segunda-feira, setembro 28, 2009

Uma verdade inconveniente

[Tempestade em copo d'agua>Revista Surf Portugal # 186>Julho 2008]



Aprendemos da forma mais dolorosa como lidar com a perda e injustiça.
Lá estava eu, grudado e atento ao campeonato mais esperado do ano (bem, talvez seja um exagero), pronto para um punhado de baterias interessantes, copo d'água e uma saudável pêra portuguesa me acompanhando no testemunho do primeiro teste real para Tiago Pires no WCT.
Até agora Saca tinha encontrado gente familiar de qualquer guerrilheiro do WQS, Tom Whits, Dayan Neve, Jeremy, Mineiro, Léo, tava na hora de encarar uma parada dura contra um dos 5 surfistas mais temidos do mundo e Joel, seu companheiro de equipe (e segundo um passarinho cantou aqui ao lado, talvez um desafeto), rival dos tempos de Pro-junior.
Aproximando-se dos 14 minutos duma bateria morna, mar de ondas quase sem graça para a afamada e terrível bancada de Teahupoo, nosso herói dropa para a glória reservada a poucos que frequentam o WCT: um 10.
Uma nota 10! Pipocam mensagens de torcida apaixonada.
Essa contenda está liquidada, pensamos em coro.
Mas, esperem, estamos diante do Parko, surfista que sozinho movimenta mais dinheiro que todo mercado português, por influência e prestígio. Numa carreira de quase dez anos, dois vices, seis vitórias...Meu Deus! esse camarada é um mito do esporte e nem completou 28 anos (tem um ano menos que o Saca).
Esse é um jeito de ver...
Outro, é olhar pro Parko como um vilão de desenho animado, torcendo as pontas do bigode enquanto bola planos diabólicos para fazer mal ao mocinho.
Digamos que nem muito Dick Vigarista, nem lá um Pateta.
Joel já despedia-se do campeonato quando percebeu que o inocente Tiago era capaz de morder a isca...
É bem possível que Saca numa situação como aquela tentaria jogar com as regras, estivesse ele no lado oposto do ringue, o sufista que quer chegar lá, e lá permanecer!, precisa saber dessas sujeirinhas- goste, não goste.
Querem saber ? Com uma nota dez num mar como aquele, quase sem ondas, com intervalos gigantes, mesmo contra um Parko, o surfista experiente (que Saca é) tinha que agarrar-se a prioridade como uma bóia salva-vidas e esperar até vir uma daquelas raras ondas que acabavam por vir naquele dia.
Onde Saca estava com a cabeça quando remou pr'aquela maldita onda ?
Aquilo não era sequer um potencial 7 e Joel já tinha jogado a toalha com apenas dez minutos restando no cronômetro.
O leitor solidário ao erro do nosso querido protagonista apressa-se em perguntar quem diabos sou eu para julgar um surfista que está entre os 44 melhores do mundo.
Rapidamente me defendo dizendo que não estou aqui julgando nada, apenas analisando uma situação pouco comum nesse conturbado mundo das competições subjetivas e, ai!, abstratas, Tiago precisa ter frieza para avaliar em poucos segundos o próximo passo, grandes vencedores são feitos desse poder de síntese veloz.
Vejam, por exemplo, a improvável interferência do Slater em cima do Manoa, logo em seguida à do Tiago, completamente diferente em forma e conteúdo, feita ainda em momentos de indefinição da bateria, contra um perigoso adversário passivo de provocação.
Slater fazia exatamente o mesmo que Parko, explorava as fraquezas do surfista inexperiente, pena que o feitiço virou contra o feiticeiro (pena pro Slater).
Em 2008 um dos grandes desafios do Saca é ter essa consciência de bateria, principalmente de antecipar os passos dos outros 43.
A estratégia de surfar e deixar surfar funciona, quem sabe, no WQS mas no WCT... nem Slater faz mais isso.
Não se trata de aprender a sujar as mãos, muito ainda pelo contrário.
Saca realizou a pior das constatações: Errei.
Restam oito etapas para acertar ou o resto da vida para lamentar.

8 comentários:

lgamar disse...

é! foi um erro do saca.
mas não concordo com a análise.
porque o erro do saca foi apenas arriscar quando não valia a pena sequer entrar nesse jogo. faltou dizer na análise que a mudança de prioridade (do saca para o joel) foi dada directamente pelo amigo pessoal do joel. julgo que nem devem ter avisado o pobre do saca, que também nem tinha feito qualquer movimento para perder a prioridade e de repente... ainda esse ano em trestles, situação invertida, o saca precisando de virar a prioridade com o damien para a estocada final e os comparsas do americano deixaram-no com a prioridade depois de remar para uma onda e nao entrar...

Bruno Januzzi disse...

Julio, se você tiver o e-mail do Heitor Alves mande este texto para ele. É notório que ele acredita piamente que a estratégia de surfar e deixar surfar funciona....

andrepereiracosta disse...

Bem, depois reclamam de piada de portugues...

andrepereiracosta disse...

Bem, depois reclamam de piada de portugues...

zanella disse...

E ai galera... Meu nome é Antonio Zanella, sou produtor do vídeo do Figue... Sei que vou ser um pouco demorado porque to no aeroporto esperando meu voo de volta pra casa (Floripa) mas vale a leitura... Primeiro vale explicar pq estou no aeroporto já que envolve o assunto... Acabo de chegar de socorro (interior paulista) onde concorria no festival de filmes de aventura e turismo (www.aventura.com.br). Lá concorri com gente do Brasil inteiro, incluindo o filme do Brasil 1 do Torben Grael, corridas de aventuras, etc. Já que o Figue está no Peru surfando fui para representá-lo e jamais esperaria sequer ser selecionado. Saio de lá emocionado e choro novamente ao escrever para vocês que acabamos ganhando como Melhor Roteiro e fomos p/ final do Melhor Filme. Enfim, um trabalho de conclusão de curso que tinha apenas o objetivo de passar uma mensagem de vida está hoje Brasil afora concorrendo e emocionando muita gente. Bom... Vale a pena contar como e porque produzi este documentário. Nasci com 4% da visão esquerda e após recuperá-la com algumas cirurgias passei a admirar ainda mais os deficientes visuais e o surf sempre foi minha vida. Assim, achei uma maneira de unir os dois no meu trabalho de conclusão de curso, mostrar que o surf com seu preconceito estúpido de uma sociedade cabeça pequena traz histórias de exemplo de vida. Conheci o Figue por acaso, quando meu irmão surfava em Balnéario Camboriú e encontrou-o. Hoje, somos da mesma família e cada segundo junto é um empurrãozinho na vida. Fiz tudo sozinho, da construção da pesquisa, roteiro, edição, gravação até bater de porta em porta em busca de alguma verba para andar de carro com o equipamento (mais de 37 vezes caminho Floripa - Balneário). É claro que quando fazemos algo que goste o tempo voa e você se envolve de uma maneira inexplicável. O triste é dizer que mesmo após este trabalho estou desempregado e - ainda - em busca de apoio para divulgar e exibir o documentário. Sei que vocês devem estar de saco cheio do meu texto mas é só para dizer quem eu sou e dizer o quanto vocês me deixaram feliz com os comentários e visitas. Estou emocionado em saber que o objetivo está sendo feito: passar a mensagem adiante e ao levantar da cama dizer: vamos viver!
Quem quiser mais informações: zanella1306@hotmail.com / 48 84046113.
Estou a disposição para distribuição, críticas e sugestões.
Abs de um leitor emocionado.

Luis Gama disse...

andrepereiracosta as piadas de portugues são as mesmas de alentejanos! todos quermos ir para lá! os brasileiros para portgal. os portugueses para o alentejo! abraço

Anônimo disse...

nenhuma palavra em relação à vitória do mineiro?

Viva La Brasa disse...

Mineirinho campeão nas Oropa!
Tomara que dê um revertério e ele leve logo este ano! Já pensou?
Aí é que o Slater cria mesmo o Elite Tour Só Para Amigos!