Confira o 25º Episódio do podcast Bóia, apresentado por Julio Adler e João Valente.
Assuntos:
Teahupoo, Medina, geração Momentum e o documentário da HBO sobre mitos e lendas inventadas, coletivo feminino de jazz em Londres, new wave na Nova Zelândia e Adriano de Souza.
Se voce busca as últimas notícias do surfe, procure em outro lugar.
Entre as férias no hemisfério norte e as fúrias do Hemisfério Sul arranjamos tempo para mais um episódio do Bóia. Nos arrogamos o direito de debater a mais sofisticada filosofia de botequim hoje estudada em extensas e empolgadas postagens nas redes sociais. Desenterramos Kant, Spinoza, Gregos e baianos e ainda, os irmãos George enquanto falamos do conceito de tempo e espaço. A filosofia oriental acredita que o tempo, bem como o espaço, são construções da mente humana - e isso é completamente ignorado pelo Podcast. Viciados que somos, passamos boa parte dos primeiros minutos cuidando exclusivamente das coisas mundanas do surfe profissional, principalmente Gabriel Medina, que foi tema de um texto fundamental do Nick Carroll no Surfline. Famintos por (ainda!) mais desculpas para justificar nossa doença, buscamos um texto doído e sentido da escritora americana Ellis Avery publicado no New York Times no dia do meu aniversário. Ainda acontecem homenagens aos nossos irmãos de sol e sal, Fanta e Damien Lovelock, que insistem em ir conosco para o mar toda vez que remamos nossas bóias em direção ao infinito.
Taken on the last successful voyage of the Challenger during the week of October 30 - November 6, 1985. Hurricane Juan had been downgraded to a tropical storm. Taken just south of Mobile, Alabama
North Shore Oahu, Hawaii
warren Bolster
Pentax MX; Takumar 50mm
Kodachrome 64; f4.5 @ 1/1000
"A low-level aerial of Pipeline on a deserted, dangerous day. I remember a lot of activity in the helicopter while flying along the wave ridge. We caught both spray and updraft. This is a massive wave beginning to hit bottom and suck hard over very shallow reef - a ten-to-twelve-foot day. I was struggling to keep the lens clean of spray and my equipment from flying out of the helicopter, while the pilot struggled for control in the tradewinds to hold the angle."
Fiji
Don King
Olympus; Zuiko 16mm
Kodachrome 64
"Taken at the surf spot called Cloudbreak, this view of a perfect wave from underwater resembles clouds forming in time-lapse or fast-motion photography. From this angle, a surfer riding by on the wave really looks like he's riding on clouds."
North Shore Oahu, Hawaii
Warren Bolster
Nikon N2000; f4.5 @ 1/2000
"Splashdance on the North Shore at Pipeline. First swell of spring and the swell had cut a ridge in shoreline sand. Pipeline was five to six feet all day. Kona variable clouds were moving in fast so I shot entire roll each time the sun came out. Seeing the beautiful day quickly turning dark with the approaching clouds, I tried to combine the foreground and the background surf."
Newport Beach, California
Woody Woodworth
Nikon FM; Nikkor 20mm
Kodachrome 64; f5.6 @ 1/1000
"I've always loved shooting from the air. This was from 2,500 feet - a hurricane swell in October 1977."
Durban, South Africa
Tony Arruza
Nikon FE; Nikkor 300mm f/4.5
Kodachrome 64
"Sunrise lines. A big swell coming into Bay of Plenty at sunrise. Shot from the 17th floor of the Elangeni Hotel."
Newport beach, California
Mike Moir
Canon T-90; Canon 300mm L Series
Kodachrome 64; f2.8 @ 1/1000
"You could visualize stuffing the right pocket, but look at the twist in the section ahead of you. Fluorite glass yields pi-sharp tele results. The Newport Peninsula."
"On the Newport Peninsula. chiropractor's delight, but the vacuum-pack pulling in is incredible."
Oahu, Hawaii
Denjiro Sato
Nikon FE2; Nikkor 300mm ED
Kodachrome 64; f5.6 @ 1/500
"West side Oahu."
San Clemente, California
Dennis Junior
Canon A-1; Canon 50mm
Kodachrome 64; f11 @ 1/500
"Aerial view of massive swell lines rolling in? About 10 to 12 feet if you were an ant. Interesting pattern, one that any surfer can relate to when it's dead flat and conditions are perfect and you wish you were an inch tall."
Photo of water ripples by Denjiro Sato
Waimea bay, Hawaii
Don King
Canon F-1; Canon 800mm
Kodachrome 64; f6.3 @ 1/500
"This photo of the Waimea shorebreak really epitomizes the force and power of Waimea. It can be compared to the mightiest rapids in the Colorado River. I shot this from the safety of the shore."
São muitos anos de humilhação transmitida ao vivo para milhares de pessoas.
Aquilo é a America partida, um havaiano com o nome mais comum que há (homenagem da mãe, Alexandra, ao gesto de respeito do John F. Kennedy Jr. ao bater continência no funeral do seu pai, presidente dos EUA, assassinado), do outro lado está o garoto dourado da Califórnia, ironicamente com nome havaiano - Kolohe.
Um nascido no meio de um turbulento relacionamento dos pais e criado por uma mãe valente, solteira e decidida a oferecer uma vida de sonho aos três filhos em pleno North Shore anos 90.
Enquanto isso, Dino Andino, o pai, criava Kolohe no ambiente mais competitivo do sul da Califórnia em San Clemente, onde tudo acontece.
Os dois se encontram faz tempo, bem antes de todo circo que os cerca hoje, mas já com um mar de expectativas (e contratos!) enormes desde muito cedo.
Kolohe tem o recorde de títulos nacionais (9, Bobby Martinez tinha 7), aos 15 venceu a categoria aberta e se tornou o mais novo campeão da história da NSSA.
A mesma NSSA que formou as carreiras do Tom Curren, Kelly Slater, Rob Machado, Andy e Bruce Irons, Shane Dorian e quem mais voce conseguir lembrar.
Pra completar, Kolohe foi o primeiro filho de um campeão nacional ao igualar o feito do pai.
Todo esse histórico rendeu-lhe os melhores contratos que um jovem profissional poderia sonhar - Nike, Target, Red Bull, Oakley.
John John surfava Pipe com 7 anos e Waimea pequeno (Pinballs) antes de completar 10 anos, aos 13 já competia no Triple Crown, campeão mais jovem aos 19.
Sempre foi uma guerra silenciosa- talvez a maior jamais conhecida.
Uma história estranhamente mal explorada pela WSL.
Antes de falar da final, pausa para lembrar da onda do campeonato - onda do ano até agora.
8.17
Martin Potter ainda não acreditava no que testemunhara.
- Continuamos a procurar falhas no surfe do Ítalo, sem sucesso…
Na sua primeira onda em The Box, Ítalo escreveu seu nome na história definitivamente.
Matt Warshaw perguntou publicamente se alguém discordava que aquela teria sido a melhor primeira onda surfada de todos tempos, comparando com Curren em J. Bay (ressaltando que foi a segunda…) e todas outras que nosso ilustre historiador é capaz de lembrar.
Silvana em Honolua Bay 2009 ?
Acho particularmente interessante que os dois surfistas mais atirados tenham saído do Rio Grande do Norte.
Jadson foi heróico uma vez mais - como tantas outras, nos enchendo de orgulho.
Foi o cala boca de dedo em riste depois das baterias desalentadoras do Toledo e Rodrigues.
Se existe uma onda em 2019 que representa tudo que a WSL precisa para vender o surfe como esporte profissional de alto risco e desempenho extraordinário, essa onda foi do Ítalo em The Box.
Quis os deuses que a nota fosse um ridículo 8,17.
No jogo do Bicho é Águia e Cachorro, joguei o numero, sem piscar, Milhar, Grupo e Dezena - paguei dois dias de almoço no boteco.
Se eu fosse o Ítalo, mudava meu numero para 817 na WSL.
Carlos Leite, o 11º, sai da primeira parte do Tour entre os Top 10.
Existe muita incerteza na participação do Careca no circuito desse ano.
Será que ele, ou alguém próximo, acreditou na possibilidade de mais um título mundial ou a classificação para a Olimpíada é seu objetivo final ?
De qualquer forma, estamos diante de um momento ímpar em qualquer modalidade esportiva.
Entre os 10 primeiros temos a distancia de 25 anos do mais jovem pro mais velho.
Lembramos imediatamente do George Foreman, pugilista peso pesado, campeão mundial (não unificado) aos 45 anos.
Fez uma luta absolutamente fenomenal contra o campeão Evander Holyfield em 1991, batendo firme com golpes que pareciam uma marreta em parede de tijolos.
Slater parece mais disposto a igualar o feito de outro boxeador, Bernard Hopkins, campeão mundial pela Federação Internacional de Boxe na categoria dos meios-pesados, 49 anos de idade!
Do jeito que vamos, Kelly nos sinaliza com mais alguns anos de luta entre os melhores do mundo.
A cena da queda de braço com os meninos foi imensa.
Faz pensar se isso tudo, o circo da WSL, a tensão das disputas, as possibilidades de condições que o favoreçam e os (poucos) momentos de supremacia, são a única coisa que realmente importa na sua vida.
Uma derradeira vitória seria um adiamento ou a certeza triunfal da aposentadoria ?
Ca, North America
Temos metade dos Top 10 vindos dos EUA e se colocar Kanoa (hoje competindo pelo Japão) de volta, fica com a maioria, 6, isolados como nação dominante.
Para o azar deles, nas olimpíadas ninguém liga se os havaianos não se consideram americanos e todos são farinha do mesmo saco.
Último título mundial da Califórnia foi em 1990, Tom Curren - 29 aninhos atrás!
Ao menos Lakey Peterson aparenta ter um título na manga.
Entre as meninas, mulheres, a fila para Califórnia ganhar vem desde Kim Mearing, 1983…
A Caixa
Questionada sobre a legitimidade de uma etapa no Oeste da Austrália, a WSL terá sempre o argumento, The Box.
Um dia em The Box equivale a 5 anos de renovação e uma onda como aquela com tubo e golfinhos não há dinheiro que pague.
Caio
Atualmente meu surfista brasileiro predileto é o Caio Ibelli e já explico.
Primeiro, pela injustiça gigantesca de perder a vaga de convidado, ou melhor, de não receber a vaga reservada à contundidos.
Segundo, Caio viaja na moita.
Lembro de um voo, Recife-Noronha, antes do Hang Loose pro e lá estava Caio, sozinho, discreto e silencioso, não esqueço porque Ibelli era campeão mundial junior de 2012.
Nesse ano, Caio tem entrado no lugar do Adriano, ainda se recuperando da lesão em Portugal no ano passado.
Todas suas derrotas foram vendidas caro, duas contra Toledo e uma na repescagem pra Jordy e Christie.
Em WA, Caio bateu Medina, Slater e Jordy, todos candidatos ao título e em grande forma.
Na semi, caiu diante do campeão numa bateria que rende uma bela discussão entre critérios de julgamento.
Aposto na classificação do Caio pra 2020 sem precisar do WQS.
Florence
Querem saber de uma coisa ?
Os braços esvoaçantes do João são aflitivos, na minha humilde e abusada opinião.
Ross Willians, que também jogava os braços pra cima feita uma líder de torcida, poderia tentar consertar esse flerte que Florence tem com a mediocridade.
Dito isso, as curvas são admiráveis…
Quem diria que Florence viria com tanta força nesse início de ano depois de um ano afastado ?
Alguns sinais são claros.
Aquele John John que ficava alheio às mazelas dum combate não voltou pro circuito.
Esse modelo 2019 está disposto a lutar pelas migalhas, disputar remada, surfar feio, escolher onda merda pra fazer a nota e o escambau.
Resta saber, quando ele começar a falhar, quem estará pronto para investir e lucrar nos erros dele.
Música ambiente japonesa para celebrar a primeira vitória do Kanoa. Nesse 21º episódio do Bóia, tratamos do Corona Bali Protected com todo cuidado que o assunto merece. Nos detemos nos desempenhos dos protagonistas e deixamos uma pergunta no ar, Quando Medina começar a ganhar que vai conseguir parar o trator ? Truques mentais do Careca diabólico, surfe de borda versus surfe de fundo, a força das redes sociais no jogo da WSL e Steph! Steph ocupa o podcast como tambem ocupa os corações apaixonados pela linha pura que a australiana desenha na onda. Tradição e empoderamento feminino numa atrasada pro tubo que nenhum homem foi capaz de fazer. Steph é a nossa Simone de Beauvoir de biquini! Foi, de longe!, a melhor surfista do campeonato. As mulheres nunca estiveram tão bem representadas no Tour.
O leitor já conhece minha admiração bovina pelo Nélson Rodrigues. Uma devoção que escorre pelo canto da boca cada vez que batuco essas teclas e percebo a distancia solar que nos divide - eu e Nelson.
Desafio qualquer um a pegar num livro de crônicas do Reacionário (apelido carinhoso…) e resistir à vontade de sair escrevendo e opinando sobre tudo e todos, como se não houvesse tempo a perder.
A frase que me pegou no predileto da estante (À sombra das chuteiras imortais : crônicas de futebol / Nelson. Rodrigues ; seleção e notas Ruy Castro. — São Paulo : Companhia das. Letras, 1993.) foi tão boba quanto absolutamente atemporal,
O futebol antigo era mais inteligente.
O texto protesta contra a parada do campeonato carioca durante o verão e despeja nostalgia do tempo que o carioca vestia-se (sempre! mesmo no verão) dos pés à cabeça como na Europa.
É divertidíssimo e merece ser lido (leia abaixo).
Na última sexta feira terminou a 3ª etapa do CT da WSL em Keramas, Bali, enquanto Jakarta ardia, graças a (re)eleição do presidente Joko Widodo, derrotando o general Prabowo Subianto pela segunda vez consecutiva.
O general, casado com uma das filhas do falecido ditador Suharto, ficou inconformado com o resultado e seus eleitores (quase 60 milhões!) foram para as ruas protestar, alegando suposta fraude - lembra alguma coisa ?
Se o julgamento da WSL fosse levado até as últimas consequências em Bali, podem apostar que teríamos fogo no palanque, como acontecia no Festival de Ubatuba nos anos 70.
Sorte nossa o surfe não despertar essas vibrações negativas nas pessoas - pelo menos não ao vivo.
O Surfe antigo era mais inteligente
O melhor surfe feito em Keramas foi antigo.
A começar pelo mais bem realizado, falo da Steph.
Quero que Kanoa, Slater, Filipe, Flores, todos eles vão se roçar nas ostras de Uluatu.
Quem surfou o fino foi a Steph…
A nota 10 foi de uma sutileza, tão feminina e delicada quanto bruta, verdadeira contradição do que é o surfe em 2019.
No momento em que se discute o que merece ser julgado como excelente, quando reavaliamos todos tipos de aéreos e colocamos as cartas na mesa para, juntos, (re)descobrir o que vale nota e o que não vale. Nesse momento crucial da evolução do julgamento - e por que não do surfe profissional como um todo ? - vem a Steph e mostra o que já sabemos desde que o surfe é surfe.
Uma onda bem surfada é imbatível.
Mark Richards diz isso já faz mais de uma década, o surfe bem feito sempre vence.
E hoje no Tour quando voce fala de surfe bem feito, com todas suas sutilezas e sofisticações, ninguém se aproxima da Senhorita Gilmore.
Acham que exagero ?
Justo.
Permitam que eu defenda um pouco mais o meu ponto de vista.
Existe o surfe conquistado pelo talento absurdo e uma forma física exuberante como Medina, um verdadeiro atleta.
Toledo traz um tipo de surfe acrobático quase circense ao tour, e isso é fundamental para o esporte seguir em frente como competição.
Temos Slater, representando a longevidade, o eterno desafio entre o velho e o novo.
Posso escolher cada um dos surfistas e novamente tecer loas, um a um.
Mas não.
Ficamos na Steph.
Ela simboliza toda história do surfe em poucos movimentos e sua nota 10 em Keramas foi exatamente isso, a elegância traduzida em tradição.
Nós não vimos um homem durante todo evento atrasar dentro do tubo como Stephanie.
Nenhum.
Se quiséssemos partir para uma analogia estética e histórica, Steph estaria simulando Lopez, MP, Rabbit, Shaun, Curren, Carroll, Slater e Irons, tudo duma vez só - numa única manobra.
Antiga!
Atrasada e tubo.
Pacific Vibrations.
Morning of The Earth.
Performers.
Momentum.
Modern Collective.
A onda da Steph entraria em qualquer um desses filmes.
Outro capítulo interessante da etapa de Bali foi o desempenho do bom velhinho, Kelly Slater - aquele que já estava acabado e deveria sair de fininho, sem chamar atenção.
O Careca optou por um quiver inteiro de Akila Aipa, seu amigo de outros carnavais - 30 e tantos carnavais…
A escolha vai muito alem do que nossos olhos podem ver, a quase perda do amigo Sunny Garcia tem um peso imenso na decisão.
Depois do choque coletivo, terrível realidade do Sunny tentar tirar a própria vida, o abalo foi sentido por todo universo do surfe.
Mas na WSL, precisamente naquela pequena galáxia do surfe profissional, ninguém foi tão próximo do Sunny quanto Kelly.
O efeito é devastador.
E duradouro.
Todas ligações que não fizemos para dizer qualquer bobagem e reforçar o amor e a amizade pelo camarada que lutava contra depressão.
A libertação pode estar numa última vitória para dedicar ao amigo, ou mesmo em cada disputa entre passado x presente x futuro.
Caso da bateria KS X FT.
Afirmo sem medo que a única batalha importante de fato em Bali não foi a dos manifestantes em Jakarta.
Percebam o exagero, Slater contra Toledo foi até agora a única bateria que interessa em 2019.
Novo
Toledo fazia as maiores médias e não só…
Todas ondas que ficariam na memória até a terceira quarta de final eram do Filipe.
Keramas é a onda do Filipe - mais ainda que Trestles ou J. Bay, diria eu.
Para além da velocidade e dinamismo, Toledo busca novos ângulos instintivamente, por puro talento bruto e porque ele simplesmente pode fazer o que ninguém mais faz, como no 8.60 nas oitavas contra Callinan, possivelmente a onda mais mal julgada de todo evento.
Na primeira manobra, Toledo inventa um novo jeito de atacar a onda, rasga embaixo do lipe e volta encoberto pelo próprio leque monstruoso de água com gotas grossas.
Emenda direto num aéreo perfeito, que começa numa cavada clássica, elástica e profunda.
Revejam a onda.
Aquilo era um 9 alto - quiçá um 10!
Colocando em perspectiva o surfe do Toledo em 2019, o que ele faz hoje é mais ou menos a mesma coisa que Slater fazia em 92/93, inovação e reinvenção.
Velho
Bode velho, brincou Ricardinho ao comentar (em português) uma postagem do Kelly Slater no Instagram.
Seus truques não funcionam mais, desafiou o pai do Filipe.
Aparentemente, funcionam sim.
O intervalo entre as oitavas e as quartas roubou parte do embalo que vinha Filipe e permitiu que Slater empurrasse toda responsabilidade da vitória para o brasileiro.
Durante a bateria, Toledo foi sugado para o jogo do Slater, bem observado pelo Potter, uma disputa de tubos. Anulando o que Toledo poderia render melhor e entortando a lógica do jogo.
Como nas partidas de volta das semi finais da Champions.
A glória do esporte é sua imprevisibilidade.
Com 47 anos de idade, Slater é a encarnação do improvável e, por que não ? Do impossível.
O coroa ocupa a 9ª colocação no ranking da WSL, na frente do atual campeão mundial, Gabriel Medina.
Ouro
Ano passado alguém apostou em Kanoa Igarashi para a disputa do título mundial no ano que precede a Olimpíada no Japão.
Fazia, e ainda faz, todo sentido.
A Asia é o grande mercado para o crescimento da WSL como marca no futuro próximo e Japão tem um histórico longo de fidelidade com o surfe profissional.
Sem apostar em conspirações, é perfeitamente aceitável que um surfista mezzo Japa e mezzo Norte-Americano, fluente em 5 idiomas, treinado por um australiano, patrocinado por um gigante do mercado de bebidas energéticas austríaco e por mais meia dúzia de empresas multinacionais, todas entre os líderes de mercado de cada segmento (Quiksilver, Red Bull, Oakley, Audi, Sharp Eye, Visa, Kinoshita Group and Dior).
Seu perfil na pagina da WSL nos informa que Kanoa tem uma equipe da TV japonesa o acompanhando no circuito e ele está ganhando fama na China, Taiwan e Coréia.
Dito isso, achei que ele perdia pro Kelly na semi e pro Jeremias na final.
Antiguidade é posto
Peço que me perdoem por não ter escrito sobre Bells, o horário infame bagunça não apenas os dias do campeonato como também acumula tarefas para os seguintes.
Em Bells ficou uma pergunta no ar que ainda permanece,
Quando Medina vai começar a vencer e quem será capaz de para-lo ?
A volta do john Florence já começou a mexer com a rotina dos brasileiros no topo do pódio.
Esqueçam a narrativa óbvia dos supostos desejos da WSL (como eu mesmo faço acima!) e concentrem nas vagas olímpicas.
Medina e Slater fora.
Já imaginaram ?
Entre os top 10 apenas um australiano, em 10º!
Temos muito o que conversar durante esse ano.
ENCOURAÇADO DE SOL
Nelson Rodrigues
Amigos, ao contrário do que se pensa, o Brasil nem sempre foi um país tropical. No tempo de Machado de Assis, ou de Epitácio Pessoa, ou de Paulo de Frontin, o sujeito andava de fraque, colete, colarinho duro, polainas, o diabo. As santas e abomináveis senhoras da época se cobriam até o pescoço. Em suma: — o brasileiro vestia- se como se isto aqui fosse a Sibéria, o Alasca, sei lá.
Hoje não. Procura-se um fraque e não se encontra um fraque. Os mais vestidos andam seminus. No passado, o sujeito que entrasse sem gravata num bonde — era de lá expulso a patadas. E, agora, anda-se de biquíni nos lotações. Um sol hediondo vai derretendo as catedrais e amolecendo os obeliscos. Não há dúvida: — somos finalmente tropicais.
Olhem as nossas praias. A nudez jorra aos borbotões. Em 1905, o turista que visse Machado de Assis havia de anotar no caderninho: — “Este é o povo mais vestido do mundo!”. Em nossos dias, o mesmo turista havia de escrever inversamente: — “Este é o mais despido dos povos!”. Pois bem. E, no entanto, vejam vocês: — ocorre aqui uma reação curiosíssima.
Sim, diante do calor, o brasileiro esperneia e pragueja. O que fazem com o futebol chega a ser burlesco. Em pleno verão, suspendem os clássicos e as peladas. O Maracanã cerra as suas portas. Todas as botinadas são proibidas. E ninguém percebe o absurdo. O justo, o lógico, o adequado é que um craque tropical,
como o nosso, jogue no verão e descanse no inverno.
Não me venham com o argumento de higiene. Para um tropical,
a higiene é um sol homicida. E se reclamamos, se esbravejamos, se
uivamos contra o sol, cabe uma dúvida honesta. É possível que sejamos tropicais por engano. E, nesse caso, certo estaria Machado de Assis ao pôr fraque e galochas, assim desafiando o hediondo sol do meio-dia.
O futebol antigo era mais inteligente. O jogador entrava em campo e os jogos caniculares tinham mais élan, mais saúde, mais euforia. Por exemplo: — em 1910, ano em que o Botafogo foi campeão. Naquele tempo, o Brasil era tropical sem o saber. Lembro que um craque alvinegro, famosíssimo, jogava com uma vasta toalha felpuda enrolada no pescoço. Quarenta graus à sombra e ele varava o campo como um centauro de cobertor.
E nunca houve, no velho futebol, nenhuma insolação. Pelo contrário: — o craque tinha uma resistência de hipopótamo. Na célebre gripe espanhola morreu todo mundo. A mortandade foi pior do que a da primeira batalha do Marne. Mas como eu ia dizendo: — uns morriam e outros eram enterrados. E, quando o sujeito relutava em morrer, era liquidado a pauladas como uma ratazana. Muito bem: — só os jogadores de futebol sobreviveram.
Não havia Departamento Médico nos clubes. Mas o sol potencializava o jogador e o protegia contra o tifo, a malária e a peste bubônica. Sim, bons tempos em que o Brasil não era ainda tropical ou por outra: — não sabia que o era! O craque usava bigodões imensos, carapuça e mais: — seus calções escorriam até as canelas. Lindo, lindo. E assim, encouraçado de sol, abarrotado de calor, o craque ou o perna-de-pau eram uma bastilha deslumbrante de saúde.
Bruno Coutinho fazendo o que sabe... Teoria e prática!
No vigésimo episódio do Podcast Bóia, Bruno Coutinho está de volta para nos ajudar a compreender melhor a fabulosa onda do Rancho do Tio Kelly e tambem o quanto pode (ou deve...) doer uma WSL no bolso do Dirk Ziff. João Valente e Julio Adler aproveitam a companhia para analisar e especular a etapa de Bali antes das quartas e apostam tudo na bateria que pode (ou não) mudar os rumos do surfe profissional em 2019 - Slater x Toledo. Será um massacre ou redenção ? E se não der em nada... Nesse caso, mudamos de assunto, para o elo entre a volta dos Los Hermanos e o Homem do Leme dos Xutos com Camané. A afirmação lançada por J.P. Currie no Beachgrit, Medina é o melhor e mais talentoso surfista do mundo, é debatida exaustivamente, com conclusões sem pressa. Falamos de Steve Pezman, o homem por trás do The Surfers Journal. Onde mais voce acha, em 90 minutos, Slater, Toledo, Pezman, Medina, Camelo, Camané, Amarante e Armandinho da Cor do Som num mesmo podcast ? Bóia 20 no ar!