigues destrinchava nosso complexo de inferioridade.

Era exatamente como hoje.

Tudo que vinha de fora era bom - bom não, melhor.

Toda e qualquer coisa que não fosse feita no Brasil era melhor.

Homens e produtos estrangeiros eram superiores.

Quantas pessoas voce conhece hoje, dezembro de 2014, que ainda pensam dessa mesma forma ?

Quase 60 anos depois de criada a expressão complexo de vira-latas…

Um título do Medina não será suficiente para aplacar a vergonha que se esconde atrás de cada assustado que sonha com um passaporte seja qual for, contanto que não traga Brasileiro na primeira página.

Os aviltados gritarão bem alto, Tambem, olha esse povo que nos deram… Brasileiro aceita tudo.

Chile, 1962, sem legenda


Recorro então ao texto que Nelson Rodrigues escreveu quando ganhamos não o primeiro título mundial, na Copa de 1958, mas o segundo, na Copa do Chile em 1962.

Quando triunfamos em 58 decretou o fim da nossa permanente sensação de subalterno, passados apenas 4 anos essa irresistível força bovina que nos arremessa pra baixo da mesa voltava com a força dos aflitos.

Até mesmo os próprios europeus, à semelhança dos australianos e americanos do mundinho do surfe, já acreditavam na nossa condição secundária.

Percebam como é parecido o momento do surfe em 2014 e o futebol em 1962.

Mesmo como Fabinho Gouveia, Victor Ribas, Teco, Neco, Burle, Resende, Maya, Phil, mesmo com Yago e Lucas Silveira ainda tem gente que aponta com um rasgo de embaraço, Coitados, são brasileiros…

O descaso não é deles, é nosso.

Nelson Rodrigues reconhecia um pessimista pelo cheiro, foi pra eles que publicou na revista Fatos & Fotos em 1962 esse texto reproduzido abaixo.

[Após quatro anos de meditação sobre o nosso futebol, o europeu desembarca no Chile. 
Vinha certo, certo, da vitória. 
Havia, porém, em todos os seus cálculos, um equívoco pequenino e fatal. 
De fato, ele viria a apurar que o forte do Brasil não é tanto o futebol, mas o homem. 
Jogado por outro homem o mesmíssimo futebol, seria o desastre. Eis o patético da questão: — a Europa podia imitar o nosso jogo e nunca a nossa qualidade humana. 
Jamais, em toda a experiência do Chile, o tcheco ou o inglês entendeu os nossos patrícios. 
Para nos vencer, o alemão ou o suíço teria de passar várias encarnações aqui. 
Teria que nascer em Vila Isabel, ou Vaz Lobo. 
Precisaria ser camelô no largo da Carioca. 
Precisaria de toda uma vivência de botecos, de gafieira, de cachaça, de malandragem geral.
Aí está: — no Velho Mundo os sujeitos se parecem, como soldadinhos de chumbo. 
A dessemelhança que possa existir de um tcheco para um belga, ou um suíço, é de feitio do terno ou do nariz. Mas o brasileiro não se parece com ninguém, nem com os sul-americanos. 
Repito: o brasileiro é uma nova experiência humana. 
O homem do Brasil entra na história com um elemento inédito, revolucionário e criador: a molecagem.]

A molecagem não é o jeitinho brasileiro de não fazer as coisas, pelo contrário, é o jeito de fazer as coisas.
Nutro um certo desprezo pelos deslumbrados com o que vem de fora.
Pra ficar somente no futebol, vou abusar do recurso de citar e, golpe baixo, encerro com Carlos Drummond de Andrade.

O difícil, o extraordinário, não é fazer mil gols, como Pelé. É fazer um gol como Pelé.

Quero crer que difícil não é fazer o que Medina fez nesse ano, mas fazer do jeito que Gabriel fez…

Todo grande texto nasce desses momentos de silencio e solidão





sábado, março 21, 2015

Viagem pra dentro

[Texto resgatado de 2014]
Na legenda original da Surfer, O Templo do Entusiasmo - Foto do Pai de todos, Ron Stoner




Pilantragem suprema é citar textos longos.
Sempre andei acompanhado do Galeano, Eduardo Galeano, escritor uruguaio que escreve com sangue, suor e lagrimas.
Galeano gosta de contar histórias da America Latina, dos povos esquecidos, contos, fábulas, mitos e adora falar dos becos e esquinas que pouca gente vai se dar ao trabalho de conhecer.

Sua trilogia, Memória do fogo, foi premiada pelo Ministério da Cultura do Uruguai e recebeu o American Book Award (Washington University, EUA) em 1989, mas isso não tem a menor importância.
O que ele escreve, e principalmente o jeito dele escrever, é o que importa.
Numa edição especial de viagens - justamente numa época onde a aventura transformou-se num pacote simpático, suavemente parcelado em 12 vezes sem juros - não poderia faltar a leitura do Galeano para um tempo de mudanças.

Extraído do livro De Pernas Pro Ar – A Escola do Mundo ao Avesso (Editora LP&M, Brasil, 1999), o trecho a seguir carrega mais de uma mensagem.
Ele nos ensina, ou melhor, relembra uma coisa que já ouvimos antes, de maneiras diferentes, a verdade está na viagem, não no porto.
A viagem começa quando voce decide.

Lembra de quando toda onda era assim ? Foto - Ron Stoner

Me solidarizo com o leitor que viaja sem sair do lugar.
Nem todo mundo tem uma pequena fortuna para gastar em passagem e hospedagem num barco luxuoso do outro lado do mundo.
Pra ser mais específico, nem todo mundo tem sequer a graninha que é preciso para ir até o norte do Peru para pegar onda.
Pipa ? Saquarema ? Maresias ? Noronha ?
Quem disse que faz falta ?

Essa revista que voce tem nas mãos ajuda a vender esses sonhos.
A TV martela ondas azuis e perfeitas como se fosse a tarefa mais simples da face da terra entrar num avião e aterrissar numa ilha paradisíaca.
Pra muita gente é mais fácil desprezar a própria praia do que aprender, ou re-aprender a gostar dela.
Esquecem-se que essa mesma praia que hoje desdenham foi aquela que os ensinou a amar o mar.
Foi nessa mesma água suja e ondas ruins que voce ficou em pé pela primeira vez na prancha e nunca mais quis saber de outra coisa.
Toda memória que temos das nossas praias não podem ser apagadas pela fantasia da onda perfeita.
Afinal de contas, nossa referência de onda perfeita foi estabelecida exatamente naquele dia mágico da nossa infância.
Aconteceu com voce em 1987, com seu amigo mais velho em 1975, com o Greg Noll em 1949 e com Medina em 2001.
E acontece todos dias, igualzinho, com as mesmas sensações e os mesmos cheiros e texturas.
Galeano escreve sobre isso.



A natureza se realiza em movimento e também nós, seus filhos, que somos o que somos e ao mesmo tempo somos o que fazemos para mudar o que somos. 
Como dizia Paulo Freire, o educador que morreu aprendendo: “Somos andando”. 
A verdade está na viagem, não no porto. 
Não há mais verdade do que a busca da verdade. 
Estamos condenados ao crime? 
Bem sabemos que nós bichos humanos andamos muito dedicados a devorar o próximo e a devastar o planeta, mas também sabemos que não estaríamos aqui se nossos remotos avós do paleolítico não tivessem sabido adaptar-se à natureza, da qual faziam parte, e não tivessem sido capazes de compartilhar o que colhiam e caçavam. 
Viva onde viva, viva como viva, viva quando viva, cada pessoa contém muitas pessoas possíveis e é o sistema de poder, que nada tem de eterno, que a cada dia convida para entrar em cena nossos habitantes mais safados, enquanto impede que os outros cresçam e os proíbe de aparecer. 
Embora estejamos malfeitos, ainda não estamos terminados; e é a aventura de mudar e de mudarmos que faz com que valha a pena esta piscadela que somos na história do universo, este fugaz calorzinho entre dois gelos.

Eduardo Galeano,

De Pernas Pro Ar – A Escola do Mundo ao Avesso (Editora LP&M, Brasil, 1999)

sexta-feira, dezembro 05, 2014

Viagem pra dentro

A espera...


          Pilantragem suprema é citar textos longos.
Sempre andei acompanhado do Galeano, Eduardo Galeano, escritor uruguaio que escreve com sangue, suor e lagrimas.
Galeano gosta de contar histórias da America Latina, dos povos esquecidos, contos, fábulas, mitos e adora falar dos becos e esquinas que pouca gente vai se dar ao trabalho de conhecer.

Sua trilogia, Memória do fogo, foi premiada pelo Ministério da Cultura do Uruguai e recebeu o American Book Award (Washington University, EUA) em 1989, mas isso não tem a menor importância.
O que ele escreve, e principalmente o jeito dele escrever, é o que importa.
Numa edição especial de viagens - justamente numa época onde a aventura transformou-se num pacote simpático, suavemente parcelado em 12 vezes sem juros - não poderia faltar a leitura do Galeano para um tempo de mudanças.

Extraído do livro De Pernas Pro Ar – A Escola do Mundo ao Avesso (Editora LP&M, Brasil, 1999), o trecho a seguir carrega mais de uma mensagem.
Ele nos ensina, ou melhor, relembra uma coisa que já ouvimos antes, de maneiras diferentes, a verdade está na viagem, não no porto.
A viagem começa quando voce decide.
Me solidarizo com o leitor que viaja sem sair do lugar.
Nem todo mundo tem uma pequena fortuna para gastar em passagem e hospedagem num barco luxuoso do outro lado do mundo.
Pra ser mais específico, nem todo mundo tem sequer a grainha que é preciso para ir até o norte do Peru para pegar onda.
Pipa ? Saquarema ? Maresias ? Noronha ?
Quem disse que faz falta ?

Essa revista que voce tem nas mãos ajuda a vender esses sonhos.
A TV martela ondas azuis e perfeitas como se fosse a tarefa mais simples da face da terra entrar num avião e aterrissar numa ilha paradisíaca.
Pra muita gente é mais fácil desprezar a própria praia do que aprender, ou re-aprender a gostar dela.
Esquecem-se que essa mesma praia que hoje desdenham foi aquela que os ensinou a amar o mar.
Foi nessa mesma água suja e ondas ruins que voce ficou em pé pela primeira vez na prancha e nunca mais quis saber de outra coisa.
Toda memória que temos das nossas praias não podem ser apagadas pela fantasia da onda perfeita.
Afinal de contas, nossa referência de onda perfeita foi estabelecida exatamente naquele dia mágico da nossa infância.
Aconteceu com voce em 1987, com seu amigo mais velho em 1975, com o Greg Noll em 1949 e com Medina em 2001.
E acontece todos dias, igualzinho, com as mesmas sensações e os mesmos cheiros e texturas.
Galeano escreve sobre isso.


A natureza se realiza em movimento e também nós, seus filhos, que somos o que somos e ao mesmo tempo somos o que fazemos para mudar o que somos. 
Como dizia Paulo Freire, o educador que morreu aprendendo: “Somos andando”. 
A verdade está na viagem, não no porto. 
Não há mais verdade do que a busca da verdade. 
Estamos condenados ao crime? 
Bem sabemos que nós bichos humanos andamos muito dedicados a devorar o próximo e a devastar o planeta, mas também sabemos que não estaríamos aqui se nossos remotos avós do paleolítico não tivessem sabido adaptar-se à natureza, da qual faziam parte, e não tivessem sido capazes de compartilhar o que colhiam e caçavam. 
Viva onde viva, viva como viva, viva quando viva, cada pessoa contém muitas pessoas possíveis e é o sistema de poder, que nada tem de eterno, que a cada dia convida para entrar em cena nossos habitantes mais safados, enquanto impede que os outros cresçam e os proíbe de aparecer. 
Embora estejamos malfeitos, ainda não estamos terminados; e é a aventura de mudar e de mudarmos que faz com que valha a pena esta piscadela que somos na história do universo, este fugaz calorzinho entre dois gelos.

Eduardo Galeano,

De Pernas Pro Ar – A Escola do Mundo ao Avesso (Editora LP&M, Brasil, 1999)

quarta-feira, setembro 03, 2014

Pranchas que nos definem

Uma cavada maiúscula

A Cusparada

A cena mais representativa do cinema de surfe a tratar da relação homem x prancha é do clássico que fecha a década de 60, Evolution do australiano Paul Witzig.
Descrevo brevemente para conseguir melhor efeito, Wayne Lynch, então um adolescente e o mais revolucionário surfe de back side que já aparecera numa tela de cinema, pega sua prancha com desdém e a arremessa n'água.
Em seguida, cospe, certeiro, no fundo da prancha.
O jeito que Lynch tratava sua prancha, a mesma que é magistralmente conduzida à lugares e ângulos nunca antes vistos numas direitas que podem ser em qualquer um dos 150 picos no estado de Victoria. Eu queria dizer que o jeito que Lynch tratava a prancha é semelhante as paixões arrebatadoras das peças do Nelson Rodrigues, quase irracional, absolutamente instintivo.
Vendo a cena do garoto de 16 anos, possivelmente o melhor surfista do mundo em 68/69, esculhambando com a prancha, sua companheira, no mais violento desempenho jamais visto, chocava porque mostrava que Lynch queria mais daquele toco.
Certa vez, Lynch foi entrevistado por um desses camaradas que vive o passado intensamente em busca de respostas sobre a evolução das pranchas e perguntou a Lynch se ele era capaz de reproduzir a magia daquela revolucionária prancha.
A resposta de Lynch foi curta e rasteira, aquela prancha era uma merda na época e continuava uma merda hoje em dia e seu interesse era, e ainda é, em pranchas para evoluir seu surfe, mesmo aos 50 anos - na época.




Single fin x Twin Fin

1976, North Shore de Oahu, Shaun Thomsom e Mark Richards comparam suas pranchas.
Shaun mostra sua monoquilha Spider Murphy, 7'6'' cheia de curva pra encarar Pipeline e Richards exibe sua biquilha, shapeada por ele mesmo, inspirada nas pranchas que Reno Abelira surfou na Australia alguns anos antes.
Os dois são os líderes da revolução que convencionou chamar de Bustin' Down the Door, em outras palavras, Shaun e MR são os dois maiores surfistas do planeta naquele exato momento, ninguem duvidava disso.
O jeito que cada um atacava as ondas no Havaí aplicou o primeiro grande rompimento da década. 
A partir daquela cena do filme Free Ride, do Bill Delaney, o surfista escolhia se era Shaun ou MR, não tinha volta.
Ou melhor, tinha sim, voce podia escolher entre Larry Bertleman, que surfava com as stingers do Ben Aipa, ou as Pin Tails do Gerry Lopez, mas nem Lopez, nem o Rubber Man ganhavam títulos mundiais.
Mal comprando, seria como se Medina e John John aparecessem no principal filme de surfe do ano conversando sobre suas pranchas - e supostamente essas mesmas pranchas tivessem características completamente diferentes.
Logo em seguida, Shaun e MR aparecem surfando dum jeito que definiu o que era surfe de qualidade por quase 10 anos.
O grande momento do filme é quando MR dropa uma bomba em Off The Wall e Shaun vai atrás, super profundo, e os dois entubam juntos, triunfantes.



Bola de fogo, 1994

Ninguem acreditava ou concebia em 1994 que ondas maiores de 6 pés pudessem ser surfadas com uma 5'7''.
Eis que Sonny Miller, diretor americano da série The Search idealizada pelo gênio louco Derek Hynd e bancada pela Rip Curl, exibe evidências de vida extra terrestre sobre as ondas.
Foi em Bawa, uma direita tambem conhecida como Fishbowls, num ponto (então) remoto da Indonésia que Tom Curren aparece surfando com uma prancha emprestada, 5'7" x 19 1/4" x 2 1/8", fazendo o que então nenhum outro homem tinha tentado.
Curren deslizava ao som duma Jam session que ele mesmo distorcia a guitarra com toques psicodelicos a lá Hendrix.
Suas curvas eram tão suaves e precisas que a partir dali as fishes, antes pranchas relegadas a condições de menor impacto, subitamente se elevaram ao patamar de design válido para toda e qualquer onda.
Ainda em 94, Log Cabins quebrou enorme e la estava Curren testando os limites da sua Fireball.
A Fireball era criação do Tom Paterson, irmão do lendário Michael Peterson, e dizem as boas línguas que a 5'7'' do Curren tinha seis canaletas e um degrau no meio delas que chamava-se step bottom.
Se hoje qualquer loja de surfe bacana que se preze tem uma fishezinha pra expor, isso deve-se ao Curren, 1994, em Bawa e ao Sonny Miller.

É um trabalho duro, mas alguem teve que faze-lo - antes.

domingo, fevereiro 02, 2014

Valter e as ondas


Valter e sua arte - Foto Agobar Jr


Valter é um sujeito comum, feito eu e voce, exceto pelo talento absurdo que Deus lhe deu para pegar onda.
Quando sobe na prancha, Valter deixa de ser uma cara normal e vira uma especie de divindade pro resto da multidão que lota a praia.
O pessoal tem uma baita admiração pelo Valter.
Mas ele pouco se importa com isso, Valter gosta é de pegar onda - e o que ele gosta ainda mais é de onda ruim.
Sim, voce leu certinho, onda ruim.
Fechada, mexida, sem força, buracão, pequena, grande, estilhaçada, torta, feia, porcaria de onda.
Por ter tanto talento pra surfar, Valter age como mais ou menos como Brando fazia na escola.
Explico, Marlon Brando sabia que era o menino mais bonito do colégio, mais carismático, as gatonas se derretiam por ele e Brando as ignorava por puro despeito.
Brando, sempre um provocador, escolhia as rejeitadas simplesmente pra chocar.
Valter, por outro lado, não quer chocar ninguem, quer apenas se divertir.
Nos dias clássicos, a turma senta na areia e assiste Valter desenhar as curvas mais lindas nas ondas que sobram - raramente ele dropa a maior do dia ou mesmo disputa onda no pico.
O maior talento do Valter é transformar lixo em arte, assim como um Arman (Google nele!), ou, pra usar um exemplo mais atual e brasileiro, Vik Muniz.
Onda perfeita, reflete Valter, qualquer um surfa.
Quero ver encaixar numa craca a 100 por hora e acertar a junção, sem voar braço pra tudo quanto é lado.
A cena descrita acima não dura mais que 10 segundos, parem pra pensar nisso.
Valter acha muita graça nos amigos que desprezam onda ruim - e não são poucos os que debocham dele.
É que Valter não curte gastar a grana suada em longas viagens, existem outras prioridades, família antes dessas extravagâncias e estamos conversados.
Volta um amigo da Indonésia, passa horas contando das ondas formidáveis que surfou, o luxo do barco, a cerveja gelada, os bons companheiros que teve a sorte de conhecer e Valter acha um barato tudo aquilo, sinceramente.
Não pensei voces que Valter nunca viajou! 
Ele viajou sim, quando ainda era solteiro, não tinha filhos, e ele viajou um bocado.
Até hoje os locais se recordam das ondas do Valter naqueles picos isolados do Oeste da Austrália, ou no Kauai, mesmo nas Filipinas tem gente que não esquece o jeito elegante do brasileiro cabeludo.
Acontecia, quase sempre, do Valter voltar pra casa e logo na primeira semana, alguma coisa mágica acontecia, como por exemplo, voltando da Indonesia pegar um Ipanema de leste, daqueles que a onda corre paralela a praia e ninguem consegue passar pelas sessões super rápidas.
Nesses dias impossíveis, Valter ia lá e pegava a onda do dia.
A turma se reunia final de tarde e cada uma das testemunhas daquele momento sublime descrevia a onda, igual a Desert Point.
Que ninguem se engane achando que Ipanema - ou qualquer outro pico aqui no SalveLindo-  quebra, ou quebrou, alguma vez como Desert Point, mas com Valter Ipanema virava Pipe, J. Bay, Puerto - era o dom do cara.
Sua maior alegria era comparar os melhores, e piores, dias na sua praia com as ondas mais cobiçadas do planeta.
Nelson Rodrigues, cronista que criou o estilo mais copiado da nossa imprensa (que o diga Jabor, todos dias, mil vezes!) dizia que não podia nem atravessar o túnel que já sentia um estrangeiro.
Valter tinha essa mesma estranha sensação.
Era capaz de surfar um dia clássico em Padang incomodado ao saber que o Leme quebrou olímpico.
Sentia um baita desconforto quando estava longe das suas tão amadas praias.
Não conseguia entender porque buscar tanto uma coisa que estava ali tão perto.
O que Valter procurava, desde moleque, cavucando buraco na areia pra pegar tatuí, soltando pipa nos dias de sudoeste, jogando pelada na praia, ou pegando onda, não era a perfeição.
Valter buscava simplesmente a diversão e nada o divertia mais que um dia de onda ruim.
Ele era feliz assim.
E fazia a alegria de quem o cercava.

Valter é um sujeito comum, feito eu e voce, exceto pelo fato que ele ama onda ruim.

sábado, abril 14, 2012

Furia


[Publicado em algum momento de 2011 nas Revistas Surf Portugal e Hardcore]



Joe wilson era um cidadão pacato, casamento marcado, convicções firmes e retas.
A caminho de encontrar sua noiva, Joe é preso injustamente, acusado dum crime que não cometeu.
Seu inferno começa ali, literalmente.
Uma multidão enfurecida quer lincha-lo de qualquer maneira e acaba por queimar a delegacia e todos os sonhos do rapaz.
Wilson escapa do incendio e dedica sua vida a condenar, silenciosamente, 22 acusados do linchamento à morte.
O grande Spencer Tracy interpreta Joe Wilson num dos classicos do cinema que ninguem deveria deixar de assistir.
O filme é de 1936, dirigido pelo alemão Fritz Lang, gênio da raça que fugiu do nazismo e foi contar historias na America. Furia (Fury, Fritz Lang, MGM, 1936, EUA) é seu primeiro filme em Hollywood e ainda hoje permanece atual como nunca.
O linchamento do filme é completamente irracional e covarde - como são todos.
A multidão irada não tem rosto.
Exatamente como na internet.
 Adriano de Souza é o novo líder da corrida ao titulo de 2011 e tudo que lemos nos outros idiomas é revolta e indignação.
Em nenhum outro momento da historia do surfe profissional um surfista foi tão severamente punido quanto Adriano depois da sua vitoria na etapa brasileira.
E por que ?
Porque a multidão o julgou e condenou pelo resultado da sua bateria contra Owen Wright.
Pela primeira vez em decadas a imprensa australiana e americana se solidarizam como irmãos.
Verdade que todas baterias mal julgadas que engolimos nos ultimos 25 anos de ASP não nos libera de qualquer culpa pelos erros alheios.
Injustiça não é uma exclusividade nossa.
Slater ainda hoje sofre com o julgamento, vide o proprio Owen x KS em Peniche 2009 ou mais recente, Slater x Sean Holmes 2010.
Acham que o Careca se cala ? 
Saibam que pouca gente reclama tanto e tão veementemente quanto ele.
A diferença é que Slater sabe a força duma imagem e faz tudo discretamente.
Não faz como Mineiro, Neco ou mesmo Alejo nesse início de carreira, com socos no ar, dedos em riste e comemorações energeticamente exasperadas para os padrões determinados pelos estrangeiros.
Nesse pre-estabelecido codigo de conduta, a comemoração é restrita apenas aos momentos de gloria reservado aos eleitos deles.
Se Taj comemora ao final duma onda, mesmo que tenha sido uma serie ridicula de meias manobras e um trivial aereo reverse na junção, desses que jamais entrariam nem nos extras do seu DVD, a malta ignara vibra junto com ele.
Quando Parko passa toda onda com suas belissimas alisadas de backside e fecha sua apresentação com uma linguagem corporal que pede um 9 - e consegue! - nos calamos todos num silencio ensurdecedor.
Há muito é deselegante demonstrar demasiada emoção, exceto, claro, no caso do Davo, por bizarro, e, Deus o tenha, Andy...



Como sempre fica cada vez mais claro que a ASP e todo circuito mundial nada mais é do que um pequeno feudo liderado pela auto-proclamada realeza, devidamente auxiliada pela nobreza e que nos resta apenas, como cortesãos e ralé, aplaudir e acenar sorrindo para as cameras.
Não perceberam ainda que, por mais que Adriano conquiste, jamais o veremos estampando uma pagina dupla do anuncio mensal do seu patrocinador ? Temos muito mais Adam Melling ou Sebastian Zietz do que nossos mulatos inzoneiros.
Alejo pode ter um começo de ano fantastico mas é Julian Wilson que se comunica com as massas.
Imaginem o Raoni num desses ultra-elaborados anuncios que abundam nas publicações fora do Salvelindo.
De jeito nenhum.
A lei do mercado não conta conosco pra dividir o bolo, servimos como fermento pra inchar os bolsos, contato que calados e obedientes.
A fúria do titulo do filme esta em todos cantos da tela, na turba enfurecida, na vingança do homem e até mesmo no espectador que ja não sabe mais pra quem torcer, se para a recuperação da hombridade do Joe Wilson ou para condenação dos 22 pobre coitados.
Nas dezenas de textos ironizando a inedita liderança brasileira revela-se o carater elitista de americanos e australianos ao tratar do fato historico com desdem e escarnio.
Nada diferente do que acontece aqui nos grandes centros, Rio, Porto Alegre, Sampa e arredores, em relação aos nordestinos ou nortistas.
Basta uma simples oportunidade para os que se julgam bem nascidos sair em bando raivoso atacando nordestinos, negros, indios e analfabetos como se eles não merecessem nosso respeito da mesma forma que seu vizinho de porta.
Joe Wilson consegue, no final do filme, que seus algozes sejam condenados mas não suporta o fardo de ter se tornado um deles.
Esse odio, as vezes disfarçado de analise ou sarcasmo, incentiva o que existe de pior no virtual e no real.
São as crianças que preferem brincar sozinhas a dividir o brinquedo, não por culpa delas, mas por exemplo dos pais e tutores que os educam desta forma.
A analogia pode parecer exagerada - não é.
Meu maior receio é que essa furia não tenha fim, nem dum lado, nem do outro.


quarta-feira, março 21, 2012

Kelly Eastwood



 “Every jackass thinks he knows what war is. Especially those who've never been in one. We like things nice and simple, good and evil, heroes and villains. There's always plenty of both. Most of the time, they are not who we think they are.”(Bradley) - Flag of Our Fathers
Sem nenhum motivo aparente acabo sempre associando as conquistas do Slater aos filmes do Clint Eastwood.
Desde a famosa final em Huntinghton Beach, 1996. quando Kelly e Shane Beschen disputaram uma final que entrou para a historia de forma meio vergonhosa - embora contundente.
Slater tinha tres vitorias, Beschen ganhara duas e estavam ambos disputando o topo do ranking, sendo que Beschen tinha conseguido a tal primeira bateria perfeita da historia da ASP, 30 pontos em 30 possiveis ( ironicamente, o recorde anterior era do Slater), tres notas 10 num mar classico em Kirra, quando a primeira etapa do tour ainda era da Billabong.
Diante dum publico de 50.000 pessoas, Slater foi declaradamente desleal com Beschen, o colocando numa interferencia que mataria qualquer chance de reação do californiano naquela final. Foi um choque para a comunidade do surfe que até então (e até hoje) se considera uma irmandade.
Slater não estava ali para fazer amigos. Estava ali para ganhar e nada mais.
Aquela situação logo me remeteu ao meu filme predileto, Os Imperdoaveis (Unforgiven, Clint Eastwood, 1992, EUA) e uma das ultimas cenas, Gene Hackman interpretava o xerife canastrão que infernizou a vida do protagonista, vivido pelo proprio Eastwood.
Cercado, Little Bill (Hackman) tenta de todas formas evitar o confronto com pistoleiro Willian Munny (Clint), finalmente dominado, Munny aponta seu rifle para a cabeça do xerife que ainda tenta um ultimo argumento, eu não mereço isso, eu estou construindo uma casa
Munny/Eastwood retruca sem pensar, merecer não tem nada com isso, e dispara.
Mas isso foi em 1996… 2011 é outra historia - ou não ?


Prefiro usar agora a frase de outro magistral filme do Eastwood, A Conquista Da Honra (Flag of our Fathers, EUA 2006).
Logo no inicio do filme, um veterano de guerra faz sua reflexão, Qualquer idiota pensa saber o que é a guerra. Especialmente aqueles que nunca estiveram em nenhuma. Gostamos das coisas bem simples: bem e mal, heróis e vilões. Há sempre bastante de ambos. Na maior parte do tempo, eles não são quem achamos que são..
Essa é a impressão que tenho do Slater, nunca temos certeza do que ele representa.
Claro que a primeira coisa que nos vem a cabeça é grandeza.
Já vimos diversas facetas do camarada, torcemos por ele e contra ele durante todo esse tempo, afinal 20 anos é suficiente pra mudar de ideia mais de uma vez.
Ninguem domina tanto tempo um esporte, ou mesmo um simples ambiente de trabalho ou familiar, sem alguma tirania e a maior delas é provavelmente a vitoria.
Slater nunca teve a convicção que alcançaria esse numero formidavel de vitorias e recordes no circuito ou fora dele - como esquecer que ele foi eleito 16 vezes surfista mais popular do mundo segundo a revista Surfer ou seu triunfo (polemico) no Eddie Aikau ?
Onze titulos mundiais não é coisa que se planeje. Até Portugal, são 70 finais, 48 vitorias, numeros que sequer fazem sentido quando comparados com ou outros surfistas.
Qualquer idiota julga saber o que é um circuito mundial de surfe profissional...
Slater é hoje um veterano de guerra em ação. 
Muito pouca gente consegue manter a lucidez sem se dobrar às armadilhas que pipocam no dia a dia duma atmosfera como do surfe profissional.
Os casos mais notorios de surfistas que não aguentaram o peso da idolatria são Curren, Michael Peterson e mais recentemente Andy Irons.
Atrás duma timidez atroz escondia-se Curren até onde foi possivel. Foi um choque saber que o surfista exemplar que mais inflenciou Slater no começo da carreira passou por problemas com alcool.
Michael Peterson não teve a mesma sorte do Curren.
Ainda mais arredio a exposição, MP enlouqueceu subitamente, alimentado pelos excessos - inclusive, o de vitorias.
Andy ainda esta tão vivo na nossa memoria que nos recusamos a pensar nele longe, mas a verdade é que Irons não teria ido embora tão prematuramente se continuasse o competidor mediano de 1999.
Uma vez que voce exprimenta vencer, nunca mais aceita outra coisa.
De todos os riscos que Slater correu nesses 20 anos, o unico que o conseguiu pegar foi o vicio da vitoria.
E como todo bom viciado, Kelly Slater fará tudo pela proxima vitoria.
Da mesma maneira que no futebol não existe gol feio, feio é não fazer gol, Slater continuará vencendo porque não sabe fazer outra coisa.
Tentou golfe, leva jeito mas não é o melhor, azar do golfe, sorte do surfe.
Não poderia terminar esse texto sem deixar de citar mais um trecho de filme dirigido e atuado por Clint Eastwood. Chama-se Josey Wales, O Fora da Lei (The Outlaw Josey Wales, EUA, 1976) - Lembre-se, quando tudo parecer perdido e voce achar que não vai conseguir sair desta, voce tem que ser mal. Digo, malvado mesmo, enlouquecidamente mal. Porque se voce perder sua cabeça e desistir, voce não sobrevive, nem vence. E as coisas são assim.