sexta-feira, abril 01, 2011

Memoria de ouvido

Deus das cavadas, Andre Pitzalis

Turma da pesada no Pier. Ratão de chapeu

Cauli vendo o futuro de perto

Fotos do blogue Lendas do surfe


A memoria do surfe guarda historias impressionantes dos primeiros eventos cariocas do circuito mundial.
Tudo começou meio por acaso quando um punhado de surfistas que competiam aqui e ali na meia duzia de campeonatos que havia no mundo resolveu que talvez fosse boa ideia parar no Rio de Janeiro no intervalo entre a temporada africana e havaiana.
Naquela epoca, o tempo tinha outro peso, não havia Facebook e as pessoas tinham horas, dias e até meses pra fazer outras coisas alem de ficar na frente do computador.
O cara viajava pra um campeonato e ficava dois, tres meses rodando o país com os amigos que fazia pelo caminho.
Em 1975 o circuito ainda era apenas uma ideia de alguns delirantes entusiastas que nada tinham de melhor pra fazer do pegar onda.
O Pier tinha sido destruido recentemente e o Arpoador voltara a ser o centro das atenções da reduzida comunidade de surfistas cariocas.
Pepe, Daniel Friedman, Bocão, Rico e Otavio Pacheco eram as grandes estrelas dos festivais nacionais de surfe e não deviam muito aos grandes da epoca em condições corriqueiras.
Quase todo surfistas shapeavam suas proprias pranchas, usavam cabelos longos e parafinados e tinham por habito comer pencas e mais pencas de bananas.
O Brasil era, como ainda é, uma fronteira desconhecida a ser explorada pelos surfistas estrangeiros.
Hollywood e Walt Disney ja tinham colocado o Rio de Janeiro no mapa com Carmem Miranda e Zé Carioca, a Bossa nova ja tinha ganho um Grammy e o mundo com sua Garota cheia de graça e o carnaval, bem, o carnaval era nosso cartão de visita.
Voce falava Rio e o gringo reagia imediatamente, Carnaval!
Nas areias do Arpoador ou do Quebra-mar ninguem se surpreendia com as vitorias brasileiras em etapas do circuito mundial de surfe.
A coisa foi mudando aos poucos, como bem percebeu Fred D’Orey num texto antigo.
O modelo seguido pelo surfista brasileiro era o havaiano enquanto os australianos dobravam a historia com um jeito novo de encarar o surfe.
Um surfista se identificou com esse jeito agressivo e altamente competitivo, Cauli Rodrigues - isso é outra historia.
Falava das espetaculares historias - e estorias- que ouvia dos caras mais velhos sobre os primeiros eventos no Rio e volto ao assunto.
Chris ‘Critta’ Byrne foi apedrejado e posto pra fora d’água em plena bateria.
Pelo menos é assim que os australianos se recordam do fato.
Paulo Rato Proença abaixando seu short e mandando um barro no jardim dum predio da Vieira Souto antes de competir para aliviar a tensão.
A famosa propaganda do cigarro Hollywood protagonizada por Andre Pitzalis com o hit do Jimmy Cliff ao fundo.
Quilhas arrancadas pela furia dos locais, quiver inteiros afanados da varanda dos quartos do hotel Arpoador Inn.
O californiano Allen Sarlo dando dois 360 e indo parar na abertura do tradicional Jornal Hoje na TV Globo.
Cada campeonato deixava vestigios duradouros na surfistada.
Fosse uma batida do Dane Kealoha de backside, uma rasgada do Joey Buran, uma prancha do Cheyne Horan, a colocação do Michel Ho nos tubos do Castelinho, os 360 do Terry Richardson, uma roupa de borracha, o jeito de passar parafina, quilhas de encaixe, duas quilhas, tres quilhas...
Aquilo batia e ficava na cabeça da garotada.
E não era apenas o evento em si mas tudo que acontecia em torno dele.
Foi numa dessas ocasiões que o Jiu-jitsu apareceu pela primeira vez para a comunidade internacional do surfe.
O contingente havaiano trouxe ao Brasil um dos seus mais temidos e gigantescos black trunks para curtir todo pó e gatas que o Rio oferecia no final da decada de 70.
Numa boba discussão por ondas, o gorilla abusou da sorte e, acostumado a intimidar surfistas com seus musculos, fincou o bico da sua prancha no fundo da prancha de um garoto muito bem relacionado.
Rickson era um menino de 16 anos, amigo do rapaz atacado, e foi com seu irmão mais velho assistir o acerto de contas com o brutamontes. 
Chegando lá, foi decidido que apesar do tamanho do samoa, bastava o caçula da turma pra desmontar a marra do sujeito.
O Havaiano não botou fé no moleque e poucos minutos depois babava no chão com seu corpanzil inerte abatido por um mata-leão.
Nascia a lenda.

13 comentários:

Lucas Franceschini disse...

Essa foto do Cauli é impressionante!

Lucas Franceschini disse...

Essa foto do Cauli é impressionante!

Anônimo disse...

tava com dor de barriga, preguiça, falta de tempo ou tava dando onda?? Texto minúsculo esse...Mas com teor!

Abraxx

W.

Paulo de Tarso Duarte disse...

Fiapo deve saber melhor, mas esta prancha da foto creio ser umas das Emerald que o Cauli tinha!

E tem uma cavada do André Pitzalis na Brasil Surf, foto em PB, se não me engano no festival de surfe de Itaúna, que faz esta da foto parecer dor de barriga! Surfava muito estileira pura!
Um dos estilos mais bonitos junto com Castejá, Foca e Valdir!

E sobre afanação, a mais foda foi a de um dos caras do Arpex, que não vou revelar o nome, meio prego, front side para os dois lados, retardo completo de bagulho, que arrombou o quarto do Cheyne Horan no Arpoador Inn, na época do Waymea 5000, e roubou o long john de última geração da Rip C, que o patrocinava, um Aggrolite Rosa com detalhes brancos... foi vendido tempos depois a um professor de educação do 5 na Bolívar, Posto 5 Copa, por ninharia...
Tempos selvagens...

E Pier é Pier...

PS: alguém lembra da porradarianas areias do Arpex bem no canto, do Rebeck acho que com o Rickson, que fechou a a praia?

Pedro Cezar disse...

E se os fatos não comprovam a "memória de ouvido"... "pior para os fatos"!!
Muito bom

Rodrigo Osborne disse...

Não tenho dúvida alguma, que todos surfista profissionais cariocas da minha geração, decidiram esse caminho nas areias do Arpex durantes os Waimea 5000

Rodrigo Osborne disse...

Meus Amigos, quando o Cauli chegava pro final de tarde no Arpoador, com suas pranchas australianas (Emerald, Darby, McCoy etc...), suas roupas de borracha RipCurl (ninguem as tinha) e sua postura ultra focada e competitiva (não existia free surf nessa época, pro Cauli então... cada queda era uma bateria),todos sabiam que o surfista mais moderno e radical do Brasil ia começar seu show.

Paulo de Tarso Duarte disse...

Osborne falou tudo...

Cauli foi o primeiro brasileiro que eu me lembre, na época, que quando chegava na praia, principalmente Arpoador, Castelinho ou Posto 5, que a galera em peso saía da água para ficar vendo e tentar aprender ecopiar os movimentos.
Uma época em que isto só acontecia quando chegavam os caras de fora.
Cauli era um surfe fora do padrão para a época, e mesmo sem nunca ter-se adaptado as biquilhas.
Por que na fase das pranchas Rico amarelas, elas eram single fin que atravessou a era das biquilhas, e ele não tomava conhecimento, ficava chocado por era o único de surfe vertical.

Esta Emerald se me lembro bem era já triquilha, borda rosa e decck branco com azul degredeé no meio.
O cara fez miséria nesta época...
Para vocês verem
foram gastas retinas nestes tempos...

Anônimo disse...

A lenda e super tranquilo, educado e bom surfista.
Fala com todos e pega suas ondas.
Com relacao aos surfistas com estilo cito o Casteja que ultimamente vinha surfando muito e sempre com muita velocidade nas aguas onde tento manter o meu humilde equilibrio sobre as ondas.
Imitando mais uma das frase feitas "abroad" - Idolos nunca morrem.
sds
Sergio Amaral - Grumari

Luiz Alberto disse...

Quando comecei a pegar onda costumava chegar no Arpex as cinco da manhã pra fugir do crowd, e por mais que eu madrugasse tinha sempre um carequinha na água antes de mim.

Eu ficava na dúvida se surfava ou olhava aquele monstro pegar onda, dava pra escutar de longe o barulho das pauladas de backside, eram 4,5 na mesma onda "pá-pá-pá...". O desgraçado não caía nunca da prancha, parecia que tinha super bonder nos pés.

Só fui saber depois que era o Cauli! O cara pegava muito mesmo, sem dúvida nenhuma o melhor surfista que vi ao vivo na vida.

Anônimo disse...

Dizem que esse episódio foi a origem dos problemas Brasil/Hawaii. Assisti em um programa a narração dessa história toda contada por três pessoas: o dono da prancha, o Rikson e o havaiano avariado.
O Rikson, impressionante, aos 16 anos, quebrou costelas e deixou um gigante com sangramnto interno de tanta porrada que deu. O havaiano, após passar anos perseguindo brasileiros no Hawaii, já velho, descobriu recentemente que o cara que o havia espancada viria a ser um dos maiores lutadores do mundo.
Dizem ainda que nesse episódio o gringo ficou falando que ia matar aquele moleque. Parece que no dia seguinte a familia do pobre garoto foi ao hotel do havaiano e o avisou que, se quisesse revanche, seria mano-a-mano. Mas se houvesse "crocodilagem", ele seria enterrado no Rio mesmo. No dia seguinte todos os havaianos voltaram para os EUA sem competir.
Foi essa a história narrada.

Rodrigo disse...

o post ta demais...assim como os comentários...eu era muito moleque na epoca, mas uma das coisas q me fizeram começar a surfar foi assistir aos surfistas da pedra do arpex...com certeza um desses era o cauli...

Leo Barroso disse...

A história da porrada está no you tube:
http://www.youtube.com/watch?v=JKehjDAOOi8
Fóque you I´m gonna break your face!
Irado!