quinta-feira, fevereiro 11, 2010

Perdido em Peniche



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Serie de textos feitos no calor do momento para o saite da Surf Portugal durante o The Search, etapa do World Tour de 2009, Peniche, PT
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Uma cena no classico filme de surfe Endless Summer (Bruce Brown, 1958, EUA) me passou pela cabeça.
Era assim, numa tribo que mal tinha tido contato com o homem branco, todos enfileiravam-se para assistir aqueles curiosos personagens que se lançavam ao mar para correr ondas.
A cada onda surfada, a multidão pulava, gritava e celebrava como uma grande novidade, empolgante e divertida, quase irresistível que arrastou até o chefe da tribo para uma lição improvisada de surfe.
A vibração nesse sabado, 24 de outubro na Praia da Mota era semelhante, sem piada nenhuma e acrescidos umas 15.000 pessoas.
Quando Kelly Slater saiu correndo de dentro da area improvisada dos competidores e passou no meio do público um frisson tomou conta da praia.
Já estive em Huntington para o OP Pro, em quase todos grandes eventos de surfe no Brasil desde 82, na histérica França e mesmo assim me surpreendi com a imensidão de gente hoje na praia, e não apenas com a quantidade assustadora mas principalmente com a paixão.
Não era nada como no futebol, feito no Brasil por exemplo, era algo diferente, novo - novo pra eles.
Portugal tinha renascido pro surfe.
Desde 2001 quando o WCT foi arrancado da costa lusitana pelo 11 de setembro que os top 45 não davam o ar da graça por aqui e os portugueses tinham ganas de ver a magia que eles são capazes de fazer nas nossas(suas) ondas.
Tudo era comemorado, os tubos, os aéreos, as saídas da onda voando, as corridas pelo meio da malta em direção ao mar e a volta ao palanque.
Até os mais tarimbados não resistiam a bater palmas e gritar em plenos pulmões, afinal de contas aquilo era, e ainda é, uma ocasião única.
Os numeros vão aumentando conforme os diferentes testemunhos dos presentes, Capucho avaliava em 20.000, os jornais, sem pudor nenhum, arremessevam para os 40.000.
Bruno Santos disse que nunca tinha visto nada igual.
Falando nele, Bruninho, foi uma das baterias mais esperadas da segunda fase por todos ali, publico e top 45, caso surpreendesse, Fanning podia mandar gelar a champanhe.
Antes mesmo da bateria o clima já ficara tenso, ao menos pra turma ao lado e pra esse que vos escreve, alguns minutos antes Kai Otton e Ace Buchan fizeram uma disputa de tubos pra esquerda e, bem, preciso lembrar aos amigos a especialidade do Bruno ?
Joel deve ter sentido um frio na barriga.
Assim que soou a buzina, uma esquerda promissora veio e Parko deixou passar, Bruno remou com toda sua força e não entrou. A onda rodou do início ao fim.
Quando saiu d'água derrotado pela falta duma onda decente, Bruno ouviu seu companheiro de equipe Taylor Knox falar, 'se voce pega aquela onda, a história seria outra'.
Sim, Taylor, quantas histórias não seriam outras com ondas perdidas, mas desta vez, sentado ali na areia torcendo como um torcedor cego que especula sempre a bola na trave como possível gol, eu sofri - talvez mais que todos, talvez não, vai saber ?
Em menos de cinco minutos, já ninguem mais lembrava do Joel nem do Bruno porque Owen Wright estava sufando um tubo como aquele que Bruno supostamente deveria pegar logo nos primeiros minutos da bateria contra Kelly Slater.
Foi lá e cá, sem espaço pra respirar.
Já nem sei mais qual das ondas foi mal julgada e qual delas foi compensada, Owen escolheu melhor e surfou melhor, maldito seja, arruinando o sonhos de um sem numero de pessoas que estava lá precisamente para ver o Slater.
Viva Owen!
Mal posso esperar pra falar sobre o domingo...

2 comentários:

marcelo_hack disse...

Primeiro post.

Amigo, por favor, escreva sobre surf sempre, nem que seja um páragrafo.

Um páragrafo seu, demora um mês (+-), mas é melhor do que uma reportagem de uma revista.

Faća pelos amigo. um monte de gente como eu lê mas não comenta.

grande abc.
Marcelo

Bruno Januzzi disse...

Julio, é por esta mesma emoção popular que você descreveu de forma tão poética que eu me questiono sobre a eterna reclamação que recai sobre os brasucas questionando o seu sempre exacerbado "claiming" no final de uma onda boa.
Nós temos sangue quente, não somos zen como o Gerry nem frios como todo este povo ariano que nos cerca.
Somos um povo que vibra com um drible do Robinho, que se joga no espelho d'água no palácio do planalto na posse do primeiro presidente popular. Os nossos tenistas gemem a cada raquetada e se jogam no saibro como uma criança, nossos nadadores batem no peito como um gorila antes da prova, nossos ginastas se apresentam ao som de samba.
Nós definitivamente não temos um ar "blasé" em nenhuma de nossas atitudes e não seria no surf que agiríamos de outra forma. Não é só porque é um esporte importado e nossas referências são todas de outras nacionalidades que não devemos incorporar a nossa personalidade a ele.
Ah, e apoio o amigo marcelo aí em cima....seja mais prolixo nestas veredas.
Um abraço e boas ondas!
Bruno