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quarta-feira, junho 18, 2008

Discoteca goiaba do surfista desatento 6

Discoteca básica>Surf Portugal 183#>Abril 2008


Meddle - Pink Floyd 13 de Novembro de 1971


O produtor David Elfick conta a seguinte estória nos extras do DVD Crystal Voyager.
'Pink Floyd era uma das grandes bandas do mundo e George Greenough tinha ouvido aquela canção, Echoes, e gostado muito. Será que conseguimos essa música David ? Perguntou George.'
David tinha acabado de assistir um bloco editado de 23 minutos (ver tempestade) e conseguir aquela música tinha virado uma questão de vida ou morte.
O que fez Elfick ?
Pegou o rolo de 16mm e foi até Londres pedir pessoalmente aos Floyds.
Chegando lá, depois de passar pela triagem, David conseguiu falar com o empresário e sugeriu: 'Podemos fazer uma troca, voces me dão a música em troca das imagens que tenho aqui'.
O empresário olhou incrédulo, por que diabos o Pink Floyd ia querer aquilo ?
Elfick insistiu em mostrar as imagens pra banda e eles toparam.
Imaginem então aquele sujeito com uma bobina de filme nas mãos tentando negociar com a banda que tinha acabado de lançar seu disco de maior sucesso, The Dark side of the moon.
Encerrada a sessão, Elfick nervoso, 'que tal ?'
'Negócio fechado. Mas da próxima vez toca esse som mais alto.'
Hendrix não fazia a menor idéia quando disse 'nunca mais voce vai ouvir surf-music novamente', que Echoes, lado B do LP Meddle, do grupo que fez turnê com ele no final dos 60, seria referência de música dos surfistas.
A mistura do baixo, bateria e orgão temperada com as guitarras do Gilmour te tiram do chão.
Bem vindo a bordo da nave subaquática espacial.
E não só isso, o Pink Floyd adotou as imagens do Crystal Voyager como pano de fundo das suas apresentações pela Europa e EUA.
Meddle abre com o baixo de Roger Waters furando as caixas de som (duplicado com David Gilmour atirando simultaneamente) como Carroll em Pipeline no final dos anos 80.
O LP é reconhecido como o primeiro grande album do Pink Floyd depois da pirada do Syd Barret. A capa é uma foto de uma orelha debaixo d'água (o artista Storm Thorgerson tinha sugerido uma foto artistíca do ânus de um babuíno, felizmente recusada pela banda).
Greenough, do jeito que era livre e criativo, deve ter logo enxergado a curva de uma onda rodando na foto da capa - aquilo era um tubo como apenas George via.
Todo resto do LP é em clima de final de década, cair da tarde, com nomes que induzem ao torpor: Pillow of winds, Fearless (esta aparentemente uma homenagem do Roger Waters, torcedor fanático do Liverpool, ao título da Wembley Cup com trechos do hino You'll never walk alone), Saint Tropez e Seamus.
Ainda demoraria mais 8 anos para o Pink Floyd lançar seu outro disco fundamental para turma da cueca cheia de areia: The Wall, de 1979.
E por que ? pergunta o amigo.
A inesquecível abertura do filme The Performers, com a equipe da Quiksilver no Havaí.
'We don't need no education 
We dont need no thought control
No dark sarcasm in the classroom
Teachers leave them kids alone
Hey! Teachers! Leave them kids alone!'



[Esse blogue aceita sugestões de futuras Discotecas básicas para surfistas goiabas]

sexta-feira, junho 13, 2008

23 minutos submerso

Coluna Tempestade em copo d'água>Revista Surf Portugal>Abril 2008



Echoes - Pink Floyd


- George! Pode me ouvir George ?
Por 23 intermináveis minutos tudo que George ouvia, ou via, era água.
George sabia que os filmes de surfe nunca mais seriam os mesmos, tudo que se percebia ao redor do surfe mudaria para sempre.
O filme chamava-se Crystal Voyager e seria um mero documentário sobre um cara esquisito e seus estranhos hábitos não fosse pelos 23 minutos finais.
O cara esquisito era o George, George Greenough, um personagem tão rico e complexo que merece parágrafo de apresentação.
Hoje George beira os setenta, com 21 revolucionou o design das pranchas, inspirado pelo não menos excêntrico Bob Simmons, criando pranchas capazes de atingir velocidades assustadoras devido à flexibilidade que Greenough conseguia com o deck cavado em forma duma colher.



George deixou de surfar em pé ainda no início dos anos 60 e dedicava-se a correr ondas de joelhos e deitado.
Auto-didata, criou em 1965 um modelo que batizou de Velo, provavelmente uma das cinco pranchas mais influentes em toda história do surfe. A Velo é responsável pelo título mundial do Nat Young em 66, pela troca brusca de direção de Slater, pelo arco da cavada do Lopez, pela voadinha do Clay Marzo, pelos tubos do Rasta, por voce e por mim.
Logo que a década de 70 começa, George reiventa nosso olhar e leva uma câmera para dentro d'água, quero dizer: Pra dentro do tubo.
Greenough rompe com a tradicional imagem do surfista na terceira pessoa e passa a filmar na primeira pessoa, quem está na onda não é mais o surfista, é voce.
A imagem que voce vê não é mais do ponto de vista de quem olha da praia ou dentro do mar em cima duma prancha olhando do canal, desta vez a onda é a protagonista e o surfista um detalhe superfluo.
Em 1970, Innermost Limmits of Pure Fun, primeiro filme que George realizou, trazia um segmento chamado The Coming of the dawn, todo filmado com uma câmera fixada ora no bico, ora na rabeta da sua prancha, anunciando mudança no comportamento de toda contracultura onde o surfe se confundia.
Mas é em 75, come esses benditos 23 minutos, que George transcende o gueto do surfe e alça voô para um público maior.
David Elfick e Albie Falzon (produtor e diretor de Morning of the earth) se reúnem para realizar um documentário sobre o inusitado estilo de vida de Greenough: George planejando e construindo um barco, George desmontando câmeras, George sendo apenas George.
Os primeiros 50 minutos de Crystal Voyager são somente isso: dia a dia de Greenough com sua narração seca e direta.
E então acontece...
Do escuro da tela aproxima-se a palavra Echoes.
O ruído de pingos d'água parecem familiares, é uma canção do Pink Floyd!
Vemos as mais incríveis cenas aquáticas jamais vistas, uma explosão de cores e texturas que nos deixam zonzos com tamanha beleza.
Suave, a voz canta:

Overhead the albatross 
Hangs motionless upon the air 
And deep beneath the rolling waves 
In labyrinths of coral caves 
An echo of a distant time 
Comes willowing across the sand 
And everything is green and submarine
Não estamos mais diante de um filme de surfe, aquilo é arte delirante, é uma instalação, uma performance.
Todo tempo a câmera se mantem submersa, admirando aquele universo que começa e acaba numa onda, raramente conseguimos ver alguma cena em cima d'água.
Somos peixes, somos água, somos surfistas como nunca antes fomos.
George cria uma grande angular para nos emprestar o verdadeiro olhar do peixe, em quase 180 graus, uma visão fabulosa da terra vista do mar, debaixo d'água, atrás duma onda.
Nos perguntamos seguidamente por que não nos mantemos debaixo d'água para ver tudo aquilo rotineiramente.
A resposta pode vir simples: porque é bonito demais e tanta beleza assim pode enlouquecer.
A música cresce e a câmera de Greenough resolve emergir.



Gilmour martela sua guitarra e Waters (vejam só que coincidencia!) batuca o baixo enquanto o tapete mágico de Greenough começa sua viagem pelas destorcidas paredes de ondas completamente absurdas.
Originalmente Echoes deveria falar sobre a imensidão do espaço, supostamente inspirada pelo filme 2001 de Kubrick (inclusive há uma lenda que diz que todo final do 2001 pode ser sincronizado com a canção do Floyd), algo mudou para o infinito do oceano e casou perfeito com as imagens de Greenough.
Ou seja: Greenough fazia com as imagens a mesma coisa que Pink Floyd fazia com seu som.
Estamos dentro do tubo, em câmera lenta, a realidade vira uma gota na lente, espatifa-se e espalha pela tela.
O tempo já não é mais tempo, é movimento, e o tubo arremessa tudo que tem para frente e para os lados.
Não somos mais nada.
George finalmente responde:
'Voce pode estar ali apenas por alguns segundos, de verdade, mas sua mente pode ficar ali por horas...
Muitas vezes voce fica tão dentro do tubo que não há saída.
Voce cai terrivelmente.
O que interessa é que quando voce está lá dentro. É o tempo que voce passa ali dentro.
O tempo entra numa dimensão própria.
A única realidade é a que acontece ali dentro.'