quarta-feira, setembro 19, 2007

Deslumbre

[Revista Surf Portugal>175>edição comemorativa de 20 anos]

Um amigo 14 anos mais velho se mostrava aflito com as novas ferramentas de previsão ao alcance de todos. Achava que em breve não haveria mais surpresa e todos, orientados pelos precisão dos mapas de vento e ondulação, chegariam no mar ao mesmo tempo.
Dei de ombros.
Desde o disk surfe, detalhando as condições de quase todas praias em apenas 3 minutos, os pessimistas apontam o fim do surfe, ou o fim da tranquilidade na água.
A verdade, nua e crua, é que nessa relação com os humores da natureza a intuição e o conhecimento são as principais armas para caçar ondas.
Mesmo que o seu vizinho de rua, que acaba de descobrir o benefício do impulso com a barriga (ou abdomen, não no meu caso) num bom e velho cut-back, mesmo que ele acesse mais de 50 vezes ao dia um saite que esmiuça todas possibilidades de configuração de ondas, marés e ventos, ainda assim sua chance de estar no lugar certo, na hora certa é proporcional ao seu interesse e envolvimento com esse negócio estranho que nos arremessa às bancas todo mês para, senão comprar (opa!), ao menos folhear esta revista que tem nas mãos.
O que não quer dizer, absolutamente, que o simples fato de comprar e ler esta ou qualquer outra revista de surfe fará de voce um lobo do mar.
Não senhor.
Conheço uns tantos que até assinatura tem e no entanto tem uma relação rasa com a coisa toda.
Eis o que quero dizer: o deslumbre começa aqui.
Lembro que meu Pai toda vez que viajava trazia uma Surfing ou uma Surfer – e eu sequer entendia ingles.
Dicionário ao lado, lia desde as cartas até os slogans publicitários, com a atenção e o apetite dum cão faminto.
Até ali, meu interesse limitava-se ao futebol, mas a Copa de 82 tratou de matar nossos sonhos de um mundo melhor e, com 15 anos, o surfe parecia não trazer limites.
Na recente edição ‘Verde’ do Tracks (jornal Australiano transformado em revista), o genial George Greenough, um dos pais do surfe como se conhece hoje, declara na entrevista o que o irrita mais no momento: ‘Cameras na praia. Muita gente está de fato aborrecida com elas. Simplesmente não há mais conhecimento (envolvimento) no surfe.’
Greenough quer dizer, ou eu especulo que ele quer dizer, que a experiência de estar na praia é cada vez menor.
Com os inúmeros filmes de surfe e saites despejando toda sorte de informações no recem-formado surfista, o camarada encontra-se acorrentado dentro do quarto vivendo 300 vidas – menos a sua.
Por que atravessar a rua se a foto da praia está disponível desde as 7 da matina ?
Apesar de entusiasta do WCT, não consigo perdoar a ASP por ter tirado do surfista comum a chance de ver seus ídolos de pertinho.
O circuito de sonho leva os 45 para lugares inatingíveis para o garoto de 14 anos que fui um dia que deseja avidamente ver os melhores surfistas do mundo surfando em ondas mais próximas da sua realidade.
Assim estamos afastando o sujeito cada vez mais da praia, por mais incrível que possa parecer.
Essa linhazinha que divide o exato momento que o malandro deixa de apenas ‘pegar ondas’ para virar surfista pode ser atravessada com uma onda que nos tira completamente de onde estávamos antes, com uma comovente cena dum filme, ou numa foto, aqui mesmo, nessa revista – ou ainda numa frase reveladora.
Greenough percebe que não basta registrar tudo e disponibilizar o mais rápido possível no Youtube, é preciso, é urgente que estejamos na praia, pés sujos de areia, rosto melado de maresia, olhos vermelhos.
O amigo 14 anos mais velho preocupado lá do início do texto viveu, e vive, intensamente os pés sujos, rosto melado, olhos vermelhos e agora está descobrindo a enormidade de DVDs de surfe lançados a kilo no Mercado.
Meu amigo conheceu a pouco o youtube e não consegue conceber como vai arranjar tempo para assistir tanta coisa se todo tempo que lhe resta quando não está trabalhando ele passa na praia.

11 comentários:

Felipe Luchi disse...

Ótima visão, Júlio. Muito interessante. Ainda não tinha visto por esse lado. Na verdade, ainda não tinha racionalizado dessa maneira, mesmo tendo certeza - apenas intuitiva - de que ver o mar e observá-lo são coisas muito muito diferentes.

Um abr,
Felipe

André Côrtes disse...

apesar de ser obvio vou dizer o que todos sabem: o que aparece nos sites de previsão é preciso que seja lido, misturado com alguma experiência, e , ainda hoje, envolve um bocado de risco, ansiedade, mistério, expectativa.
Se vc considerar as surfcams e as interpretações dos sites mais conhecidos pior ainda. As interpretaçoes em texto das condições do mar dependem muito da onda que o surfisto gosta ou sabe surfar.
Agora, se alguem acreditar piamente no que aparece nas fotos do ricosurf ... Tem dia que eu juro que eles nem apareceram lá. Ontem, por exemplo.
abs
50

Anônimo disse...

Acho que por mais engenhocas e avanços nas previsões a natureza vai continua a ser igual cabeça de mulher, imprevisível. Não tem foto de site, tabelinha de maré ou qualquer coisas dessas que substitua uma boa e velha passada na praia.

Profeta disse...

Leiam "O Presente do Fazedor de Machados" e confiram o paradoxo existente entre a tecnologia que nos impõe como evolução, e a contrapartida nefasta que nos afeta. Vocês não têm escolha, juntem-se a nós...

Anônimo disse...

Concordo... concordo em parte. Concordo com tudo o que foi dito pelos companheiro aí acima... Concordo que um frame borrado no canto da tela, jamais substituirá as sensações percebidas "in loco"...

mas sou a favor de levar os 45 sim, para praias distantes e inacessíveis, com ondas de sonho e caderno...

Dentre outras, foram justamente as ondas "próximas a minha realidade" as responsáveis pela minha falta de tesão e cinismo atuais...

Anônimo disse...

O mar é movimento, está sempre mudando, ventos, marés e correntes, portanto uma foto tirada das ondas as 07:00 de la manhana, poderá ficar completamente diferente se tirada as 08:45,por ex. e diversas vezes, nos velhos tempos quando morava perto da praia em ipanema, o mar horrível pela manhã... sabia que na mudança da maré provavelmente daria boas ondas... acertei milhões d vzs. outras não...Quanto ao circuito dos sonhos... o unico defeito é que não fazemos parte dele e poder surfar aquelas ondas de sonho...

marcio disse...

bom.....pra começar ...não acredite em tudo que ve ou le nesses dias....tem dias classicos que as 7 da manha estava um lixo e depois das 10 fica demais.....ninguem sabe....eu mesmo ja surfei dias assim, sem consultar a internet e noutros fui na fe pra praia e ....estava um lixo...bem diferente das previsões dos diske surfe da vida.....aquele que vive o ambiente da praia sempre estara em vantagem...senão de fato pelo menos no espirito ...abs e boas ondas

Anônimo disse...

Natureza = cabeca de mulher foi muito boa !!!
hahaa
Juan Tamarindo

DARS disse...

Nostalgia... bela palavra, ainda mais se for na pronúncia castellana, com o acento paroxítono.. digressões etimológicas a parte, foi esse o sentimento que me veio durante a leitura, saudade dos tempos das descobertas pueris, quando surfava feliz o inside de uma Barra da Tijuca ressacada depois de 2h de 233.. ou já motorizado, explorando cada reentrância do litoral entre Maresias e Saquarema...

Cada geração vivencia o surfe a partir da cultura e tecnologia da sua época, com certeza teria sido bem mais prático e econômico ligar para o celular de um amigo para saber que Cabof não estava recebendo bem o swell que explodia em Saquá, mas tb muitas aventuras não ocorreriam..

Não posso negar que o surfe na rede tenha grande valor, vídeos, informações, maior índice de acerto nas missões matutinas.. mas tb cria uma falsa impressão de se estar mais conectado com as ondas do que na realidade salgada.

De qq maneira é mais um ingrediente na grande aventura de quem se recusa a trocar a eterna adolescência no mar pela enferma obsolescência no lar...

Paulo de Tarso Duarte disse...

Peraí... um instante...
Não concordo que a ASP tenha afastado o publico dos campeonatos com o Dream Tour!
-Snapper fica lotado de gente é na cara do gol
-Bells`s sempre teve um puta público em suas encostas.
- Jefferey`s sempre teve público (claro que menos do que no Gunston 500)
-França é na cara do público
- Mundaka idem
- Hawaii sem comentários
- No Sul teve Joaquina, e agora Vila é maios difícil aceso, mas chega-se, como em Saquarema lotou, público espremido.
- Sobra Arica que teve público razoável.

Dos que saíram, Japão lotava.

Sobra de acesso quase impossível ao público:
Tahiti
Fiji (que não têm este ano)
México, em Barra de La Cruz (que não têm este ano)
Saint Leu (Ilhas Reunião, que não têm este ano)


Aonde que o público está afastado?

Queriam o quê?

Nos moldes daqueles campeonatos profissionais OP nos anos 80 em pleno verão carioca, meio metro para baixo e nego pulando da prancha na araia, depois de uma manobra?

Desculpe, tô fora disto!
Vida longa ao Dream Tour e a conexão de banda larga.
Quem quiser que vá a praia!

Mas dizer quen o público está afastado dos ídolos, para mim, soa como exageroe surreal...

Anônimo disse...

Interessante esta nota Marreco. So nao entendo esta continua idolatria com as revistas gringas. Eu agora depois de quase 30 anos de surf e apos finalmente ter aprendido ingles, finalmente tenho uma assinatura (so porque veio com a filiacao a surfrider foundation) da Surfer. Os caras malham, ignoram e humilham os brazucas o tempo todo. Enquanto as publicacoes brasileiras continuam babndo ovo dos gringos... Na ultima surfer os caras dizem que a media de altura do brasileiro e de 1.60m e que isto e desvantagem dentro e fora d'agua. Quase todas as edicoes os caras ignoram, ridicularizam e/ou malham os brasileiros. E a turma ai do Brasil continua igual ao Hangloose de 86, BABANDO OVO DE GRINGO. Cade a auto-estima porra?