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domingo, maio 22, 2016

O que passa na sua cabeça ?

[Coluna Sopa de Tamanco, Abril 2016]

Havai, 2011 Era pré ataques virtuais



Hoje tive saudade do tempo anterior ao nosso.

Um tempo onde os amigos se encontravam sem querer, dois ou três anos sem se ver, sem se falar, e ficavam verdadeiramente felizes de se encontrar novamente.

Eu sinto falta dessa sensação.

Acho que não fomos feitos para acompanhar todo e qualquer movimento que um amigo faz ou deixa de fazer.

Deveria haver um mistério em cada pessoa e uma surpresa em cada encontro.

Pode parecer papo de velho, e é papo de velho, mas acreditem, havia menos atrito.


Tenho um grande amigo, desses que voce faz festa quando esbarra e passa duas horas conversando sem perceber que o tempo passou.

Na vida toda, devo ter o encontrado umas tantas vezes, nada que justifique uma amizade profunda e celebrada, mas sempre tive grande alegria em ve-lo.

Graças as redes sociais, passei a ter contato quase diário com o camarada.

No inicio, um grande alivio poder reduzir as distancias, finalmente acompanhar o que passava por aquela cabeça arguta e atenta, primeiro pelo seu blogue, depois através de outras ferramentas.

Era bacana ter a sensação de estar mais uma vez no banco do carona, voltando do Hang Loose pro em Imbituba, discordando de quase tudo e concordando com o que restava.

Aos poucos percebi que sua participação, postagens, era bem acima do média dos outros contatos, ou seja, tínhamos ali quase uma narração em tempo real do que passava, ou não passava, pela cabeça do camarada.

Não preciso disso, pensei.

O que era antes um conforto, tornou-se fardo e voce imediatamente passa a se incomodar com aquilo.

Mesmo quando voce ainda é adolescente e mora em casa com seus pais e irmãos, não é necessário saber tanto assim o que se passa na cabeça deles, existe um filtro natural pra isso, chama-se bom senso e serve pra quem fala e pra quem escuta - substitua por quem escreve e quem le.

Por mais que voce tente se esquivar, acaba por julgar tanta informação derramada ali na sua frente, nem que seja apenas um ralo certo e errado.

A armadilha é essa, a falsa proximidade que estas situações criam e suas possíveis consequências.

De repente, voce se dá conta que talvez no proximo encontro real não se repita a festa dos últimos três ou quatro e tudo que havia pra ser dito já foi virtualmente dito, ou escrito, e os dois são atingidos por enorme enfado…

Exceto se no meio disso tudo entrar uma escapadela pra pegar onda em algum lugar remoto, sem a multidão faminta, sem os gritos, sem as disputas.

Nesse caso específico e improvável, os dois velhos amigos serão apenas isso, 

dois velhos amigos.

O surfe seria apenas uma desculpa para deixar tudo de lado e ir pro mar lavar a alma - sim, eu também uso essa palavrinha tão maltratada pelos surfistas…

Dentro d’água voltamos ao que há de mais primitivo nas relações e nas reações.

E ao final de uma boa onda surfada, esquecemos tudo (os mecanismos de agressão, de defesa, as posições hierárquicas no grupo e a delimitação de território) e ao ver o amigo, estamos prontos para o abraço.



Esse é, apenas, um dos motivos que eu surfo.

quarta-feira, maio 25, 2011

O Principe




Fotos do Felipe Casteja  emprestadas do Facebook do seu grande amigo Jacques Nery


Lendaria equipe Wrangler. Felipe era companheiro de outro surfista excepcional, André Pitzalis






(Coluna Tempestade em Copo d'água, Revista Surf Portugal e Sopa de Tamanco na Revista Hardcore, Janeiro 2011)

Andy chegou meio desconfiado naquele ambiente celestial demais pro que esperava.
Movendo-se rapidamente, Dora apareceu na sua frente, sobretudo em cima da bermuda, bigode ralo e barba por fazer.
O que posso fazer por voce garoto ?
Andy não sabia o que dizer.
Dora estava acostumado com quem chegava antes da hora, sempre indecisos e confusos, pouco desenvoltura para o que ele chama de ‘supremo momento de liberdade’.
Relogio, jóias, 50 % duma mina de diamantes na Namibia que comprei em 1984, um livro autografado pelo Heminghway, maços de marlboro, bebida forte. O que voce quiser, eu consigo garoto. Qual sua droga ?
Andy sentiu vergonha, achou por escolher a mina na Namibia e um paco de cigarro.
Dora piscou para Butch, logo atras, sorrindo e fazendo sinais de aprovação com a cabeça, abraçado com uma garrafa de uísque - volta em meia hora Butchie, disse ele.
Petit e Gironso rondavam por ali, atentos com a malandragem dos coroas, nunca era tarde para aprender um novo truque.
Simmons, sempre emburrado, bolava um jeito genial de sair dali, Jose Angel acendia um charuto a sacaneava o matuto sem pena- agora fudeu russo! Tem mais jeito não, relaxa, pô!
Foi quando tocaram as trombetas.
E as trombetas soavam apenas em ocasiões especiais.
Chegava um principe, um verdadeiro principe.
Pelos reis, muitas vezes as trombetas nem tocavam. Reis morriam velhos, tinham tempo demais para estragar sua reputação.
Reis traziam muita morte, cobiça, traição - Reis eram gordos e feios.
Principes eram jovens, muitas vezes ainda bem apessoados, quase sempre elegantes.
Ouviu-se uma salva de palmas, discretos gritos, entrou Phelipe de casteja.
Dora sabia que não podia com ele,  afinal de contas era carioca da gema, criado na praia, malandro.
Pepe e Andre Pitzlalis o receberam com o entusiasmo de sempre, Meu camarada!
Paulo Tendas, lepido e fagueiro, apressou-se para reunir-se ao pequeno grupo que se formava.
Nilton Barbosa apareceu do nada com uns cromos na mão, Felipe, ja viu essas daqui ?
Muitos ali se perguntavam o porque das regalias daquele sujeito tão simples e sorridente.
Andy não teve uma chegada destas.
Philipe é dum tempo diferente. 

Tempo do Felipe.




Pouca gente surfava tão bonito e tão veloz...





Australianos tinham Mark Richards, Cheyne Horan, Richard Cram. 
Nós tínhamos Felipe Casteja.
Para o garoto de 13 anos, Felipe era MR, Horan e Crammy, tudo ao mesmo tempo.
As poucas vezes que aparecia no Quebra-mar era pra dar seu show de back-side, uma aula pratica de como atacar a onda com o maximo de velocidade e pressão - com um estilo de deitar na areia e chorar de inveja.
A equipe Wrangler na quebrada dos anos 80 era puro estilo, Casteja e Pitzalis.
Pranchas azuis, novíssimas triquilhas shapeadas com maestria pelo Dardal voavam...
Arpoador, Joaquina ou Saquarema.
Ubatuba, Buzios, Cabo-frio...
No primeiro Festival Olimpikus de surfe, 1982, Casteja ficou em 4º, aquilo era uma verdadeira guerra.
Fosse com as biquilhas do Victor Vasconcelos, stingers do Henrich ou as triquilhas da cartinha no bico, Felipe era o cara que achavamos com surfe pra fazer frente ao gringos, como Fred e Picuruta.
O surfe do Felipe era vistoso, dava gosto de ver.
E ao contrário da maioria das estrelas do surfe nos anos 80, Felipe era simpatico, alegre. Tínhamos a nitida impressão que aquele monstro do surfe poderia aceitar facilmente um convite para almoçar na sua casa sem causar maiores danos.
Era como convidar um principe.
Fosse Casteja australiano, americano ou sul-africano, existiria um culto silencioso e devotado ao personagem que seria cantado e contado sempre que gente boa se reunisse para falar de surfe.

Olimpo


Felipe foi um dos surfistas mais influentes da sua geração
Valerio, short apertado a la Carroll, negociava uma nova prancha com Wanderbill, quando ouviu que Phelipe de Casteja tinha chegado.
Mark Foo, Todd Cheeser, Malik e Donnie Salomon curvavam-se diante da fugura tão honrada.
Dale Velzy correu para apertar-lhe a mão e dar boas vindas.
Ronnie Burns e Marvin Foster colocaram, cada um, um colar de leis em volta do pescoço do Phelipe - Rell Sun, a deusa maior do surfe, lhe coroou com Pua Kalaunu e beijou-lhe a testa respeitosamente.
Lá por baixo, no Arpoador, seus amigos e admiradores o homenageavam numa bela cerimonia de até logo.
No exato momento do minuto de silencio no calçadão, um menino perguntou ao pai, Pai, cade o Felipe ?
Sem olhar pro mar, sorrindo um sorriso candido que temos somente para as crianças, apontei pro horizonte.


Toma na Junça