quarta-feira, maio 25, 2011

O Principe




Fotos do Felipe Casteja  emprestadas do Facebook do seu grande amigo Jacques Nery


Lendaria equipe Wrangler. Felipe era companheiro de outro surfista excepcional, André Pitzalis






(Coluna Tempestade em Copo d'água, Revista Surf Portugal e Sopa de Tamanco na Revista Hardcore, Janeiro 2011)

Andy chegou meio desconfiado naquele ambiente celestial demais pro que esperava.
Movendo-se rapidamente, Dora apareceu na sua frente, sobretudo em cima da bermuda, bigode ralo e barba por fazer.
O que posso fazer por voce garoto ?
Andy não sabia o que dizer.
Dora estava acostumado com quem chegava antes da hora, sempre indecisos e confusos, pouco desenvoltura para o que ele chama de ‘supremo momento de liberdade’.
Relogio, jóias, 50 % duma mina de diamantes na Namibia que comprei em 1984, um livro autografado pelo Heminghway, maços de marlboro, bebida forte. O que voce quiser, eu consigo garoto. Qual sua droga ?
Andy sentiu vergonha, achou por escolher a mina na Namibia e um paco de cigarro.
Dora piscou para Butch, logo atras, sorrindo e fazendo sinais de aprovação com a cabeça, abraçado com uma garrafa de uísque - volta em meia hora Butchie, disse ele.
Petit e Gironso rondavam por ali, atentos com a malandragem dos coroas, nunca era tarde para aprender um novo truque.
Simmons, sempre emburrado, bolava um jeito genial de sair dali, Jose Angel acendia um charuto a sacaneava o matuto sem pena- agora fudeu russo! Tem mais jeito não, relaxa, pô!
Foi quando tocaram as trombetas.
E as trombetas soavam apenas em ocasiões especiais.
Chegava um principe, um verdadeiro principe.
Pelos reis, muitas vezes as trombetas nem tocavam. Reis morriam velhos, tinham tempo demais para estragar sua reputação.
Reis traziam muita morte, cobiça, traição - Reis eram gordos e feios.
Principes eram jovens, muitas vezes ainda bem apessoados, quase sempre elegantes.
Ouviu-se uma salva de palmas, discretos gritos, entrou Phelipe de casteja.
Dora sabia que não podia com ele,  afinal de contas era carioca da gema, criado na praia, malandro.
Pepe e Andre Pitzlalis o receberam com o entusiasmo de sempre, Meu camarada!
Paulo Tendas, lepido e fagueiro, apressou-se para reunir-se ao pequeno grupo que se formava.
Nilton Barbosa apareceu do nada com uns cromos na mão, Felipe, ja viu essas daqui ?
Muitos ali se perguntavam o porque das regalias daquele sujeito tão simples e sorridente.
Andy não teve uma chegada destas.
Philipe é dum tempo diferente. 

Tempo do Felipe.




Pouca gente surfava tão bonito e tão veloz...





Australianos tinham Mark Richards, Cheyne Horan, Richard Cram. 
Nós tínhamos Felipe Casteja.
Para o garoto de 13 anos, Felipe era MR, Horan e Crammy, tudo ao mesmo tempo.
As poucas vezes que aparecia no Quebra-mar era pra dar seu show de back-side, uma aula pratica de como atacar a onda com o maximo de velocidade e pressão - com um estilo de deitar na areia e chorar de inveja.
A equipe Wrangler na quebrada dos anos 80 era puro estilo, Casteja e Pitzalis.
Pranchas azuis, novíssimas triquilhas shapeadas com maestria pelo Dardal voavam...
Arpoador, Joaquina ou Saquarema.
Ubatuba, Buzios, Cabo-frio...
No primeiro Festival Olimpikus de surfe, 1982, Casteja ficou em 4º, aquilo era uma verdadeira guerra.
Fosse com as biquilhas do Victor Vasconcelos, stingers do Henrich ou as triquilhas da cartinha no bico, Felipe era o cara que achavamos com surfe pra fazer frente ao gringos, como Fred e Picuruta.
O surfe do Felipe era vistoso, dava gosto de ver.
E ao contrário da maioria das estrelas do surfe nos anos 80, Felipe era simpatico, alegre. Tínhamos a nitida impressão que aquele monstro do surfe poderia aceitar facilmente um convite para almoçar na sua casa sem causar maiores danos.
Era como convidar um principe.
Fosse Casteja australiano, americano ou sul-africano, existiria um culto silencioso e devotado ao personagem que seria cantado e contado sempre que gente boa se reunisse para falar de surfe.

Olimpo


Felipe foi um dos surfistas mais influentes da sua geração
Valerio, short apertado a la Carroll, negociava uma nova prancha com Wanderbill, quando ouviu que Phelipe de Casteja tinha chegado.
Mark Foo, Todd Cheeser, Malik e Donnie Salomon curvavam-se diante da fugura tão honrada.
Dale Velzy correu para apertar-lhe a mão e dar boas vindas.
Ronnie Burns e Marvin Foster colocaram, cada um, um colar de leis em volta do pescoço do Phelipe - Rell Sun, a deusa maior do surfe, lhe coroou com Pua Kalaunu e beijou-lhe a testa respeitosamente.
Lá por baixo, no Arpoador, seus amigos e admiradores o homenageavam numa bela cerimonia de até logo.
No exato momento do minuto de silencio no calçadão, um menino perguntou ao pai, Pai, cade o Felipe ?
Sem olhar pro mar, sorrindo um sorriso candido que temos somente para as crianças, apontei pro horizonte.


Toma na Junça


13 comentários:

Camila disse...

Obrigada por mais esta homenagem maravilhosa! Temos muito orgulho desse homem lindo, não so pelo seu talento excepcional no mar, mas também e principalmente por sua personalidade unica e fibra moral, aqui muito bem definidas pelos adjetivos Reais. Nao haveria melhor forma de descreve-lo : eleva-se com louvor ao posto de Principe, Rei, Majestade. Acho dificil que algum dia eu venha a conhecer um Homem mais realizado que meu Pai. Com muito amor !
Camila

SURFEMAIS disse...

TUDO ALEM DE TUDO QUE JÁ SE LEU ATÉ HJ. NÃO PELO ORGULHO DE SER SURFISTA MAS POR SABER QUE TUDO CONTINUA, E SEMPRE SERÁ VÁLIDO PRA QUEM ACREDITA NA VIDA. MESMO DEPOIS DELA.

Flávia disse...

Quantas saudades...sinto um misto de dor e alegria ao ler esse lindo artigo mas principlamente muito orgulho! Para ele, que em nossa caminhada juntos eu chamava de "vida" e muitas vezes de "meu príncipe", nem poderia imaginar que também era considerado dessa mesma maneira, um principe, por tantos amigos. Que honra!
Agradeço a todos pelas demostrações de carinho e amizade contidas em palavras como as desse texto.
Quem dera muitos, mesmo depois de quase 5 meses afastado desse plano material ainda receber mensagens como essa. Muito, muito obrigada!
Como disse nossa filha Camila "homenagem maravilhosa!"
É muito difícil pra mim expressar em palavras tudo que gostaria porque é o que sinto e o que sentimos é único e indescritível. O que posso dizer é que o AMOR é a maior e melhor energia cósmica dessa vida...então que seja ETERNO...
Essa é a minha homenagem para esse ser humano tão amado e tão generoso, que me presenteou com uma família abençoada e me proporcionou uma vida plena.
Te amo pra sempre...
Flávia.

Paulo de Tarso Duarte disse...

Felicidade de quem conheceu muito além do surfista, e sim o cara Phillippe, brincalhão, um garoto até o fim que vibrava falando da viagem ao Peru e da expectativa de pegar Pico Alta rebocado ou de gunzeira.
Os olhos brilhavam!
Grande homenagem, e só você Júlio para fazê-la!
Tá de parabéns!

Rick Werneck disse...

A última vez que o vi foi numa viagem de veleiro, de Paraty até Martim de Sá, há uns 4 ou 5 anos, para surfar umas ondas, eu com meus filhos e ele com sua filha. Tenho essas fotos em algum lugar. Um dos momentos inesquecíveis que vi do Philippe foi uma batida de backside em Ubatuba, nos anos 80, na cara do fotógrafo Nilton Barbosa. A foto na Visual Esportivo ficou alucinante!

Cacau Falcão disse...

Grande amigo, parceiro de surftrips e mestre do estilo. Inspirou a todos nós com seu jeito brincalhão, irreverente e sincero.
Já comentei anteriormente e repito. Nos últimos anos Phillipe demonstrava uma enorme sede de viver, talvez por intuir que sua passagem por esse planeta estava estava chegando ao fim. Ele sempre me ligava e dava aquela pilha pra ir surfar com os amigos, com muita energia positiva! Me incentivava bastante nos dias de desânimo e preguiça. Me lembrava um pouco o Pepê, que foi um grande amigo e incentivador. Saudades suas amigo...lindas ondas de luz pra você!

Anônimo disse...

http://www.tracksmag.com.au/201105263107/Blogs/Tracks-Blog/‘FLOATERGATE’-OPENS-OLD-STYLE-WOUND-BLOG.html

ja viu a tracks, Julio?

Anônimo disse...

Um dos seus melhores textos de sempre Júlio!... e eu que nem tinha lido ainda... Abrazzo.

MP

Anônimo disse...

Sou da geracao do meio dos 80..comecei em 84-85.
Ouvia muito falar do Casteja e de outros da mesma epoca.
Curiosamente so o vi surfar ao vivo pouco tempo antes de sua passagem no Grumari onde sou local.
Surf muiiiito rapido, muiiiito fluido e com muito estilo.
Realmente um destaque.
Bonito texto como justa homenagem.
sds a familia e ao bloqueiro.
Sergio Amaral - GRUMARI - RJ

Anônimo disse...

Caro Júlio;

Eu sou professor da Faculdade de Comunicação da FAAP, em sp,e gostaria de conversar com vc a respeito da possibilidade de convidá-lo para uma palestra. o meu e-mail é jcfonseca@faap.br.
Aguardo,

um abs joão guedes

Anônimo disse...

Convidado para palestra em faculdade de Zampa? Quem diria? Resposta: todos os teus mais antigos fãs. Aliás, diríamo-lo muito antes de você...
B.

Pedro Cezar disse...

Puta que pariu. Belíssimo resgate!! Tem aí nesse pacote homenagem e amor embutidos ao Burns, Foo, Cheeser, Lopes, Gironso e outros que se foram meio na pressa.

Blogger disse...

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