quarta-feira, outubro 10, 2007

Uma onda no Chile

[Revista Surf Portugal>176]

Quando Slater desceu sua sétima onda na bateria contra Dingo no 'CT do Chile, um frio desceu pela espinha do Mick Fanning, o estômago do Andy Irons embrulhou e Joel Parkinson teve crise súbita de tosse e pigarros.
Aquele troço esquisito de largar as mãos da prancha, apoiar o corpo na onda como por preguiça e atrasar o tempo da onda ao seu bel prazer, nem um antiquado lay-back, nem o tal do pig-dog, qualquer coisa ainda sem categoria especificada e treinada secretamente por anos, ou talvez improvisado por pura força da intuição, ou instinto- quem sabe apenas vontade de mostrar aos rapazes quem manda no pedaço.
Um movimento absurdo e aparentemente impensado que pode virar ao decorrer desse ano, 2007, uma manobra corriqueira para todos top 45.
Um capricho.
Tivemos sensação semelhante em 81 quando Simon Anderson, desajeitado e instintivo, abaixou-se diante da guilhotina de Pipeline desabando sobre sua cabeça na final do Pipe Masters.
Pipe tem dessas coisas.
Michael Ho, com punho quebrado, inventou moda em 82, segurando a borda e inclinando seu corpo pra frente para varar um espetacular tubo na final.
Mas espere! Slater sequer levou a disputa contra Dean Morrison, atenta um leitor abanando o resultado impresso da internet como o advogado brada sua prova irrefutável na cena final do filme, condenando o bandido e salvando o herói de uma sentença injusta.
Sim, Slater perdeu.
E eu com isso ?
Pior pros fatos.
Um resumo do WCT do Chile deveria começar assim: eram duas da tarde quando Slater chegou na praia para sua primeira bateria sem nem olhar pro mar.
10:48 da manhã seguinte, quando olhares aterradores analisavam as possibilidades de surfar, ou não, condições pouco convidativas de surfe, 10/12 pés fechando em cima da bancada exposta, Slater dava de ombros e preparava-se pra competição (que nada valia, ou vale) entre países: ainda não vi o mar. Tá grande ? Pouco importa....
Esse tem sido o terrível ano do octa: uma surpresa atrás da outra.
Pra ele e para os outros.

Na sua terceira onda contra Adriano de Souza nas quartas em J. Bay, Slater parecia novamente alheio ao frisson que tomou o WCT em 2007, um lutador de boxe treinando com a própria sombra para aprimorar os reflexos.
Vou tentar, inutilmente, descrever a agressão: Teve muita delicadeza e uma técnica absurda ao escolher o lugar onde ganhar velocidade na onda, esse movimento, apontando levemente o bico da prancha pra cima, deixando correr um pouco e inclinando os joelhos para simular um empurrão pesado como uma bola de aço (dessas de desenho animado que demolem as casas), a cavada é a arte da repetição e o que segue, fico já arrepiado, é de uma violência atroz.
Posso chamar de rasgada, mas seria uma irresponsabilidade com todas outras rasgadas.
Foi um coice.
Slater já estava na base da onda, pronto para próxima manobra, olho fixo no ponto do ataque, e a água arrancada da sua patada ainda gotejava num raio ridículo de largo.
Aconteceu mais coisa, muito mais, tudo numa sintonia sobrenatural com os elementos, postura, drive, força, antecipação, linha.
Nat Young com Sam, a prancha que em algumas ondas encerrou uma era, Michael Peterson em Burleigh no Stubbies de 77, Curren em 86 e 90.
Até agora, estamos quase em setembro (essa coluna é escrita em agosto), o ano está pleno de incertezas: Fanning leva ou não leva ?
Terá Taj gana suficiente para a briga que se aproxima ? E Andy ? Parko ? Hobgood ?
Uma certeza fugaz (existe isso ?) paira pelos bastidores do WCT. A hora de garantir a coroa é já, sem demora.
Taj e Mick precisam afirmar suas campanhas em Trestles e Europa para selarem a contenda o mais tardar no Brasil, de outra forma, a disputa indo para o Havaí com tipos como Andy e Slater fungando na nuca é quase um suicídio.
A outra verdade não dita pela imprensa ou pelos competidores é que não há outra rivalidade, qualquer outra, senão a do Octa e do Tri.
Até entre os outros, a vontade de vencer passa pelos dois.
Em outras palavras, se durante a trajetória de um retumbante triunfo não houver uma disputa contra Slater ou Irons - e ainda urge ser briga dura e franca com troca de golpes e guarda baixa - se não tiver drama, superação, domínio, se não tiver um roteiro cinematográfico como a final do Pipe Masters, perde a graça - quem se empolga com uma final xoxa como de Jeffreys ou Chile ?
Os milhares de espectadores que grudam nos seus computadores para acompanhar o circo da ASP contam os minutos para testemunhar o combate dos líderes.
Slater perdeu para Bede em Snappers, numa bateria excepcional onde a sorte esteve com o branquelo, assim como esteve com Withaker em Bells e Dingo no Chile - e por que não com Flores ?
Contra Taj, não houve reação em J. Bay, tinha um homem só lá fora.
Andy tem sofrido com Parko, que não perde por esperar.
A segunda metade do ano pode ter um baita banho de água fria se um dos dois líderes continuarem na frente com folga ou...
Um dos mais sensacionais anos da recente história do surfe profissional.

(Nota atualizada do texto - Dificilmente Fanning não arrasta esse caneco, mas a teimosia e a sorte podem atrasar a comemoração. Que ano do Macaco albino!)

5 comentários:

Anônimo disse...

Tem jeito não. Esse ano é do Floquito. A não ser que o cramulho apronte uma das suas. Aí a gente pede pra ele resolver o aquecimento global e a AIDS na Africa também.

Só vendo.
Weum.

Anônimo disse...

Aí Julio, o macacao albino tá demais, ele tá cagado esse ano, depois do sl8r diminuir a diferença em trestles, e parecer que iria com tudo para o 9º título, o branquelo conseguiu devolver a diferença na mesma moeda, com o Kelly perdendo numa hora péssima do mar. Agora, o macaco albino só perde o título se cair cedo nas duas últimas etapas, e o Kelly abocanhar as duas.
Vamos aguardar o show, pena que Mundaka também não deu as caras, e pelo visto nem vai dar, talvez só no último dia do prazo de espera.

Paulo de Tarso Duarte disse...

Vai ser a grande ironia do destino, se o nono do careca depender no Hawaii, do Andy aplicar a queda no Fanning...
Andy visivelmente tirou o pé este ano. Nítido na maioria dos campeonatos, a expressão corporal e a postura em baterias, completamente desfocado.

fazedor de filmes da esquina disse...

Depois da empurradinha que deram na bateria do Cramulho contra o Jeremias, se o Macaco levar vai ser bem merecido - apesar da turma aqui ainda torcer pro Carlos...

> amigos, se quiserem ver as imagens (e precisa?) do q o texto do tio Juio descreve tao bem, ta la no blog do Sal, nos posts de julho. www.gruposal.com.br/blog <

abs

Bodhi disse...

Comentário no webcast sobre a bateria do Mineirinho contra o cramulho: pro slater ganhar do Minero é um passeio no parque.
Sinceridade demais as vezes é falta de respeito.

O macaco albino ta fazendo as maiores somatórias nos últimos campeonatos, é o defensor do wct no Brasil, ja fez final em Pipe e parece o surfista mais focado do tour atualmente. Se deixar escapar esse titulo realmente pode pensar em aposentadoria. Parece que ninguem lhe garfa o bolo.

Mesmo assim seria irado ver o KS levar o nono! Aí a molecada pode se preparar pra fazer um abaixo-assinado pra ele sair do ct haha