segunda-feira, julho 25, 2005

O problema sou eu

A história é boa e merece ser contada novamente.
Depois de ir em cana, o Barão de Itararé foi à corte defender-se diante do juíz Castro Nunes, da vara federal, que perguntou a que o réu atribuía sua prisão.
Apporelly (o primeiro nome artístico antes de auto-proclamar-se Barão de Apparício Torelli) respondeu: Tenho pensado muito, Excelência, e só posso atribuí-la ao cafézinho.
O juíz ofendeu-se: Ao cafézinho ?
O Barão, tranquilo: Vou explicar excelência. Eu estava sentado no Café Belas Artes, na Avenida Rio Branco, tomando meu oitavo cafézinho e pensando na minha mãe, que sempre me advertiu sobre o consumo excessivo de café. Nesse momento, chegaram os policiais e me deram voz de prisão. Só pode ser um castigo pelo abuso do cafézinho.
O magistrado Castro Nunes condenou-o a um ano e meio de grades até ser solto por falta de provas.


Neco beija seu segundo caneco do WQS. Motivo para uma investigação conduzida por...

A condenação sumária do Neco Padaratz pela A.S.P. não seria novidade de deixar ninguem de queixo caído caso o surfe tivesse virado esporte olímpico como a I.S.A vem defendendo a algum tempo.
Uma suspensão dessas, até branda, acontece de penca nas vésperas dos jogos olímpicos – e durante, derrubando recordes e reputações.
Nesses mesmos jogos, os gregos antigos já apelavam para cogumelos ‘mágicos’ para superarem os limites conhecidos.
Em 1886, a primeira morte: o ciclista Arthur Linton cai de overdose de Trimethyl.
Na década de 50 o império russo começa a usar hormônios e os americanos respondem com esteróides.
Em 1968, o Comitê Olímpico internacional apresenta sua lista de drogas proibidas e prevê punições severas para atletas que forem pegos.
Nesse mesmo ano, Jeff Hackman e Jock Sutherland dividiam uma casa em Maui, surfavam as mais fantásticas onda jamais vistas em Honolua, Jimi Hendrix filmava Rainbow Bridge com sua equipe alucinada em LSD, Mc Tavish e Nat provocaram um corte, literalmente, no tamanho das pranchas e o surfe nunca mais foi o mesmo.
Numa dessas manhãs esquisitas de 68, um dos companheiros de Jeff, Jack Eberle, excelente surfista, finalista do Duke de 67, pirou – surtou para nunca mais voltar.
Hackman jurou nunca mais tocar em alucinógenos.
Não conseguiu.
A nebulosidade que cerca a notícia da punição do Neco incomoda porque não se divulga quais seriam as drogas e nem como chegaram à sentença.
Nem se fala em futuros testes – muito menos em passados.
Quando Peterson Rosa classificou-se para o WCT com 17 anos, a A.S.P. criou uma regra impedindo que menores de 18 anos participassem integralmente do circuito mundial.
Poucos anos depois, essa sim a primeira punição significativa, Victor Ribas foi multado em US$ 5.000 por ter atirado pedras na direção dos juízes em Maldivas, embora a distância de Ribas fosse infinitamente maior e oferecesse menos perigo aos bons samaritanos que lhe seguraram uma bela nota, do que a de Sunny Garcia, quando em 93 arremessou ‘muffins’ no corpo de jurados, que chegavam a zunir nos seus ouvidos.
Percebemos então, que a simpática A.S.P. tem uma predileção especial pelo mulato inzoneiro, melhor ainda se não tiver um patrocínio de maior importância na bolsa de Uólistriti.
A receita vendida na revistas e filmes produzidos nos últimos 50 anos é de liberdade, dessas de anúncio da U.S Top (Jingle:Liberdade é uma calça velha e desbotada), usada para vender sandálias Reef Brazil e bermudas da Quiksilver.
Agora, essa alardeada liberdade, o tal do calção corpo-aberto no espaço que Caetano tanto cantou, tambem pune.
Estamos diante de algumas grandes contradições históricas.
Uma delas, confessada por Nat Young, em entrevista a Matt Warshaw (Above the Roar, 1997, Waterhouse, E.U.A), ‘Pode parecer egoísta, e é, mas eles não nos merecem…chamar de esporte é muito limitador…nós nem temos traves, nem linhas de chegada, nem tempo determinado (bem, esse temos)…Nossa herança é de anti-esportistas. Aonde se encaixaria um Mickey Dora ? e olhe que a contribuição dele é enorme.’
Não satisfeito, Warshaw continuou, ironicamente: ‘Então voce não estaria muito interessado em ver o surfe divulgado para o resto do mundo ?’
Nat Pezão desfiou sua filosofia de point-break: ‘Não é fácil pra mim, que escrevi 4 livros e dois filmes tentando sintonizar as pessoas na nossa curtição, mas adoro o fato de estarmos envolvidos com essa maravilhosa atividade e sermos apenas um pequeno grupo de amigos e familiares…’
Pois esse grupo de amigos, optou punir um dos seus ao invés de unirem-se como fizeram os jogadores de basquete da N.B.A. e confrontarem os cartolas.
Esse é justamente o outro problema: segregação.
Com mais um bocado de tempo se institucionalizará o bom e o mau exemplo como se precisássemos de apontar publicamente, quase como uma desculpa por sermos o que somos; perdão, não o senhor de rosto barbeado e camisa bem passada.
Vivemos ainda assobrados pelo eterno fantasma do velho delegado Elói que entrou para história pela porta dos fundos (quando prendeu Gil queimando um fumo brabo nos 70) com a frase: ‘Nem todo maconheiro é surfista, mas todo surfista é maconheiro’.
Muitos meninos ainda não dormem em paz por conta dessa máxima.
Curioso é que nem os anabolizantes, nem as tais das drogas recreacionais, trazem benefícios comprovados aos surfistas.
Um dos maiores charmes que guardamos é a imprevisibilidade.
Imprevisibilidade do tempo, das ondas, dos fundos, dos ritmos, dos humores, dos pés-direitos e esquerdos ao sair da cama, das pranchas, da parafina, da temperatura da água, das supertições.
Outro fato obscuro da notícia que a A.S.P. divulgou é a identidade do segundo surfista que foi pego com outras substâncias ‘menos-graves’ e multado em, olha aí de novo!, US$ 5.000 – por que um vai pra cruz e o outro solta um qualquer para a associação e nem seu nome aparece nos comunicados da acessoria ?
Que problemas Sunny tem com a justiça americana que o impediu de competir em J.Bay ?
E o que temos com isso ?
Mais uma pergunta: seria possível que um dos top 45 com carreira solidificada e bons patrocinadores da estirpe duma Billabong, Quiksilver ou Rip Curl (Da Hui, nem nos seus sonhos!) fosse punido dessa mesma forma ?
Mick Fanning, por exemplo, na sua fantástica vitória após séria contusão.
Taj e sua luta por um pouco mais de massa física.
Andy, Wardo, Cory, Fred, Sunny,Bruce e seus notórios apetites por drogas ‘leves’.
Fica a impressão que sobraria apenas os irmãos Hobgood limpos no WCT.
E a A.S.P. South America nessa história, não teria a obrigação de defender e orientar os seus ?
A discussão é longa e sempre acaba no bom e mau exemplo, um argumento esvaziado, desde que cabe a nós a escolha dos nossos modelos.
Quando garoto, sentado na pedras do Quebra-mar, passava os dias olhando os maiores ídolos do surfe carioca e brasileiro da época desfilarem seu talento e magia nas esquerdas.
Fora d’água, o encanto ás vezes quebrava-se com o confronto da realidade, por mais engraçado que parecesse um cara abaixar e cagar no jardim do prédio em frente divertia, mas não me servia de exemplo.
Nem os estrangulamentos do recem-chegado jiu-jitsu me seduziam a subjugar os haoles, nem os pregos furando os pneus, nem as pedras atiradas, nada daquilo me atraía – me afastei da onda que mais amava em nome do que eu acreditava.
Tenho lá minhas dúvidas se a Quiksilver ou a Billabong não seriam capazes de simplesmente remover seus campeonatos da França, caso um dos seus investimentos/atletas estivesse envolvidos num caso exemplar desses…
Pobre do garoto que, com medo da mão severa dum pai, ou envergonhado pelo seu estilo de vida, esconde-se orgulhosamente atrás dessas punições para provar que o esporte que escolheu é sério.
Se controle houver, prego que haja um teste semestral com todo corpo julgador e envolvidos na organização e produção de campeonatos, afinal a responsabilidade que carregam é por demais pesada para ser ignorada e pode influenciar na carreira dos ‘atletas’.
Aí então, voltamos a conversar.

PS1 - Enquanto isso, um súbito movivento reacionário é capaz de banir para sempre Neco, se não formos capazes de abrir os olhos rapidamente.

PS2 - Não posso deixar de pensar em Maradona perseguido pela Fifa em 1994 e privado do seu maior vício: Jogar futebol.

5 comentários:

Anônimo disse...

eedie - aju
lembra do robbie page, q foi pego com uma pequena quantidade de lsd na alfândega do japão e a asp puniu? e por q o occy não? e tem mais, essa de esconder o nome do q foi pego no teste com marijuana e alucinógenos, tem q botar pressão pra falarem quem foi. chega de um peso, duas medidas.

Anônimo disse...

Acho isso tudo estranho demais...
No último WCT relizado no Estado do Rio, mais precisamente em Saquarema...vários tops Australianos, se "divertiam", com sacos de cocaína, dentro da própria poudada!! Existem várias testemunhas!!Entre os "usuários" : Occy/Campbell?taj/Jake...entre outos...todos viram ninguém disse nada....
Será que só o Neco é culpado???

Anônimo disse...

esse foi de longe, muito longe o melhor depoimento/esclarecimento/defesa e orgulho, já escrito por alguém ou onde...

abraço

Anônimo disse...

imagina um teste destes nos tempos de potter, kong, carrol, ross clarke e cia...

Anônimo disse...

Curioso que a ASP, que tanto quer afastar-se do conceito olímpico, puna um dos seus "galácticos" com base numa restrição... olímpica! Ah, mas é a lei francesa!... tudo bem, o atleta seria proibido de competir em França, não no mundo! Cambada de idiotas, xenófobos e cobardes! Nada que me surpreenda, depois do que fizeram com o WCT português, cuja licença está agora nas mãos da "toda poderosa" Rip Curl, com o pomposo nome The Search! The search for what? Como diria o meu amigo Júlio, vai tomar nuku! Pode ser que também acuse no teste! Sabem que mais, acredito que o Neco vai, mais uma vez, calar a boca a todos em 2007! Boa sorte!

MP