terça-feira, novembro 23, 2010

1989




Em Abril de 1989 chegava as lojas o segundo disco (sim, ainda chamavam disco!) do grupo Pixies, Doolittle era seu titulo.
Os Pixies tiveram um impacto gigantesco (Gigantic) na musica feita no final da decada de 80, o disco anterior, Surfer Rosa, é considerado um dos mais influentes de toda historia do rock.
Kurt Kobain confessou abertamente que Surfer Rosa é um dos seus albums (album!, eles chamavam de album!) prediletos, tanto que chamou o produtor Steve Albini para produzir In utero.
Surfistas no mundo inteiro intrigados com aquele nome curioso, Surfer Rosa, aderiram àquele som sujo e direto para trilha sonora de subidas e descidas atras de ondas, eu era apenas mais um deles.
Final da decada, tempo de musica selvagem, instintiva, sem muita produção, gravada como se fosse um show num clube para 80 pessoas.
Quando chegaram em maio as primeiras noticias do lançamento do Doolittle ao Brasil, Martin Potter ja tinha vencido 4 das cinco primeiras etapas do circuito.
Pottz surfava como os Pixies tocavam, total anarquia, power, estilo.
1989 era o ano dele e ninguem poderia fazer nada a respeito.



Em junho o arredio talento do Dada Figueiredo finalmente ecoava pra fora do Brasil.
Foi na praia de Sandy Beach que Dada, o surfista mais carismatico do Brasil e de certa forma nossa resposta a irreverencia do Pottz, deu um susto nos top 30, bateu o campeão mundial de 1988 Barton Lynch, abotoou o Shaun Thomsom nas oitavas e só foi perder pro surfista mais pentelho do circuito, Bryce Ellis nas quartas.
Em 1989 não era toda hora que um brasileiro chegava tão longe, muito menos fora daqui, na gringolandia.
Fabio Gouveia e Teco Padaratz começavam a ganhar o mundo e os elogios dos jornalistas estrangeiros como Derek Hynd, Paul Sargeant, Ben Marcus e Nick Carroll nos comoviam.
Os meninos do Brasil, anunciava uma manchete no jornal australiano Tracks (ou seria a Australian Surfin’ Life ?) e la estava Fabio e Flavio, um era o novo Curren, o outra era o novo Occy, dois brasileiros como eu e voce, do sul, do nordeste...
Em junho, Teco com seu cabelão a la Pottz foi até a final no Gunston 500 em Durban na Africa do Sul, uma das etapas mais tradicionais do circuito. Padaratz enfrentou o poderoso Brad Gerlach numa final de prender a respiração, melhor resultado dum brasileiro desde a semi-final do Vitinho em 1988, com incriveis 16 anos, aqui no Rio de janeiro.
Fabio Gouveia em 1988 tambem conseguiu um par de quartas de final na Australia, provocando um frenezi na imprensa tupiniquim nunca antes visto.
Tudo parecia possivel em 89.
No Hang Loose Pro la na Joaca, ja no seu terceiro ano, Tom Carroll repetia a dose (sem trocadilho) e Carlos Burle terminava como melhor brasileiro em quinto lugar.
Começavamos, pouco a pouco, a chatear australianos e americanos, nem sempre com talento bruto, que era raro, mas tambem com dominio das regras que ditavam o jogo.
Amaury ‘Piu’ Pereira foi o surfista brasileiro que melhor entendeu as engrenagens da ASP e em 89 correu 22 das 25 provas do circuito.
Pouca gente lembra hoje que Piu, calado e atento, foi fundamental na estruturação do primeiro ataque verdadeiro ao ranking da ASP.
Não que Fabinho e Teco não conseguiriam chegar onde chegaram sem a ajuda dele, mas Piu com sua disciplina e determinação engrossava o caldo temperado pela dupla dinamica e mostrava que aquele momento não era apenas de sorte, era tambem de astucia, de estrategia, e Piu percebia como poucos os meandros dos 20 minutos de bateria.
Amaury chegou 5 vezes ao evento principal em 89, na Florida, Espanha, Brasil, Australia e Inglaterra.

Derek Ho e Dave Macaulay, dois dos surfistas mais irritantes que ja vi surfar conseguiram alcançar 5 finais cada e para sorte do surfe profissional, Potter estava num ano abençoado e, imaginem!, foi a 8 finais, ganhando 6.
Aqui no Salvelindo, eleições diretas depois de quase 30 anos provando que Pelé teve razão quando afirmou que brasileiro não sabia votar. Elegemos um esportista de boa aparencia porque tinhamos muito medo de sermos confundidos com gente humilde e trabalhadora.
Pedro Muller foi enfim campeão brasileiro de surfe profissional, levando 3 das 7 etapas.
O Surfe acompanhava o clima de euforia e Rico de Souza presenteava Collor com uma prancha.
No cinema, Spike Lee revelava um novo cinema americano, negro, provocador, insinuante e inigualavel com Do the Right Thing.
Sexo, mentiras e videotape do Steve Soderbergh foi o filme mais comentado do ano, sugerindo que em breve todos seriamos video-makers.
O amigo tem uma camerazinha ?
Nesse ambiente de novidades, surgiu mais um veículo dirigido aos surfistas do Bananão, meio jornal, meio revista, de nome repleto de duplo sentido.
Em abril de 1989 nascia essa revista que voce tem nas mãos e que passou os ultimos 21 anos tentando entender o que nos leva a folhear, mes apos mes, essas paginas coloridas.
O maior idolo do surfe caboclo, Mineirinho, tinha nem dois anos.
Do alto dos meus então 21 anos, lembro de olhar pra aquilo e ler curioso o que a rapaziada de Zampa tava aprontando.
Dividiamos as mesmas duvidas e algumas certezas.
Uma das maiores virtudes duma publicação não é somente resistir mas se reinventar, igual ao Fia, Teco, Pottz, Piu, Burle, Pedro, Dada...
Cada um deles, e cada um do seu jeito, passou os ultimos 21 anos lutando pra manter-se divertindo.
Os Pixies ? Bem, esses continuam fazendo a mesma baruheira adoravel que ainda encanta uns senhores como eu e a garotada como voce.
Não vou dizer que não se trata de arte. Mas fizemos essa porra ha 20 anos, disse Franck Black, lider do grupo, sobre os shows que farão na Australia em março de 2010.
Doolittle esta mais atual do que nunca - assim como essa revista que voce tem nas mãos.

2 comentários:

Anônimo disse...

Faz tempo que não leio um texto para e por gente do nosso meio tão bom. Mais uma vez tocou nos pontos certos ao abordar determinados assuntos.
Só não precisava espetar o bigodão... Ah! Também acho ele meio péla saco. Só quem já esteve lado a lado com ele em algum pico sabe. Fazer o quê, né? Isso fica pra outro dia.

Anônimo disse...

Excelente! Climão de viagem no tempo total, grande lembrança a do Do the Right Thing. 89 só não foi um bom ano para o nosso Mengão, apesar do timaço. Valeu Julio!
Abs Leo Barroso
PS: Sapo Barbudo opção trabalhadora? O trabalho ele já tinha vendido barato, custou só o mindinho.