sexta-feira, julho 29, 2005

Menos dois

Semana de merda, perdemos dois craques:
Jair 'da' Rosa Pinto




Jajá com o manto sagrado.

Dom Um Romão




Dom Um Romão

quinta-feira, julho 28, 2005

Herbie

[Entrevista com Herbie Fletcher feita por Ben Marcus.
Interessante o tom do entrevistado e o dever de casa feito direitinho do entrevistador.
Me pergunto se a A.S.P. aprovaria...]


Herbie would go

'What do you think Hendrix meant when he said, You'll never hear surf music again?
I think he was laughing at the way people thought the Beach Boys were surf music. You know, surfers never listened to the Beach Boys. We were listening to jazz, blues and rock, you know?'

quarta-feira, julho 27, 2005

Carlos (clica e leia a entevista)

SURFING MAGAZINE: You’ve come a long way from Bells. That loss to Bede Durbidge left you pretty sour, didn’t it?

KELLY SLATER: I wasn’t just sour, I was f--kin’ pissed. [laughs]

terça-feira, julho 26, 2005

Confetes

Recomendo aqui o Blogue do DC Green que escrevia os textos mais desconexos e maravilhosos da ASL nos falecidos 90.
Um dos pontos altos, na minha modesta opinião, foi a cobertura do WCT de G.Land em 1996, com todo sarcasmo que a distância da Austrália para o Havaí permite, espetando Sunny, ridicularizando Beschen e enaltecendo Occy e Carrol.
DC comparava, então, o G.Land ao Octagon do campeonato de vale-tudo, chamando Kong de Tank e Beschen de Taktarov, pelo jogo de táticas na final que rendeu uma preciosa vitória ao americano, catapultando-o para uma disputa pelo título e um inédito e, mais uma vez na opinião do acima assinado, injusto vice campeonato no final do ranking.
DC tem outro blog World Wide Writers Co-Op, este em parceria com outros escritores.

Indicar Millor é elogiar o leitor, cliquem no trecho do texto ao lado: 'Esse assunto, amplo como as águas, deve ser retomado por gente capaz, que deixe de ser babacamente otimista pra ser conscientemente otimista.' e deixem o sangue ferver.

segunda-feira, julho 25, 2005

Allan Sieber

[O cartum (por algum motivo não consigo colocar a imagem, portanto, cliquem aqui e vejam no saite dele e texto abaixo é do Allan Sieber , uma espécie de Don Martin misturado com Fausto Wolff, o cara que perde o cliente mas não perde a piada. A série de animações Deus é pai é impagável.
O saite do Allan é visita diária obrigatória para manter o humor afinado nesses dias de caça às bruxas.
Quando Slater venceu com a latinha de cerveja na mão, Allan estava lá, conferindo a bagaça com o humor de sempre.
Sieber traduz nossos mais cruéis pensamentos em desenhos, sem os cuidados de linguagem cretinos que uma corja julga ser melhor para o grande público (como se houvesse um pequeno e médio, hu ?).
Os comentários, 77 até hoje, demonstram como a escola falha no ensino básico da leitura e a completa falta de senso de humor dos ditos surfistas.]



'O Fim dos Tempos está ai e espero sentado na minha poltrona a vinda do Anticristo.
Leio na Folha duas notícias correlatas que confirmam as teorias conspiratórias mais sinistras.
A primeira é que agora campeonato de surf tem antidoping. Olhem que absurdo! É a mesma coisa que fazer teste do bafômetro em puteiros ou cassinos. Algo assim.
A segunda é que um surfista brasileiro foi pego no antidoping. O malaco estava usando...esteróide anabolizante.
Que bosta. Dá até saudade de um filme mais ou menos como "Menino do Rio".
Agora espero pelo pior. Nem sei porque resolvi parar de fumar, afinal fudeu tudo mesmo.'

O problema sou eu

A história é boa e merece ser contada novamente.
Depois de ir em cana, o Barão de Itararé foi à corte defender-se diante do juíz Castro Nunes, da vara federal, que perguntou a que o réu atribuía sua prisão.
Apporelly (o primeiro nome artístico antes de auto-proclamar-se Barão de Apparício Torelli) respondeu: Tenho pensado muito, Excelência, e só posso atribuí-la ao cafézinho.
O juíz ofendeu-se: Ao cafézinho ?
O Barão, tranquilo: Vou explicar excelência. Eu estava sentado no Café Belas Artes, na Avenida Rio Branco, tomando meu oitavo cafézinho e pensando na minha mãe, que sempre me advertiu sobre o consumo excessivo de café. Nesse momento, chegaram os policiais e me deram voz de prisão. Só pode ser um castigo pelo abuso do cafézinho.
O magistrado Castro Nunes condenou-o a um ano e meio de grades até ser solto por falta de provas.


Neco beija seu segundo caneco do WQS. Motivo para uma investigação conduzida por...

A condenação sumária do Neco Padaratz pela A.S.P. não seria novidade de deixar ninguem de queixo caído caso o surfe tivesse virado esporte olímpico como a I.S.A vem defendendo a algum tempo.
Uma suspensão dessas, até branda, acontece de penca nas vésperas dos jogos olímpicos – e durante, derrubando recordes e reputações.
Nesses mesmos jogos, os gregos antigos já apelavam para cogumelos ‘mágicos’ para superarem os limites conhecidos.
Em 1886, a primeira morte: o ciclista Arthur Linton cai de overdose de Trimethyl.
Na década de 50 o império russo começa a usar hormônios e os americanos respondem com esteróides.
Em 1968, o Comitê Olímpico internacional apresenta sua lista de drogas proibidas e prevê punições severas para atletas que forem pegos.
Nesse mesmo ano, Jeff Hackman e Jock Sutherland dividiam uma casa em Maui, surfavam as mais fantásticas onda jamais vistas em Honolua, Jimi Hendrix filmava Rainbow Bridge com sua equipe alucinada em LSD, Mc Tavish e Nat provocaram um corte, literalmente, no tamanho das pranchas e o surfe nunca mais foi o mesmo.
Numa dessas manhãs esquisitas de 68, um dos companheiros de Jeff, Jack Eberle, excelente surfista, finalista do Duke de 67, pirou – surtou para nunca mais voltar.
Hackman jurou nunca mais tocar em alucinógenos.
Não conseguiu.
A nebulosidade que cerca a notícia da punição do Neco incomoda porque não se divulga quais seriam as drogas e nem como chegaram à sentença.
Nem se fala em futuros testes – muito menos em passados.
Quando Peterson Rosa classificou-se para o WCT com 17 anos, a A.S.P. criou uma regra impedindo que menores de 18 anos participassem integralmente do circuito mundial.
Poucos anos depois, essa sim a primeira punição significativa, Victor Ribas foi multado em US$ 5.000 por ter atirado pedras na direção dos juízes em Maldivas, embora a distância de Ribas fosse infinitamente maior e oferecesse menos perigo aos bons samaritanos que lhe seguraram uma bela nota, do que a de Sunny Garcia, quando em 93 arremessou ‘muffins’ no corpo de jurados, que chegavam a zunir nos seus ouvidos.
Percebemos então, que a simpática A.S.P. tem uma predileção especial pelo mulato inzoneiro, melhor ainda se não tiver um patrocínio de maior importância na bolsa de Uólistriti.
A receita vendida na revistas e filmes produzidos nos últimos 50 anos é de liberdade, dessas de anúncio da U.S Top (Jingle:Liberdade é uma calça velha e desbotada), usada para vender sandálias Reef Brazil e bermudas da Quiksilver.
Agora, essa alardeada liberdade, o tal do calção corpo-aberto no espaço que Caetano tanto cantou, tambem pune.
Estamos diante de algumas grandes contradições históricas.
Uma delas, confessada por Nat Young, em entrevista a Matt Warshaw (Above the Roar, 1997, Waterhouse, E.U.A), ‘Pode parecer egoísta, e é, mas eles não nos merecem…chamar de esporte é muito limitador…nós nem temos traves, nem linhas de chegada, nem tempo determinado (bem, esse temos)…Nossa herança é de anti-esportistas. Aonde se encaixaria um Mickey Dora ? e olhe que a contribuição dele é enorme.’
Não satisfeito, Warshaw continuou, ironicamente: ‘Então voce não estaria muito interessado em ver o surfe divulgado para o resto do mundo ?’
Nat Pezão desfiou sua filosofia de point-break: ‘Não é fácil pra mim, que escrevi 4 livros e dois filmes tentando sintonizar as pessoas na nossa curtição, mas adoro o fato de estarmos envolvidos com essa maravilhosa atividade e sermos apenas um pequeno grupo de amigos e familiares…’
Pois esse grupo de amigos, optou punir um dos seus ao invés de unirem-se como fizeram os jogadores de basquete da N.B.A. e confrontarem os cartolas.
Esse é justamente o outro problema: segregação.
Com mais um bocado de tempo se institucionalizará o bom e o mau exemplo como se precisássemos de apontar publicamente, quase como uma desculpa por sermos o que somos; perdão, não o senhor de rosto barbeado e camisa bem passada.
Vivemos ainda assobrados pelo eterno fantasma do velho delegado Elói que entrou para história pela porta dos fundos (quando prendeu Gil queimando um fumo brabo nos 70) com a frase: ‘Nem todo maconheiro é surfista, mas todo surfista é maconheiro’.
Muitos meninos ainda não dormem em paz por conta dessa máxima.
Curioso é que nem os anabolizantes, nem as tais das drogas recreacionais, trazem benefícios comprovados aos surfistas.
Um dos maiores charmes que guardamos é a imprevisibilidade.
Imprevisibilidade do tempo, das ondas, dos fundos, dos ritmos, dos humores, dos pés-direitos e esquerdos ao sair da cama, das pranchas, da parafina, da temperatura da água, das supertições.
Outro fato obscuro da notícia que a A.S.P. divulgou é a identidade do segundo surfista que foi pego com outras substâncias ‘menos-graves’ e multado em, olha aí de novo!, US$ 5.000 – por que um vai pra cruz e o outro solta um qualquer para a associação e nem seu nome aparece nos comunicados da acessoria ?
Que problemas Sunny tem com a justiça americana que o impediu de competir em J.Bay ?
E o que temos com isso ?
Mais uma pergunta: seria possível que um dos top 45 com carreira solidificada e bons patrocinadores da estirpe duma Billabong, Quiksilver ou Rip Curl (Da Hui, nem nos seus sonhos!) fosse punido dessa mesma forma ?
Mick Fanning, por exemplo, na sua fantástica vitória após séria contusão.
Taj e sua luta por um pouco mais de massa física.
Andy, Wardo, Cory, Fred, Sunny,Bruce e seus notórios apetites por drogas ‘leves’.
Fica a impressão que sobraria apenas os irmãos Hobgood limpos no WCT.
E a A.S.P. South America nessa história, não teria a obrigação de defender e orientar os seus ?
A discussão é longa e sempre acaba no bom e mau exemplo, um argumento esvaziado, desde que cabe a nós a escolha dos nossos modelos.
Quando garoto, sentado na pedras do Quebra-mar, passava os dias olhando os maiores ídolos do surfe carioca e brasileiro da época desfilarem seu talento e magia nas esquerdas.
Fora d’água, o encanto ás vezes quebrava-se com o confronto da realidade, por mais engraçado que parecesse um cara abaixar e cagar no jardim do prédio em frente divertia, mas não me servia de exemplo.
Nem os estrangulamentos do recem-chegado jiu-jitsu me seduziam a subjugar os haoles, nem os pregos furando os pneus, nem as pedras atiradas, nada daquilo me atraía – me afastei da onda que mais amava em nome do que eu acreditava.
Tenho lá minhas dúvidas se a Quiksilver ou a Billabong não seriam capazes de simplesmente remover seus campeonatos da França, caso um dos seus investimentos/atletas estivesse envolvidos num caso exemplar desses…
Pobre do garoto que, com medo da mão severa dum pai, ou envergonhado pelo seu estilo de vida, esconde-se orgulhosamente atrás dessas punições para provar que o esporte que escolheu é sério.
Se controle houver, prego que haja um teste semestral com todo corpo julgador e envolvidos na organização e produção de campeonatos, afinal a responsabilidade que carregam é por demais pesada para ser ignorada e pode influenciar na carreira dos ‘atletas’.
Aí então, voltamos a conversar.

PS1 - Enquanto isso, um súbito movivento reacionário é capaz de banir para sempre Neco, se não formos capazes de abrir os olhos rapidamente.

PS2 - Não posso deixar de pensar em Maradona perseguido pela Fifa em 1994 e privado do seu maior vício: Jogar futebol.

sexta-feira, julho 15, 2005

Futuro do surfe

[Esse texto é uma pérola do Pepê e merece uma republicação de tantos em tantos.]




Essa ilustração é do livro Way of the bird do Andy Davis e Andrew Kidman


O futuro do surfe são as ondas artificiais. Essa frase do argentino Aguerre, dono da Reef Brazil, ziguezagueia em meu cérebro.
Sempre que desembrulhei pensamentos sobre o amanhã do surfe jamais passou pelas minhas telhas um futuro tão promissor. Achei que o futuro do surfe seria carregado nos braços de surfistas aventureiros que ousassem remar águas escondidas em cantos de ilhas do Oceano Índico; Ou que o futuro fosse uma chave marinha entregue à uma criança balinesa por uma gaivota de passagem, que permitisse à ela (a criança) entubar ininterruptos minutos por todos os canudos do planeta; Ou que o caminho do adiante do surfe seria desenhado por um anão australiano capaz de esticar com os arcos de suas manobras mensagens de palavras azul cristal; Talvez um shaper desmiolado inventasse dois pedaços de prancha semelhantes ao formato dos pés, e essas sandálias inaugurassem um novo jeito de caminhar e rasgar água... Mas não. Nada disso. Na argentina filosofia de Aguerre tudo já foi arquitetado. O futuro são as ondas artificiais, 24 horas por dia.
Não precisaremos depender da boa vontade física ou metafísica: Marés, dias de sol, vento sudoeste, kona wind, chuvas, ciclones, tempestades, terral, fundo de coral... tudo isso será descartado do cotidiano dos futuros funcionários do ofício de surfar.
O sujeito pega um cartão eletrônico entra numa academia de onda, regula a voltagem e a temperatura da água, o tamanho da parede, a espessura do lip e... pronto. Pega suas conquistadas ondas artificiais. Não é maravilhoso?? Vai ter toda uma infra estrutura mercadológica (essa é a parte que mais atrai os visionários) funcionando: açaí, granola, suco de frutas, (não terá batata frita nem hambúrguer pois surfista que se preza só come comida natural), sandálias, decks, calções, sungas... Paisagistas formados em renomadas escolas da califórnia desenharão nuvens e gaivotas nos acrílicos tetos; DJs produzirão transados sons ambientes simulando o barulho dos tubos de Pipeline, enquanto modelos da Reef Brazil aguardarão,pela porta detrás da sauna (com duplo sentido), os heróicos surfistas. Tudo funcionando direitinho... e todo mundo de crachá, como manda o Mercado do Terceiro Milênio. Vai ter lugar pra todos : Inclusive pros nossos filhos menos dotados fisicamente, que poderão estudar „Arquiteture of Articial Waves‰ em Universidades dos EUA, Alemanha ou Japão. Os laboratórios genéticos produzirão clones de Carroll, Curren, Occy, Potter e Slater. Eles terão suas agendas abarrotadas por frenéticas viagens, onde farão constantes demonstrações nas academias de ondas internacionais.
Uma coisa, entretanto, será fundamental em todas academias; sem a qual o sucesso das mesmas ficará seriamente comprometido: Salão de Histórias.
Esses lugares serão disputados à tapa já que nem a eletrônica nem a informática conseguirá impor ordem às suas concorridas cadeiras. Nos Salões de Histórias terá sempre um velhinho bem menino contando como fazia pra surfar na sua infância. Fazendo descrições dos caminhos esburacados e cheios de lama quando descobriu as primeiras ondas na Indonésia; ou quando seus amigos, depois de cruzar a vista com barbatana de tubarão, remavam assustadíssimos em direção à areia (quando pronunciar a palavra areia, tirará um punhado dela de seu bolso e fará passarem de mão em mão para que sintam sua textura). O velhinho vai falar ainda de uma época em que algumas pessoas acordavam junto com a aurora pra chegar na praia antes do terral, contando que na noite desses dias tomava-se cerveja e comia-se peixes daquela mesma praia. A praia que lhes cedia tubos e partia suas pranchas ao meio. A praia onde ninguém encontrava o botão do terral pra acionar. A praia onde tudo podia acontecer. A praia onde cabiam os acasos e onde as memórias eram sedimentadas.
Na sala de histórias do velhinho terá sempre uma reserva de água
salgada.
Serão lágrimas.

Pedro Cézar

terça-feira, julho 12, 2005

Enquanto o mar inaugura um verde novinho em folha

[Um refrão que tudo resume e nos exime de qualquer explicacão]


Vinícius e Toquinho

Um velho calção de banho,
um dia pra vadiar
Um mar que não tem tamanho
e um arco-íris no ar
(Toquinho e Vinícius de Moraes, 1971)



Foto Steve Wilkings, Pipe, 1979.

Tingorilinha

[texto para a Surf Portugal apresentando Tinguinha, que meteu a viola no saco e se mandou pra Terrinha.]

Shaun Munro e Todd Miller me cercavam. A correnteza era forte correndo para o sul da praia da Barra da Tijuca, fazendo da remada um martírio, como sempre acontecia naquelas malditas valas, fundo e raso, água escoando feito um ralo aberto – baterias de 20 minutos, triagem, Alternativa Pro no Rio de janeiro, 24 de Outubro de 1991.
O momento da verdade tinha chegado para mim. Já tinha visto todo mundo da minha geração passar pela triagem e minha vez não chegava nunca. Duvidava todos os dias se realmente existia uma chance para um sujeito tão cheio de deficiências e limitado como eu.
Fabinho e Teco já tinham fincado a bandeira brasileira nos pódios da ASP mundo afora, atropelando a nova geração de Aussies e Yankees, triagem por triagem, varrendo Egans, Hoys, Knoxs e Beschens como quem esconde a poeira embaixo do tapete.
Os brasileiros tinham chegado.
O título mundial amador de Gouvêia em 88 tinha aberto novas possibilidades para nossos índios mostrarem que não ficariam satisfeitos apenas com apitos.
Da volta do circuito mundial para o Brasil em 86 com o Hang Loose da Joaquina até aquele 91, tínhamos subido tantos degraus na escadinha da ASP que não éramos mais uma ameaça, éramos, sim, um fato consumado.
Do isolado quinto lugar do Sérgio Noronha até a vitória do Fabinho- sempre ele! - no Hang Loose do Guarujá em 90, a presença maciça dos brasileiros em todos eventos do circuito mundial tornara-se mais do que incômoda e era refutada pelos habitués da tour como uma peste, uma praga.
E como praga, merecia ser combatida.
Se união havia entre americanos e australianos, inimigos mortais desde que o australiano Midget Farrely venceu o primeiro mundial de surfe em 1964, em cima do Mike Doyle e Joey Cabel na frente de 70.000 torcedores, dizia eu, se união fosse uma possibilidade em meados dos anos 90, impensável nos 60, 70 e 80, essa estranha e improvável aliança teria um objetivo apenas: impedir essa corja de brasileiros que entravam com os dois pés na porta da ASP.
Antes disso, uma marcação ou outra era apenas individual, como fizeram com Valdir Vargas no Pipe Masters de 82, Brian Buckley e outro havaiano, amendrotados com a facilidade impressionante do carioca em apanhar tubos.
Não creiam que uniam-se todos surfistas que dividiam o idioma inglês para estudar estratégias contra o terceiro mundo, nada disso.
A coisa era intuitiva.
O princípio, idêntico ao localismo, dava-se da seguinte forma: estamos aqui nessa batalha faz muito mais tempo do que eles, não vamos entregar os pontos assim tão fácil- para tomarem nossos lugares, tão suados, vão ter que rebolar esses latinos.
E como os latinos sabiam rebolar!
Tinguinha Lima era dos que melhor gingava em cima da prancha. Apareceu em 78, criolinho mirrado, de prancha velha e manobras novas num campeonato no Guarujá, lépido e fagueiro - 3 anos de surfe e já ficava em quinto lugar.
Campeão brasileiro profissional em 90, repetiu a dose em 93, com 29 anos, e ainda entrou no WCT, infelizmente com 10 anos de atraso. Tinga, como é carinhosamente conhecido, surfou muito á frente do seu tempo, inventando manobras que seriam conhecidas apenas 15 anos mais tarde, como o ‘cut-tinga’ que ficaria conhecido como ‘reverse’ quando um garoto magrelo da Flórida apresentou ao mundo o truque no vídeo Kelly Slater’s Black and White.
Seguindo com o primeiro parágrafo, encontrava-me encurralado pelos dois gringos. Precisava de uma nota alta, um 7 e alguma coisa, a corrente era implacável e não nos deixava parar de remar nem um segundo sequer.
Shaun Munro estava em segundo, este que vos escreve em terceiro, Tinguinha em quarto, Todd Miller liderava fácil, com duas esquerdas bem manobradas acima de 7.
Munro guardava o pico na parte de dentro e Todd Miller acabava com qualquer chance d’eu surfar me empurrando pra dentro do banco de areia, onde as ondas fechavam completamente.
A intenção deles era manter-me ocupado e preocupado suficiente para, quando viesse uma das poucas séries, protegerem suas colocações.
Tinga não se achava.
Faltando pouco mais de cinco minutos, Nuno Jonet anunciava a situação da bateria com Tinguinha em último e eu em terceiro, os brasileiros mais uma vez sendo derrotados, como foram tantas vezes, em casa.
A praia cheia se ressentia da derrota anunciada.
Tinga voltava de mais uma onda medíocre, mirou meus dois marcadores e soltou: ‘Fica tranquilo Marreco (meu apelido…), porque esses gringos filosdaputa não vão mais pegar onda!’.
‘Calma Tinga, vamos passar nós dois. Ainda há tempo…’ disse eu tentando dissuadí-lo da louca empreitada, com uma ponta de esperança patriótica.
Nosso herói arremessou-se como um kamikaze ao encontro dos dois gringos e infernizou a vida deles como eles infernizavam a minha.
Série entrando…
Nós todos tão concentrados em não deixar um ao outro surfar aquelas preciosas ondas e o Tinga firme no intuito de permitir que pelo menos um de nós, brasileiros, dignificassem a torcida na areia.
Bloqueando Munro e Miller, Tinga me presenteou com a melhor onda da bateria.
Do palanque, Nuno assistia atento e torcia em silêncio pelos patrícios, mas sua voz não escondia sua contentação:’ na última onda, Júlio Adler precisava de 7.5 e consegue um 8.17 e vira pra cima de Shaun Munro que agora precisa de 7… on the last wave…’.
Foi a única vez que consegui passar a triagem no campeonato do Rio, perdi em seguida para o Vetea David no homem X homem numa bateria ridícula em ondas ridículas, que naturalmente me favoreciam contra um pesadíssimo David.
A atitude do Tinga nunca me abandonou. Tentei repetí-la em outras oportunidades, nem sempre com sucesso, abnegado.
Se o surfe e a competição servem para revelar o verdadeiro caráter das pessoas, eu lhes apresento, com muito orgulho, Tinguinha Lima.

terça-feira, julho 05, 2005

Brock

[Mais uma entrevista exclusiva do saite da Surfer.
Brock Little, o bombeiro que deu início a nova onda de surfistas sem limites, disse que Dorian é O homem em ondas grandes.
O mesmo Brock que tentou dropar aquela bomba assustadora em Waimea, durante sua bateria no Eddie de 1990 - ficou em segundo, atrás apenas do Keone Downing (filho do camarada que conhece tudo de ondas grandes no Havaí, dentro e fora d'água, George Downing, diretor de prova do Eddie Aikau.
Justamente o Brock Little, que estava fazendo história no norte da Califórinia - primeiros havaianos em Maverick's- no fatídico 23 de Dezembro de 1994, quando por volta do meio dia Mark Foo sofreu uma vaca que parecia normal e deixou a comunidade consternada pela sua morte.
Esse sujeito sabe do que fala. E se ele diz que Dorian é o melhor em onda grande, um surfista mais atento se pergunta: e Laird ?
Cada um responda pra dentro.
Daqui da minha Choça cibernética, dá a impressão de que, quanto mais esses malandros (Dorian, Slater, Bruce & Andy, TC e cia...)surfarem as bombas do reino de Laird, melhores e mais distantes ficarão dos demais.
A chance é de testemunharmos uma geração extraordinária de surfistas aplicando toda técnica e talento esbanjado em ondas de até, digamos, 18, 20 pés, em morras de 70, 80, quem sabe 100 pés num futuro tão próximo que amedronta.
O surfe rebocado democratiza esse novo espaço para os que nunca souberam sequer subir numa prancha sem a ajuda mecânica(vide nosso celebrado Formiga, no ESPN Brasil) até os que não tinham coragem antes do Jet skis (tá lá o Gerlach para confirmar)ou apetite para o prato indigesto, para o desafio.
Unindo culhão e talento, caso do Resende, a coisa fica diferente.]



Foto de Tim Mc Kenna (clica aqui e veja o resto)


BROCK LITTLE: 'Shane Dorian has lost his mind.
SURFERMAG.COM: Do you ride those waves?
BROCK LITTLE: No I was mostly driving. I could ride them if somebody called me out or got weird but it was gnarly. I was living vicariously through those guys. To tell you the truth it’s weird to put someone into a wave like that because you know, they could get killed. Dorian especially. The gnarlier the better. He’s out of his mind.
SURFERMAG.COM: You’ve always said he’s the best big-wave surfer in the world.
BROCK LITTLE: He just keeps getting better and better.