terça-feira, outubro 30, 2007

Dois centavos


Ai Miky, faz um cutbéqui aqui pra mim ?

Nunca fui numa entrevista coletiva, por simples falta de interesse, não apetece.
Estive por quase dez minutos hoje na coletiva do Fanning e do Taj, curioso pelas sandices e apelações da nossa cara imprensa.
Num determinado momento, um rapaz muito bem posto numa das cadeiras dispara com toneladas de certeza sua pergunta, não sem antes contextualizar: Todos sabem que a grande arma dos australianos nesse ano é a união. Voces falam muito sobre trazer o título de volta pra Australia ?
Uma vez traduzida a indagação, o silêncio tomou conta do salão lotado, Mick e Taj se entreolharam um pouco assustados com a constatação que tal pensamento jamais passara pelas suas loiras e valiosas cabecinhas.
Como assim ? Eu vou ganhar o título pra mim, pensou Mick.
Em segundo lugar vem meu patrocinador que saberá como ninguem me recompensar pelo primeiro título da marca desde Damien e Curren.
Taj pensou em super modelos e helicópteros.
No final do dia algumas séries já estavam simpáticas e o campeonato pode começar amanhã.
Na Globo.com tem um furo de reportagem que recomendo à todos que prezam o bom e velho jornalismo.
Surfe é diversão.

segunda-feira, outubro 29, 2007

A.B.O.G. Atualizada



Depois de alguns anos afastado da arena competitiva em terra Brasilis, cá estou eu novamente debruçado num evento do WCT, atento para tudo que acontece, um olho aqui e outro ali.
De cara, precisei atualizar minha carteirinha da A.B.O.G., tinha expirado faz tempo.
Em frente ao hotel na praia da Vila, Mick Fanning fazia miséria com as pobres ondinhas; pobres e desnutridas.
O Macaco albino não tá pra brincadeira, duas caídas, duas pranchas debaixo do braço, pilates com seu escudeiro Matt Griggs, velho combatente do WQS e atual contratado da Rip Curl como babá de surfista.
[Nota A.B.O.G.: sorridente e solícito, Fanning sentou-se para jantar ainda antes do sol se pôr e, na dúvida, pediu o mesmo prato do dia anterior (pé de pato mangalô 3 vezes!), peixe com legumes. O simpátco Mr. Griggs escapou de um filé ao quatro queijos graças à esse correspondente que o alertou do efeito flatulento que uma má escolha pode causar.]
Chovia sem parar, venta de levantar saia, mas a previsão é de onda boa no final de semana - pé quente do novo patrocinador, Hang Loose.
Seu Jorge, motorista da van que transporta a turma, nascido e criado aqui mesmo em Imbituba, diz achar que o WCT não fede nem cheira para a economia da cidade, ou melhor, dá uma certa agitada, mas nada comparável à formidável Festa do camarão.

Pausa para passagem do tempo

A Manhã de hoje, 30/11, começa sem nuvens no céu, mar ainda pequeno, pouco provável que comece hoje a contenda.

segunda-feira, outubro 22, 2007

Rejeitados



O blogue britânico Surf-nation nos informa que a British Airways, uma favorita de sempre, não transporta mais pranchas.
A notícia é grave - e curiosa.
Grave porque pode nos ameaçar com preços ainda mais exorbitantes para nosso 'excesso de bagagem'.
Com o aumento da quantidade de pranchas nos aviões (a velha conhecida popularização do surfe), aumentaram tambem os problemas: reclamações, complicações e indenizações.
Por outro lado, empresas aéreas deixando de levar pranchas, ou cobrando fortunas para leva-las, pode empurrar surfistas ao metódo milenar de viajar, por terra, pelo mar.
Imaginem que em 10 anos nenhuma das companhias de aviação queira transportar sua prancha, nem sua nem de ninguem.
Talvez um boom de aluguel de pranchas.
Ou talvez um line-up mais vazio.
Café ou chá ?

sábado, outubro 20, 2007

Chuva de Blogues

Patchies


Phoresia


Surfy


2B do Beda


Surfe De Luxe do Túlio Brandão


Vagueares


Monoquilhas


Tempo de viajar


Surf Nation


Tubus-eternus


Surfblog1000


Blogue radicais da globo

Discoteca goiaba do surfista desatento II




Change Today ? - T.S.O.L. (1984) Enigma Records, California, EUA

Foi uma revolução - barulhenta!
Ainda hoje me pergunto como cabia tanta gente dentro daquele quartinho.
Sentados na cama, deitados no chão, de pé encostados na parede, acocorados, de todo jeito a turma se ajeitava para assistir a novidade: vídeos de surfe.
De repente, como num passe de mágica, o cinema vinha até em casa e assentava-se na TV do quarto (ou da sala ), o ritual permanecia com seus códigos e esquisitices.
Não há surfista que sobreviva aos primeiros acordes de Flowers by the doors do T.S.O.L.
Os fãs dessa banda de Long Beach, Califórnia, desprezam profundamente os anos de 1984 até 1990 quando a alma da banda, o vocal e guitarra Jack Grisham saiu e Joe Wood entrou em seu lugar.
Aqui entra um papo purista de punk hard-core contra as diferentes manifestações que estavam sendo criadas em torno do tema punk na época, uma pendenga parecida com a suposta briga entre pranchinhas, pranchões e saboneteiras - sem eira nem beira.
Resumindo: dum lado acusavam o True Sounds of Liberty de ficarem pop demais e do outro, estávamos nós, bando de vagabundos de short apertado, olhos vermelhos e ouvidos atentos que não ligavam pra nada, exceto Occy, Curren, Carroll, PK, Chris Brown, MR, Kong, Jason B., Nicky Wood, Luke Egan, Gary Green, Munga, Occy, Occy e Occy...
Justamente a fase dita pop, ou glam, ou gothic, ou qualquer outro rótulo de super-mercado, justo essa fase maldita ficou mais grudada em nossos ouvidos que cera.
No filme-marco, Billabong surf into the summer, de 1987, a trilha sonora virou uma verdadeira febre nos estacionamentos próximos dos lugares mais populares para surfar nos 4 ou 5 anos seguintes e o T.S.O.L., com o hino Flowers by the door tocado repetidamente antes e depois de cada surfada, do Havaí ao Brasil, passando por toda Europa, Japão, Indonésia e onde quer que houvesse um surfista empolgado.
Change today ? não é um disco brilhante, longe disso, tem no máximo umas 4 faixas realmente especiais e justo por isso devemos prestar mais atenção nele.
Como num dia de ondas grandes e difíceis, é preciso escolher a faixa com cuidado para não comprometer uma montanha de expectativas num dos mais explosivos acetatos de sempre.

PS - Os albums que essa odiada formação do True Sounds of Liberty lançou em seguida ao Change Today, Revenge (1986), Hit and Run (1987) e Strangelove (1990) formam uma pequena discoteca básica do saudosista duma época de ouro dos vídeos VHS de surfe.

quarta-feira, outubro 10, 2007

Uma onda no Chile

[Revista Surf Portugal>176]

Quando Slater desceu sua sétima onda na bateria contra Dingo no 'CT do Chile, um frio desceu pela espinha do Mick Fanning, o estômago do Andy Irons embrulhou e Joel Parkinson teve crise súbita de tosse e pigarros.
Aquele troço esquisito de largar as mãos da prancha, apoiar o corpo na onda como por preguiça e atrasar o tempo da onda ao seu bel prazer, nem um antiquado lay-back, nem o tal do pig-dog, qualquer coisa ainda sem categoria especificada e treinada secretamente por anos, ou talvez improvisado por pura força da intuição, ou instinto- quem sabe apenas vontade de mostrar aos rapazes quem manda no pedaço.
Um movimento absurdo e aparentemente impensado que pode virar ao decorrer desse ano, 2007, uma manobra corriqueira para todos top 45.
Um capricho.
Tivemos sensação semelhante em 81 quando Simon Anderson, desajeitado e instintivo, abaixou-se diante da guilhotina de Pipeline desabando sobre sua cabeça na final do Pipe Masters.
Pipe tem dessas coisas.
Michael Ho, com punho quebrado, inventou moda em 82, segurando a borda e inclinando seu corpo pra frente para varar um espetacular tubo na final.
Mas espere! Slater sequer levou a disputa contra Dean Morrison, atenta um leitor abanando o resultado impresso da internet como o advogado brada sua prova irrefutável na cena final do filme, condenando o bandido e salvando o herói de uma sentença injusta.
Sim, Slater perdeu.
E eu com isso ?
Pior pros fatos.
Um resumo do WCT do Chile deveria começar assim: eram duas da tarde quando Slater chegou na praia para sua primeira bateria sem nem olhar pro mar.
10:48 da manhã seguinte, quando olhares aterradores analisavam as possibilidades de surfar, ou não, condições pouco convidativas de surfe, 10/12 pés fechando em cima da bancada exposta, Slater dava de ombros e preparava-se pra competição (que nada valia, ou vale) entre países: ainda não vi o mar. Tá grande ? Pouco importa....
Esse tem sido o terrível ano do octa: uma surpresa atrás da outra.
Pra ele e para os outros.

Na sua terceira onda contra Adriano de Souza nas quartas em J. Bay, Slater parecia novamente alheio ao frisson que tomou o WCT em 2007, um lutador de boxe treinando com a própria sombra para aprimorar os reflexos.
Vou tentar, inutilmente, descrever a agressão: Teve muita delicadeza e uma técnica absurda ao escolher o lugar onde ganhar velocidade na onda, esse movimento, apontando levemente o bico da prancha pra cima, deixando correr um pouco e inclinando os joelhos para simular um empurrão pesado como uma bola de aço (dessas de desenho animado que demolem as casas), a cavada é a arte da repetição e o que segue, fico já arrepiado, é de uma violência atroz.
Posso chamar de rasgada, mas seria uma irresponsabilidade com todas outras rasgadas.
Foi um coice.
Slater já estava na base da onda, pronto para próxima manobra, olho fixo no ponto do ataque, e a água arrancada da sua patada ainda gotejava num raio ridículo de largo.
Aconteceu mais coisa, muito mais, tudo numa sintonia sobrenatural com os elementos, postura, drive, força, antecipação, linha.
Nat Young com Sam, a prancha que em algumas ondas encerrou uma era, Michael Peterson em Burleigh no Stubbies de 77, Curren em 86 e 90.
Até agora, estamos quase em setembro (essa coluna é escrita em agosto), o ano está pleno de incertezas: Fanning leva ou não leva ?
Terá Taj gana suficiente para a briga que se aproxima ? E Andy ? Parko ? Hobgood ?
Uma certeza fugaz (existe isso ?) paira pelos bastidores do WCT. A hora de garantir a coroa é já, sem demora.
Taj e Mick precisam afirmar suas campanhas em Trestles e Europa para selarem a contenda o mais tardar no Brasil, de outra forma, a disputa indo para o Havaí com tipos como Andy e Slater fungando na nuca é quase um suicídio.
A outra verdade não dita pela imprensa ou pelos competidores é que não há outra rivalidade, qualquer outra, senão a do Octa e do Tri.
Até entre os outros, a vontade de vencer passa pelos dois.
Em outras palavras, se durante a trajetória de um retumbante triunfo não houver uma disputa contra Slater ou Irons - e ainda urge ser briga dura e franca com troca de golpes e guarda baixa - se não tiver drama, superação, domínio, se não tiver um roteiro cinematográfico como a final do Pipe Masters, perde a graça - quem se empolga com uma final xoxa como de Jeffreys ou Chile ?
Os milhares de espectadores que grudam nos seus computadores para acompanhar o circo da ASP contam os minutos para testemunhar o combate dos líderes.
Slater perdeu para Bede em Snappers, numa bateria excepcional onde a sorte esteve com o branquelo, assim como esteve com Withaker em Bells e Dingo no Chile - e por que não com Flores ?
Contra Taj, não houve reação em J. Bay, tinha um homem só lá fora.
Andy tem sofrido com Parko, que não perde por esperar.
A segunda metade do ano pode ter um baita banho de água fria se um dos dois líderes continuarem na frente com folga ou...
Um dos mais sensacionais anos da recente história do surfe profissional.

(Nota atualizada do texto - Dificilmente Fanning não arrasta esse caneco, mas a teimosia e a sorte podem atrasar a comemoração. Que ano do Macaco albino!)