quarta-feira, novembro 30, 2005

Curren

[texto da revista Surf Portugal, Outubro 2005, Nº153]

Curren

Se alguem ousasse dizer, no arder dos findos anos 90, que o um surfista de 41 anos de idade seria o destaque da etapa do WCT em Trestles, onde o surfe respira cifrões como num quadrinho do Tio Patinhas, arriscaria a ouvir uma sonora gargalhada acompanhada dos maiores desaforos e deboche para mais de mês.
Tom Curren passou pela triagem de 16 estrelas, que incluía Bob Machado, levou cano na primeira fase e bomba na repescagem, mesmo assim só se falava dele de Imperial Beach até Steamer Lane.
Curvou-se Andy Irons, derramando elogios ao tambem Tri-campeão mundial depois da bateria que competiram juntos na primeira fase: ‘O cara é uma inspiração! Olhando sério pra mim e encarando como fazia nos anos 80… e as suas famosas rasgadas, na minha frente, jogando água no meu rosto…o cara é sensacional…ainda ebm que tive uma ajuda dos juízes’ – faltou agradecer ao TC por ter espirrado água santa e pedir autógrafo.
Exageros à parte, a inversão do culto ao teen é mais uma obra do Santo Curren, coisa que Occy, mesmo com sua fantástica recuperação e título mundial combinados com vídeo biografia, não conseguiu.
O mais impressionante dessa história é que nem foi preciso um resultado fabuloso, fogos de artifício, modelos bizarros de prancha, tragédias pessoais, revoluções no sistema de julgamento, nada disso.
Curren apenas continuou na dele, fazendo o que sempre fez, competindo aqui e ali, tentando verdadeiramente se reclassificar, ou classificar desde que nunca fez parte do WCT, embora sem sucesso, mas sem sair atirando no sistema da ASP, como Gerlach, Beschen e Machado. O homem quieto de Santa Barbara acredita no que faz e sabe que tudo é questão de tempo – e ele é dono do seu.


Curren voltou às capas de todas revistas como nada tivesse acontecido

Tempo que é generoso com ele, fixando bem que trata-se de 41 anos, um senhor com dois casamentos e 3 filhos, tempo que passa por baixo de sua prancha em cada onda que surfa com seu posicionamento mágico – o surfista mais copiado de todos tempos(olha ele aí de novo!) e jamais imitado.
Slater foi um dos que bebeu na fonte, dividindo ainda no princípio da carreira os mesmos patrocinadores, OP e Al Merrick, com o maior ídolo da América- o surfista que encerrou de vez o domínio australiano em 10 anos de circuito mundial, com excessão do título em 77 do Sul-africano Shaun Thomsom - logo em seguida ao mundial amador do Japão em 90, Slater foi mandado para uma ‘clínica’ com Curren na França, para ‘polir’ seu estilo com o ‘mestre’.
Em 85 ele era apontado como imbatível, sobrenatural, exemplo a ser seguido dentro e for a d’água, todo aspirante a competidor rodava o braço e virava a cabeça quando batia na junção, em 95 suas viagens na campanha criada por Derek Hynd para Rip Curl, The Search, mudaram o comportamento da nova geração, impondo silenciosamente uma democracia de equipamento, com fishes e afins em qualquer condição de surfe que originou uma onda retrô que enche os bolsos da indústria a uma década.
Chega 2005 e o brilho não diminui.


Foto gentilmente afanada do saite do fotógrafo Sean Davey


A própria Rip Curl o recontrata e lança produtos com seu nome, aparece nas capas das principais revistas de surfe do planeta e é apontado como destaque da temporada Havaiana, segue o WQS atrás de pontos e atrái cada vez mais devotos, como no episódio em Maldivas, onde dividiu um barco com a nata da nova geração de brasileiros durante uma semana e deixou Jihad, Trekinho, Bruninho, Junior , Pedrinho e o diretor Rafael Mellin boquiabertos em sessão exclusiva.
Os garotos sequer quiseram surfar, preferindo admirar a linha do pontífice do estilo, aplaudindo cada onda como apreciadores de música barroca ao assistir um concerto.
O carisma desse sujeito é uma coisa irrestível.
Passa geração, entra geração e Curren permanece como mito, vide a reverência quase religiosa que se faz à ele em Trestles, ou na etapa de Reunião, quando os top 45 se acotovelam para assistir as exibições de classe ímpar.
A indústria, tão voltada para a juventude consumidora maciça, esquece por alguns momentos dos seus vícios e tambem se curva, deixa de lado Andy, Bruce e Kelly, volta os holofotes para o semi-Deus e avisa que por trás daquele circo, dos milhões de Dólares, das mega-lojas, das ações em Wall Street, por trás disso tudo, temos história.
Curren resiste ao tempo, o tempo por sua vez não resiste à Curren.
O maior enigma que o surfe ousou ter.

terça-feira, novembro 29, 2005

Malvados

Sua dose diária de sarcasmo - agora em livro.


Damn everything but the circus

Damn everything but the circus!

Damn everything that is grim,
dull, motionless, unrisking, inward turning,
Damn everything that won't get into the circle,
that won't enjoy, that won't throw its heart
into the tension, surprise,
fear and delight of the circus,
the round world, the full existence...
Damn everything but the circus!

E.E. Cummings

[Anúncio da marca 'Golden Breed' na revista Surfer vol.12 No 3 1971 estrelado por David Nuuhiwa.
Nessa mesma edição, uma grande reportagem sobre a tres quilhas do Reno Abelira e um texto magnífico do Rick Grigg chamado ' As grandes ondas de Dezembro de 69'.]


Não senhores, esta não é a foto do anúncio, mas sim, este é Mister Hang ten

quinta-feira, novembro 24, 2005

Raoni

Um final de ano arrasador quando espremido pelas paredes do WCT e WQS.
Imaginem esse malandro com gana e concentrado desde o primeiro campeonato da temporada.
Imaginaram ?
Agora pensem nas maiores médias de Haleiwa, nos escalpos, na bateria contra Fanning em Imbituba, a demolição em J. Bay surrando O'Rafferty, Macca e Hog e vejam o tubo no Backdoor de Pipe em 2004.
Se o MIneirinho conseguir surfar com metade da potência do Raoni periga ser mesmo campeão mundial, mas hoje, novembro de 2005 nenhum brasileiro enche tanto meus olhos.




A turma brincava dizendo que Raoni era um cruzamento entre o surfe do Slater e do J. Boy Gomes.

segunda-feira, novembro 21, 2005

Ouvi alguem dizer sexta vez ?


Slater tem 5 títulos do mais prestigioso evento de surfe do mundo.
Desde 1999 chega perto mas não leva.
Andy e Bruce juntos superam Slater por uma coroa - levando em consideração os WQS que venceram em 96, Andy, 01 e 02, Bruce.

Mal posso esperar pelo Pipe Masters

quarta-feira, novembro 09, 2005

Sete



Sete é triunfo.
Não que me importe com isso, mas que é curioso, lá isso é.


Slater na sua sétima latinha.

Dez anos de idade já levantando troféu. Com 14 campeão mirim, selecionado para o mundial de Newquay na Inglaterra, ainda um pingo de gente, mais novo competidor, América do norte ganha por times. 15 anos e já é penta da categoria mirim da costa leste e duas vezes campeão americano. Em 1987 é hexa mirim.
Sobrou pouco pra fazer.
1992/1994/1995/1996/1997/1998, ai se não resolvem proteger o Derek...
Foi criar galinhas e voltou nono do ranking.
Parecia o Vasco, vice e vice.
Relaxou um pouco, terceiro.
Agora, pimba!
Sete!
Sua reação comovida foi redentora, o surfe ganhou sua humanidade de volta.
As lágrimas do Carlos são autênticas como sua supremacia.
Sem conter o choro na frente dos milhares de fãs que o assistiam, Slater se aproximou ainda mais do surfista comum.
Não estava ali um Homem vencendo seu sétimo título, era um garoto.
Poderia ser o pranto emocionado do Mineirinho na Bahia, não é verdade ?
Estamos falando dum camarada que comeu a Pamela Anderson, pegou os tubos mais ridículos que jamais testemunhamos, em Fiji, Tahiti e J. Bay. O Malandro sai com Gisele Bundchen, dirige um Porsche 911 Carrera, surfa Pipeline feito estivesse no PS2 e trabalhou em Hollywood.
Slater sabe como lidar com emoções fortes.
Sujeito tem todos motivos do mundo para considerar-se um ser sobre-humano e age ordinariamente como todo resto de nós.
Isso é mesmo um ídolo, desses de colar foto na parede, de decorar frases e imitar trejeitos.
Nunca o surfe acompanhou um ícone tão transparente, ninguem se expôs tanto.
Slater creditou sua arrancada no meio do ano aos garotos que o acompanharam na viagem de barco para filmar o 'Young Guns', encartado na Fluir de Outubro.
Recebendo os parabens pelo 7, repetiu que gostaria de dar um abraço no Andy e lhe agradecer por ter feito seu feito tão maior e valoroso.
'O legítimo espírito do surfe é compartilhar' disse Wayne Lynch no Litmus, 'se voce ainda não entendeu isso, voce não entendeu nada'.
Slater entendeu a mensagem como poucos.


Uma onda de sorte

Crônica de uma derrota Anunciada



Pouco se falou sobre a derrota do Victor Ribas para Damião.
Fácil de entender que o sétimo título do Rei Slator ofusca até o brilho do sol, difícil engolir a mão grande que usurpou o caneco do nosso Gambázinho.
O histórico do Vitinho já apontava uma certa má vontade dos juízes para soltarem notas, principalmente os juízes brasileiros, por mais absurdo que possa parecer.
Foi o caso do Kaiser Summer surf de 1997, quando Greg Emslie virou uma bateria ganha em cima do Vitinho e deixou a praia inteira frustrada.
Vitinho é baixinho, calado e moreno demais para detonar o ufanismo que a malta da ASP gostaria de defender.
As pedras que ele atirou (e que não construíram castelo algum) na etapa de Maldivas depois de mais um julgamento equivocado não ajudou muito sua reputação.
Cordial na maioria das vezes, Victor nem reclamou de perder para Róbinhúdi Esquerdo e saiu de fininho junto da galera para comemorar o sétimo do Rei Slator.
Imaginemos o Michael Schumacher ganhando o sétimo dele aqui no Bananão e o Rubinho chegando injustamente em segundo no GP.
Galvão, incendiário, tomaria as dores da nação, sem sombra de dúvida, bradando suas impropriedades sem pensar.
Nenhuma fotinho do Rubinho nos jornais no dia seguinte ?
Difícil crer...
Importante é encher linguiça com informações requentadas, diz o manual.
Brasileiros são apenas necessários quando estórias tristes de superação e Vitinho fala pouco.
No jantar que vai oferecer ao Hog Hedge, R.K.S poderia convidar Ribas para um brinde, afinal foi em 1990, logo após o mundial amador do Japão que o menino de ouro da Praia do Forte entregou ao menino de ouro de Cocoa, de mão beijada, uma bateria fundamental na carreira do maior surfista de todos tempos.



Crime do século

Lacanau, França, Curren fazendo mágica por todo canto com sua Maurice Cole meia-zero de isopor.
Era pré-WQS/WCT, quem quisesse entrar no campeonato, entrava.
Até eu entrei, vejam voces - levei dez pranchas para pagar a viagem.
Tinha tanta gente no primeiro evento da maravilhosa perna européia que a ASP decidiu fazer uma pré-triagem.
Slater, Peterson com 15 anos!, Renan e Jake Paterson estavam na tal da pré-triagem, suando a camiseta pra chegar, 2 fases depois, na triagem - e daí mais umas 5 até o 'main-event'.
Em Lacanau naquele ano as duas sensações do campeonato eram Slater e Curren.
Slater ainda não tinha fechado seu primeiro contrato milionário com a Quiksilver e deixara escapar o tão anunciado título mundial amador para um Tahitiano desconhecido, Tahutini Heifara, que, segundo reza a lenda, jogava uma bola redondinha e abandonara o futebol pouco antes do certame.
As pranchas, de Curren e Slater, faziam toda diferença - uma, a antítese da outra.
Kelly surfava com uma prancha que mal parecia aguentar seu peso de tão estreita e fina, Curren por outro lado, surfava com um tarugo que sustentaria fácil ele e Slater juntos.
Pois, passando pela pré-triagem, Slater enfrentou um trialista faminto por escalpes: o não menos fenomenal brasileiro Flávio 'Teco' Padaratz, que despontava como um sucessor do Occy, veloz e explosivo.
Foi um-dois, Teco em primeiro e Slater em segundo - resultado que se repetiria 4 anos depois em Hossegor, numa final inesquecível para ambos.
Na segunda fase, Vitinho enfrentaria mais uma vez Slater (já conheciam um ao outro do Japão), numa bateria que tinha ainda Paulo Kid e um goofyzinho magrelo de Cronulla, Adam Brown.
Victor trucidou as ondinhas de Lacanau, maré vazia, Brown vinha em segundo, Slater perdido em terceiro.
Faltando um minuto, o locutor anuncia que Victor já atingiu sua cota de dez ondas e pode sair d'água.
Slater precisava de uma boa nota para virar em cima do magrinho, que por sua vez precisava de combinação pra alcançar Vitinho.
Poucos segundos do apito, o cabofriense rema e surfa sua décima-primeira onda - interferiencia, menos uma nota das tres que contavam.
Slater passa em segundo, faz miséria: baterias épicas contra Pottz, Wood e Carrol.
Semi contra Curren, o mito cresce.
A partir daquele vacilo do Vitinho nasceu uma carreira promissora, apesar das falhas que a imprensa americana não perdoara em Slater, como não conseguir repetir os mesmos passos de Curren nos mundiais amadores.
Naquele campeonato foi tudo perdoado.
Slater passou a ser apontado novamente como futuro do esporte e voltou tranquilamente para terminar seus estudos na Florida.
Não pensem, pelamordoCurren, que estou dizendo que Slater deve seus louros ao Victor, mas um erro, desta vez, justifica o outro.

E que Deus ajude

Sim, fui injusto com Heitor Alves, que muito nos orgulhou com sua retumbante vitória no 6 estrelas.
Na etapa Ilha-da-magia do 'CT, o matuto pulador Kirk Flintoff com seu surfe sem borda foi muito mais irritante, ou Luke Stedman, ansioso por alguma coisa que ainda não sabemos o que é, estejam certos que manobras não são.
Cory Lopez permanece como o rei do estilo, seguido de perto por Odirlei e Guga.

segunda-feira, novembro 07, 2005

TV Pirata

Versão: Pipocam fogos de artifício, ecoam os gritos de gol, corro para janela e berro com todas exclamações que cabem numa frase.
Os olhos não desgrudam um segundo sequer da tela da TV, o futuro do time que torço está em jogo.
25 minutos do segundo tempo, empate é péssimo resultado, locutor e comentarista chamam, em pleno ataque arrasador da minha equipe, uma celebridade no estúdio, corta para celebridade constrangida, 'Ué, voces não deveriam estar mostrando o gol?'.

Fato: Slater tem a bateria mais esperada do WCT, centenas de pessoas de acotovelam de pé na beira d'água em Imbituba, assinantes do canal pago SporTV tem toda sorte de acompanhar ao vivo o evento sem sujar os pés de areia.
A expectativa é tão grande que o ar fica pesado, tenso, os apresentadores tentam disfarçar.
Slater surfa duas ondas fracas e dá impressão de ansiedade – evitou o surfe para esquentar de manhã cedo – parece querer colocar a prancha no pé e sentir melhor a onda gorda e fraca da Praia da Vila.
Diana, sempre animada, nos avisa que o Skatista homônimo da nova estrela do surfe, Mineirinho, acompanha, ao vivo, a bateria.
O que acha o skatista de tudo isso ?
Corta para Mineirinho constrangido em estúdio no Rio de janeiro, ‘Ué, voces não deveriam estar mostrando o aéreo imbecil que o Cramulhão mandou agora na última onda ?’.
Morou ou boiou ?

Acabou a paciência com a transmissão ao vivo.
Pulo para internet, em inglês, estão os dois concentrados na bateria, afinal o motivo deles estarem ali é exatamente esse.

Os ossos do barão

Por alguma razão que ninguem consegue explicar, resolveram que o surfe é apenas interessante decorado por periféricos.
Não é novo não. Aconteceu nos 70, repetiu-se nos 80 com grande esperança e renasceu nos 90 com os tempos modernos.
Cíclico, como o humor dos Deuses dos Mares.
Transmissão de campeonato de surfe precisa de ‘elementos’, como gostam de dizer nos veículos de comunicação, coisinhas tipo mulheres bonitas fazendo perguntas idiotas e repetindo informações como atendentes de tele-marketing, repórteres eficazes e aplicados na fórmula Armando Nogueira de romantizar e esmerdalhar qualquer assunto banal, palhaço, malabarista, domador e equilibrista.
A ordem de cima deve vir mais ou menos assim: ‘Tudo, menos surfista’.
Quando exibem 12 horas seguidas de tênis é locutor sério e comentarista analisando o que acontece na quadra.
A mesmíssima coisa com Basquete, Ginástica Olímpica, Futebol de salão, de praia, ou Vôlei.
Uma transmissão dessas, com exclusividade, tanta gente envolvida, um esforço enorme e grana preta é destinada, ouso acreditar, para entusiastas do esporte.
No surfe é para todo mundo, menos para o surfista.
Um camarada que se exalta com Bocha, como o taxista que conheci em São Paulo, jurava ser bocha o esporte mais emocionante desse mundo, ‘nada igual ao bocha’, repetia com rosto vermelho.
Voce pratica esporte ?
Respondi que fazia surfe de vez em quando e o olhar que o coroa lançou pelo retrovisor foi pra lá de descrições, perdido entre decepção e pena.
‘Tsc, tsc… coisa mais sem graça…’
O que tento dizer é que esse ser cegamente fiel que é o surfista gosta de ser tratado com respeito, principalmente quando falamos de ASP, Slater e Irons.
Já não basta o gigantesco equívoco do Pauno Lima fingindo que apresenta o programa do WCT e nós fingindo que acreditamos ?
Falta urgentemente uma direção na transmissão do WCT, uma liderança que oriente camêras a focalizarem os surfistas nas poucas vezes que eles trepam nas pranchas.
Numa bateria de 30 minutos os competidores não ficam mais de dois ou tres minutos de pé na tábua, como dizia meu Pai.
É pouco, muito pouco e requer toda atenção da equipe de cinegrafistas.
Tempo, há de sobra, quando eles remam de volta, para os comentários dos apresentadores se pertinentes ao campeonato.
Imperdoável que se deixe de exibir uma única onda na transmissão – seria equivalente a perder o duplo twist carpado da Daiane ou um gol do Pet aos 47 do segundo tempo.
Reconheço que é muito melhor ter do que não ter um mimo destes, mas seria muito melhor se feito por quem entende do riscado, como Bocão, por exemplo.


Essa é pra tocar no rádio

Segunda feira, dia 7 de Novembro, a carruagem do Heitor Alves virou abóbora. Diante do surfe limpo e eficaz do tri-campeão Andy, o cearense parecia uma galinha d’Angola de tanto que ciscava.
Cisca pra cá e cisca pra lá, tome bomba de Irons, firme, potente, ainda que meio desajeitado com aquela onda chôcha, toda torcida contra.
O julgamento desse campeonato remonta de duas décadas atrás quando os locais ganhavam pontos extras para fazer média com o público.
Na transmissão, repetia-se uma mentira várias vezes, como Goebbels, até virar verdade.
Luciano do Vale fazia isso com Maguila, empurrando goela abaixo o gigante do queixo de vidro até ele ser finalmente trucidado por Holyfield e um lento e pesado Foreman.
Perdoem-me se não consigo digerir o surfe dos novos salvadores do surfe nacional e acredito apenas no talento do Trekinho, Pedrinho, Raoni, Mineirinho, Pigmeu e Léo.
Hei de ver dois comentaristas discutindo em alto nível sobre estilo, força, posicionamento, equipamento e estratégias de competição sem recorrer ao ponto eletrônico.
Espero ver, talvez nos próximos 200 anos, alguem isento que nem queira fazer média com público ‘jovem’, defendendo exaustivamente a nova geração como se esta precisasse de defesa, nem malandro advogando em causa própria na esperança de eternizar-se virtualmente.
O surfe tem mais uma chance histórica de alcançar o status de esporte com direito à transmissão ao vivo e tem provado na internet que o caminho é duro, mas prazeroso.
John Shmooka, ele mesmo um excelente surfista e ex-competidor, arrebenta como mestre de cerimônias nos eventos da Quiksilver, que convida seu ilustre time de membros que vai desde Tom Carrol até Martin Potter, dois campeões mundias sem papas na língua.
Os programetes Live at 5 são belas pílulas ao final de cada dia de competição e funcionaria muito bem no SporTV se houvesse gente capaz de produzir coisa semelhante – e há, afirmo sem medo, Bruno Bocayuva é prova disso, tem num dedo mais cultura de surfe (e geral…) do que toda equipe em Floripa.


Simpatia pelo Diabo

O Fascinante de ouvir os papos do Mark Richards com Cheyne Horan está no detalhe.
O magrelo corcunda foi questionado sobre os ‘novos critérios da ASP’ e saiu com essa:
‘Isso é balela! O que dá nota e sempre vai dar nota é surfe bom, puro e simples. Aéreo, rasgada, um velho e bom cut-back ou uma porrada, não importa, voce sabe quando o cara tá surfando de verdade.’

Eu vi a luz

Ainda no aborrecido assunto da cobertura da imprensa no Dabúcetê.
No Jornal Globo, o enviado ‘quase’ falou sobre uma possível politicagem no evento, mas como é convidado da produção não pode dizer um ‘ai’ dos anfitriões.
Toda imprensa vai à convite do evento e é cortês de retribuir a gentileza com elogios.
Enquanto isso, nem uma única palavra sobre a escolha de uma das piores ondas do litoral como palco de tão importante evento.
Santa Catarina tem um dos mais bem dotados (êpa!) recortes de litoral do Salvelindo, das espetaculares esquerdas da Guarda até os tubos do Moçamba, mas curiosamente as únicas ondas que são levadas em consideração são Praia Mole, Joaca e Vila.
Qual sentido em ter as maravilhas da mobilidade ?
Alguem ouviu o tilintar de moedas ?

sexta-feira, novembro 04, 2005

Manual de redação



Enquanto seu Lobo não vem com o swell, a turma sai como pode do labirinto de (des)informação.
O sonho de miss de todo jornalista aprisionado na Ilha da magia é dar de cara com Elslator e La Bundchen, com trema, dividindo uma bela garrafa de vinho de segunda em restaurante de terceira.
Alguns, aflitos com falta de pauta, superam-se criando a pauta da falta de pauta.
Enviado de grande representante da imprensa carioca, mais cego que perdido em novela de faroeste da platinada, bosteja sem medo do dia de amanhã - ninguem dá bola mesmo pra surfe no jornal onde trabalha.
'Escreve qualquer merda', orienta o chefe de redação de periódico esportivo, surfista não sabe ler e os que sabem, leêm revista de surfe, dá no mesmo.
Aqui, no parágrafo acima, a porca torce o rabo.
O surfe não tem uma cobertura decente na imprensa impressa porque está sempre aborrecido ou está sempre aborrecido porque não tem cobertura decente ?
Quer dizer que falta de ondas é manchete ?
Temos 48 surfistas disponíveis para um papinho furado, assessor de imprensa e tudo, fotógrafos, empresários, gatchinhas, organizadores, mudelo e manequim atravessando a rua pra lá e pra cá, os incasáveis baba-ovo(s) da A.B.O.G., os sempre solícitos aviõezinhos, toda sorte de gente que orbita um Dabliúcetê e nada de assunto.
'Como tem sido seu ano, fulaninho ?' Pergunta circunspecto o repórter de testa franzida.
'Dei essa resposta para o cara de boné, tatoo gigante no braço e camisa da Hinano nem faz 5 minutos.' Responde entediado o tope 36 sem alterar o tom de voz.
'Suas expectativas pro futuro?', sorri vitorioso o pobrezinho...
'Pergunta pro baixinho de óculos Chips e costeletas ou pro magrelo de cavanhaque e piercing que eles acabaram de fazer a mesmíssima inquisição...' replica o gringo sem olhar pro malandro e emenda, 'Se quiser saber mais alguma coisa, passa no quarto com uma mutuca de fumo ou poeira e depois a gente vai pra noite', pelo menos o cara arranha um inglês, pensa cá com seus botões o camarada de nome difícil.
O rosto do repórter ilumina-se.
Enquanto o próprio surfe não se levar a sério e exigir cobertura decente dos grandes veículos, o esporte não sobe o degrauzinho de um tênis ou volêi.
Nem o saite exclusivo do campeonato se dá ao trabalho de realizar uma única entrevista fora do protocolar bê-a-bá do jardim de infância.
Não há, repito, não há imprensa séria envolvida com o surfe no Bananão.
Ficamos na periferia dos deslumbrados.
Estamos tão bêbados de gratidão pelos idolatrados 44 estarem aqui, sim aqui, na nossa imensa e humilde choça, que nos basta.
Pronto.
Somos puro regozijo pela enorme gentileza que nos concede a ASP em permitir que nós, singelos terceiro-mundistas, possamos desfrutar da companhia de vossas altezas do reino do WCT.
Não os trataremos, portanto, como humanos, devemos nos portar com submissa reverência e jamais parar de sorrir enquanto na presença de alguem que fale idioma distinto do nosso - o que exclui os portugueses de tal comportamento, evidentemente.
Jamais contrariar ou discordar de um surfista ranqueado nos 120 primeiros lugares dos rankings combinados WQS e WCT, contanto que não fale português.
Evitar emitir opiniões.
Escrever sempre idade, local de nascimento e colocação atual, usar Google, perguntar ao colega da cadeira ao lado.

terça-feira, novembro 01, 2005

Discurso de despedida

[Blog serve para essas coisas. Um dos melhores textos que li em toda minha vida foi esse discurso que John Cleese leu no funeral do sexto Monty Python, Graham Chapman.
Amigo é para essas horas.
clica aqui para ver o discurso no Windows Media player]



Graham Chapman, co-author of the 'Parrot Sketch,' is no more.

He has ceased to be, bereft of life, he rests in peace, he has kicked the bucket, hopped the twig, bit the dust, snuffed it, breathed his last, and gone to meet the Great Head of Light Entertainment in the sky, and I guess that we're all thinking how sad it is that a man of such talent, such capability and kindness, of such intelligence should now be so suddenly spirited away at the age of only forty-eight, before he'd achieved many of the things of which he was capable, and before he'd had enough fun.

Well, I feel that I should say, "Nonsense. Good riddance to him, the freeloading bastard! I hope he fries. "

And the reason I think I should say this is, he would never forgive me if I didn't, if I threw away this opportunity to shock you all on his behalf. Anything for him but mindless good taste. I could hear him whispering in my ear last night as I was writing this:

"Alright, Cleese, you're very proud of being the first person to ever say 'shit' on television. If this service is really for me, just for starters, I want you to be the first person ever at a British memorial service to say 'fuck'!"

You see, the trouble is, I can't. If he were here with me now I would probably have the courage, because he always emboldened me. But the truth is, I lack his balls, his splendid defiance. And so I'll have to content myself instead with saying 'Betty Mardsen...'

But bolder and less inhibited spirits than me follow today. Jones and Idle, Gilliam and Palin. Heaven knows what the next hour will bring in Graham's name. Trousers dropping, blasphemers on pogo sticks, spectacular displays of high-speed farting, synchronised incest. One of the four is planning to stuff a dead ocelot and a 1922 Remington typewriter up his own arse to the sound of the second movement of Elgar's cello concerto. And that's in the first half.

Because you see, Gray would have wanted it this way. Really. Anything for him but mindless good taste. And that's what I'll always remember about him---apart, of course, from his Olympian extravagance. He was the prince of bad taste. He loved to shock. In fact, Gray, more than anyone I knew, embodied and symbolised all that was most offensive and juvenile in Monty Python. And his delight in shocking people led him on to greater and greater feats. I like to think of him as the pioneering beacon that beat the path along which fainter spirits could follow.

Some memories. I remember writing the undertaker speech with him, and him suggesting the punch line, 'All right, we'll eat her, but if you feel bad about it afterwards, we'll dig a grave and you can throw up into it.' I remember discovering in 1969, when we wrote every day at the flat where Connie Booth and I lived, that he'd recently discovered the game of printing four-letter words on neat little squares of paper, and then quietly placing them at strategic points around our flat, forcing Connie and me into frantic last minute paper chases whenever we were expecting important guests.

I remember him at BBC parties crawling around on all fours, rubbing himself affectionately against the legs of gray-suited executives, and delicately nibbling the more appetizing female calves. Mrs. Eric Morecambe remembers that too.

I remember his being invited to speak at the Oxford union, and entering the chamber dressed as a carrot---a full length orange tapering costume with a large, bright green sprig as a hat----and then, when his turn came to speak, refusing to do so. He just stood there, literally speechless, for twenty minutes, smiling beatifically. The only time in world history that a totally silent man has succeeded in inciting a riot.

I remember Graham receiving a Sun newspaper TV award from Reggie Maudling. Who else! And taking the trophy falling to the ground and crawling all the way back to his table, screaming loudly, as loudly as he could. And if you remember Gray, that was very loud indeed.

It is magnificent, isn't it? You see, the thing about shock... is not that it upsets some people, I think; I think that it gives others a momentary joy of liberation, as we realised in that instant that the social rules that constrict our lives so terribly are not actually very important.

Well, Gray can't do that for us anymore. He's gone. He is an ex-Chapman. All we have of him now is our memories. But it will be some time before they fade.