quarta-feira, novembro 29, 2006

Rebeldia direcionada

[Coluna Tempestade em copo d'água- Revista Surf Portugal - Novembro de 2006]


Quantos títulos voce ve nessa mão ?

A imagem que me vem na cabeça é aquela épica disputa de onda entre Shane Beschen e Kelly Slater.
Foi um golpe duro no surfe profissional de 1996, quando as pessoas acreditavam num mundo melhor, livre de conflitos, pleno de diversão inocente e descompromissada, nosso ‘flower power’, que vendeu bermudas e camisas floridas como água e catapultou nossa indústria para o estágio de ‘milionária’ (barulhinho de moedas caindo no chão).
Sabem quando a tensão é tão grossa que voce precisa duma espátula pra tirar da frente ? A sensação era essa.
O mar nem estava grandes coisas.
Tinha esse tamanho ainda não estabelecido de meio metrão, metro, metro e meio, mexido pelo vento que entra depois das 9, 10 horas lá na Califórnia, mais precisamente na praia de Huntington, no lado sul do pier, direitas e esquerdas sem a menor graça.
O campeonato tinha um nome bem americano, imponente, estrondoso: U.S. Open of Surfing.
Mas a história não tinha começado ali e sim lá pelos idos de 1982 quando um pirralho magrelo de Cocoa Beach, Major Nélson e Jeanie, aparece insolente na Califórinia e arrasta o título nacional de juniores com 11 anos de idade, justo em cima de quem ?
Sim, ele mesmo, outro magrelo, nativo da Califa, cabelos loiros, loiros, quase brancos, promessa da terra que tinha dado ao mundo e ao Estados Unidos o Curren.
Era leste contra oeste, tipo filme de bang-bang.
Beschen surfava com o peso da linhagem de 60 anos de surfe californiano, Slater era o retirante, saído dum lugar sem nenhuma tradição, sem história, sem ondas- um deserto de referências.
Os dois são de fevereiro de 1972, KS de 11 e Shane de 18, uma semana mais novo.
Fugi muito do assunto, sejam pacientes, peço.
Faltava tempo suficiente para começarmos a roer unhas, Beschen liderava com alguma folga, praia lotada numa dessas multidões que confundem o espectador: 5000 ou 50000 ?
Série ao fundo.
É das grandes, quem pegar decide – bateria sem prioridade.
Como assim, sem prioridade ?
A ASP colocava uma bóia a uns 10 metros de distância da arrebentação que determinava quem tinha o direito de escolher a onda, ou seja, não bastava chegar lá for a, tinha que remar mais um pouco e dar a volta na bóia. As corridas pela prioridade eram um clássico do nosso esporte.
Teve uma do Currem com o Occy ali mesmo, no OP de 85, acompanhada pelas lentes do cinegrafista bem de pertinho…Não existia um menino aspirante a surfista profissional que não vestisse a camisa de um do dos dois.
Lá vou eu, correndo do tema como um jet ski acelerado saindo de dentro da explosão duma gigantesca espuma em Jaws.


Por que uma foto do Irons aqui ?

Nessa altura, pelo que descrevi até agora sem chegar onde queria chegar, devia faltar uns 5 ou seis minutos pra soar a corneta.
Bateria sem prioridade. Beschen, muito mais bem colocado do que Slater para apanhar a onda, rema com a confiança demais, quase arrogância.
Parecia dizer: A nêga é minha, ninguem tasca.
E naquela época nêgo não tascava mesmo.
Era um tal de divertir pra cá e amizade pra lá que dava enjoô, tudo fingindo um certo descaso, para não pegar mal e destoar do discurso afinadinho.
A velha guarda estava em retirada e, voces sabem, a velha guarda era muito ‘bad vibe’, davam valor demais ao mundo material e não enxergavam que o surfe é uma parada espiritual, manja ?
Elkerton, Potter, Lynch, Hardman, Ho, só queriam ganhar, ganhar, ganhar, sem alma, saca ? Pouco ‘cool’, vende pouca camisa florida.
Repentinamente, quando tudo parecia se encaminhar para um desfecho feliz e politicamente correto, Slater desnudou a hipocrisia que reinava e deu um choque de realidade na turba.
Vil, como apenas humanos somos capazes de ser, Slater percebeu que Beschen cometeu o pecado capital que Tomás de Aquino considerava o mais grave: Soberba.
Foi um baque.


Voce pode se tornar um surfista assim. Pergunte-me como.

Todos testemunaram o rapaz bonzinho, idolatrado por todos pela esportividade e caráter imaculado, fazer uma sujeira com um companheiro de profissão, Slater remou pra trás do Beschen com um apetite para vitória e uma determinação que desafiava a moral e bons costumes vigentes, Beschen em nenhum momento acreditou que seu adversário seria capaz de um golpe tão baixo.
Foi.
Beschen deve pensado: ele nem é louco de se colocar numa situação dessas…
Esqueceu de 82 e de 86, quando disputaram o título americano em Sebastian Inlet.
Kelly não esquecera, nem engolira, sua derrota em 1994, praia lotada tambem, naquela mesma areia, por isso, esqueirou-se pelas costas de Beschen e virou, ágil como um felino, deixando o californiano em interferência.
O mundo ficou estarrecido. Juízes se recusavam a aceitar tal gesto desonroso, ouviram-se vaias, caretas, pais tapavam os olhos dos filhos pequenos na arquibancada, primitivo!, gritavam.
Kelly venceu e somente isso o interessava. Se sua imagem ficasse arranhada, ele os faria esquecer vencendo ainda mais.


O gosto da vitória

Esse era o espírito em 1996 e em 86 era ainda pior, 76 o pau comia solto e em 66 quem não arriscava, não existia.
Hoje Andy é considerado vilão por parte da imprensa pela atitude espontânea que lida com situações tensas, distante da máscara de bom garoto predileta pelas estrelas.
‘Vamos acabar logo com isso’ disse Irons pro Slater quando caminhavam para a fatídica final em Jeffreys Bay.
‘Destroe ele, Andy!’ Gritou embriagado Fanning.
Isso é uma arena de competição, tem leões lá fora.
Lembrar dessa ?
Na regressiva, Slater precisa quase dum 10, Andy esperava o cinco, quatro, tres, dois, um já areia, título em mãos, pronto para seu gole triunfal na latinha de Fosters.
‘Quer dizer que agora é assim ? voces julgam para o público ? deram a nota pro cara antes dele ficar em pé…’.
Andy Irons é último rebelde da ASP, o único que resiste fiel ao seu ideal: vencer e vencer.
Todo resto tenta justificar a permanência no mundo maravilhoso do WCT com frases de efeito, apelando para mais gasta das desculpas. Sim, voce acertou.
Se Kalani Robb tivesse um Andy Irons na época dele para motivá-lo a desafiar o fenômeno, talvez chegasse lá – assim como Dorian, ou Machado.
Diga-se de passagem, Andy tinha tudo para tornar-se um Kalani, mas um fogo queima dentro dele que o empurra para vitória, custe o que custar.
Irmão Bruce e coleguinha Wardo não tem esse sangue correndo nas veias, basta saberem-se, ou anunciados, tão bons quanto – perde o surfe.


Seu sólido relacionamento com Lindy é refletido nos seus resultados.

Slater sabe disso e logo quando ganhou seu sétimo, pensou em Andy: ‘Tenho que comprimentar esse cara…’, disse KS7, agora KS8, honesto e sádico ao mesmo tempo.
Foi o mesmo cara que o arrasou em 2002, numa semi final de resultado controverso, em Hossegor, antes do primeiro título de Andy, quando Slater achava que era só voltar e colher os louros.
Precisando de um 8.75 para virar contra um revigorado Slater, Irons surfa uma onda média de maneira contida, tres manobrinhas e uma finalização pouco eletrizante, um 6.5, quando muito um 7…
Nota anunciada: 9.
‘Me sinto mal, cara. Me sinto mal mesmo’, dizia entre os dentes Andy, eufórico.
‘O que devo fazer ? arremessar minha prancha nos juízes ?’ ponderava um Slater ainda sonolento, meio anestesiado pelo afastamento do circuito.
Desde sempre Andy escolheu Slater como referência e se beneficiou com isso.
Por outro lado, Slater demorou a entender que Irons não era feito do mesmo molde da turma que acompanhou nos últimos anos de WCT.
Andy pertencia a outra turma: Elkerton, Potter, Gerlach, Hardman, Lynch, Ho.
A batalha começava ali, 5 de Outubro de 2002, a alvorada do tricampeonato do havaiano e dos inacreditáveis oito títulos do Slater.

PS:
Naquele dia, um leonino de nome Neco Padaratz superou duas hérnias de disco, Luke Egan, Damien Hobgood e Andy Irons para conquistar o primeiro posto naquele evento histórico.
Alguma coisa aconteceu no meio do caminho e o desviou do trilho, mas Neco foi o primeiro dessa nova geração que surgia que não baixava a cabeça para Slater.


O triunfo no México fez KS8 entrar em estado de alerta.
Que graça teria o WCT sem esse cara ?

segunda-feira, novembro 27, 2006

Catarinas.doc

"Mais um pouco será mais fácil trazer Bjorn Borg para uma partida no aterro do que Cauli, Jefferson e Bocão para surfar na Joaquina". 1º Festival Olympikus no
No blogue Surfe Catarinense , maior central de dados, até agora, do surfe bananeiro.
Gustavo Cabral foi editor da finada revista Inside (feudo do Ledo Engano), teimoso que só, resolveu resgatar a história do surfe catarinense e, de quebra, do resto todo.
Reparem nos resultados, como a cariocada e Santistas invadiam o Santa Catarina atrás de uns brindes, grana, mulheres e até algumas ondas.
Cada campeonatinho desses vale dois dedinhos de prosa.
Quem conta ?

Som do Surfe

Alto Saxophone player Arthur Edward Pepper, Jr. (b. 1925; d. 1982) wanted to be known as the "greatest alto saxophone player in the world," a tall order considering contemporaries like Charlie Parker, Johnny Hodges, and Paul Desmond. In spite of this, Pepper outlived all of them while forging a unique and personal sound. Pepper, along with Desmond and Lee Konitz, were among the few small-combo saxophonists able to forge an individual sound despite the long shadow of Bird.




Surf Ride (Savoy, 1952)
Completely flawed in assembly and annotation, Surf Ride is nevertheless the superb example of the young Pepper in full bloom. A perfect juxtaposition to Roadgame.

sábado, novembro 25, 2006

Atacado

A merda de envelhecer é assistir camaradas que admira morrerem de atacado.
Puskas, Palance, Altman e Noiret passaram dessa pra melhor.


Um canhoto formidável

Ferenc Puskas era o Phil Edwards do futebol, o jogador que nem todo mundo viu jogar mas considerado um dos 5 maiores da história.
Meu Pai gostava de dizer que Puskas era baixinho e gordinho (todo baixinho e gordinho era genial pro papai), conduzia a bola com o pé justinho nela, encostadinho, ninguem tirava a bola dele, dizia - e como chutava!
A seleção Húngara bi-campeã olimpíca e vice na Copa do Mundo de 1954 é quase uma alucinação coletiva e Puskas era o jogador que todos sonhavam em ser.


Mestre da sétima arte - e oitava, de costurar histórias.

Robert Altman tinha a mesma elegância do húngaro, artes diferentes, paixões semelhantes.
Altman brincava com cinema como Puskas com a bola, driblava os roteiros e deixava os atores jogarem por música, o que nem sempre os agradava, burocráticos e adestrados como nosso meio de campo atual.
A primeira cena do 'O Jogador' (The Player, 1992, EUA) é formidável e define bem o estilo que eternizou Altman, disperso, mordaz, preciso.
Altman, no nosso meio, seria um Chris Brystron, idolatrado pela turma que se aprofunda no papo e deixado de lado pelos arautos dos incautos (uma rimazinha barata pra demonstrar veia poética medíocre).


O homem que todos amavam odiar

Palance, Jack Palance, foi o melhor homem mau que o cinema já teve.
Atuando em 'Os Brutos tambem amam' (Shane, 1953), Palance nos fez cerrar os punhos com raiva e no hilariante 'Amigos, sempre amigos' (City Slickers, 1991, EUA), mostrou que o segredo é nunca se levar a sério demais.
Palance deve ser o nosso Ian Cairns, com desvantagem para o australiano no quesito distinção.


O fino do humor

Por último, outra perda inestimável (como estimar uma perda?), Philippe Noiret , um monstro de ator, que jogou nas onze posições do campo.
Meu predileto dele não é nem 'O Carteiro e o Poeta', nem 'Cinema Paradiso', dois filmaços que merecem ser vistos de dois em dois anos para nos certificarmos que ainda não perdemos completamente a humanidade.
Escolho 'Meus caros amigos' (Amici Mei, 1975, Italia), do Mario Manicelli, com sua antológica e esporrante cena de abertura.
Dale Velzy seria um personagem parecido com Noiret.
Queiram desculpar a série de analogias, é o calor embaralhando os miolos.

sexta-feira, novembro 17, 2006

Explicando a anedota

José Vasconcelos no disco que dormia na vitrola lá de casa (embutida no móvel, semi-automática) contava uma anedota que eu gostava de repetir feito papagaio - até hoje, creiam.
Era simples e preconceituosa, como todas boas piadas.
Zé narrava a estória de um congresso de humoristas em Lisboa, chegada sua vez de subir ao palco, anunciou: Vou contar uma piada.
Um sujeito na platéia apressou-se em lembrar ao comediante: Atenção que somos portugueses!
Ao que Zé Vasconcelos respondeu: Não tem importância, eu conto duas vezes.
Piada só é boa se não precisar de explicação. Se precisar de preâmbulo ou posfácio perda completamente a graça.
Meu pai gostava muito daquela do mendigo que bateu na porta do judeu, toc, toc. Jacó atendeu: quem é ?
E o pedinte: Uma esmola, pelo amor de deus...
Jacó: Bota por debaixo da porta.
Pronto, uma de português e outra de judeu.



Divagando (divagar e sempre, aconselha Millôr) pela rede achei duas referências à A.B.O.G. (Associação Brasileira de Baba Ovos de Gringo), solene organização fundada por enstusiasmados jovens em idade para serviço militar num passado nem tão distante.
Me perdoem os velhos amigos mas vou explicar a piada...
Taiu na sua coluna e o editorial da virtual Black Water citam a A.B.O.G. nos seus textos, cada um defendendo a sardinha nossa de cada dia como podem, sem sequer se aproximar da idéia original.
E qual é a idéia original ? pergunta um rapaz na primeira fila, muito educado, com dedinho levantado.
Caetano, certa vez, vaiado por uma platéia, digamos assim, meio filistéia, mandou: voces não estão entendo absolutamente nada, nada, nada...
Nos remotos e intoleráveis anos 80, durante a realização do primeiro Hang Loose, na extinta e encantadora cidade de Florianópolis pré invasão dos bárbaros, foram localizados os movimentos rudimentares do núcleo que geraria a A.B.O.G.
Estávamos todos lá, gregos e baianos (um baiano, inclusive, deixou saudades num eterno vice depois duma noite ardente...deixa pra lá), cariocas e paulistas, Salazares e Tombos em grande confraternização, cercados de belas e edificantes moçoilas com suas roupas provocantes, olhares sôfregos e mais dúzias de adjetivos, substantivos e pronomes possessivos.
Não se enganem, amigos, fomos todos lá com a curiosidade e apetite de quem queria aprender, afinal, fazia quase meia década que aquela turma não aparecia por aqui (pombas! desde 82, bicho) com a última palavra em equipamentos para elementos desviados afanarem sem culpa e fazendo um surfe sobrenatural que deixava marcas profundas (epa!) nas praias do Bananão.
Entendam, caríssimos, que tratamos aqui duma epoca onde o vídeo ainda era artefato raro (custava uma fortuna) e os filmes, escassos como a grana no final do mês.
Chegávamos na praia antes do sol nascer para não perder nada.
Nenhuma onda do Occy, do Gerlach, do Carroll ou do Archbold passava em branco.
Quem não testemunhava, ouvia os relatos depois.
A gente torcia pra ver algum brasileiro surfando no nível dos caras, mas a distância era lunar.
Qualquer gringo que passasse com suas coloridas roupas de borracha mereciam quilos de atenção e demorava até o bom senso prevalecer e concluirmos que haviam, sim senhores, gringos que eram ainda piores do que nossos conterrâneos, custava um bocado esse processo, adesivos impressionavam demais.
As dunas da Joaca acumulavam gente curiosa, grupos numerosos e competidores atrás de um pouco de privacidade para encher os cornos com substâncias pouco recomendadas.
Permanecíamos das 6 da matina até o último gringo sair d'água, observando tudo com atenção, uma verdadeira aula.
Como era aula o Arpoador nos Waimea 5000 (nota: no Arpex, a gringalhada passava de cabeça baixa, malocava a chave bem escondida porque o galo cantava alto. Nêgo limpava o quarto dos caras rigorosamente. Deu mole, não sobrava nem parafina. É bonito isso ? Bonito não, mas engraçado pacas.)
Quem queria alguma coisa a mais do surfe, sentava e assistia com toda atenção- e todo mundo queria antes do advento do soul surf pela mão sacripanta da imprensa.
Aprendíamos tudo sobre equipamentos, manobras, comportamento.
Éramos todos deslumbrados e sabíamos muito bem disso.
Mas, sempre tem um mas para complicar, tinha tambem o outro lado da moeda.
Fina flor da elite catarinense (assim é se lhe parece), respeitem a omissão do nome do sujeito, um dos organizadores do campeonato fazia questão de distinguir bem os dois lados: gringos podem tudo, brasileiros não podem nada.
A praxe colou.



Alguns dos nossos amigos tambem aderiram.
Tem até o notório caso do camarada que insistiu em hospedar famoso surfista estrangeiro na casa dos pais.
Na mesa do jantar, uma bem posta mesa para o ilustre convidado, determinada altura, o conviva solta um sonoro arroto, desses longos, em dois tons.
A matriarca olha horrorizada para o filho que adianta-se em defender seu hóspede: Mãe, tem que ver as batidas que ele dá de backside.
E sempre havia o risco de garantir um agrado, fosse adesivo ou roupa de borracha, dado ou comprado, valia como souvenir.
Ou o ocorrido na festa de entrega de prêmios quando um fã exaltado ofereceu a namorada ao gringo: Brother, pleazzze, my girlfriend, goood, pleazze, very nice bunda, big peitos.
Sempre fomos excelentes anfitriões, desde Dora no Copacabana Palace e Troy no Arpex nos 60, passando pelos espetaculares 70, os execráveis 80, os ainda frescos 90 e os atuais 00.
Antropofagia é coisa nossa, literal e matefóricamente.
A A.B.O.G. hoje já não é mais aquela organização amadora que apenas cuidava de providenciar as melhores drogas e mulheres disponíveis no mercado, atualmente a A.B.O.G. tem tentáculos em toda sociedade, conta em paraísos fiscais, blogues, saites, revistas, grandes marcas e, dizem, até canal de TV.
Seus correligionários acreditam piamente na vinda do salvador, cheiroso e arrumadinho, sotaque caipira anasalado.

terça-feira, novembro 14, 2006

Tratado geral da goiabada



'A goiabada vulgar revela, apesar de tudo, um certo gosto que nos desperta o senso do prazer.'

Saulo Th. Pereira de Mello para Revista Piaui - clica no título e leia o resto.

Shaun

"I will catch a wave every day, even in my mind."
Shaun Tomson



Tomson's Surfer's Code
I will never turn my back on the ocean.
I will always paddle back out.
I will take the drop with commitment.
I will know that there will always be another wave.
I will realize that all surfers are joined by one ocean.
I will paddle around the impact zone.
I will never fight a rip tide.
I will watch out for other surfers after a big set.
I will pass on my stoke to a non-surfer.
I will ride, and not paddle in to shore.
I will catch a wave every day, even in my mind.
I will honor the sport of kings.

domingo, novembro 12, 2006

Tiúba

Tiúba é aquela pimenta, que nos olhos dos outros é refresco. Somos os outros.
Surfa com centro de gravidade baixo, sem jet skis, traz a prancha de volta quando manobra, é baiano mas não se ofende quando o confundem com carioca.



Recebeu convites do MoMa para uma exposição e recusou porque Novaiorque não tem onda boa e a água é muito fria.
Tem suas obras expostas em pontos remotos do Globo.
Gosta de pintar e entubar.



Completamente ignorado pelo nossa erudita imprensa, como surfista e artista, Tiúba planeja uma vida longe daqui, distante da nossa cegueira amestrada.
Vivesse nos Istêites, rodava de Mercedes e cubano puro na boca, fotos ao lado do Donavon e Rob Machado na 'soireé' em galeria pop da cena roliúdiana.



Aqui, é mais um sobrevivente.
Quanto tempo ainda para sairmos dessa indolente adolescência ?
A prancha abaixo está exposta na loja da Veltra.
Um gringo quis pagar 2000 Dólares e não levou.

Dabucetê



[Deu de tudo, e de tudo deu na praia da Vila, durante as disputas do WCT Brasil 2006. Marolas, só pra variar um pouco, água trincando, sol, vento nordeste, areia nos olhos, ventorréia de sul, frente-fria, chuva, baladas fortes, cancelamentos, adiamentos, novas chamadas, público frustrado, pousadas lotadas, restaurantes movimentados, pseudo-jornalistas e fotógrafos pra lá de marrentos, ondas horrivelmente mexidas pelo ventão e "especialistas" no assunto dizendo que havia altas quando, na verdade, eram os caras que pegavam muito... Também estavam lá a mulherada, sempre pronta pro crime, os gaúchos valentões que se metem a locais no Rosa e, infelizmente, os atletas brasileiros a decepcionar.]

Máurio Borges arregaça as mangas e põe a mão no balde de esterco.
Leia o resto clicando no título.

terça-feira, novembro 07, 2006

Peter Pan

'Venci o Beaurepaires quando tinha 17 anos e ganhei 30 mil e um carro.
Voce vence hoje em dia e ainda ganha os mesmos 30 mil, mas nada de carro'



[Occy em entrevista ao editor do Tracks, Sean Doherty, 20 anos numa hora, da edição comemorativa dos 40 anos do ogro.
Onde diziam que o surfe profissional está mesmo ?]

sexta-feira, novembro 03, 2006

Herro

[Coluna da Surf Portugal de Outubro, entregue no 19/09/06, dias antes do final do WCT de Hossegor, onde Parko passou o trator pela concorrência, antes tambem da fatídica final de Mundaka, quando negou um aperto de mão, humilhado por Slater, consagrado octa.
Escrever é arriscar.
Pra edição de Novembro, já nas bancas de lá, escrevi sobre a falta que faz um vilão ao WCT.]

Matt Hoy tinha um estilo inspirador.
Não era lá grande competidor, gostava de festas, mulheres e bebida mais do que humilhar oponentes.
Grandalhão como Simon Anderson e Luke Egan, Hoyo precisava de onda para desenhar seu lindos arcos e naquele circuito do início dos 90, isso era raro.
A Austrália tem facilidade em produzir esses surfistas.
Ainda quase na mesma geração, teve um baixinho chamado Shane Herring, na minha opinião o mais talentoso e ajeitado do paco que surgiu em 1990 – e olhem que nesse grupo tínhamos Slater, Powell, Beschen, Knox, Dorian, Ross Willians, Hoy, Egan e mais.


Shane Herring, depois da tempestade.

Herring podia não ser o melhor deles, não disse que era, mas tinha uma postura na prancha que comovia.
Em 1992, Herring empurrado pela torcida local bateu Slater na final do Coke, assumindo a ponta da corrida ao título.
Terminou em quarto no final do ano.
[Nota: Em quinto lugar nesse ano ficou Fabinho, que inclusive venceu no Japão com uma prancha comprada do Herring, as famosas Banana boards do Greg Webber. Dali para baixo.
Shane Herring ainda ficou mais alguns meses tentando achar o trilho no WCT e nada.
Quando encontrei Barton Lynch na Joaca no final da temporada, Nescau Pro 1993, perguntei pelo tampinha.
Barton bateu no braço, ali mesmo onde tiramos sangue, olhou pra areia e nem precisou dizer mais nada.
O buraco é fundo quando a droga entra pelas veias.
A foto acima é recente, uns 3 ou 4 anos.
Sarge me disse certa vez que o maior talento que ele tinha visto em toda sua vida depois do Occy era Shane Herring e que todo ano ele prometia voltar ao circuito.
Quem se lembra ?]

Faltou ritmo.
Ritmo é o que não falta ao Joel Parkinson.
Perguntado hoje sobre seu surfista predileto, Shane Herring nem pisca: Parko.
Desde Curren não vejo um surfista tão bem aceito pelas gerações anteriores como Joel Parkinson.
Fico impressionado com as reações quando em conversas seu nome é citado, uma verdadeira chuva de elogios, sempre acompanhada dum porem: precisa ‘querer’ mais o título mundial.
Esse camarada representa para a nova geração o que Rob Machado representava na anterior, sem a cabeleira, sem o violão.


Quem não torce pelo Joel ?

Joel é o surfista que todo mundo queria ser: elegante, versátil, moderno e clássico, quase debochado.
A semelhança com Machado tambem resvala na falta de gana para vencer, dois surfistas fabulosos, cheios de recursos e altamente indolentes em competição, como dissessem: ‘Isso pouco importa pra mim’.
Em 2006, ficou claro que Parko menospreza os novatos e paga caro por isso.
Perdeu para Martinez em casa porque achou que não seria um estreante no WCT que o tiraria do campeonato.
Em Bells, tentou fazer o que podia – tinha que fazer o impossível – mas bateu de frente num Slater exuberante, irresistível.
Nas duas esquerdas pesadas, apesar de surfar brilhantemente amargou duas derrotas precoces, contra o herói local Hira no Tahiti, apesar de o ter moído na primeira fase, e contra Troy Brooks em Fiji, imperdoável.
O mais incrível em Parko é seu retrospecto contra Slater: até 2006 ele nunca tinha perdido nos 4 encontros.
E contra Andy, arrisco dizer que a rivalidade é ainda mais acirrada do que Andy X Slater.
Andy e Slater se enfrentaram 7 vezes, 5 vitórias do A.I. e apenas duas do K.S.
Parko e Andy disputaram 7 baterias, tres finais, Bells e Nijima e Pipe em 2003, ano extraordinário do havaiano, que venceu a trinca, mas nas outras 4 deu Parko.
Mick Fanning é freguês de carteirinha – 4 x 0.
Quer dizer: o problema não é competição propriamente dita, é motivação pra derrotar os monstros do circuito – e nem todo mundo assusta Parko.



O WCT nos últimos 5 anos tornou-se uma corrida de dois carros.
O esporte precisa de mais gente disposta a chupar a carótida do adversário, como escrevia Nélson Rodrigues. Falta o olhar rútilo em Parko.
Falta a indignação.
Apenas Slater e Andy se alfinetam, ninguem mais arrisca dizer: é comigo ?!
Joel Parkinson poderia chamar a responsabilidade para si e bater no peito como um King-Kong enfurecido mas a vida lhe é demasiada mansa e as campanhas publicitárias cada vez menos dão bola aos campeões.
Nunca o surfe precisou tão pouco dos vencedores e isso reflete na atitude blasé dessa meia dúzia que assiste pasma Andy e Slater dominarem completamente a cena competitiva.
Duke era campeão olímpico, Phil Edwards era sem sombra de dúvidas o melhor.
Alguem tem que meter o pé na porta e interromper esse jogo de comadres.
Eu apostava no Parkinson, mas tudo indica que Taj vai lutar pelo vice, até que Andy resolva voltar, como sempre faz, ao topo.

quarta-feira, novembro 01, 2006

10 K



[Quiksilver should pay Slater the $10 million now. Up front. Today. Wire transfer. Cashiers check. Whatever. And the ASP should throw in whatever they can afford-- maybe free breakfast burritos and a Fosters at all the tour stops. For that matter, so too should Billabong, Volcom, Channel Islands, Pac Sun and the rest of the surf industry ante up to keep Slater on tour. Surfer magazine and myself included. Hell, every one of us who loves the WCT ‘dream tour’ should pay a fair share. I’ll pay.]
Scott Bass no saite da Surfer- clica no nome e leia o resto.