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segunda-feira, março 23, 2015

Janela

[Texto recuperado do HD de 2002, quando ainda colaborava com o então tímido site waves - ainda lá está, no mesmo lugar.
Revisitar velhos escritos dá um misto de orgulho e vergonha simultaneamente.
Orgulho de enxergar determinadas coisas antes e vergonha de usar tantas conjunções e recursos baratos de linguagem que hoje evito com todas forças.
Me admiro da incrível coincidência de encontrar Galeano mais uma vez num texto escrito 12 anos antes desse último publicado aqui no Goibada.]




Tenho a incômoda capacidade de enxergar surfe em tudo quanto é canto.
Na entrevista do escritor uruguaio Eduardo Galeano no jornal O Globo de Domingo, 21/07/2002, reparei numa frase que cai tão bem na nossa cultura surfe que inspirou esse texto.


O que alguns bobos acham que é defeito acaba sendo a nossa maior virtude.

Primeiro me veio à cabeça o Peterson, talvez o surfista mais incompreendido do circuito WCT, de uma campanha avassaladora, só pra usar um termo muito em moda, ignorando Slaters e Fannings afora, de costas e de frente, Backside e frontside pros mais maldosos.

Logo em seguida, não sei porque diabos, acometeu-me um vídeo novo chamado Momentum - under the influence, espécie de versão atualiazada do primeiro Momentum, onde as estrelas tem todas menos de 23 anos e, supostamente, os melhores do mundo.

No que resta de minha memória, 
comprei o Momentum no Havaí, em 92, quem recomendou foi o Sérgio Noronha, que assistia 200 vezes a fita por dia.
O impacto foi grande, todo mundo conhece e ninguem mais aguenta tanta gente lembrando do Slater, Machado, Dorian, Kalani, Knox embalados pelo sonzinho bacana e pra cima do Bad Religion, Nofx, Pennywise e Gangrena Gazosa, opa!, brincadeira...

Uns 30 anos depois, lançaram até aqui no Brasil, sem direito ao secret-video, umas das sequências mais legais do VHS, mas voltemos a 2002....

A versão 3.0 do ganso de ovos de ouro do Taylor Steele, sob a influência, não nos revela sequer um brasileirinho.

Nem umzinho...




Admirador dos vídeos da rapaziada que tem no emblema o nome Poor specimen, não tenho dificuldade nenhuma em elogiar todos 23 títulos da Família Steele.

Não o faço por impaciência.

Reconheço, entretanto, que não deve haver qualquer preconceito nem desprezo da parte dos produtores para cima dos meus conterrâneos - nem poderia - taí a prova no premiado filme de Skate, Hallowed Ground, encomendado pela mais nova gigante da Surfwear, recém comprada pela Nike pela bagatela especulada de 140.000.000 milhões de Verdinhas, sim senhores, a Hurley, filhote de Bob Hurley, ex representante da Billabong nos E.U.A.

O Brasil, e os brasileiros, são destaque no Hallowed Ground, filmado em 16 mm, com direito a incursões na trilha e tudo - talvez porque fica difícil ignorar os títulos do Bob Burnquist, patrocinado da Hurley/Nike e cia Ltda.

Mas os carrinhos não são, nem de longe, assunto de meu interesse, portanto voltemos ao surfe.

Concluindo então que não há preconceito, existe até (pasmem!) admiração, como explicar a ausência absoluta de surfistas de passaporte verde entre os melhores do mundo com menos de 23 anos, segundo Taylor Steele ?

De cabeça, sem coçar muito a careca, Trekinho, Raoni, Pedro Henrique, Pigmeu, Léo Neves, Mineirinho, Marco Polo...

A lista é maior, tão grande quanto a injustiça.

Devo substituir os gringos palhinha por qualquer um da lista acima ?

Fica o Taj, Bruce e Andy, Dean, C.J e Damien, Rasta, Fanning e Joel.

O resto roda.

Sobra então pro Rafael Mellin, solitário guerrilheiro/video-maker, a árdua e agradável tarefa de revelar ao mundo, começando pelo Brasil, o talento não reconhecido (por enquanto!) dessa gente bronzeada tentando mostrar seu valor.

Que venha o Lombrô 3, pra saciar a sede de sangue novo.



PS - Voce, meu caro leitor, vai comprar ou copiar o vídeo quando assistir na casa do amigo ? e por que ?

sábado, março 21, 2015

Viagem pra dentro

[Texto resgatado de 2014]
Na legenda original da Surfer, O Templo do Entusiasmo - Foto do Pai de todos, Ron Stoner




Pilantragem suprema é citar textos longos.
Sempre andei acompanhado do Galeano, Eduardo Galeano, escritor uruguaio que escreve com sangue, suor e lagrimas.
Galeano gosta de contar histórias da America Latina, dos povos esquecidos, contos, fábulas, mitos e adora falar dos becos e esquinas que pouca gente vai se dar ao trabalho de conhecer.

Sua trilogia, Memória do fogo, foi premiada pelo Ministério da Cultura do Uruguai e recebeu o American Book Award (Washington University, EUA) em 1989, mas isso não tem a menor importância.
O que ele escreve, e principalmente o jeito dele escrever, é o que importa.
Numa edição especial de viagens - justamente numa época onde a aventura transformou-se num pacote simpático, suavemente parcelado em 12 vezes sem juros - não poderia faltar a leitura do Galeano para um tempo de mudanças.

Extraído do livro De Pernas Pro Ar – A Escola do Mundo ao Avesso (Editora LP&M, Brasil, 1999), o trecho a seguir carrega mais de uma mensagem.
Ele nos ensina, ou melhor, relembra uma coisa que já ouvimos antes, de maneiras diferentes, a verdade está na viagem, não no porto.
A viagem começa quando voce decide.

Lembra de quando toda onda era assim ? Foto - Ron Stoner

Me solidarizo com o leitor que viaja sem sair do lugar.
Nem todo mundo tem uma pequena fortuna para gastar em passagem e hospedagem num barco luxuoso do outro lado do mundo.
Pra ser mais específico, nem todo mundo tem sequer a graninha que é preciso para ir até o norte do Peru para pegar onda.
Pipa ? Saquarema ? Maresias ? Noronha ?
Quem disse que faz falta ?

Essa revista que voce tem nas mãos ajuda a vender esses sonhos.
A TV martela ondas azuis e perfeitas como se fosse a tarefa mais simples da face da terra entrar num avião e aterrissar numa ilha paradisíaca.
Pra muita gente é mais fácil desprezar a própria praia do que aprender, ou re-aprender a gostar dela.
Esquecem-se que essa mesma praia que hoje desdenham foi aquela que os ensinou a amar o mar.
Foi nessa mesma água suja e ondas ruins que voce ficou em pé pela primeira vez na prancha e nunca mais quis saber de outra coisa.
Toda memória que temos das nossas praias não podem ser apagadas pela fantasia da onda perfeita.
Afinal de contas, nossa referência de onda perfeita foi estabelecida exatamente naquele dia mágico da nossa infância.
Aconteceu com voce em 1987, com seu amigo mais velho em 1975, com o Greg Noll em 1949 e com Medina em 2001.
E acontece todos dias, igualzinho, com as mesmas sensações e os mesmos cheiros e texturas.
Galeano escreve sobre isso.



A natureza se realiza em movimento e também nós, seus filhos, que somos o que somos e ao mesmo tempo somos o que fazemos para mudar o que somos. 
Como dizia Paulo Freire, o educador que morreu aprendendo: “Somos andando”. 
A verdade está na viagem, não no porto. 
Não há mais verdade do que a busca da verdade. 
Estamos condenados ao crime? 
Bem sabemos que nós bichos humanos andamos muito dedicados a devorar o próximo e a devastar o planeta, mas também sabemos que não estaríamos aqui se nossos remotos avós do paleolítico não tivessem sabido adaptar-se à natureza, da qual faziam parte, e não tivessem sido capazes de compartilhar o que colhiam e caçavam. 
Viva onde viva, viva como viva, viva quando viva, cada pessoa contém muitas pessoas possíveis e é o sistema de poder, que nada tem de eterno, que a cada dia convida para entrar em cena nossos habitantes mais safados, enquanto impede que os outros cresçam e os proíbe de aparecer. 
Embora estejamos malfeitos, ainda não estamos terminados; e é a aventura de mudar e de mudarmos que faz com que valha a pena esta piscadela que somos na história do universo, este fugaz calorzinho entre dois gelos.

Eduardo Galeano,

De Pernas Pro Ar – A Escola do Mundo ao Avesso (Editora LP&M, Brasil, 1999)

sexta-feira, dezembro 05, 2014

Viagem pra dentro

A espera...


          Pilantragem suprema é citar textos longos.
Sempre andei acompanhado do Galeano, Eduardo Galeano, escritor uruguaio que escreve com sangue, suor e lagrimas.
Galeano gosta de contar histórias da America Latina, dos povos esquecidos, contos, fábulas, mitos e adora falar dos becos e esquinas que pouca gente vai se dar ao trabalho de conhecer.

Sua trilogia, Memória do fogo, foi premiada pelo Ministério da Cultura do Uruguai e recebeu o American Book Award (Washington University, EUA) em 1989, mas isso não tem a menor importância.
O que ele escreve, e principalmente o jeito dele escrever, é o que importa.
Numa edição especial de viagens - justamente numa época onde a aventura transformou-se num pacote simpático, suavemente parcelado em 12 vezes sem juros - não poderia faltar a leitura do Galeano para um tempo de mudanças.

Extraído do livro De Pernas Pro Ar – A Escola do Mundo ao Avesso (Editora LP&M, Brasil, 1999), o trecho a seguir carrega mais de uma mensagem.
Ele nos ensina, ou melhor, relembra uma coisa que já ouvimos antes, de maneiras diferentes, a verdade está na viagem, não no porto.
A viagem começa quando voce decide.
Me solidarizo com o leitor que viaja sem sair do lugar.
Nem todo mundo tem uma pequena fortuna para gastar em passagem e hospedagem num barco luxuoso do outro lado do mundo.
Pra ser mais específico, nem todo mundo tem sequer a grainha que é preciso para ir até o norte do Peru para pegar onda.
Pipa ? Saquarema ? Maresias ? Noronha ?
Quem disse que faz falta ?

Essa revista que voce tem nas mãos ajuda a vender esses sonhos.
A TV martela ondas azuis e perfeitas como se fosse a tarefa mais simples da face da terra entrar num avião e aterrissar numa ilha paradisíaca.
Pra muita gente é mais fácil desprezar a própria praia do que aprender, ou re-aprender a gostar dela.
Esquecem-se que essa mesma praia que hoje desdenham foi aquela que os ensinou a amar o mar.
Foi nessa mesma água suja e ondas ruins que voce ficou em pé pela primeira vez na prancha e nunca mais quis saber de outra coisa.
Toda memória que temos das nossas praias não podem ser apagadas pela fantasia da onda perfeita.
Afinal de contas, nossa referência de onda perfeita foi estabelecida exatamente naquele dia mágico da nossa infância.
Aconteceu com voce em 1987, com seu amigo mais velho em 1975, com o Greg Noll em 1949 e com Medina em 2001.
E acontece todos dias, igualzinho, com as mesmas sensações e os mesmos cheiros e texturas.
Galeano escreve sobre isso.


A natureza se realiza em movimento e também nós, seus filhos, que somos o que somos e ao mesmo tempo somos o que fazemos para mudar o que somos. 
Como dizia Paulo Freire, o educador que morreu aprendendo: “Somos andando”. 
A verdade está na viagem, não no porto. 
Não há mais verdade do que a busca da verdade. 
Estamos condenados ao crime? 
Bem sabemos que nós bichos humanos andamos muito dedicados a devorar o próximo e a devastar o planeta, mas também sabemos que não estaríamos aqui se nossos remotos avós do paleolítico não tivessem sabido adaptar-se à natureza, da qual faziam parte, e não tivessem sido capazes de compartilhar o que colhiam e caçavam. 
Viva onde viva, viva como viva, viva quando viva, cada pessoa contém muitas pessoas possíveis e é o sistema de poder, que nada tem de eterno, que a cada dia convida para entrar em cena nossos habitantes mais safados, enquanto impede que os outros cresçam e os proíbe de aparecer. 
Embora estejamos malfeitos, ainda não estamos terminados; e é a aventura de mudar e de mudarmos que faz com que valha a pena esta piscadela que somos na história do universo, este fugaz calorzinho entre dois gelos.

Eduardo Galeano,

De Pernas Pro Ar – A Escola do Mundo ao Avesso (Editora LP&M, Brasil, 1999)

sexta-feira, setembro 03, 2004

O Olhar do Galeano



[Texto da série Maladragem é o seguinte, publicado no camerasurf.com, 2000]


Elogios...
Zé das candongas! Acordei hoje com uma vontade de sorrir imensa. O motivo desse sorriso frouxo, logo cedo, era o livro do uruguaio Eduardo Galeano (1940, Montevidéu, Uruguai) De pernas pro ar (L&PM, 1999). Não que o livro nos dê muitos motivos pra sair por aí rindo feito bobo.
Muito pelo contrário.
Um bom livro sempre inspira a leitura de outros, então fui na prateleira buscar o Livro dos abraços (L&PM, 1989) do mesmo autor, pra iluminar a cachola.
Na quarta capa, o motivo do fascínio que tenho pelo homem desde algum tempo quando, em Cabo-frio na casa de um amigo do peito, dei com os olhos no conto que reproduzo agora em homenagem a meia-dúzia de três ou quatro leitores que perdem precioso tempo lendo minhas mal traçadas.

A Função da arte/1

Diego não conhecia o mar. 
O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar.
Viajaram para o sul.
Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.

Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.

   E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:
- Me ajuda a olhar!

Poucas vezes tive a oportunidade de ler algo tão próximo da experiência do surfe em nossas vidas.
O menino somos todos nós, surfistas, com nossa infância eternizada no olhar daquele moleque.
Galeano escreve na revista Bundas, eventualmente, e tem um belo editorial nas bancas com Caros amigos extraído do já citado De pernas pro ar.
A arte... é um elogio pra essa rapaziada.
Valeu Zé !
aquele abrazzo.
Julio

P.S.
Essa coluna deve ser lida com lentidão, acompanhada de uma música leve (pode ser Taj Mahal, Astrud Gilberto ou Air...), de preferência deitado numa rede - mas vai ter que imprimir...