sexta-feira, julho 15, 2005

Futuro do surfe

[Esse texto é uma pérola do Pepê e merece uma republicação de tantos em tantos.]


Essa ilustração é do livro Way of the bird do Andy Davis e Andrew Kidman


O futuro do surfe são as ondas artificiais. Essa frase do argentino Aguerre, dono da Reef Brazil, ziguezagueia em meu cérebro.
Sempre que desembrulhei pensamentos sobre o amanhã do surfe jamais passou pelas minhas telhas um futuro tão promissor. Achei que o futuro do surfe seria carregado nos braços de surfistas aventureiros que ousassem remar águas escondidas em cantos de ilhas do Oceano Índico; Ou que o futuro fosse uma chave marinha entregue à uma criança balinesa por uma gaivota de passagem, que permitisse à ela (a criança) entubar ininterruptos minutos por todos os canudos do planeta; Ou que o caminho do adiante do surfe seria desenhado por um anão australiano capaz de esticar com os arcos de suas manobras mensagens de palavras azul cristal; Talvez um shaper desmiolado inventasse dois pedaços de prancha semelhantes ao formato dos pés, e essas sandálias inaugurassem um novo jeito de caminhar e rasgar água... Mas não. Nada disso. Na argentina filosofia de Aguerre tudo já foi arquitetado. O futuro são as ondas artificiais, 24 horas por dia.
Não precisaremos depender da boa vontade física ou metafísica: Marés, dias de sol, vento sudoeste, kona wind, chuvas, ciclones, tempestades, terral, fundo de coral... tudo isso será descartado do cotidiano dos futuros funcionários do ofício de surfar.
O sujeito pega um cartão eletrônico entra numa academia de onda, regula a voltagem e a temperatura da água, o tamanho da parede, a espessura do lip e... pronto. Pega suas conquistadas ondas artificiais. Não é maravilhoso?? Vai ter toda uma infra estrutura mercadológica (essa é a parte que mais atrai os visionários) funcionando: açaí, granola, suco de frutas, (não terá batata frita nem hambúrguer pois surfista que se preza só come comida natural), sandálias, decks, calções, sungas... Paisagistas formados em renomadas escolas da califórnia desenharão nuvens e gaivotas nos acrílicos tetos; DJs produzirão transados sons ambientes simulando o barulho dos tubos de Pipeline, enquanto modelos da Reef Brazil aguardarão,pela porta detrás da sauna (com duplo sentido), os heróicos surfistas. Tudo funcionando direitinho... e todo mundo de crachá, como manda o Mercado do Terceiro Milênio. Vai ter lugar pra todos : Inclusive pros nossos filhos menos dotados fisicamente, que poderão estudar „Arquiteture of Articial Waves‰ em Universidades dos EUA, Alemanha ou Japão. Os laboratórios genéticos produzirão clones de Carroll, Curren, Occy, Potter e Slater. Eles terão suas agendas abarrotadas por frenéticas viagens, onde farão constantes demonstrações nas academias de ondas internacionais.
Uma coisa, entretanto, será fundamental em todas academias; sem a qual o sucesso das mesmas ficará seriamente comprometido: Salão de Histórias.
Esses lugares serão disputados à tapa já que nem a eletrônica nem a informática conseguirá impor ordem às suas concorridas cadeiras. Nos Salões de Histórias terá sempre um velhinho bem menino contando como fazia pra surfar na sua infância. Fazendo descrições dos caminhos esburacados e cheios de lama quando descobriu as primeiras ondas na Indonésia; ou quando seus amigos, depois de cruzar a vista com barbatana de tubarão, remavam assustadíssimos em direção à areia (quando pronunciar a palavra areia, tirará um punhado dela de seu bolso e fará passarem de mão em mão para que sintam sua textura). O velhinho vai falar ainda de uma época em que algumas pessoas acordavam junto com a aurora pra chegar na praia antes do terral, contando que na noite desses dias tomava-se cerveja e comia-se peixes daquela mesma praia. A praia que lhes cedia tubos e partia suas pranchas ao meio. A praia onde ninguém encontrava o botão do terral pra acionar. A praia onde tudo podia acontecer. A praia onde cabiam os acasos e onde as memórias eram sedimentadas.
Na sala de histórias do velhinho terá sempre uma reserva de água
salgada. Serão lágrimas.

Pedro Cézar

3 comentários:

Carlos disse...

carambolas!
parabens ao pedro por mais uma, e a voce por isso aqui.

Anônimo disse...

Cirurgicamente e poeticamente certeiro! Mesmo as implicações que existem na construção de um fundo artificial numa praia como a Macumba ou Piratininga (que formariam ondas no mínimo semi artificiais) devem ser profundamente estudadas... Afinal, não é a especulação imobiliária uma das grandes responsáveis pela destruição de vários picos de surfe (não só os picos, mas os povoados que os abrigavam)? Vide Búzios, Piratininga, Ipanema etc. e etc. Imagina os efeitos comerciais e empresariais que um fundo artificial de sucesso traria pra qualquer praia, ainda mais uma já esquecida pelos surfistas...
Parabéns pelo Goiabada! Queria ver todas essas informações numa revista, na praia, disponível para todos...

Nilton Veiga disse...

Naum sejamos egoistas de pensar que apenas alguns merecem a chance de surfar boas ondas. Ondas artificiais naum aniquilariam a existencia do prazer de correr atras de ondas perfeitas naturais. Sao possibilidades de uma divulgacao cada vez maior do esporte. Surfo desde os 7 anos porem por motivos de trabalho tive que me mudar para o interior, bem interior. E como sinto falta do surf, e naum de sessoes epicas, e sim da sensacoes de deslizar sobre a onda. A resposta possa estar nas ondas artificiais Pedro. Nao se pode condenar uma alternativa ao esporte, eh claro que o surf in natura sempre sera mais prazeroso, porem esse mesmo prazer deve estar disponivel ao maior numero possivel de pessoas. Pense por exemplo nos paredoes de escalada, nao subtistiem o prazer de chegar ao final de um pico apos horas e horas de estudo sobre a montanha e ver a paisagem de cima, porem proporcionam uma alternativa acessivel para que no dia da escalada natural ela se torne possivel.

Abraco