domingo, novembro 21, 2010

Uma tarde em Sandy Beach - Um conto do Ricardo Lobo sobre Dada Figueiredo


Dada em grande fase

Ao assistir o episódio nº 09 de “Series Fecham,” tive o prazer de encontrar os amigos Marcelo Andrade e Marcos Bocaiúva falando sobre diversos assuntos. Fiquei contente ao ver que o Marcelo ainda se lembrava do que Dadá aprontou em 1988, durante o TDK Gotcha Pro no Havai. Isso me trouxe boas lembranças.
Eu estava morando na California naquela época e por lá o Scott Farnsworth estava literalmente na moda. Alem de campeão mundial amador, era pintoso e tinha saído na capa da mais glamorosa das revistas americanas de moda. Desde aqueles tempos, a América planejava um super-campeão que poderia brilhar nas praias e nas telas, um surfista bem sucedido, boa pinta e educado. Um cara ao estilo “come rider” hollywodiano que projetaria o surfe para alem de suas “limitadas fronteiras”. Curren não servia, era introspectivo demais e cagava para o jet-set. A californiana Rusty tinha o Occy, mas ele também não servia, era australiano e meio porra loca. Seria como soltar um crocodilo no meio de uma festinha de Beverly Hills. Então, como Scott era da Rusty, goofy e bonitão, resolveram que ele tinha um que de Ochiluppo em seu surfe. Estavam tentando empurrar esse pacote e muita gente já começava a embarcar. Agiam, naquela época, como fazem hoje essa turma “muderninha” de recursos humanos de nossas empresas privadas, ou na versão autônoma, os head hunters.
Transformaram a promessa David Eggers em uma máquina competitiva tão eficiente que piraram com o garoto. A América estava deslumbrada com o poder do marketing. Aliás, eles já tinham a malícia de misturar marketing com recursos humanos, coisa que estamos penando até hoje. As campanhas eleitorais que o digam.
Enquanto nós, por aqui, ainda engatinhando, tinhamos que aturar os cartolas do Flamengo tentando empurrar o Bujica como o novo Zico, eles já sabiam transformar Ronald Reagan em presidente. Ora, então seria mole fazer de Scott, a vítima da vez, que era até bom surfista, no sonho americano do surfe.
Foi nesse cenário que resolvi dar uma esticada até o Havaí.
O TDK Gotcha Pro era de fato um grande campeonato e não sabia que a tal da Sandy Beach se tratava de uma onda tão complicada. Chegando lá encontrei o Valério, Dadá e Eraldo. Perdemos cedo, mas o Dadá seguiu em frente. Lá pela terceira ou quarta fase, com sol e praia cheia, Dadá se preparava para disputar uma bateria contra Scott Farnsworth, Cris Frohoff e mais um que não lembro. A maré estava cheia, as ondas de quase meio metro quebravam no outside, enchiam e iam formar novamente na beira. Dadá e mais um optaram pela beira e outros dois preferiram tentar o outside. O nosso herói tijucano estava quebrando as marolas da beira, mas pegava várias ondas iguais. Fiquei com medo do julgamento, Scott estava surfando bem e era sempre muito bem julgado. Os dois surfistas do outside vinham matando barata e quase conseguiam conectar uma boa onda até a beira, o que também poderia complicar. Na arquibancada, alertei o Valério do risco desnecessário e perguntei se poderia dar um toque no Dadá para ele tentar o outside. Corri até a beira e peguei o Necrose pelo braço:
- Calma! Chega de pegar onda aqui na beira. Você tá bem na bateria, vai lá pra fora pega uma, conecta até a beira e acaba logo com essa porra antes que te enfiem o garfo.
A praia estava lotada, tinha muita gente ali na beira assistindo aquela cena. Não é como hoje que brasileiro faz parte do espetáculo. Olhavam para nós e, por eliminação, tentavam descobrir: anglo-saxão não, mexicano não, muito moreno para europeu. Éramos estranhos para eles e o Dadá então, com suas cruzes, caveiras e braços que iam até os joelhos, era de fato um bicho de outra galáxia.
Foi divertido, ele se sentiu a vontade, pegou a primeira que veio, conectou com facilidade, sem pular na prancha. Fluido, arrebentou a onda com muita velocidade do outside até a beira. Senti que o locutor e o público ficaram meio assustados, a fatura estava liquidada. Mas ai é que agente se engana. Do lado direito, Sandy Beach é interrompida por uma espécie de molhe de pedras, ficando uma outra praia ao lado meio esquecida. Eu mesmo confesso que nem tinha reparado naquela praia. Dadá voltou e pegou a segunda. Em vez de vir conectando até a beira, conseguiu imprimir uma velocidade absurda de front side na esquerda e, mesmo com a onda enchendo, seguiu na ondulação e passou para a outra praia, destruindo uma esquerdinha que se formou do outro lado das pedras. Foi uma situação inesperada, bizarra! O locutor começou a gritar;
- Look! Unbelievable, crazy dadafiguiridou! Where is he going?!
O público que estava na praia, beach park, arquibancada e área vip se levantou e virou o pescoço para tentar ver por cima das pedras o que aquele doido aprontava do outro lado. Foi um momento surpreendente, a galera aplaudiu de pé. A Kombi passou e levou os gringos. Ninguém ali lembrou da capa da revista de moda. Naquele dia, a sociedade americana entrou em necrose social. O sonho americano deu lugar ao pesadelo tijucano.

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Lobo levantando sua Hotstick orgulhoso no Havai


Competindo em Sandy Beach, topete new wave...

"Dedico este texto ao grande amigo,surfista e tijucano, Mauro Lopes.
Aproveito para agradecer por todo o apoio que tem me dado."
Ricardo Lobo

9 comentários:

Maurio Borges disse...

No TDK tava uma marolagem danada. A onda vinha balançada lá de fora pelo vento maral. Acho que o Dadá parou no Derek Ho e terminou em quinto. Era época que "extensão" na onda contava e se não estou enganado, Dadá competiu com as "famosas" e "medonhas" luvinhas do Mr X.

Anônimo disse...

Que ducaralho esse texto!
Tenho gravado os Realces com as baterias homem a homem do Dada nesse campeonato. Historico!
Valeu!!!

Anônimo disse...

Maurio e demais amigos do Goiabada,

Os fatos narrados neste texto dizem respeito a atuação do Dadá no Tdk Gotcha pro de 1988 em que Dadá foi até as últimas fases da triagem.
No ano seguinte, em 1989, ele voltou e conquistou o quinto lugar.
A confusão se dá por que em ambas as edições o campeonato foi vencido pelo Derek Ho.
A atuação de 1988 foi tão impressionante que o Valério decidiu envia-lo novamente no ano seguinte.
abraço a todos,

Ricardo Lobo

Pedro Cezar disse...

Lobão. Texto maravilhoso! abraço

Ppu

Anônimo disse...

Lembrança maravilhosa, o Dadá andava muito, era impressionante. Cansei de vê-lo surfando em uma vala no meio da barra em frente ao 3100, +- em 87/88, era um show de surfe.

abc

Anônimo disse...

Muito bom, impagável!

sds

Henrique vasquez

Paulo de Tarso Duarte disse...

Fala Lobão!!!

Esta eu escutei pessoalmente !!!

Hahahaha!!!

Demais!

E o "indisivo prástico" Equipe Oxygen!!!

Se não me engano Alema tb era!!!

Anônimo disse...

Julio: era Scott Farnsworth.
Um amigo meu costumava "imitar" esse cara.
Não chegava a ser um grande surfista, mas era todo cheio de estilo - coisa que contava muito na época.
Aí chegou o estilo dadá e tudo mudou.

Anônimo disse...

Entre outras coisas, Dadá era o rei de conectar as seções e destruir as marolas.
Cansei de ver ele fazer isso, enquanto os outros competidores até iam mais pro fundo, Dadá ficava pegando umas marolinhas na beira que parecia que não davam nem pra entrar.
O cara surfava muito!