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segunda-feira, maio 04, 2015

Molecagem

[Texto de 26.11.2014]

Quem é o Vira-lata ?


          Estamos em dezembro de 2014, um ano difícil para a grande maioria dos leitores dessa revista.

Perdemos uma Copa do mundo em casa.

Uma Copa ganha antecipadamente várias vezes pelos gênios do futebol.

Tivemos uma eleição apertada e disputada como um clássico do brasileirão.

O discurso raivoso aflorou de tudo quanto era buraco.

Sujeito caminhava tranquilo pela rua e de repente saía um iradinho da primeira esquina.

O surfista tinha uma fuga, Medina liderou o circuito mundial de ponta a ponta, exceto por um percalço chamado Travis Logie, justo no Rio de janeiro.

Quando esse texto chegar até você, é possível que já tenhamos um campeão mundial.

O tricolor Nelson Rodrigues enxergava de olhos fechados


Caso contrário, nosso afamado complexo de vira-latas, tão alardeado por Nelson Rodrigues, virá a tona uma vez vez mais.

Da mesma maneira que colocaram a culpa do vexame diante da seleção alemã no fato jogador ter nascido no Brasil, ou da política brasileira ser do jeito que é porque, afinal, somos todos brasileiros - a desculpa de não termos um título é a uma sina, uma marca.

Invertemos o mérito e o transformamos em vergonha.
Faz tempo que é assim.

Quando ainda não tínhamos títulos no futebol, o cronista Nelson Rodrigues destrinchava nosso complexo de inferioridade.

Era exatamente como hoje.

Tudo que vinha de fora era bom - bom não, melhor.

Toda e qualquer coisa que não fosse feita no Brasil era melhor.

Homens e produtos estrangeiros eram superiores.

Quantas pessoas voce conhece hoje, dezembro de 2014, que ainda pensam dessa mesma forma ?

Quase 60 anos depois de criada a expressão complexo de vira-latas…

Um título do Medina não será suficiente para aplacar a vergonha que se esconde atrás de cada assustado que sonha com um passaporte seja qual for, contanto que não traga Brasileiro na primeira página.

Os aviltados gritarão bem alto, Tambem, olha esse povo que nos deram… Brasileiro aceita tudo.

Chile, 1962, sem legenda


Recorro então ao texto que Nelson Rodrigues escreveu quando ganhamos não o primeiro título mundial, na Copa de 1958, mas o segundo, na Copa do Chile em 1962.

Quando triunfamos em 58 decretou o fim da nossa permanente sensação de subalterno, passados apenas 4 anos essa irresistível força bovina que nos arremessa pra baixo da mesa voltava com a força dos aflitos.

Até mesmo os próprios europeus, à semelhança dos australianos e americanos do mundinho do surfe, já acreditavam na nossa condição secundária.

Percebam como é parecido o momento do surfe em 2014 e o futebol em 1962.

Mesmo como Fabinho Gouveia, Victor Ribas, Teco, Neco, Burle, Resende, Maya, Phil, mesmo com Yago e Lucas Silveira ainda tem gente que aponta com um rasgo de embaraço, Coitados, são brasileiros…

O descaso não é deles, é nosso.

Nelson Rodrigues reconhecia um pessimista pelo cheiro, foi pra eles que publicou na revista Fatos & Fotos em 1962 esse texto reproduzido abaixo.

[Após quatro anos de meditação sobre o nosso futebol, o europeu desembarca no Chile. 
Vinha certo, certo, da vitória. 
Havia, porém, em todos os seus cálculos, um equívoco pequenino e fatal. 
De fato, ele viria a apurar que o forte do Brasil não é tanto o futebol, mas o homem. 
Jogado por outro homem o mesmíssimo futebol, seria o desastre. Eis o patético da questão: — a Europa podia imitar o nosso jogo e nunca a nossa qualidade humana. 
Jamais, em toda a experiência do Chile, o tcheco ou o inglês entendeu os nossos patrícios. 
Para nos vencer, o alemão ou o suíço teria de passar várias encarnações aqui. 
Teria que nascer em Vila Isabel, ou Vaz Lobo. 
Precisaria ser camelô no largo da Carioca. 
Precisaria de toda uma vivência de botecos, de gafieira, de cachaça, de malandragem geral.
Aí está: — no Velho Mundo os sujeitos se parecem, como soldadinhos de chumbo. 
A dessemelhança que possa existir de um tcheco para um belga, ou um suíço, é de feitio do terno ou do nariz. Mas o brasileiro não se parece com ninguém, nem com os sul-americanos. 
Repito: o brasileiro é uma nova experiência humana. 
O homem do Brasil entra na história com um elemento inédito, revolucionário e criador: a molecagem.]

A molecagem não é o jeitinho brasileiro de não fazer as coisas, pelo contrário, é o jeito de fazer as coisas.
Nutro um certo desprezo pelos deslumbrados com o que vem de fora.
Pra ficar somente no futebol, vou abusar do recurso de citar e, golpe baixo, encerro com Carlos Drummond de Andrade.

O difícil, o extraordinário, não é fazer mil gols, como Pelé. É fazer um gol como Pelé.

Quero crer que difícil não é fazer o que Medina fez nesse ano, mas fazer do jeito que Gabriel fez…

Todo grande texto nasce desses momentos de silencio e solidão





quinta-feira, abril 23, 2015

Nova Era


As oito horas de surfe mais eletrizantes que já houve



Praia de Pipeline, 13:33 do dia 19.12.2014

Charles Medina olha fixo pro mar

Em volta dele, todos gritam é campeão, se mexem sem saber onde colocar os braços, chamam seu nome sem parar, surgem câmeras de todos lados, a confusão é total e Charlão (como os mais próximos carinhosamente o chamam) olha fixo pro mar.

Falta menos de 40 segundos pra terminar a bateria entre Mick Fanning e Alejo Muniz, a chance do australiano virar é inexistente, mas Charles olha fixo pro mar.
Ele já viu muitas baterias resolvidas nos 30 segundos finais e não quer correr esse risco.
O jogo só termina quando o juiz apita.
Com essa derrota do Fanning, Gabriel é campeão mundial, encerra-se a corrida, o drama chega ao fim.
Deus sabe o que passa na cabeça do camarada que viveu a disputa tão intensamente como ele.
De repente, junto com a contagem regressiva, Charles corre alucinadamente pro mar e mergulha de roupa e tudo.
Todo mundo em casa ou na praia também tem vontade de sair correndo enlouquecidamente.

Esse momento traduz a vontade que temos de simbolicamente abraçar Pipeline, a praia que nos deu o primeiro campeão mundial brasileiro.
Debaixo d’água é tudo silencioso, Charles precisa desse segundo de silencio.
Dizem que a água do mar lava tudo.
Lava as nossas mágoas, nossas dores, nossas tristezas.
A água do mar purifica.
Esse mergulho diz tanto sobre o título do Medina…
Foram 11 etapas, algumas vitórias, algumas derrotas, lágrimas de felicidade, poucas de decepção, é necessario mergulhar fundo.
Quando Charlão ressurge, já tem os dois braços apontados pro céu. O rosto sempre tão sisudo, sorri um sorriso largo.
O menino ganhou é hora de ir abraça-lo.

Uma breve historia do tempo

A ASP tinha tarefa ingrata, apenas dois dias para terminar o Pipe Masters, ondulação enfraquecendo, um título mundial para ser decidido e 27 baterias ainda por fazer.

Kieren Perrow, comissário e homem responsável pelas decisões mais importantes da entidade (ASP) durante o ano resolve realizar tudo em dia só.

No Havaí não é permitido campeonatos de surfe depois das 16:00 horas, tampouco começar antes das 8 da manhã.

Perrow faz as contas para encaixar 27 baterias em 8 horas.

Nunca aconteceu na história da ASP um dia como esse que vai se revelar.

Baterias simultâneas, redução do tempo, alteração das regras, sem a possibilidade de recomeçar - sem descanso.

Foram 10 dias de uma espera melancólica por ondas decentes.
Uma triagem com ondas boas, um primeiro dia digno da história do Pipe Masters e uma segunda fase atirada ao mar em condições adversas.

Era chegado o dia final.

Havia mais matematica envolvida.

Gabriel Medina seria campeão mundial se chegasse até a final, isso era claro.
Slater tinha alguma chance, voces sabem, mínima.
Fanning fungava no cangote.

O grande temor da torcida brasileira era o backdoor, supostamente ferramenta de vantagem dos adversários do Medina e nosso (dele) calcanhar de Aquiles.

Pois o dia 19 amanheceu com ondas melhores justamente para o Backdoor.
Problema nosso.



Voce já segue o Alejo ?

A última etapa do ano tem várias camadas diferentes.

O foco principal é na corrida ao título entre 3 surfistas, os outros 33 tem preocupações diferentes.
Alguns estão ali atrás de sobrevivência, motivos de sobra para atrapalhar qualquer um dos candidatos.

Vejam Alejo Muniz, 24 anos, décimo do ranking em 2011, prestes a se despedir do WCT/WSL 2015 depois de uma temporada negra, sem passar uma única vez pela  terceira fase, precisando ganhar o Pipe Masters para alcançar a qualificação.

Alejo sabia que sendo um dos surfistas com menos pontos enfrentaria os primeiros do ranking e poderia eventualmente ajudar seu amigo Gabriel Medina na luta pelo caneco.

Eis que os sonhos tornam-se realidade e, na terceira fase, Alejo enfrenta o invencível Slater em Pipe, especialidade do Careca.

Sabe quantas vezes o Slater já perdeu assim tão cedo em Pipe ?
Uma vez, em 1997, para o Johnny Boy Gomes - uma única e solitária vez, para um especialista em Pipeline.

Alejo, sem saber que era impossível, foi lá ganhou do Kelly Slater do jeito que gostamos, no ultimo minuto, tubaço no Backdoor.
Menos um na disputa com Medina.

Como nada tem dado muito certo pro Alejo nas competições em 2014, na quarta fase ele fez o total de 1.27 e foi pra repescagem…
O destino, esse velho sacana e sem cueca, colocou logo quem na repescagem junto do Alejo ?
Mick Fanning, último obstáculo entre Medina e a nossa Copa do Mundo do surfe.

Vejam como são as coisas, a sorte anda mesmo ao lado dos campeões.

Contra Alejo, Fanning foi incapaz de fazer uma nota superior a 2 (1.27 + 1.57 = 2.84)!
Na bateria seguinte, quartas de final, Alejo seria eliminado por Ace Buchan e daria adeus ao WCT (por enquanto) mas seria o personagem mais importante depois do Medina e Julian Wilson nesse dia inesquecível.

Siga o Alejo. 

Pausa para ouvir Julian Wilson

Digam o que quiser, temos que respeitar esse cara.

Antes do Pipe Masters, Julian não tinha chegado alem da terceira fase em nenhum campeonato nessa temporada, exceto por Bells Beach e precisava de um milagre para se classificar pelo ranking do WCT (já estava garantido pelo WQS).

Outro milagre o coroaria com o mais cobiçado título depois do mundial, o Triple Crown.
Depois de competir 6 vezes no mesmo dia e ficar na água por 3 baterias seguidas, Julian ganhou o Pipe Masters - há controvérsias…

Penso que devemos ouvi-lo.

Acho que eu estava realmente determinado a terminar o ano com uma campanha decente. Na minha primeira bateria fiz uma soma total de 1,5, na segunda fiz três ou quatro pontos, na quarta consegui seis nas minhas duas ondas, era uma evolução constante e eu continuei persistindo. 
É frustrante fazer notas baixas. 
Você passa a bateria, que é ótimo, mas é difícil de conquistar a auto confiança quando você não faz uma boa apresentação. Então finalmente achei uma onda boa na quinta fase e comecei a me divertir.
Gabriel tinha tido um dia incrível e estávamos os dois sentados lá fora, curtindo. Não houve disputa, sem nada. Ele preferia as esquerdas, de repente ele teve pegou aquela onda pro Backdoor e fez um 10. Foi quando essa última serie veio. Podíamos ver que era tinha um ângulo incrível. A segunda era maior e Gabe tinha prioridade. Ele disse: 'Eu quero a segunda ", por isso, fui na direita e ele pegou a maior pra esquerda, e foi incrível.

Abusado

Diante do desafio de enfrentar Dusty Payne na terceira fase, debaixo de uma pressão que dobraria o mais experiente dos competidores, Medina esperou pela onda da série e fez o de sempre - dominou.
A ameaça da derrota tem rondado o rapaz o tempo todo, desde a primeira etapa, Medina dá de ombros e segue em frente.
Os analistas passaram o ano inteiro tentando revelar o ponto fraco do Medina e campeonato após campeonato ele nos provava que o ponto fraco simplesmente não existia.
5 minutos finais da bateria contra Dusty, Medina tem a prioridade e o havaiano rema certo e firme numa onda para o Backdoor.
Gabriel decide ir, protegendo sua prioridade, desequilibra-se um pouco e mete pra dentro da direita que parece ser rápida demais para ser varada - ainda mais de back-side.
A praia explode quando Medina sai do tubo, braços pra cima.
Peter Mel, Big Wave rider, reportando direto da água, diz que podia perceber a aura de determinação na remada de volta do brasileiro.
A praia de Pipe transforma-se num estádio de futebol, cheia de bandeiras, de cantos de torcida, mãos esmurrando o ar.
Dusty está fora, Medina faz a melhor média da rodada.
Quarta fase, Gabriel x Toledo x Kerr, Filipe lidera, Medina precisa de um 8 baixo.
Faltando menos de 2 minutos, mais uma vez Medina encara sua suposta fraqueza, desta vez um tubo ainda mais profundo e difícil pro Backdoor - 8.84.
Na falta de adjetivos, penso no título do livro do Caco Barcellos - Abusado.
Abusado como Slater em 1992, campeão mundial e Pipe Master.
Abusado o suficiente para sair do mar durante sua bateria nas quartas, celebrar o título com a torcida ensandecida, conceder a protocolar entrevista como campeão mundial, abraçar e ser abraçado pelo amigos e familiares, retornar pra água e ainda vencer um aturdido Filipinho.
Abusado em arrancar uma nota 10 na final do Pipe Masters - para o Backdoor!
Senhoras e senhores, bem vindos à nova era.
Os estrangeiros são os outros.



5 Momentos mágicos do Pipe Masters

Slater volta



Contra Reef McIntosh, quando tudo parecia perdido, Kelly Slater pega duas ondas milagrosas num mar impossível


Jadson “Houdini” Andre 




No dia mais perigoso e tenebroso do Pipe Master, Jadson fez mágica e subitamente transformou uma onda fechada num 9.37 - seria um 10 fácil.


Alejo Brilha



Talvez a mais perfeita onda de todo evento, uma direita linda elimina Slater e deixa o caminho livre para Medina

Tom Carroll ainda reina em Pipe



Um retorno mais que esperado, Tom Carroll apimentou ainda mais a sua relação com Pipe e nos lembrou que, apesar dos 52 anos, quem manda ali é ele.


Gabriel Medina e Backdoor



O início de uma grande relação…





segunda-feira, janeiro 05, 2015

Olimpo derrotado

[Cobertura da primeira vitória do Gabriel Medina em 2014, o início de uma longa e inesquecível Jornada]

De olho em algo muito maior do que apenas uma porrada no lipe...


O que fica na memória é a sequência fantástica de nocautes: Mick, Taj e Parko – Pow, Pow, Pow! Isso, só na conta do Medina. Mineiro e Pupo derrubaram Owen, Kerr e Slater.Temos, numa rápida contagem, 15 títulos mundiais e uma infinidade de Top 5 entre esses senhores.

Quem diria, 17 anos atrás, que os brasileiros deixariam um rastro de destruição desse porte nas areias do Super Bank – na verdade na água – logo na primeira etapa do ano...
Apresso-me em responder, com fatos, quem sonhava com esse momento: Peterson Rosa e Neco Padaratz – e Adriano.

O campeão do Quiksilver Pro 2014 ainda não tinha feito três anos de idade quando Slater venceu o Bronco na final do então Billabong Pro de 1997. Neco Padaratz ficou na semi, também diante de Kelly.

Adriano, na sua estreia no WCT, arrancou um terceiro em 2006, com apenas 19 anos, gostou tanto que decidiu fazer três finais na Goldie: 2009, 2010 e 2012. Os números servem para mostrar como uma vitória se constrói. Ela começa bem antes de Gabriel acabar com a festa dos australianos e fincar a bandeira brasileira no lugar mais alto do pódio.



Troca de guarda

Na Nova ASP, a expressão americana “terra de oportunidades” ganha novo significado. A nova direção quer mudanças e nada melhor do que nós, reconhecidamente mercado emergente, para dar a partida nos novos negócios.

Gabriel nem precisou usar seus superpoderes para superar um por um dos seus adversários no caminho do título. Durante todo o tempo, Medina parecia mandar uma mensagem como esta: “Pessoal, esse é o meu jogo e eu jogo do jeito que eu quiser”. Cada onda foi surfada apenas com o esforço suficiente para abater o oponente, sem exageros, sem firulas. Como Curren fez tantas vezes antes e como Kelly aprendeu a fazer como ninguém. A carta na manga, a arma secreta, tem lugar e hora para ser usada.

Medina aprendeu isso.


Doces rivais

Quase duas semanas depois de impor a quinta derrota seguida ao onze vezes campeão mundial, Adriano publicou uma foto de uma onda do Slater no Instagram com a seguinte legenda: “Como usar o espaço da onda, mesmo ganhando do Kelly na Gold, é nessa foto que eu observo a perfeição, tenho conhecimento que falta muito ainda”. Sempre conectado, Kelly respondeu: “Você é um sujeito bacana, Adriano”.

Mineiro tem uma maneira diferente de abalar o Careca, alguma coisa balança as estruturas do camarada que antes parecia tão imune aos encantos alheios. Talvez esse seja o jeito de Adriano repetir aquele famoso “Eu te amo”, que Kelly disse para Andy antes da final do Pipe Masters de 2003.

Não há hoje, no Circuito Mundial, ninguém tão preparado, obstinado e combativo como Adriano de Souza. Até Slater reconhece isso.

Quando inverter o sentido tem outro significado


Se quer uma revolução, faça você mesmo

A grande notícia na página da (Nova) ASP antes de começar o Quik Pro era o retorno de Owen Wright. Fazia todo sentido, afinal, o camarada tinha se apresentado com candidato ao título mundial em 2011, fazendo três finais seguidas com Slater. Após passar toda a temporada de 2013 de molho, recuperando-se de uma contusão, Owen era uma aposta certa. Ou não?

Perguntem a Miguel Pupo...

Pupo é um rapaz calado, fala mansa, boa praça, sempre com sorriso no rosto quando cruza com um companheiro, lembra até um pouco outro goofy brasileiro famoso pela velocidade e estilo, Victor Ribas.

Victor também não chamava muita atenção até um belo dia disputar o título mundial com Occy e Taj e levar a decisão para o Hawaii. Até hoje, o terceiro lugar no ranking de 1999 ainda não foi superado [Nota do Autor: em 2014 a história muda].

Não estamos aqui para falar do Victor, contemporâneo do pai do Miguel, Wagner Pupo.
Estamos aqui para mostrar que nem toda força da indústria consegue ganhar uma bateria.

Na terceira fase do Quiksilver Pro, Miguel Pupo silenciosamente aniquilou Owen Wright, dando cabo das expectativas da máquina de comunicação da ASP. Pupo foi possivelmente o surfista brasileiro mais elogiado pela imprensa estrangeira nessa primeira etapa – o que não deixa de ser uma grande conquista. Cada vez mais, Miguel vai crescendo debaixo dos nossos narizes como grande surfista.

Perguntem a Josh Kerr...


O serrote e a marreta

Existem alguns detalhes fundamentais na extraordinária vitória do Medina.

Número 1: ele nunca foi o melhor surfista do evento, mas venceu cada um dos principais favoritos com uma precisão cirúrgica.

Número 2: Gabriel rompeu barreiras, primeiro goofy em dez anos a vencer na Gold Coast – Mick Lowe bateu Andy Irons numa final complicada em Rainbow Bay em 2004.

Número 3: essa é a primeira vez que iniciamos o ano na frente do ranking.

Número 4 (talvez o mais importante): Gabriel não se deu ao luxo de voar.

Existe um dado novo nessa história: a partir de agora, já não somos mais francoatiradores, todos os olhos estão apontados para Medina, Mineiro, Pupo e cia. Passamos de caçadores a caça. Se antes nós reclamávamos do julgamento, agora é a vez deles – vide comentários abaixo de toda e qualquer publicação sobre a primeira etapa. São muitas primeiras vezes, tudo novo.

Como disse muito bem Adriano, eles (gringos) já têm onde se espelhar, sobram as referências do que fazer e como fazer, enquanto para os brasileiros é sempre uma surpresa porque ninguém trilhou esse caminho ainda – de ganhar o título mundial.
Gabriel tem um retrospecto excelente contra Taj, Mick, Slater e Parko, o problema é outro brasileiro, chamado Adriano de Souza, que tem 4 x 0 em cima dele.

Imaginem se a disputa do título ficar entre esses dois camaradas? Num tempo de mudanças, de troca de guarda, tudo pode acontecer.