quinta-feira, agosto 01, 2013

Encontros e Desencontros

Yes, nós temos banana...Banana pra dar e vender...



[Texto escrito em dezembro de 2012, uns bons meses antes da revista Surfer publicar o press release maquiado em jornalismo do Sean Doherty - Leia aqui.
Afora a excelente aquisição do Circuito de ondas grandes, nada se sabe alem disso e tudo se especula...]

Sim, a notícia ganhou as manchetes de todos saites mundo afora, a ASP tem um parceiro para tornar o surfe profissional ainda maior do que já é - para o alto e avante!
Por que o leitor deve preocupar-se com isso ?
Que diferença faria se o circuito mundial acabasse depois de amanhã ou se a Quiksilver, Billabong e Rip Curl fechassem as portas ?
Uma coisa é certa, passariámos imensamente menos tempo colados no computador.
Sem brincadeira, não mudaria rigorosamente nada para 99.8 % dos surfistas de verdade.
Talvez piores pranchas, roupas de borrachas de qualidade inferior para o consumidor menos exigente e calções e camisetas de gosto, e funcionabilidade, duvidoso.
Não haveria menos gente no mar, nem os caras mais chatos da sua praia, ou da minha, parariam de encher teu saco quando a série sobe no melhor dia do ano.
Quando foi anunciado o acordo (ou pré contrato) da ZoSea com a ASP os furiosos das redes sociais foram à loucura.
Toda sorte de teoria de conspiração foi especulada.
O fato do manager do Kelly Slater, Terry Hardy (um dos sócios da ZoSea, junto com Paul Speaker), ter sido um dos articuladores do tal Rebel Tour em 2009 tem dado o que falar.
O rebel tour, ou circuito rebelde numa pobre tradução, veio à tona quando o circuito ainda tinha 44 surfistas e provocou imediatamente a redução do número dos tops, fora a já extinta rotação.
Brodie Carr, que tinha o cargo de algo como presidente da ASP na época, diz ter negociado pessoalmente com Slater para mante-lo no circuito ainda em 2009.
Um ano depois, Brodie pediu o boné e Slater continuou para o 11º e, quem sabe, 12º.
Os rumores do rebel tour não foram muito alem do que meramente rumores.
Surfistas como Jamie O'Brien, incapaz de se qualificar para o WCT, jogaram lenha na fogueira que nunca pegou fogo.
O acordo agora anunciado com fogos de artifício prevê completa cessão dos direitos da ASP para uma empresa sem nenhum histórico em administração, promoção ou venda neste tipo de negócio.
Hardy é notório por fechar bons contratos para seus atletas e artistas, será capaz de vender um circuito inteiro ?
A enorme onda que varre o preço das ações da grandes empresas de roupas de surfe e a crise do mercado de varejo tornou as nossas gigantes em gatinhos mansos que, de uma hora pra outra, abriram mão dos seus direitos de imagem e transmissão dos eventos onde investiram algo como 400 milhões de Dólares nos últimos 20 anos.
Alguem é ingênuo suficiente para acreditar nisso ?
E a ASP, por outro lado, parece mãe de miss depois do concurso, esfregando as mãos, prevendo grandes contratos e uma vida plena de sucesso e aventuras.
Voltemos dezanos no tempo, quando a ASP anunciou com esse mesmo entusiasmo um acordo de dez anos com as gigantes (essas gigantes de verdade) IMG e TWI.
A IMG investiria 50 milhões de Dólares em dez anos e o crescimento do esporte seria inevitável e irreversível.
Não se fala mais nisso.
Aparentemente, o negócio não era assim tão bom e o contrato nem sequer foi assinado.
Ainda antes disso houve outro grande contrato com a SMG (Sportsworld Media Group), que previa 12.75 milhões de investimento.
Meses depois a empresa foi a bancarota com uma queda de quase 90% do preço das suas ações.
Em maus lençóis, a ASP ficou de chapéu na mão, pegou um empréstimo com os atletas e licenciadas para continuar existindo.
Onze anos depois e a ASP ainda paga os últimos vestígios dessa dívida e vai entregar a empresa/associação para a ZoSea com todas dívidas quitadas.
O discurso da ASP sempre foi coerente quando diz que o surfe precisa de patrocínios de fora da indústria do surfe, mas o circuito já teve a Coca-cola como apoiador (não fica muito maior que isso, pois não ?) e de maneira alguma teria conflitos de interesse com as marcas de surfe para promover o surfe como esporte de massas. 
Renato Hickel, tour manager da ASP e um camarada de honestidade inquestionável por todo seu passado no esporte, diz que a ZoSea pretende enfiar 25 milhões de Dólares no circuito mas não pode revelar qual prazo para tal investimento.
Caso o prazo seja, digamos, cinco anos, estamos na mesma situação da década passada.
Cinco milhões de Dólares não paga nem os custos da transmissão de todo circuito.
Uma das grandes questões gira em torno do webcast, a galinha dos ovos de ouro da ASP. O problema é que ninguem sabe ao certo os números exatos porque a ASP, ou as empresas envolvidas, não divulgam estatísticas, como por exemplo, quantidade de pessoas e quanto tempo passam assistindo os campeonatos.
Números vagos são alardeados volta e meia quando atingem milhões de pessoas, mas não sabemos qual é o verdadeiro potencial do produto como negócio lucrativo.
Por enquanto, o que temos, fãs do esporte, é um monte de perguntas.
Por que privatizar justo agora ?
Depois de tantos encontros e desencontros com grandes grupos de mídia, por que escolher uma produtora que tem laços tão fortes com uma das empresas (Quiksilver, por motivos óbvios, 20 títulos mundiais e Speaker ainda faz parte da mesa de decisões) que mais se beneficiou com o Tour ?
A mais curiosa das questões talvez seja, por que o surfe profissional nunca se tornou o que está fadado a se tornar desde que Slater começou a perder cabelo ?
A resposta talvez seja simples, não há pra onde crescer.
Ou há ?

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