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domingo, julho 03, 2016

Picareta

O Gato e o felino, foto genial e definitiva do Jair Bortoleto


Houve um tempo onde nada mais importava do que o surfe que você assistia sentado na areia.

Na alvorada dos anos 80, ver Picuruta pegando onda era uma experiência inesquecível.

Quando ele surge, em 1981, no Waimea 5000, podemos dizer sem exagero que testemunhamos o nascimento do surfe moderno no Brasil.

Curioso é perceber agora, 35 anos depois, que Picuruta não era o mais radical, esse mérito era do Cauli.

Nem era o mais rápido, Fred voava nas marolas do Arpex e Prainha como nenhum outro - exceto talvez Joey Buran.

Tambem havia quem fosse mais criativo, lembramos logo do fenomenal Tinga.

Tampouco seria o melhor nos tubos, Valdir era o rei.

O que Picuruta tinha era exatamente o que todos outros tinham e uma coisa nova e diferente, o futuro.

Começava pela pisada.

Quando o caçula do clã Salazar ficava em pé, sua velocidade era instantânea, não precisava balançar os braços, mexer a prancha, ficar aflito, era magia pura.

Voces não viram porque ainda não havia câmeras na praia, apenas as fotograficas.

Nós sentávamos na areia para poder ver de perto os gringos na única vez que eles apareciam aqui no ano, era nossa chance de acompanhar as novidades, fosse uma biquilha double wing swallow com canaletas, uma cordinha com colorido diferente, um short Sundek, Katin ou Quiksilver, um colete Rip Curl ou parafina com aromas distintos.

A sede pela informação era tamanha que ninguém arredava pé da praia enquanto houvesse gente surfando.

Quando chegava um amigo que não pode faltar a aula, era recebido com um entusiasmo digno de veteranos de guerra ao descrever uma batalha,

Voce precisava ver a caverna incrível que o Jim Banks pegou no Castelinho!!!

 Dane Kealoha deu uma batida e todos vimos o fundo da prancha dele aqui na areia!!!


Quem contava um conto, aumentava um ponto e as histórias iam ganhando corpo e força a cada copo de mate Leão com limão.

Rico e Picuruta, dois nomes que andaram juntos nas paginas da Visual Esportivo 


Nenhum dos garotos tinha talento ou coragem para tentar a sorte nos internacionais, apenas Gugu Buchaul com alguma coisa em torno de 15 anos e um surfe dinâmico e eficiente, á frente de todos outros meninos, mas isso já deve ter sido em 82.

A verdade é que alguns surfistas tinham o status de deuses, Shaun Tomsom, Mark Richards, Cherne Horan, Dane, Mike Ho…

Aquela semaninha era nossa janela pro mundo e Picuruta entrou pela porta da frente, sem bater, sem avisar.

Não que ele fosse um completo desconhecido, de jeito nenhum.

Já se falava dele, mas os caras mais velhos era seus adversários e não iam ficar falando de um santista com tanta reverencia.

Foi preciso que ele viesse aqui, na nossa frente, mostrar o quanto cortava a água quando rasgava, o tamanho dos leques que ainda insistiam em cair em gotas quando ele ja preparava a próxima manobra.

A turma sabia o que esperar dos gringos, sabia o que esperar do Cauli, do Fred, do Daniel, do Valerio, do Pitz, do Castejá, mas o que ninguém esperava era o Picuruta.

A violencia quando trazia a prancha de volta já avisava que precisaria de três quilhas pra aguentar os coices.

Um corpo compacto, firme, capaz de trocas de direção bruscas sem sacrificar a elegância.
Não vou entrar na mitologia dos santistas daquele tempo, isso vale um livro inteiro de histórias inacreditáveis para os rapazes exemplares de hoje.

Tudo bem, conto uma, sem dar nomes.

Naquela época havia ainda a figura do sorveteiro no calçadao do Arpoador, e o sujeito, desavisado, cada vez que ia servir uma concha de sorvete ao freguês, pegava a casquinha, abria o refrigerador, entregava o sorvete, recebia o dinheiro, dava o troco e tudo não demorava mais que dois minutos.

Pois os camaradas ficavam ali, em volta do sorveteiro, esperando a chance de poder roubar uma colherzinha…
Diante do mau humor do homem, enquanto ele servia uma casquinha, vinha um sacana e cuspia de lado dentro do carrinho.
A turma caía no chão de tanto rir e o pobre do sorveteiro ia ficando mais e mais irritado até decidir ir embora.

Pau comia direto, dentro e fora d’água.

Baterias com resultados duvidosos eram resolvidas no braço ou no grito.

Surfistas eram tudo, menos bons garotos e os festivais eram uma grande
oportunidade de negócios para alguns, se é que me fiz claro.

Nesse ambiente hostil, Almir, Lequinho e Picuruta tinham que sobreviver do jeito que dava.

Com 14, 15 anos, a gente sabia que não podia dar mole, senão rodava.

Todo mundo rodava.



Mas ninguém, ninguem mesmo, surfava como Picuruta.

Bigode e seu filho

sexta-feira, agosto 16, 2013

Cauli




Olha, não fica aborrecido, preciso te dizer uma coisa, ao pé da orelha- aqui entre nós.
Tenho pena dos camaradas que não ouviram o esporro da pancada que era a batida de backside do Cauli.
Ouvia-se de longe.
Aquilo era o cartão de visita do camarada - Pà! muito prazer, Cauli Rodrigues.
O rapaz mais jovem e atento pergunta quem foi Cauli - e pergunta com razão.
Não se fala muito do Cauli.
Eu mesmo, que sustento uma coluna mensal desde 1993, escrevo muito mais sobre Curren e Slater do que Cauli.
Em 2013, quase quarenta anos depois de ter surgido como promessa do surfe brasileiro, Cauli ainda surfa  com a mesma paixão dos seus primeiros anos, antes do sol nascer, quando pode.
A motivação dele sempre foi a superação, afinal de contas um dos seus companheiros mais leais era o surfista mais competitivo daquela geração, o campeoníssimo Pepê Lopes.
Pepê se destacava em tudo que fazia, e ainda vencia sem dó nem piedade quem passasse pela sua frente. Foi assim com hipismo, surfe e voô livre.
Quando juntava Pepê e Cauli, não tinha pra ninguem.
Era uma mistura de talento, determinação, sorte (sem sorte não se chupa nem um picolé, escreveu Nelson Rodrigues) e uma disciplina quase militar.
Em 1976, quando o circuito mundial de surfe profissional dava seus primeiros passinhos, Pepê terminou em 18º lugar, competindo em apenas 4 campeonatos. O australiano Peter Towned ganhou o circuito malandramente com 10 eventos nas costas - só ele e Ian Cairns competiram tanto, e entenderam o mecanismo dum circuito com raking.
Faço questão de recordar que, em 76, Pepê ganhou o Waimea 5000 aqui no Arpoador e foi o primeiro brasileiro a fazer uma final no Havaí, no Pipe Masters.
Cauli reparou que na foto dos seis finalistas do campeonato mais prestigiado do mundo, Pipe Masters, Pepê era o único que trazia uma logomarca na sua prancha, o JB do Jornal do Brasil, um dos principais jornais da época, hoje quase extinto - disponível apenas na internet.
Pepê era portanto o único legitimamente patrocinado.
Podem procurar no google.



A memória do Cauli é prodigiosa, diz que o grande talento da sua turma não era ele e sim o Paulo Aragão, que deveria ter ido mais longe.
Muita gente nos anos 70 deveria ter ido mais longe, era uma época de sobreviventes, nem todos sobreviveram.
Cauli apostou sempre num tipo diferente de viagem, as que tinham destino certo e data de volta.
Isso porque ele queria, já em 77, ser um surfista profissional. E não queria ter que fazer bermuda, nem prancha pra resistir, queria simplesmente surfar melhor do que todo resto.
Todo mundo se virava do jeito que dava para continuar surfando, tirava fotos, escrevia textos, fazia camisetas, trazia um contrabandozinho pra fazer um algum.
Cauli experimentava modelos diferentes de pranchas e melhorava seu desempenho a cada caída.
De 77/78 até 85 não havia dúvidas sobre quem era o melhor surfista do Brasil.
Rico era o mais popular, mas Cauli era a referência dentro d'água.
Medina ou Adriano não seriam possíveis sem o pioneirismo do Cauli.
No entanto, Medina e Adriano nem desconfiam quem seja, ou quem foi, Carlos Felipe da Veiga Lima, o surfista que vislumbrou o Brazilian Storm muito antes de todos.
Num exagero extremo, posso até afirmar que Cauli foi pioneiro até nas garfadas históricas da A.S.P.
Quando todo mundo virava os bicos das pranchas para o Havaí, Cauli emburacou pra Austrália atrás do melhor surfe do mundo.
E do outro lado do mundo, na terra do Rabbit, PT, MR, MP e Kanga, brasileiro não tinha vez.
Quando a biquilha virou a prancha de 9 entre 10 surfistas do mundo, Cauli manteve-se fiel a monoquilha porque precisava da firmeza duma grande quilha central para cavar e bater reto.
A influência do Cauli era tão grande, que a garotada adiava o quanto podia aderir à biquilha para poder surfar como Cauli.
Um garoto que impressionava muito na Barra da Tijuca no início dos anos 80, só usava monoquilhas - se chamava Dadá Figueiredo.



De 1977 até 1996 Cauli pontuou na ASP, primeiro competindo ferozmente contra os melhores do mundo e depois apenas em esparsos eventos realizados no Rio de Janeiro.
São tres décadas de dedicação a um sonho que sempre foi dele, o sonho de mostrar que aqui no Brasil tínhamos surfistas tão bons quanto lá fora.
As duas últimas capas da revista Surfing são com brasileiros, Medina e Ricardinho - seguidas!
Se antes, no longínquo tempo da batalha dura e desleal, era difícil qualquer reconhecimento da comunidade estrangeira, hoje estamos consagrados com páginas dupla quase todos meses na imprensa internacional.
Já nem faz assim tanta diferença, não é verdade ?
Lembrem-se que um camarada planejou isso, 40 anos antes, treinar, falar bem inglês, viajar, competir, com seriedade e determinação.
Como Mineiro, Medina, Alejo, Pupo, Felipe, Jadson...
É hora de parar de chorar e sorrir para as câmeras famintas pela novidade.
O título mundial nunca foi tão desimportante.
Que porrada tinha o Cauli!

quinta-feira, maio 17, 2012

Desatino da rapaziada


[Texto inédito, escrito em Janeiro de 2012]

Ei nós, que viemos
De outras terras, de outro mar
Temos pólvora, chumbo e bala
Nós queremos é guerrear
Peixinhos do mar - Milton Nascimento
Pepe e Daniel Friedman, um passo à frente e você não esta no mesmo lugar


Somos guerreiros mas não somos de guerra. Se tem uma ideia que nunca passou pela nossa cabeça foi a de guerrear.
Essa tempestade começou com garoa fininha, gotejando ainda nos anos 70 com Pepe e Daniel Friedman arrastando os dois primeiros campeonatos internacionais aqui do Salvelindo, ainda na pre histórica era das monoquilhas,1976/77.
Ainda em 76, 18 surfistas foram convidados para competir no Pipeline Masters, penultima etapa do circuito do IPS (atual ASP), Pepe foi um dos escolhidos e chegou até a final, causando grande celeuma pela importância do evento.
Pepe terminou o ano em 18º lugar no ranking, apesar de ter competido apenas em 4 (1 no Rio e 3 no Havai) eventos e pontuando só em dois - ficou na frente do Wayne Rabbit Bartholomeu e Terry Fitzgerald, ambos com 5 eventos.
Nos anos 70, tínhamos uma revista de surfe só, a TV mostrava surfe pontualmente uma vez por ano e nossos heróis tinham nomes esquisitos como Rico, Bocão, Rato, Mudinho e Lipe.
Cauli foi provavelmente o primeiro a ter o desejo real de fazer parte do insipiente circuito mundial de surfe profissional, justo pelo fato de ser o mais feroz e dominante competidor do Brasil no final dos anos 70.
Como bem apontou Fred D’orey num dos seus textos, Cauli passou a seguir o modelo australiano de surfistas, mais modernos e competitivos, enquanto o resto da turma preferia o modelo havaiano, mais romântico, doidão e antiquado.
Atrás da seriedade e compromisso que Cauli tinha com as competições, vieram Valdir Vargas, o próprio Fred, Roberto Valerio, Ismael Miranda, Paulo Tendas e Alexandre Salazar, mais conhecido como Picuruta.
Essa geração começou a ser percebida de forma diferente das anteriores. A chuva engrossava.
Ainda não havia no Brasil um surfista que pudesse, ou quisesse, participar integralmente do circuito mundial, os custos eram caríssimos e os resultados escassos demais para garantir o proximo campeonato ou prato de comida.
Na realidade, até o início dos anos 80 era muito mais interessante sair pelo mundo atras de onda boa do que competindo.
O sujeito guardava dinheiro pra ir surfar com os amigos, fosse lá onde fosse.
Quem gostava de onda grande economizava pra passar no minimo 4 meses no Havaí, ou como Bocão fez em 73, passar logo um ano inteiro.
Melhores Brasileiros no ranking até 1988
1977 - 21º Daniel Friedman (2 eventos)
1978 - 32º Cauli Rodrigues (2 eventos)
1979 - 72º Daniel Friedman (1 evento)
1980 - 27º Ismael Miranda (2 eventos)
1981 - 23º Valdir Vargas (3 eventos)
1982 - 30º Roberto Valerio (2 eventos)
1983 - 48º Roberto Valerio (2 eventos)
1984 - 78º Fernando Bittencourt (2 eventos)
1985 - 70º Roberto Valerio (8 eventos)
1986 - 91º Renato Phebo (7 eventos)
1987 - 76º Pedro Muller (8 eventos)
1988 - 54º Fabio Gouveia (12 eventos)
Cauli enxergava mais longe e melhor que todos


Fecha o tempo
Descontando o Waimea 5000, onde  éramos capazes de aniquilar muitos dos favoritos com a condição certa e torcida a favor, foi na Africa do sul que começamos a chamar atenção. Primeiro com um quinto lugar do Roberto Valerio no Renault Pro de 1983.
Valerio bateu o grande ídolo local, Martin Potter, na casa dele, Durban.
[Potter ja começava a virar fregues, tinha perdido pro Fred em 1981 aqui no Rio e ainda nos daria o prazer imenso de perder pro Fabinho em 91 na França...]
Cauli conseguiu a proeza de varar a muro de preconceito na Australia em 1983 mas logo foi garfado quando chegou longe demais.
Depois foi a vez do Picuruta assustar em 84/85 com uma serie de bons resultados na Africa que consistiam em apenas passar pela triagem e chegar até o homem.
Mas Picuruta não apenas passava baterias.
O surfe do santista tinha algo novo e pouco comum nos desajeitados surfistas brasileiros, Picuruta tinha power, postura e drive, em outras palavras, surfava veloz, forte e elegante.
Não bastava.
Aqui no Brasil era raro a divisão de categorias entre amadores e profissionais, campeonatos nacionais eram dois ou tres e o formato confuso. 
Não havia ambiente para se formar surfistas competidores - ainda...
Em 1986 a Hang Loose realiza uma etapa do circuito mundial na Joaquina, que não desaponta e quebra classico por 3 dias.
Depois dum hiato que nos empurrou la pra segunda pagina do ranking, o mundo volta a olhar pro Brasil com curiosidade.
Tinguinha deixa todos impressionados e o tetra Mark Richards o aponta como grande promessa.
O ainda amador Sergio Noronha chega até as quartas de final e lava a alma da torcida que lota a praia.
Trazendo de volta os maiores surfistas do planeta de volta para nossas ondas, a Hang Loose inicia sem querer a maior revolução que o surfe profissional brasileiro teria na sua historia.
A simples convivência com Occy, Carrol, Gerlach, Archy e cia já fazia a rapaziada local evoluir em uma semana mais do que num ano inteiro. E essa turma queria isso mais do que qualquer coisa - evolução.
O Gato sempre foi referência dentro d'água

Evolução = conquista
Com a estruturação do surfe nacional e o primeiro circuito brasileiro profissional em 1987, as primeira participações no mundial amador em 1984 e 1986 e a categoria amadora bem estabelecida, estávamos no caminho certo.
Um programa jovem na TV aberta, semanal!, unia e compartilhava as imagens bem antes de existir a palavra website. O Realce, dos surfistas Ricardo Bocão e Antonio Ricardo trazia as ultimas noticias do surfe numa velocidade alucinante, em audio e video, tornando a TV mais uma ferramenta importantíssima no árduo caminho até o tão sonhado circuito mundial.
Nessa altura, já temos quatro revistas, alguns jornais e dezenas de fanzines (os blogues da epoca).
Renato Phebo anuncia que conseguiu um patrocínio (British Airways) para competir em todo circuito, Pedro Muller, Marcelo Boscoli, Rodolfo Lima, Eraldo Gueiros, Carlos Burle, Dada Figueiredo, Pepe Cezar, Felipe Dantas, Taiu, Cezar Baltazar e mais uma meia dúzia de gatos pingados se apresentam para fazer volume.
Já não somos mais tipos exoticos ou meros mascates frequentando a festa exclusiva dos gringos, a maioria é bem educada, fala bem inglês, vem de familias abastadas e tem a prancha lotada com patrocinios.
Falta estourar.
E em 1988, Fabio Gouveia faz exatamente isso, não apenas ganhando o primeiro título mundial amador para o Brasil, mas fazendo um verdadeiro estrago na sua estreia no Tour.
Ele e Flavio Padaratz são o grande destaque da temporada australiana do final do ano.
Fabio ganha um prestigiado Pro Junior, faz a semi final do MBF em Bondi, ganhando do Tom Carrol pelo caminho, na semana seguinte ganha a triagem do XXXX no Gold Coast, em seguida faz as quartas do BHP em Newcastle  enquanto Teco fica em segundo na triagem, perdendo para Richie Collins na final.
O tradicional jornal australiano Tracks publica um artigo chamado ‘Boys from Brazil’, escrito pelo fotografo Paul Sargeant. 
Inspirado pela conquista do Fia, um moleque de 16 anos chega até as semis do Alternativa Pro no Rio. Na frente duma multidão apaixonada, Victor Ribas enfilera a gringaiada e nos enche de orgulho e esperança no futuro.
Já em 1989, Fabio e Teco acompanhados de Amaury ‘Piu’ Pereira, competem em mais de 20 eventos no mesmo ano.

Fia tuitando - Tuíiii!


Parada numero 1
Abril de 1990, quarta parada do Tour, Tom Curren faz sua volta ao circuito e, desde as triagens, vence as tres primeiras.
Curren ainda não foi vencido por ninguem em 90 e vai enfrentar o paraibano Fabio Gouveia no Coca Cola Surf Classic em Narrabeen.
Fabinho ganha do Curren, ganha respeito e espera pela sua vez.
Julho de 1990, Teco chega até a semi final do maior evento do mundo, OP Pro em Huntington na California.
Teco ainda faria mais uma semi na França e uma final no Rio, mas seria Gouveia a trazer o titulo de volta do Brasil ao vencer o Hang Loose Pro no dia 28 de outubro.
Um surfista brasileiro não ganhava em casa (nem fora) desde 1977.
Foi um delírio completo e a deixa pra avisar: 
Querida, chegamos!
Em 1991, Fabinho ganhou o Arena Surf Masters em Biarritz e Teco arrastou finalmente o Alternativa.
No ano seguinte, Gouveia terminou em quinto do mundo- ninguem sonhava com isso cinco anos antes.
Fia, Teco e Piu levaram junto no rastro, Peterson Rosa, Renan Rocha, Vitinho, Jojo, Tinga, Hemerson Marinho, Tadeu Pereira, Tatui e mais.
A invasão foi absoluta.
Vitinho vai um pouco mais adiante e encerra 1999 em terceiro lugar no ranking.
Neco Padaratz entra no tour quebrando tudo.
Já começavamos a falar sobre um possivel título mundial...
Todos já conhecem de cor as cores do fundo da prancha do Medina


Corta! Ação!
20 anos depois dos fabulosos feitos de Fabio, Flavio e cia na ASP, um menino ainda adolescente chega ao tour na metade do ano e ganha, não um, mas dois eventos.
Gabriel Medina é da geração que viu Adriano de Souza arrombar as portas.
Viu Mineiro em 2006, no seu primeiro campeonato entre os top 44 (ainda eram 44) chegar até a semi final.
Viu Jadson fazer a mala do Slater na sua primeira final, no seu ano de estréia no WT.
A subida foi lenta, mas constante, recuamos algumas vezes para pegar embalo e subir mais.
A tempestade brasileira não é mais uma surpresa - faz parte do cotidiano.
Somos guerreiros mas não gostamos de guerra.
Gostamos é da batalha.

sexta-feira, abril 01, 2011

Memoria de ouvido

Deus das cavadas, Andre Pitzalis

Turma da pesada no Pier. Ratão de chapeu

Cauli vendo o futuro de perto

Fotos do blogue Lendas do surfe


A memoria do surfe guarda historias impressionantes dos primeiros eventos cariocas do circuito mundial.
Tudo começou meio por acaso quando um punhado de surfistas que competiam aqui e ali na meia duzia de campeonatos que havia no mundo resolveu que talvez fosse boa ideia parar no Rio de Janeiro no intervalo entre a temporada africana e havaiana.
Naquela epoca, o tempo tinha outro peso, não havia Facebook e as pessoas tinham horas, dias e até meses pra fazer outras coisas alem de ficar na frente do computador.
O cara viajava pra um campeonato e ficava dois, tres meses rodando o país com os amigos que fazia pelo caminho.
Em 1975 o circuito ainda era apenas uma ideia de alguns delirantes entusiastas que nada tinham de melhor pra fazer do pegar onda.
O Pier tinha sido destruido recentemente e o Arpoador voltara a ser o centro das atenções da reduzida comunidade de surfistas cariocas.
Pepe, Daniel Friedman, Bocão, Rico e Otavio Pacheco eram as grandes estrelas dos festivais nacionais de surfe e não deviam muito aos grandes da epoca em condições corriqueiras.
Quase todo surfistas shapeavam suas proprias pranchas, usavam cabelos longos e parafinados e tinham por habito comer pencas e mais pencas de bananas.
O Brasil era, como ainda é, uma fronteira desconhecida a ser explorada pelos surfistas estrangeiros.
Hollywood e Walt Disney ja tinham colocado o Rio de Janeiro no mapa com Carmem Miranda e Zé Carioca, a Bossa nova ja tinha ganho um Grammy e o mundo com sua Garota cheia de graça e o carnaval, bem, o carnaval era nosso cartão de visita.
Voce falava Rio e o gringo reagia imediatamente, Carnaval!
Nas areias do Arpoador ou do Quebra-mar ninguem se surpreendia com as vitorias brasileiras em etapas do circuito mundial de surfe.
A coisa foi mudando aos poucos, como bem percebeu Fred D’Orey num texto antigo.
O modelo seguido pelo surfista brasileiro era o havaiano enquanto os australianos dobravam a historia com um jeito novo de encarar o surfe.
Um surfista se identificou com esse jeito agressivo e altamente competitivo, Cauli Rodrigues - isso é outra historia.
Falava das espetaculares historias - e estorias- que ouvia dos caras mais velhos sobre os primeiros eventos no Rio e volto ao assunto.
Chris ‘Critta’ Byrne foi apedrejado e posto pra fora d’água em plena bateria.
Pelo menos é assim que os australianos se recordam do fato.
Paulo Rato Proença abaixando seu short e mandando um barro no jardim dum predio da Vieira Souto antes de competir para aliviar a tensão.
A famosa propaganda do cigarro Hollywood protagonizada por Andre Pitzalis com o hit do Jimmy Cliff ao fundo.
Quilhas arrancadas pela furia dos locais, quiver inteiros afanados da varanda dos quartos do hotel Arpoador Inn.
O californiano Allen Sarlo dando dois 360 e indo parar na abertura do tradicional Jornal Hoje na TV Globo.
Cada campeonato deixava vestigios duradouros na surfistada.
Fosse uma batida do Dane Kealoha de backside, uma rasgada do Joey Buran, uma prancha do Cheyne Horan, a colocação do Michel Ho nos tubos do Castelinho, os 360 do Terry Richardson, uma roupa de borracha, o jeito de passar parafina, quilhas de encaixe, duas quilhas, tres quilhas...
Aquilo batia e ficava na cabeça da garotada.
E não era apenas o evento em si mas tudo que acontecia em torno dele.
Foi numa dessas ocasiões que o Jiu-jitsu apareceu pela primeira vez para a comunidade internacional do surfe.
O contingente havaiano trouxe ao Brasil um dos seus mais temidos e gigantescos black trunks para curtir todo pó e gatas que o Rio oferecia no final da decada de 70.
Numa boba discussão por ondas, o gorilla abusou da sorte e, acostumado a intimidar surfistas com seus musculos, fincou o bico da sua prancha no fundo da prancha de um garoto muito bem relacionado.
Rickson era um menino de 16 anos, amigo do rapaz atacado, e foi com seu irmão mais velho assistir o acerto de contas com o brutamontes. 
Chegando lá, foi decidido que apesar do tamanho do samoa, bastava o caçula da turma pra desmontar a marra do sujeito.
O Havaiano não botou fé no moleque e poucos minutos depois babava no chão com seu corpanzil inerte abatido por um mata-leão.
Nascia a lenda.