Mostrando postagens com marcador Surf Portugal. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Surf Portugal. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, novembro 23, 2015

Tudo Azul



A revista Surfer de Junho desse ano - que saiu em abril- traz uma matéria sobre o livro Blue Mind, (Editora Little, Brown and Company; EUA - Julho 2014) do biólogo americano Wallace J. Nichols.

A teoria de Nichols é que a água nos oferece o maior atalho para a felicidade.

Simples assim.

Depois de pesquisar durante anos a relação do homem com a água, junto de psicólogos, neurocientistas, surfistas, mergulhadores e toda sorte de gente que luta pela conservação da natureza, Nichols chegou a uma série de conclusões que acabou por virar um dos livros mais emblemáticos dos lista dos mais vendidos do New York Times.

Blue Mind começa por mostrar que todos nós somos gerados e já nascemos cercados de água, com o tempo somos obrigados a aprender a viver longe dela - ou sem ela em volta.

Vamos secando - para usar uma metáfora bem adequada.

De certa maneira, diz o livro, passamos boa parte da vida tentando voltar para aquela sensação boa que nos remete as primeiras memórias de ser (estar) vivo.

Os estudos de Nichols testam as reações do cérebro em diferentes ambientes aquáticos.

Se levarmos em consideração que tanto nosso corpo quanto o planeta Terra é composto por mais de 70 % de água, não é assim tão difícil imaginar o poder de cura, ou apenas bem estar, que o mar possui.
Isso sem contar que os oceanos são responsáveis por metade do oxigênio da nossa atmosfera.

Citando dois psicólogos ambientais, Stephen e Rachel Kaplan, ele menciona dois estados diferentes de atenção: dirigido e involuntário
O primeiro representa o nosso estado de alerta quando aplicado a uma tarefa ou decisão- dirigir um carro, enviar um email, ou escolher qual prancha usar. 

O outro, ocorre quando estamos num ambiente distante do nosso habitat normal, da nossa rotina, ainda assim com alguma familiaridade para não oferecer ameaça e manter nossa cuca fresca e engajada - numa tradução livre.
É um estado de deriva (um termo náutico, como observa Nichols), podemos também chamar de contemplativo, que a água causa.

Nós todos sentimos isso.
Olhando para o mar, como um dos hipnotizados pelo oceano dos livros de Melville
tudo parece estático, ao mesmo tempo mudando sutilmente - um veleiro, uma gaivota, a maré esvaziando.

Essa é a atenção involuntária, que nós surfistas, assim como mergulhadores e pescadores, nos submetemos quase todos os dias e que, segundo o livro, nos coloca nesse estado que ele chama de Blue Mind.

Você nem precisa estar de frente pro mar.
Pode acontecer numa floresta, ouvindo música no metrô, mesmo em plena aula de matemática, olhando a fotografia duma onda de sonho…

Os estudos apontam para uma série de reações químicas que emprestam ao cérebro sensações que normalmente, principalmente nos dias de hoje, são alcançadas somente com ajuda de drogas.

Parece papo de maluco- e é.

As pesquisas realizadas mostram que quando estamos próximos da água produzimos uma galáxia de neuro-químicos que nos fazem sentir bem, como dopamina (prazer e inovação), serotonina (bem estar e paz), endorfina (euforia e ausência de dor), oxitocina (amor e união), Gaba (Ácido gama-aminobutírico = serenidade) e até mesmo os endocanabinóides, nossa própria capacidade de criar algo semelhante ao princípio ativo da maconha, reduzindo a ansiedade.

Tudo isso acontece dentro da sua cachola, acredite.

O livro apresenta exemplos de casos perdidos, como um veterano da guerra do Golfo, Bobby Lane.
Lane voltou completamente perdido, desajustado, sofreu traumas sérios na cabeça, não conseguia falar direito, sofria de trauma pós guerra, viciado na super medicação que recebia, resolveu cometer suicídio.
Tentou a morte por policiais, quando um ex combatente faz algo para provocar um oficial até ser alvejado, porque como um guerreiro, ele mesmo não teria coragem de tirar sua vida.
Bobby acabou fazendo uma aula de surfe numa organização chamada Operation Surf, em Santa Cruz, na Califórnia.
Tres tentativas e ele estava surfando. Meses depois, o veterano recuperou a alegria de viver, descreve Nichols.

Junior Faria procurando azul em preto e branco - Por Jair Bortoleto


Acreditando ou não nas teorias de Nichols, a mensagem é poderosa,

A água é tanto amante quanto mãe, assassino e doador de vida, fonte e dreno... 
Água desencadeia a criança desinibida em todos nós, destravando a nossa criatividade e curiosidade. 
Intuímos os sentimentos uns dos outros, antes mesmo da nossa mente consciente ter tido tempo para processá-los: 
empatia é fundamental aqui. 
Se a água nos permite libertar o nosso eu interior, então ele poderia ser o antídoto para as telas que nos mantêm acordados, ansiosos e espasmódicos.
Em um mundo superaquecido e desidratado, voce precisa de água e a água precisa de você.

A coisa vai adiante,

Na nossa mentalidade ocidental, nós super valorizamos tanto a ciencia que a ideia de ficar sentado, imóvel, na esperança de transcender parece comica e seus praticantes são motivo de chacota.

Água, conclui Nichols, Medita voce!

Gosto de imaginar o dia em que seremos todos esse senhor de chapéu, apontando para as memórias nem tão distantes, inventando histórias tentando ainda impressionar a escolhida, passados mais de 40 anos ao seu lado... - Foto do Jair Bortoleto

segunda-feira, maio 04, 2015

Molecagem

[Texto de 26.11.2014]

Quem é o Vira-lata ?


          Estamos em dezembro de 2014, um ano difícil para a grande maioria dos leitores dessa revista.

Perdemos uma Copa do mundo em casa.

Uma Copa ganha antecipadamente várias vezes pelos gênios do futebol.

Tivemos uma eleição apertada e disputada como um clássico do brasileirão.

O discurso raivoso aflorou de tudo quanto era buraco.

Sujeito caminhava tranquilo pela rua e de repente saía um iradinho da primeira esquina.

O surfista tinha uma fuga, Medina liderou o circuito mundial de ponta a ponta, exceto por um percalço chamado Travis Logie, justo no Rio de janeiro.

Quando esse texto chegar até você, é possível que já tenhamos um campeão mundial.

O tricolor Nelson Rodrigues enxergava de olhos fechados


Caso contrário, nosso afamado complexo de vira-latas, tão alardeado por Nelson Rodrigues, virá a tona uma vez vez mais.

Da mesma maneira que colocaram a culpa do vexame diante da seleção alemã no fato jogador ter nascido no Brasil, ou da política brasileira ser do jeito que é porque, afinal, somos todos brasileiros - a desculpa de não termos um título é a uma sina, uma marca.

Invertemos o mérito e o transformamos em vergonha.
Faz tempo que é assim.

Quando ainda não tínhamos títulos no futebol, o cronista Nelson Rodrigues destrinchava nosso complexo de inferioridade.

Era exatamente como hoje.

Tudo que vinha de fora era bom - bom não, melhor.

Toda e qualquer coisa que não fosse feita no Brasil era melhor.

Homens e produtos estrangeiros eram superiores.

Quantas pessoas voce conhece hoje, dezembro de 2014, que ainda pensam dessa mesma forma ?

Quase 60 anos depois de criada a expressão complexo de vira-latas…

Um título do Medina não será suficiente para aplacar a vergonha que se esconde atrás de cada assustado que sonha com um passaporte seja qual for, contanto que não traga Brasileiro na primeira página.

Os aviltados gritarão bem alto, Tambem, olha esse povo que nos deram… Brasileiro aceita tudo.

Chile, 1962, sem legenda


Recorro então ao texto que Nelson Rodrigues escreveu quando ganhamos não o primeiro título mundial, na Copa de 1958, mas o segundo, na Copa do Chile em 1962.

Quando triunfamos em 58 decretou o fim da nossa permanente sensação de subalterno, passados apenas 4 anos essa irresistível força bovina que nos arremessa pra baixo da mesa voltava com a força dos aflitos.

Até mesmo os próprios europeus, à semelhança dos australianos e americanos do mundinho do surfe, já acreditavam na nossa condição secundária.

Percebam como é parecido o momento do surfe em 2014 e o futebol em 1962.

Mesmo como Fabinho Gouveia, Victor Ribas, Teco, Neco, Burle, Resende, Maya, Phil, mesmo com Yago e Lucas Silveira ainda tem gente que aponta com um rasgo de embaraço, Coitados, são brasileiros…

O descaso não é deles, é nosso.

Nelson Rodrigues reconhecia um pessimista pelo cheiro, foi pra eles que publicou na revista Fatos & Fotos em 1962 esse texto reproduzido abaixo.

[Após quatro anos de meditação sobre o nosso futebol, o europeu desembarca no Chile. 
Vinha certo, certo, da vitória. 
Havia, porém, em todos os seus cálculos, um equívoco pequenino e fatal. 
De fato, ele viria a apurar que o forte do Brasil não é tanto o futebol, mas o homem. 
Jogado por outro homem o mesmíssimo futebol, seria o desastre. Eis o patético da questão: — a Europa podia imitar o nosso jogo e nunca a nossa qualidade humana. 
Jamais, em toda a experiência do Chile, o tcheco ou o inglês entendeu os nossos patrícios. 
Para nos vencer, o alemão ou o suíço teria de passar várias encarnações aqui. 
Teria que nascer em Vila Isabel, ou Vaz Lobo. 
Precisaria ser camelô no largo da Carioca. 
Precisaria de toda uma vivência de botecos, de gafieira, de cachaça, de malandragem geral.
Aí está: — no Velho Mundo os sujeitos se parecem, como soldadinhos de chumbo. 
A dessemelhança que possa existir de um tcheco para um belga, ou um suíço, é de feitio do terno ou do nariz. Mas o brasileiro não se parece com ninguém, nem com os sul-americanos. 
Repito: o brasileiro é uma nova experiência humana. 
O homem do Brasil entra na história com um elemento inédito, revolucionário e criador: a molecagem.]

A molecagem não é o jeitinho brasileiro de não fazer as coisas, pelo contrário, é o jeito de fazer as coisas.
Nutro um certo desprezo pelos deslumbrados com o que vem de fora.
Pra ficar somente no futebol, vou abusar do recurso de citar e, golpe baixo, encerro com Carlos Drummond de Andrade.

O difícil, o extraordinário, não é fazer mil gols, como Pelé. É fazer um gol como Pelé.

Quero crer que difícil não é fazer o que Medina fez nesse ano, mas fazer do jeito que Gabriel fez…

Todo grande texto nasce desses momentos de silencio e solidão





quinta-feira, abril 23, 2015

Nova Era


As oito horas de surfe mais eletrizantes que já houve



Praia de Pipeline, 13:33 do dia 19.12.2014

Charles Medina olha fixo pro mar

Em volta dele, todos gritam é campeão, se mexem sem saber onde colocar os braços, chamam seu nome sem parar, surgem câmeras de todos lados, a confusão é total e Charlão (como os mais próximos carinhosamente o chamam) olha fixo pro mar.

Falta menos de 40 segundos pra terminar a bateria entre Mick Fanning e Alejo Muniz, a chance do australiano virar é inexistente, mas Charles olha fixo pro mar.
Ele já viu muitas baterias resolvidas nos 30 segundos finais e não quer correr esse risco.
O jogo só termina quando o juiz apita.
Com essa derrota do Fanning, Gabriel é campeão mundial, encerra-se a corrida, o drama chega ao fim.
Deus sabe o que passa na cabeça do camarada que viveu a disputa tão intensamente como ele.
De repente, junto com a contagem regressiva, Charles corre alucinadamente pro mar e mergulha de roupa e tudo.
Todo mundo em casa ou na praia também tem vontade de sair correndo enlouquecidamente.

Esse momento traduz a vontade que temos de simbolicamente abraçar Pipeline, a praia que nos deu o primeiro campeão mundial brasileiro.
Debaixo d’água é tudo silencioso, Charles precisa desse segundo de silencio.
Dizem que a água do mar lava tudo.
Lava as nossas mágoas, nossas dores, nossas tristezas.
A água do mar purifica.
Esse mergulho diz tanto sobre o título do Medina…
Foram 11 etapas, algumas vitórias, algumas derrotas, lágrimas de felicidade, poucas de decepção, é necessario mergulhar fundo.
Quando Charlão ressurge, já tem os dois braços apontados pro céu. O rosto sempre tão sisudo, sorri um sorriso largo.
O menino ganhou é hora de ir abraça-lo.

Uma breve historia do tempo

A ASP tinha tarefa ingrata, apenas dois dias para terminar o Pipe Masters, ondulação enfraquecendo, um título mundial para ser decidido e 27 baterias ainda por fazer.

Kieren Perrow, comissário e homem responsável pelas decisões mais importantes da entidade (ASP) durante o ano resolve realizar tudo em dia só.

No Havaí não é permitido campeonatos de surfe depois das 16:00 horas, tampouco começar antes das 8 da manhã.

Perrow faz as contas para encaixar 27 baterias em 8 horas.

Nunca aconteceu na história da ASP um dia como esse que vai se revelar.

Baterias simultâneas, redução do tempo, alteração das regras, sem a possibilidade de recomeçar - sem descanso.

Foram 10 dias de uma espera melancólica por ondas decentes.
Uma triagem com ondas boas, um primeiro dia digno da história do Pipe Masters e uma segunda fase atirada ao mar em condições adversas.

Era chegado o dia final.

Havia mais matematica envolvida.

Gabriel Medina seria campeão mundial se chegasse até a final, isso era claro.
Slater tinha alguma chance, voces sabem, mínima.
Fanning fungava no cangote.

O grande temor da torcida brasileira era o backdoor, supostamente ferramenta de vantagem dos adversários do Medina e nosso (dele) calcanhar de Aquiles.

Pois o dia 19 amanheceu com ondas melhores justamente para o Backdoor.
Problema nosso.



Voce já segue o Alejo ?

A última etapa do ano tem várias camadas diferentes.

O foco principal é na corrida ao título entre 3 surfistas, os outros 33 tem preocupações diferentes.
Alguns estão ali atrás de sobrevivência, motivos de sobra para atrapalhar qualquer um dos candidatos.

Vejam Alejo Muniz, 24 anos, décimo do ranking em 2011, prestes a se despedir do WCT/WSL 2015 depois de uma temporada negra, sem passar uma única vez pela  terceira fase, precisando ganhar o Pipe Masters para alcançar a qualificação.

Alejo sabia que sendo um dos surfistas com menos pontos enfrentaria os primeiros do ranking e poderia eventualmente ajudar seu amigo Gabriel Medina na luta pelo caneco.

Eis que os sonhos tornam-se realidade e, na terceira fase, Alejo enfrenta o invencível Slater em Pipe, especialidade do Careca.

Sabe quantas vezes o Slater já perdeu assim tão cedo em Pipe ?
Uma vez, em 1997, para o Johnny Boy Gomes - uma única e solitária vez, para um especialista em Pipeline.

Alejo, sem saber que era impossível, foi lá ganhou do Kelly Slater do jeito que gostamos, no ultimo minuto, tubaço no Backdoor.
Menos um na disputa com Medina.

Como nada tem dado muito certo pro Alejo nas competições em 2014, na quarta fase ele fez o total de 1.27 e foi pra repescagem…
O destino, esse velho sacana e sem cueca, colocou logo quem na repescagem junto do Alejo ?
Mick Fanning, último obstáculo entre Medina e a nossa Copa do Mundo do surfe.

Vejam como são as coisas, a sorte anda mesmo ao lado dos campeões.

Contra Alejo, Fanning foi incapaz de fazer uma nota superior a 2 (1.27 + 1.57 = 2.84)!
Na bateria seguinte, quartas de final, Alejo seria eliminado por Ace Buchan e daria adeus ao WCT (por enquanto) mas seria o personagem mais importante depois do Medina e Julian Wilson nesse dia inesquecível.

Siga o Alejo. 

Pausa para ouvir Julian Wilson

Digam o que quiser, temos que respeitar esse cara.

Antes do Pipe Masters, Julian não tinha chegado alem da terceira fase em nenhum campeonato nessa temporada, exceto por Bells Beach e precisava de um milagre para se classificar pelo ranking do WCT (já estava garantido pelo WQS).

Outro milagre o coroaria com o mais cobiçado título depois do mundial, o Triple Crown.
Depois de competir 6 vezes no mesmo dia e ficar na água por 3 baterias seguidas, Julian ganhou o Pipe Masters - há controvérsias…

Penso que devemos ouvi-lo.

Acho que eu estava realmente determinado a terminar o ano com uma campanha decente. Na minha primeira bateria fiz uma soma total de 1,5, na segunda fiz três ou quatro pontos, na quarta consegui seis nas minhas duas ondas, era uma evolução constante e eu continuei persistindo. 
É frustrante fazer notas baixas. 
Você passa a bateria, que é ótimo, mas é difícil de conquistar a auto confiança quando você não faz uma boa apresentação. Então finalmente achei uma onda boa na quinta fase e comecei a me divertir.
Gabriel tinha tido um dia incrível e estávamos os dois sentados lá fora, curtindo. Não houve disputa, sem nada. Ele preferia as esquerdas, de repente ele teve pegou aquela onda pro Backdoor e fez um 10. Foi quando essa última serie veio. Podíamos ver que era tinha um ângulo incrível. A segunda era maior e Gabe tinha prioridade. Ele disse: 'Eu quero a segunda ", por isso, fui na direita e ele pegou a maior pra esquerda, e foi incrível.

Abusado

Diante do desafio de enfrentar Dusty Payne na terceira fase, debaixo de uma pressão que dobraria o mais experiente dos competidores, Medina esperou pela onda da série e fez o de sempre - dominou.
A ameaça da derrota tem rondado o rapaz o tempo todo, desde a primeira etapa, Medina dá de ombros e segue em frente.
Os analistas passaram o ano inteiro tentando revelar o ponto fraco do Medina e campeonato após campeonato ele nos provava que o ponto fraco simplesmente não existia.
5 minutos finais da bateria contra Dusty, Medina tem a prioridade e o havaiano rema certo e firme numa onda para o Backdoor.
Gabriel decide ir, protegendo sua prioridade, desequilibra-se um pouco e mete pra dentro da direita que parece ser rápida demais para ser varada - ainda mais de back-side.
A praia explode quando Medina sai do tubo, braços pra cima.
Peter Mel, Big Wave rider, reportando direto da água, diz que podia perceber a aura de determinação na remada de volta do brasileiro.
A praia de Pipe transforma-se num estádio de futebol, cheia de bandeiras, de cantos de torcida, mãos esmurrando o ar.
Dusty está fora, Medina faz a melhor média da rodada.
Quarta fase, Gabriel x Toledo x Kerr, Filipe lidera, Medina precisa de um 8 baixo.
Faltando menos de 2 minutos, mais uma vez Medina encara sua suposta fraqueza, desta vez um tubo ainda mais profundo e difícil pro Backdoor - 8.84.
Na falta de adjetivos, penso no título do livro do Caco Barcellos - Abusado.
Abusado como Slater em 1992, campeão mundial e Pipe Master.
Abusado o suficiente para sair do mar durante sua bateria nas quartas, celebrar o título com a torcida ensandecida, conceder a protocolar entrevista como campeão mundial, abraçar e ser abraçado pelo amigos e familiares, retornar pra água e ainda vencer um aturdido Filipinho.
Abusado em arrancar uma nota 10 na final do Pipe Masters - para o Backdoor!
Senhoras e senhores, bem vindos à nova era.
Os estrangeiros são os outros.



5 Momentos mágicos do Pipe Masters

Slater volta



Contra Reef McIntosh, quando tudo parecia perdido, Kelly Slater pega duas ondas milagrosas num mar impossível


Jadson “Houdini” Andre 




No dia mais perigoso e tenebroso do Pipe Master, Jadson fez mágica e subitamente transformou uma onda fechada num 9.37 - seria um 10 fácil.


Alejo Brilha



Talvez a mais perfeita onda de todo evento, uma direita linda elimina Slater e deixa o caminho livre para Medina

Tom Carroll ainda reina em Pipe



Um retorno mais que esperado, Tom Carroll apimentou ainda mais a sua relação com Pipe e nos lembrou que, apesar dos 52 anos, quem manda ali é ele.


Gabriel Medina e Backdoor



O início de uma grande relação…





sábado, março 21, 2015

Viagem pra dentro

[Texto resgatado de 2014]
Na legenda original da Surfer, O Templo do Entusiasmo - Foto do Pai de todos, Ron Stoner




Pilantragem suprema é citar textos longos.
Sempre andei acompanhado do Galeano, Eduardo Galeano, escritor uruguaio que escreve com sangue, suor e lagrimas.
Galeano gosta de contar histórias da America Latina, dos povos esquecidos, contos, fábulas, mitos e adora falar dos becos e esquinas que pouca gente vai se dar ao trabalho de conhecer.

Sua trilogia, Memória do fogo, foi premiada pelo Ministério da Cultura do Uruguai e recebeu o American Book Award (Washington University, EUA) em 1989, mas isso não tem a menor importância.
O que ele escreve, e principalmente o jeito dele escrever, é o que importa.
Numa edição especial de viagens - justamente numa época onde a aventura transformou-se num pacote simpático, suavemente parcelado em 12 vezes sem juros - não poderia faltar a leitura do Galeano para um tempo de mudanças.

Extraído do livro De Pernas Pro Ar – A Escola do Mundo ao Avesso (Editora LP&M, Brasil, 1999), o trecho a seguir carrega mais de uma mensagem.
Ele nos ensina, ou melhor, relembra uma coisa que já ouvimos antes, de maneiras diferentes, a verdade está na viagem, não no porto.
A viagem começa quando voce decide.

Lembra de quando toda onda era assim ? Foto - Ron Stoner

Me solidarizo com o leitor que viaja sem sair do lugar.
Nem todo mundo tem uma pequena fortuna para gastar em passagem e hospedagem num barco luxuoso do outro lado do mundo.
Pra ser mais específico, nem todo mundo tem sequer a graninha que é preciso para ir até o norte do Peru para pegar onda.
Pipa ? Saquarema ? Maresias ? Noronha ?
Quem disse que faz falta ?

Essa revista que voce tem nas mãos ajuda a vender esses sonhos.
A TV martela ondas azuis e perfeitas como se fosse a tarefa mais simples da face da terra entrar num avião e aterrissar numa ilha paradisíaca.
Pra muita gente é mais fácil desprezar a própria praia do que aprender, ou re-aprender a gostar dela.
Esquecem-se que essa mesma praia que hoje desdenham foi aquela que os ensinou a amar o mar.
Foi nessa mesma água suja e ondas ruins que voce ficou em pé pela primeira vez na prancha e nunca mais quis saber de outra coisa.
Toda memória que temos das nossas praias não podem ser apagadas pela fantasia da onda perfeita.
Afinal de contas, nossa referência de onda perfeita foi estabelecida exatamente naquele dia mágico da nossa infância.
Aconteceu com voce em 1987, com seu amigo mais velho em 1975, com o Greg Noll em 1949 e com Medina em 2001.
E acontece todos dias, igualzinho, com as mesmas sensações e os mesmos cheiros e texturas.
Galeano escreve sobre isso.



A natureza se realiza em movimento e também nós, seus filhos, que somos o que somos e ao mesmo tempo somos o que fazemos para mudar o que somos. 
Como dizia Paulo Freire, o educador que morreu aprendendo: “Somos andando”. 
A verdade está na viagem, não no porto. 
Não há mais verdade do que a busca da verdade. 
Estamos condenados ao crime? 
Bem sabemos que nós bichos humanos andamos muito dedicados a devorar o próximo e a devastar o planeta, mas também sabemos que não estaríamos aqui se nossos remotos avós do paleolítico não tivessem sabido adaptar-se à natureza, da qual faziam parte, e não tivessem sido capazes de compartilhar o que colhiam e caçavam. 
Viva onde viva, viva como viva, viva quando viva, cada pessoa contém muitas pessoas possíveis e é o sistema de poder, que nada tem de eterno, que a cada dia convida para entrar em cena nossos habitantes mais safados, enquanto impede que os outros cresçam e os proíbe de aparecer. 
Embora estejamos malfeitos, ainda não estamos terminados; e é a aventura de mudar e de mudarmos que faz com que valha a pena esta piscadela que somos na história do universo, este fugaz calorzinho entre dois gelos.

Eduardo Galeano,

De Pernas Pro Ar – A Escola do Mundo ao Avesso (Editora LP&M, Brasil, 1999)

terça-feira, fevereiro 17, 2015

Silencio eloquente

Carlos Mudinho, um Homem religioso que merece a devoção dos que vivem o surfe

As mãos dele falam tanto quanto os seus olhos.
Cada palavra que ele quer dizer é explicada com uma quantidade de recursos fantástica, exatamente igual ao jeito dele pegar onda.
Os movimentos dos braços indicam distancias, caminhos e são sempre acompanhados de uma absurda agilidade com quadril e as pernas - absurdo para um senhor de 60 anos.
Carlos Mudinho é um dos meus surfistas preferidos, dentro e fora d’água.


Nem todos conhecem ou sequer ouviram falar do Mudinho, quem o viu surfar não esquece jamais.
Mudinho tem a classe dos grandes de toda história.
Descende direto da linhagem que passa por Phil Edwards, Mickey Dora, Barry Kanaiapuni, Curren e John John.
Alguem já escreveu que elegância é economia de gestos e Carlos Mudinho surfando representa como ninguem essa frase.
A surdez nunca foi obstáculo, aprendeu a ler lábios - e ondas.
Não há um instante de silêncio ao lado dele, os sons jorram numa explosão eloquente, se faz tão claro quanto um apresentador de jornal das oito.
A expressão Mestre tem mais de um sentido quando penso no Carlos Mudinho - Profissão e vocação.


Pura Categoria


Os surfistas brasileiros não são especialmente famosos pelo estilo, mas sim, temos alguns exemplos que não fariam feio no quesito graça em cima de uma prancha.
Rapidamente, sem pensar muito, relembrem comigo, Fabio Gouveia, Picuruta, Pitzalis, Castejá e Daniel, uma lista pequena dos mais influentes e estilosos prancheiros da nossa curta história.
Gente que, por obra divina ou muito trabalho duro pra conter os ímpetos, fez a escolha da beleza antes da objetividade.
Hoje é justamente o inverso, objetividade antes da beleza, ou seja, a grande maioria que começa a surfar prefere aprender logo a fazer uma penca de manobras, voar e rodopiar, sem dar a menor bola pro estilo.
Mudinho unia (ainda une!) funcionalidade e estética.

Não vi a fase de ouro dele, final dos anos 60 e início dos anos 70, fui conhece-lo apenas nos 80, quando os pranchões tiveram um renascimento e foi criado um circuito brasileiro, e mundial, de pranchão - paralelo ao de surfe profissional.
Enquanto a maioria da macacada tentava surfar com uma 9’6’’ como se estivesse de 5’10’’, Mudinho levava pra dentro das baterias um surfe clássico e poderoso baseado numa postura firme e uma intimidade fenomenal com as bordas da prancha.
Aquilo era música para os olhos.

Toda vez que ele ia pra água, mágica acontecia, avançando ou não nas competições.
E quanto maior o mar e melhores as ondas, mais distante ficava o desempenho do Mudinho pra todo resto.
Nat Young era o único que acompanhava o ritmo - ritmo dos anos 60, entenda-se.
Ao contrário da maior parte dos caras que competiam no circuito dos pranchões, Mudinho parecia apenas interessado em esticar seu tempo surfando e melhor desculpa não havia para os quarentões levar adiante a vida de surfista.
Shaper que atravessou cinco décadas fazendo pranchas de qualidade inquestionável, ainda hoje seus pranchões são considerados obras de arte.
Quando comecei a surfar, minha primeira prancha foi uma Carlos Mudinho 7’2’’ vermelha com um raio branco, presente do namorado (hoje marido) da irmã mais velha.
O fascínio começou ali.
Quando fiz a lista de mais de 80 entrevistados para a série 70 e tal do canal OFF, destaquei que uma entrevista com Mudinho não era apenas necessária - era fundamental.
Tentei explicar, sem sucesso, a importância dele.
Ensinou Rico (e outros!) a shapear no final dos anos 60, venceu eventos importantes, explorou e desbravou como poucos o litoral de norte a sul do Brasil e surfou, e aqui enfatizo novamente, surfou - e surfa! - de forma sublime.

Mudinho no Pier em 1972



Mudinho mora hoje em São Pedro da Aldeia, surfa quando pode, dá aulas para surfistas surdos e aguarda com alguma ansiedade pela sua aposentadoria para poder surfar mais.
Pesquisando na grande rede, percebo que celebra-se pouco a arte desse camarada que é possivelmente o surfista brasileiro mais menosprezado pela imprensa.
Achei uma excelente entrevista feita por outro surfista surdo, Renato Nunes (http://carlosmudinho.blogspot.com.br), que fazia a tradicional pergunta, qual foi o grande momento da juventude...
A resposta conta tantas histórias que merece ser publicada na íntegra.

Uma vez, em 1967 teve uma forte ressaca no mar, as ondas quebravam de 4 metros e rolavam bem atrás do pontal do Arpoador. Foi super sufocante para atravessar a arrebentação e ficar bem longe da praia, como se estivesse em alto mar. Foi fora do comum. Peguei ondas grandes com uma 9’4 noserider Surfboard House. Nesse dia só entraram na água alguns longboarders corajosos como Geraldo, Persegue, Armando Serra, Penho, João (ex-marido da Fernanda Guerra, primeira surfista brasileira) e outros que não me lembro o nome. O meu outro momento marcante foi quando ganhei o campeonato Extra Magno 1967 na praia do Arpoador. Com experiência de apenas um ano de longboard. Fui homenageado como revelação do ano.

Encontrei-o dia desses num almoço da velha guarda promovido pelo generoso Armando Serra, não mudou nada.
Mesma energia, mesma eloquência de sempre.
Queria passar mais tempo surfando ao lado do Mudinho para aprender mais...





sexta-feira, dezembro 05, 2014

Viagem pra dentro

A espera...


          Pilantragem suprema é citar textos longos.
Sempre andei acompanhado do Galeano, Eduardo Galeano, escritor uruguaio que escreve com sangue, suor e lagrimas.
Galeano gosta de contar histórias da America Latina, dos povos esquecidos, contos, fábulas, mitos e adora falar dos becos e esquinas que pouca gente vai se dar ao trabalho de conhecer.

Sua trilogia, Memória do fogo, foi premiada pelo Ministério da Cultura do Uruguai e recebeu o American Book Award (Washington University, EUA) em 1989, mas isso não tem a menor importância.
O que ele escreve, e principalmente o jeito dele escrever, é o que importa.
Numa edição especial de viagens - justamente numa época onde a aventura transformou-se num pacote simpático, suavemente parcelado em 12 vezes sem juros - não poderia faltar a leitura do Galeano para um tempo de mudanças.

Extraído do livro De Pernas Pro Ar – A Escola do Mundo ao Avesso (Editora LP&M, Brasil, 1999), o trecho a seguir carrega mais de uma mensagem.
Ele nos ensina, ou melhor, relembra uma coisa que já ouvimos antes, de maneiras diferentes, a verdade está na viagem, não no porto.
A viagem começa quando voce decide.
Me solidarizo com o leitor que viaja sem sair do lugar.
Nem todo mundo tem uma pequena fortuna para gastar em passagem e hospedagem num barco luxuoso do outro lado do mundo.
Pra ser mais específico, nem todo mundo tem sequer a grainha que é preciso para ir até o norte do Peru para pegar onda.
Pipa ? Saquarema ? Maresias ? Noronha ?
Quem disse que faz falta ?

Essa revista que voce tem nas mãos ajuda a vender esses sonhos.
A TV martela ondas azuis e perfeitas como se fosse a tarefa mais simples da face da terra entrar num avião e aterrissar numa ilha paradisíaca.
Pra muita gente é mais fácil desprezar a própria praia do que aprender, ou re-aprender a gostar dela.
Esquecem-se que essa mesma praia que hoje desdenham foi aquela que os ensinou a amar o mar.
Foi nessa mesma água suja e ondas ruins que voce ficou em pé pela primeira vez na prancha e nunca mais quis saber de outra coisa.
Toda memória que temos das nossas praias não podem ser apagadas pela fantasia da onda perfeita.
Afinal de contas, nossa referência de onda perfeita foi estabelecida exatamente naquele dia mágico da nossa infância.
Aconteceu com voce em 1987, com seu amigo mais velho em 1975, com o Greg Noll em 1949 e com Medina em 2001.
E acontece todos dias, igualzinho, com as mesmas sensações e os mesmos cheiros e texturas.
Galeano escreve sobre isso.


A natureza se realiza em movimento e também nós, seus filhos, que somos o que somos e ao mesmo tempo somos o que fazemos para mudar o que somos. 
Como dizia Paulo Freire, o educador que morreu aprendendo: “Somos andando”. 
A verdade está na viagem, não no porto. 
Não há mais verdade do que a busca da verdade. 
Estamos condenados ao crime? 
Bem sabemos que nós bichos humanos andamos muito dedicados a devorar o próximo e a devastar o planeta, mas também sabemos que não estaríamos aqui se nossos remotos avós do paleolítico não tivessem sabido adaptar-se à natureza, da qual faziam parte, e não tivessem sido capazes de compartilhar o que colhiam e caçavam. 
Viva onde viva, viva como viva, viva quando viva, cada pessoa contém muitas pessoas possíveis e é o sistema de poder, que nada tem de eterno, que a cada dia convida para entrar em cena nossos habitantes mais safados, enquanto impede que os outros cresçam e os proíbe de aparecer. 
Embora estejamos malfeitos, ainda não estamos terminados; e é a aventura de mudar e de mudarmos que faz com que valha a pena esta piscadela que somos na história do universo, este fugaz calorzinho entre dois gelos.

Eduardo Galeano,

De Pernas Pro Ar – A Escola do Mundo ao Avesso (Editora LP&M, Brasil, 1999)

quarta-feira, setembro 03, 2014

Pranchas que nos definem

Uma cavada maiúscula

A Cusparada

A cena mais representativa do cinema de surfe a tratar da relação homem x prancha é do clássico que fecha a década de 60, Evolution do australiano Paul Witzig.
Descrevo brevemente para conseguir melhor efeito, Wayne Lynch, então um adolescente e o mais revolucionário surfe de back side que já aparecera numa tela de cinema, pega sua prancha com desdém e a arremessa n'água.
Em seguida, cospe, certeiro, no fundo da prancha.
O jeito que Lynch tratava sua prancha, a mesma que é magistralmente conduzida à lugares e ângulos nunca antes vistos numas direitas que podem ser em qualquer um dos 150 picos no estado de Victoria. Eu queria dizer que o jeito que Lynch tratava a prancha é semelhante as paixões arrebatadoras das peças do Nelson Rodrigues, quase irracional, absolutamente instintivo.
Vendo a cena do garoto de 16 anos, possivelmente o melhor surfista do mundo em 68/69, esculhambando com a prancha, sua companheira, no mais violento desempenho jamais visto, chocava porque mostrava que Lynch queria mais daquele toco.
Certa vez, Lynch foi entrevistado por um desses camaradas que vive o passado intensamente em busca de respostas sobre a evolução das pranchas e perguntou a Lynch se ele era capaz de reproduzir a magia daquela revolucionária prancha.
A resposta de Lynch foi curta e rasteira, aquela prancha era uma merda na época e continuava uma merda hoje em dia e seu interesse era, e ainda é, em pranchas para evoluir seu surfe, mesmo aos 50 anos - na época.




Single fin x Twin Fin

1976, North Shore de Oahu, Shaun Thomsom e Mark Richards comparam suas pranchas.
Shaun mostra sua monoquilha Spider Murphy, 7'6'' cheia de curva pra encarar Pipeline e Richards exibe sua biquilha, shapeada por ele mesmo, inspirada nas pranchas que Reno Abelira surfou na Australia alguns anos antes.
Os dois são os líderes da revolução que convencionou chamar de Bustin' Down the Door, em outras palavras, Shaun e MR são os dois maiores surfistas do planeta naquele exato momento, ninguem duvidava disso.
O jeito que cada um atacava as ondas no Havaí aplicou o primeiro grande rompimento da década. 
A partir daquela cena do filme Free Ride, do Bill Delaney, o surfista escolhia se era Shaun ou MR, não tinha volta.
Ou melhor, tinha sim, voce podia escolher entre Larry Bertleman, que surfava com as stingers do Ben Aipa, ou as Pin Tails do Gerry Lopez, mas nem Lopez, nem o Rubber Man ganhavam títulos mundiais.
Mal comprando, seria como se Medina e John John aparecessem no principal filme de surfe do ano conversando sobre suas pranchas - e supostamente essas mesmas pranchas tivessem características completamente diferentes.
Logo em seguida, Shaun e MR aparecem surfando dum jeito que definiu o que era surfe de qualidade por quase 10 anos.
O grande momento do filme é quando MR dropa uma bomba em Off The Wall e Shaun vai atrás, super profundo, e os dois entubam juntos, triunfantes.



Bola de fogo, 1994

Ninguem acreditava ou concebia em 1994 que ondas maiores de 6 pés pudessem ser surfadas com uma 5'7''.
Eis que Sonny Miller, diretor americano da série The Search idealizada pelo gênio louco Derek Hynd e bancada pela Rip Curl, exibe evidências de vida extra terrestre sobre as ondas.
Foi em Bawa, uma direita tambem conhecida como Fishbowls, num ponto (então) remoto da Indonésia que Tom Curren aparece surfando com uma prancha emprestada, 5'7" x 19 1/4" x 2 1/8", fazendo o que então nenhum outro homem tinha tentado.
Curren deslizava ao som duma Jam session que ele mesmo distorcia a guitarra com toques psicodelicos a lá Hendrix.
Suas curvas eram tão suaves e precisas que a partir dali as fishes, antes pranchas relegadas a condições de menor impacto, subitamente se elevaram ao patamar de design válido para toda e qualquer onda.
Ainda em 94, Log Cabins quebrou enorme e la estava Curren testando os limites da sua Fireball.
A Fireball era criação do Tom Paterson, irmão do lendário Michael Peterson, e dizem as boas línguas que a 5'7'' do Curren tinha seis canaletas e um degrau no meio delas que chamava-se step bottom.
Se hoje qualquer loja de surfe bacana que se preze tem uma fishezinha pra expor, isso deve-se ao Curren, 1994, em Bawa e ao Sonny Miller.

É um trabalho duro, mas alguem teve que faze-lo - antes.