terça-feira, fevereiro 26, 2013

Pontos por manobra

MP impossível



O exercito de um homem só

Sua marca foi tão poderosa que apenas duas letras são suficientes para deixar qualquer surfista abalado - MP.
Quem não o conhece, nunca ouviu falar, resta a humilhação de não conhecer a própria história.
Os familiarizados com o nome ficam inquietos com a possibilidade de surgir uma nova lenda, outra daquelas fabulosas historias de perseguição e medo que tanto rodearam o mito, mesmo depois do seu afastamento definitivo.
MP morreu no dia 28 de Março de 2012 e aumentou o mito.
Tudo em torno dele é caótico, inebriante e irrevogável.


E se eu colocar mais um wing...


Duas partes água, uma parte rocha

1976, MP dropa a bomba do dia em Sunset, seus braços tremem e simulam um machado cortando lenha - suas mãos são as lâminas.
Acerta sua linha e entra no inside da onda mais poderosa do planeta com toda velocidade... as placas de concreto vão caindo numa sequência alucinada que lembra remotamente Kirra - Kirra com 12 pés e pesado como um prédio em ruínas.
Peterson passa por dentro, mãos frenéticas, sua prancha faz parte do corpo, da onda, das ilhas...o universo conspira a favor desse cara, tudo aquilo é um solo de bateria do Keith Moon, misturado com Black Sabbath, Pink Floyd e Henry Rollins.
Fúria e psicodelismo na sua forma mais primitiva.
A onda fecha, MP sai triunfante por cima.
O extase venceu o caos. Ou vice versa.
O respeito que ele conquistou nas poucas vezes que surfou no North Shore não é diferente dos seus compatriotas, Rabbit, MR, Kanga e PT.
Insistia em ir pra direita em Pipe, os havaianos não me deixavam ir pra esquerda, dizia ele.
Baita contradição, percebe ?
O caminho quem fazia era ele.


No Backdoor como em Kirra


Inferno

Stubbies, 1977, nascimento do que conhecemos como surfe profissional. A IPS testava pela primeira vez o confronto homem x homem.
Entre 72 e 76 MP venceu e venceu, avassalador.
Usava um papel com os criterios de julgamento escritos no painel do carro.
Cavada+Cavada radical+Cut Back+Batida+Hang Ten+Drope+Fade+Tubo= grana no bolso.
MP era um gênio da matematica. Não da matematica fria dos numeros, mas da matematica impossivel do criterio de julgamento que na epoca era infinitamente mais subjetivo do que hoje em dia.
O psicopata estudava a forma mais eficiente de ganhar baterias e executava com perfeição.
Funcionava bem nas baterias de seis surfistas, faltava testar no novo sistema.
Passou por Reno Abelira, pelo tio do Joel, Darryl Parkinson, por Mark Warren e finalmente enfrentou seu ex-pupilo e atual inimigo predileto Rabbit.
Ninguem teve chance.
Na final foi a vez da sensação do surfe australiano, Mark Richards.
Richards cresceu vendo MP dominar completamente o surfe profissional e ouvindo histórias das suas proezas dentro e fora d’água.
A heroína já tinha substituído os baseados e a esquizofrenia assombrava sua cabecinha perturbada, mas a vontade de ganhar era tão grande que provavelmente o mantinha lúcido por alguns momentos antes de voltar ao mais absoluto delírio.
Foi suficiente pra intimidar Richards que se recorda de pegar qualquer onda só pra evitar o confronto com MP no outside.
Me lembro do seu olhar enfurecido e calmo ao mesmo tempo, diz um MR ainda abalado, faria qualquer coisa pra não ter que encará-lo novamente.




Mike Tyson + Syd Barret

Abandonou o surfe de vez em 1980, mas apenas o ato de surfar. Continuou surfando dentro do seu labirinto interior e passou de ícone à talismã.
Anualmente era reverenciado pelos maiores do esporte, mesmo sem entrar n’água por 20 anos. Slater ficava nervoso na sua presença. Seus melhores anos serviam de termômetro para medir qualquer fenômeno que surgia.
Seu cut back imortalizado por Albie Falzon no classico Morning of the Earth ainda é o único jeito correto de fazer uma curva.
Curren no seu auge homenageou MP, sem querer, numa imagem que demonstrava claramente qual era sua linhagem de surfistas - como esquecer aquele cut back no back door ?
Mesmo o garoto Curren mantinha os braços e a base exatamente igual MP, numa semelhança impressionante.
E não param aqui as similaridades, MP e Curren tinham o mesmo jeito arredio e discreto fora d’água. Quando Curren surgiu em Santa Cruz para a primeira etapa de 1990 (depois dos seus dois anos sabaticos) com oculos Ray ban e casaco de couro preto, todos sabiam que, mesmo vindo das triagens, ninguem poderia pará-lo.




Curvas épicas

Uma prancha com mais curva do que o normal, feita pelo próprio MP, seria a pedra fundamental do surfe moderno. Em ondas como Kirra e Burleigh, mais na rabeta voce atrasa e mais na frente voce acelera. Simples.
Quando atingir toda velocidade, ataque!
Mantenha seus pés firmes e bem plantados durante as curvas.
MP tinha fotos de Nat Young por todo quarto, o power era uma religião.
As lendas do surfe não morrem, voce sabem.
Elas vão pra água conosco.

3 comentários:

Paulo disse...

Mais um texto memorável! Pena não haver muitos textos atualmente. Não se fala mais em competição, não se fala mais em surf brasuca. Pena...

Castro Pereira disse...

Cresci admirando esse sujeito e suas vitórias na Gold. As Surfings da época eu devorava e relia o q podia sobre os massacres do bixo em Tonsom e cia.Texto bom Julius!

Zé Martinelli disse...

POrra que texto...thanks for the class