segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Tres doses atras

[Tempestade em copo d'agua>Revista Surf Portugal # 188>Outubro 2008]


Garoto da capa.

'Quando cheguei nos top 45 eu estava sempre apreensivo em cair.
Medo de cair da prancha, medo de cair do circuito.'
Palavras do Bruce Irons ao Evan Slater numa entrevista publicada na revista Surfing sobre sua decisão de deixar o WCT.
Por que nos importamos com isso ?
Talvez pelo fato do Bruce ser um dos surfistas mais fascinantes surgidos nos últimos 30 anos e sua inacreditável capacidade de auto-destruição.
Não é o primeiro, nem será o último.
Toda entrevista é um tapete vermelho para o caçula do Andy desfilar suas insatisfações com a vida de competidor.
Na sua inocente sinceridade Bruce até confessa que foi muito bem julgado nesses anos incertos de WCT e que nada guarda contra a ASP e o tão temido e criticado sistema (Seja lá o que for).
Evan Slater, editor da Surfing, bom surfista e bombeiro (destemido nas bombas) como Bruce, encera o troféu na apresentação da entrevista: Finalmente. Após quatro anos e meio de duras derrotas e brilhos esporádicos, o uma vez rotulado melhor free-surfer do mundo brevemente estará de volta para reivindicar sua coroa.
O que me deixa um pouco perturbado nessa introdução é o tom de perda, como se algo tivesse sido roubado do pobre Bruce durante seus anos de circuito.
Olha aqui, vamos combinar uma coisa: Sujeito é livre pra fazer o que quiser da sua vida.
Se alguem quis que o Bruce entrasse no circuito, esse alguem era ele mesmo e ele quis porque achou que era só entrar e pronto.
Logicamente isso foi sendo construído com grande incentivo da mesma imprensa que hoje celebra sua saída e antes reclamava pontualmente pela sua presença no circuito ao lado do irmão Andy.



Primeiro foi Fletcher, com aqueles braços medonhos, Archy refinou a arte, Bruce reinventou - em ondas de verdade.

O que será do circuito dos sonhos com essa dupla lá, levando a rivalidade feroz dos irmãos a níveis de surfe nunca antes alcançados ? Perguntavam as manchetes.
Podemos dizer que não foi a canto nenhum, ficou no mesmo lugar que sempre esteve, por vezes empolgante, outras aborrecido, sempre competitivo.
Bruce protesta ao dizer que no circuito nem sempre tem boas ondas e reflete sobre seu desgosto com ondas ruins.
Imagino.
E os outros pelo menos 10 ou mais eventos que tiveram condições épicas nesses quatro anos ?
Onde estava Bruce ?
Aos 14 anos, bem me recordo, vi um tampinha cabeludo fazer miséria em ondas de gente grande no Meio da Barra, aqui no Rio durante o Mundial amador de 1994. Bruce não devia ter 50 quilos e pegava tubos que a maioria dos marmanjos em pé na areia sequer sonhavam. Andy era assombroso, Bruce, fenomenal. Kalani não chegava aos pés.
Futuro campeão mundial, todos comentavam convictos na praia naquele dia nublado de inverno.
Dali pro WQS foi um pulo, em 1995 já estava aqui no extinto Alternativa tentando a sorte, fazendo interferência a enchendo seus juvenis cornos de cana e outros produtos menos recomendáveis.
Até 2004 cortou um dobrado batalhando pela sonhada vaguinha entre os 45.
Entrou botando banca: logo de cara ganhou o Eddie Aikau e foi revelação do ano.


Um absurdo de drope. Bruce, primeira caida em Waimea.

Antes disso Bruce já era uma lenda, fazendo final atrás de final na onda mais respeitada do mundo, Pipeline, batendo Slater e todo resto sem a menor cerimônia.
Tudo indicava que Bruce teria vida fácil no circuito, boas notas, uma turma da pesada o protegendo e pressionando a ASP por resultados (Volcom e Wolf-pack), um filme exclusivo seu, torcida enorme espalhada pelo mundo aguardava pelas inúmeras vitórias que nunca chegaram.
Os motivos abundam.
Excessos, excessos e excessos.
Para vencer, liderar, dominar, Bruce Irons precisava derrotar seu mais implacável inimigo: indisciplina.
São públicos e notórios os hábitos do rapaz.
Não gosta de acordar cedo. Ama beber com seus amigos. Festeiro. Raramente surfa, mesmo quando na casa da Volcom em pleno inverno Havaiano.
Isso tudo só realça seu brutal talento, mas sem um mínimo de disciplina o talento vai se dissolvendo com o tempo.
Agora Bruce tira um grande peso das costas.
Sai do circuito por cima, sua primeira vitória fora do Havaí no WCT (tem um troféu do Mr. Price Pro em 2005), poderá dedicar-se às viagens promocionais com seus camaradas e evoluir o que restou do surfe brilhante que apresentou quando surgiu.
Terá um problema sério pela frente, sem agenda nem compromisso arrisca deixar a inércia corromper seu gigantesco potencial.

Por pior que seja, o circuito mantem caras como Bruce na linha por algum tempo, entre o início e o meio do circuito, porque depois disso é ladeira abaixo.
Ano passado no Hang Loose, em Novembro, um desmotivado Bruce dava pena. Completamente bêbado e drogado mal conseguia equilibrar-se na prancha - ainda assim, foi responsável por um dos melhores aéreos de toda competição.
Temo pelo futuro dele.
Se depender das suas companhias, pode acabar como Butch Van Artsdalen, excepcional surfista, primeiro Mr. Pipeline morto no ano que Bruce nasceu, 1979.
Causa da morte ? Cirrose.
O mundo parece sempre estar tres doses atrás de surfistas como Bruce.


Um camarada desses com a cabeça no lugar...

16 comentários:

Bruno R. disse...

Pela quantidade de gente fora dos 45 este ano, as sessões de free surf serão mais animadas que os campeonatos.

Será que os patrocinadores farão uma Expression "free" session?

Botas disse...

E' o perfeito exemplo do quanto a disciplina e vontade de ganhar devem ser atributos premiados em competicao e nao apenas estilo e talento! Nascer com talento e' facil mas saber lidar com ele e leva-lo para um outro nivel e' bem mais dificil nos dia de hoje, pois existem muitos que nao tendo tanto talento lutam e treinam para se superar. Esses sim devem colher as recompensas da sua luta e ser idolatrados. So porque o Bruce nasceu americano, loirinho e com talento deve de ser um idolo?!

www.botasdagua.blogspot.com

Fazedor de Filme da Esquina disse...

Botas, tb acredito que a dedicação deveria ser recompensada. talvez fosse mais "justo" se fosse diferente. mas não é.

incomoda ver caras com imenso talento atropelarem outros tão dedicados e depois, jogarem tudo fora, sem fazer o menor esforço.

mas são esses os que mais brilham, não tem jeito. somos atraídos pelo sujeito que faz tudo parecer fácil, que vence sem suar.

afinal, quem idolatra o esforçado ?

heróis são sempre aqueles que tem o dom. nos fascinam pq são dotados de algo que não se conquista, que não se adquire.

e o bacana é ver o que acontece quando um cara desses resolve se dedicar.

t'aí o Slater pra mostrar...

Viva La Brasa disse...

"Não gosta de acordar cedo. Ama beber com seus amigos. Festeiro. Raramente surfa(...)".
Ufa! Ainda bem que não sou o único.
A diferença é que ninguém deu a mínima quando eu decidi abandonar a minha carreira de derrotas em competições.
Para baixo e avante!

Bruno R. disse...

Fazedor, é bom por ai.

Só que falta muito, mas muito mesmo, pro bruce passar pra categoria ídolo.
o Cara pega pra caralho, mas não fez ainda tanto por merecer.

Bruno R. disse...

ops, * é bEm por ai.

Emanuel disse...

Olá,

Muito legal o blog Goiabada
Sou do site
www.surffoto.com.br
Gostaria de saber se vc pode colocar o link do site no blog?
Vocês vão gostar do site, tem várias fotos de free surf atualizadas.

Abraços

Emanuel

Anônimo disse...

O histórico de excessos do Bruce me lembra muito o circuito de festas Recreio-Barra-Ipanema-Saqua, etc, etc, etc... Quantos prós Brasileiros fazem a mesma coisa? Eu já vi vários... e todo ano as revistas brasileiras se perguntam quem será o campeão mundial brasileiro...tsc, tsc, tsc... e quando falam de drogas no surf, só falam do Dadá, e dos convertidos... tem graça..

Andre Pereira da Costa disse...

Enquanto não acatarmos o antidopping em nosso mundo, não podemos considerá-lo esporte.

Esporte não é droga e/ou substancias ilegais !

Anônimo disse...

Quantos nao gostariam de estar no lugar do bruce.........Seja sincero leitor.
Abs.

Rodrigo rj
San Diego

Anônimo disse...

Bruce cherador de toxico!!!

Anônimo disse...

Em qualquer esporte sempre tem caras com muito talento no pé e pouco juízo na cabeça. George Best, Christian Hosoi, Bruce Irons...

DARS disse...

As mudanças climáticas são terríveis!! O fim do mundo se aproxima!!!

Mas esses verões menos quente, e com mais onda estão ótimos...

Andre Pereira da Costa disse...

Viva o Jamie O'Brien, vai competir o Pipe Body Board Champion.

Deve ter tomado um dos produtos que o idolo dos toxicomanos B.I. utiliza e foi direto se inscrever, deve ser pra poder dizer que é o dono do pico em qualquer competição.

Bodhi disse...

O Bruce não é ídolo porque nasceu americano, loirinho e com talento. Ser ídolo ou não, não é o mais importante aqui, mas sim seus tubos no Campaign, os cutbacks perfeitos, a fluidez e o estilo inigualáveis. Alguém esquece aquela onda na abertura do Loose Change??? Um aereozão de front invertendo a prancha ao maximo e depois um trêr meia zero na cara do lip!?! Eu posso falar por mim, e digo que demorei bastante até considerar o Bruce um surfista excepcional, até mesmo quando entrou no CT. Até um cara escreveu aqui nos comentarios que os surfistas tendem a considerar muito mais os resultados de competição pra definir os ídolos do esporte, coisa que eu espero que mude e que é exatamente o oposto no sk8, por exemplo. Por um bom tempo considerei seu irmão mais velho melhor surfista, coisa que hoje já penso diferente. O que o Andy tem de pressão o Bruce tem de estilo e fluidez, além de ser disparado o melhor canudeiro do circuito, nos dois sentidos.

Aloha

Botas disse...

Oi Bodhi,
concordo completamente contigo em relacao ao Bruce ser um grande surfista, isso e' impossivel contestar, mas para mim um idolo deve ser alguem que para alem de ter talento sabe acima de tudo usa-lo, quer seja em competicao como em freesurf. Nao quero julgar ninguem pois cada um faz o que quer e ate gosto da atitude rebelde dele e o surf de certa forma ate necessita de personagens assim. Mas dai ate ser um dos surfistas melhor pagos do Mundo vai uma grande distancia... Mas a Volcom e' que sabe claro, eles e' que lhe pagam. A Volcom so vive dessa imagem punk anti-mainstream e essa e' a principal razao dele ter tanta cobertura mediatica. Eles trabalharam mt bem a sua imagem de cowboy e hoje em dia infelizmente em quase todos os desportos e em muito sectores da nossa sociedade o conceito de "Rebel Bad Boy" e' muito mais valorizado e vende mais que o "Good Clean Boy"... Como pensam que nasceu a geracao Jackass?!
Mas acho acima de tudo um insulto para aqueles que se sacrificam, lutam, conseguem inclusive melhores resultados e dao uma imagem positiva do surf e bons exemplos para a juventude. So isso... Simplesmente nao gosto da ideia de que o idolo de muitos jovens surfistas seja um arrogante, amigo do alcool e (pelo que dizem) do po' tambem...
Mas se calhor sou so' eu que estou ficando velho e careta... Haha

Abraco!
www.botasdagua.blogspot.com