quinta-feira, abril 07, 2011

30 anos nesse dia

Fotos do Ricardo Bravo

        

         Até algum tempo atras, minhas sensações com surfe se limitavam ao ato simples e concreto de entrar no mar e sair remando.
Todo resto virava consequência da entrega ao mar.
Foi quando aconteceu o inesperado.
Hoje sou capaz de surfar sem molhar os pés, não é a mesma coisa, mas alivia as dores da onda perdida.
Escrevo isso sentado na sala de imprensa do evento em Jeffreys Bay, menos de 70 metros da minha onda fetiche, predileta.
Por 4 dias olhei com deslumbre pra Jeffreys, desejei como desejava as meninas lindas da escola e da praia - olhei mas não fui ao encontro delas, nem das meninas, nem das ondas.
Minha relação com o surfe mudou, ou esta mudando.
Hoje tem 2 pés de onda no pico, meia duzia de aventureiros, o sol brilha e a temperatura é agradavel.
Vi o Seth Hulley, chefe de equipe da Oakley africana, correndo de volta do surfe e senti uma ponta de ciúmes da empolgação dele. Me perguntei onde foi parar essa vontade irresistivel de correr pro mar e não tive resposta razoavel.
Por isso escrevo, para clarear as ideias - ou confundi-las ainda mais.
Fiquei tão fascinado observando cada onda surfada e não surfada nesses ultimos dias que a experiência de ir la busca-las perdeu um pouco da graça.
Sonhei durante 9 anos com a areia gelada das manhãs africanas.
Sonhei com o frio que corta o rosto e os dedos duros e completamente insensiveis depois de horas mergulhados na agua gelada.
Sonhei com os sustos dos golfinhos que aparecem do nada em bando.
Não tenho mais a flexibilidade de tempo que tinha quando estive aqui em 2001 por um mes inteiro.
Tenho apenas uma semana e os dias voaram pra longe mim.
Restou a lembrança do que poderia ter sido se eu tivesse o impulso juvenil de ir la fora disputar ondas com os 25 ou mais surfistas que madrugavam todos dias.
Só a mera probabilidade de ter que disputar uma onda ja me afugenta.
Não me imagino mais remando lado a lado com Fanning ou Occy para roubar-lhes uma onda.
O surfe permite a qualquer um isso essa inconveniencia de não apenas incomodar os melhores do mundo, mas literalmente atrapalha-los.
Aos poucos vou acumulando desculpas para adiar meu encontro com Jeffreys.
Contorno Supertubes e Boneyards, as duas sessão que nos faz atravessar um oceano e caminho até Magnatubes, lugar de nome imponente e onda nem tanto, talvez com 10 pés, não com 4 a 5 pés.
Tento evitar me aproximar dos outros na agua, minha remada não é mais a mesma.
Dei uma de valente, fui sem botinha, meus pés doem de frio.
Os nove anos de fantasia desapareceram.
A realidade é totalmente diferente, mais dura, mais dificil.
A volta pra casa é longa e humilhante.
Quero escrever sobre a velocidade da onda, sobre como somos capazes de nos superar quando as condições favorecem, quero falar de longos tubos, da dor nos braços de tanto remar, nada disso me ocorre.
Essa onda na minha frente é apenas uma lembrança.
Os seis pés sensacionais que tivemos no Billabong Pro já se foram, hoje o mar tem meio metro como voces nunca viram em toda suas vidas e eu não quero nada com ele.
Não quero migalhas.



O surfe hoje e nos proximos dias será um texto no The Surfers Journal, ou mesmo a coluna do Cadilhe aqui mesmo nessa revista.
Percebo que as vezes é melhor guardar a recordação dum momento especial.
Aquele dia que me sentei ao lado dela e ouvimos juntos a balada mais famosa do Led Zeppelin num K7 velho do namorado da minha irmã mais velha.
Tinhamos 13 anos e todos sonhos do mundo.
No auditorio vazio, o toca fitas soava como uma sinfonia, nunca demos as mãos.
Ficamos dois calados, cada um absolvido pelos seus sonhos.
Eu sonhava com ela e ela sonhava com qualquer coisa que nunca vou saber - comigo, por que não ?
Hoje me sentei ao lado da minha onda fetiche e fiquei apenas admirando suas curvas, seus humores, seus desenhos.
Calado e apaixonado como naquela manhã, 30 anos atras.
A diferença é que hoje tenho a certeza inabalavel que voltarei e ela estara aqui me esperando.
Isso me basta.

7 comentários:

Edu Moraes disse...

nada como saber envelhecer e aproveitar, seja lá do jeito que for!
com o passar dos anos a memória é um bem precioso.
soul surfers....

Renan Tommaso disse...

Pô, Júlio, lá vem você de novo me fazer sentir uma vontade filha da mãe de compartilhar minha opinião sobre um texto seu. Se daquela vez vim discordar, dessa, só para aplaudir. Se você tivesse surfado Jeffreys em vez de apenas contemplar aquela onda, poderia até sair com algum cutback estiloso, um ou outro tubo, cavadas com a mão na água, adiantadas frenéticas pra acompanhar a velocidade do lip. Mas ficaria sem a beleza dessa sua reflexão.
Abraço.

Marilia disse...

Sempre muito bom! Sempre admirável!
Parabéns pelo dia do jornalista! Você é um de veia salgada!

Leandro disse...

Muito bonito,verdadeiro,sincero.
Mas triste, correr no sentido do mar me agrada mais, principalmente no sentido de J Bay.

abs
Leandro

Leo Barroso disse...

Leitura boa é assim, quando vemos que o autor escreveu com os "guts" (com o perdão do anglicismo, mas não pensei em descrição melhor), o resto é enche-linguiça.
Julin, a paixão e a química se cruzam muito, e, se me permitir a análise, na sua epifania aconteceu novamente. Nesse caso, foi a lei de lavoisier aplicada às paixões: nenhuma se cria ou se elimina, apenas se transforma em outra. Ou outras. No caso do meu amigo, são duas que caminham muito ali no início de Ipanema. Uma paixão no colo da outra.
Abraços!
Leo Barroso

Anônimo disse...

Caracas, malandrinho, isso é experiencia de vida.Bravos.Atrasado ma tô ai.
Abçs, Castro do sul

Marco C. disse...

http://mc-shootme.blogspot.com/2011/05/wrong-place.html
mini-simmons out-of-place