terça-feira, janeiro 22, 2008

Como ganhei o Título mundial e uma prancha do Slater



Alguem duvida da proverbial sorte do Alfio ?

[Cobertura exclusiva do Hang Loose Pro Imbituba WCT 2007 para Revista Surf Portugal # 179 Dez. 2007]

Eu acho que a história deveria começar assim: Sempre um camarada a dar exemplo, Slater sai d'água arrasado por Kai Otton (menos por Kai do que pela desatenção que dedicou ao WCT), sobe a rampa e olha fixo pra cima. Chegando na área reservada aos competidores, pega a 6'3'' que usou no dia anterior e a entrega nas mãos do Mick Fanning.
Fanning não se desarma e lhe dá em troca uma das sua pranchas.
Há toda uma simbologia ali, troca de guarda, ou de gentilezas, Slater quer dizer tanta coisa...
Ainda falta Taj perder para consumar-se o título mundial do Fanning.
Toda trupe da Rip Curl está apreensiva, equipe de filmagem está à postos, chefes de equipe da Reef e da Dragon preparam os auto-colantes comemorativos discretamente.
Nada mais interessa.
Todos sabem ali que é apenas uma questão de tempo para comemorar.
Slater era a ameaça real, Taj não assusta. A combinação de resultados avisa que para roubar a coroa do Macaco albino o candidato precisa vencer no havaí e até um grão de areia sabe que Slater é capaz de tudo, mas Taj...Em Pipe ? Bem, esqueça. Esse título já tem dono.
Até Slater sabe disso, por isso a prancha de presente.
Mick tambem o sabe mas é preciso respeito à matemática.
Nessa altura já estão dentro d'água Taj Burrow versus Tom Whitaker na última bateria da quarta de final, as ondas estão convidativas com paredes de 2 metros, nem tão perversas como no Chile, nem tão deformadas quanto em Teahupoo nesse atípico ano de 'dream tour'.
O sempre burocrático Whitaker, freguês de Burrow (4 x 1 incluso semi-final em Bells), trucida sem piedade Taj. Fanning vai para sua semi-final contra Parko e parece não acreditar (eles nunca parecem acreditar, não é mesmo ?) no que acontece lá fora, cada onda surfada por Whits é comemorada como um dez no Pipe Masters pela torcida e Taj enfraquece diante da pressão, caindo em ondas fáceis como um novato assustado.
Quando sai o resultado e o título é finalmente consagrado, Mick está com a lycra vestida esperando pela primeira onda da semi. A praia inteira espera algum tipo de comemoração, talvez Mick Fanning abandone a bateria e se jogue na tão antecipada celebração, por que não ?
Mas nada desconcentra Fanning em 2007, ele surfa como tem surfado desde a Europa em 2006, com seriedade, determinação, com gana de vencer.
E não pensem que ali estão dois amigos australianos comemorando a volta do caneco para OZ, não senhores. Parko e Fanning tem contas a acertar, 6 x 1 pro Joel e Mick está sempre pronto para diminuir a vantagem.
Que surfe fantástico que a praia (e todos no webcast) testemunha na Praia da Vila!
Fanning, já como campeão do mundo, faz a maior média de todo evento.
Não apenas isso, que é detalhe estatístico, o fato é que Fanning foi o surfista do campeonato. Não apenas o mais consistente ou o mais esperto competidor, desta vez sem a responsabilidade da corrida ao título, Fanning surfou o que realmente se espera cada vez que vai para água.


Slater não arredou o pé da praia até Fanning selar o título. Foi o primeiro a ir comprimentá-lo. Teremos outro exemplo como esse ?

O ciclo está completo.
E antes disso, o que aconteceu ?
Duvido que, daqui a cinco anos, algum espírito de porco será capaz de lembrar que o Mar catarinense recusou-se a dar sinal de vida por uma semana, ou que parte da estrutura do evento foi arrastada por um impensável tornado (??!!!) que revirou e torceu estacas de ferro como se fossem de papel.
O que fica, o que ninguem nunca esquece, é a bateria do Slater na primeira fase.
Quis o destino que o herói local Fabinho Carvalho surfasse justo na bateria do freak e a praia, quero dizer, a praia não, a cidade inteira veio ver o fenômeno KS8.
Amigos, jamais vi algo semelhante em 25 anos de surfe.
Já vi no Maracanã, o maior estádio do Mundo, tamanha celeuma, mas para um surfista ? Bem talvez não estejamos aqui falando de um mero surfista...
Slater tem status de super-star, coisa assim de Ronaldinho.
Alguns milhares de pessoas se acotovelavam na areia com todo tipo de camera, celulares e artefatos capazes de registrar aquele momento.
Antes do Slater descer, parou ainda em cima da rampa que levava à praia, olhou a multidão assustado, respirou fundo como quem vai tomar um caldo, balançou a cabeça consentindo, desceu - o barulho era de final de copa do mundo, com gritos e assobios orquestrados que pareciam ensaiados por meses.
E olha que nas baterias anteriores estavam Parko e Fanning, quase ofuscados diante do brilho do camarada da Flórida.
A média do Slater na primeira fase foi superada apenas pelo Fanning delirante com seu título na semi.
Posso me arriscar na tarefa de descrever duas ondas do Slater, uma delas de backside, surfando com um volume na parede sem igual, metendo o pé sem dó na sequência de manobras e mantendo a velocidade alucinante que um senhor de 35 anos é capaz de manter depois de passar os últimos 15 anos surfando melhor do que o resto do mundo.
A finalização foi tambem formidável, mas já ninguem olhava porque estavam todos de olhos fechados gritando feito índios em pé de guerra.
Numa direita que ao mortal comum parecia sem muito potencial, Slater dilacerou a modesta face da onda por duas vezes e emendou numa junção arremessando-se com tal violência ao lip que tememos pelas quilhas, pobrezinhas, cuspidas na base da onda e ao contrário somente para Slater acertar tudo com calma e compostura.
Na segunda fase nada de muito importante aconteceu exceto a vitória do Marco Polo sobre Pancho que vinha de um excelente resultado em Trestles. Polo surfou com força e autoridade para bater o havaiano no surfe.


Nada parava Fanning, nem o excesso de alcool da comemoração.

Nas 16 baterias da terceira fase quase sempre os cabeças de chave venceram, exceto por cinco vezes.
Dayan Neve devolveu a derrota que sofreu para Knox em Bakio e teve, por breves instantes, a sensação de alívio no pescoço apertado pela corda da desclassificação.
Tambem condenado à desqualificação, Cory Lopez perdeu para um entusiasmado Mick Campbell, que com tres nonos e um simples quinto já frequenta o top 16.
Cory estava abatido, talvez tenha previsto seu destino: 15 anos de circuito, oito vezes entre os top 16 da ASP, Terceiro do mundo em 2001, um dos poucos que pode ostentar um troféu ganho em Teahupoo, ejetado do WCT, Cory Lopez estava tonto, perdido.
Talvez um milagre possa salvá-lo em Pipe (como a final do ano passado), mas receio que nem isso.
Bruce Irons tambem perdeu displicentemente para Basnett. Bruce não largou Occy durante todo evento, inclusive ganhando dele numa bateria triste. Para Occy era tambem uma despedida do país que o idolatrou desde a primeira vez que pisou aqui em 1986 para o Hang Loose inaugural (ficou em segundo, perdendo pro Macaulay na final). Occy está fora do WCT. Assim como Mick Lowe e Trent Munro, que já anunciaram precoce aposentadoria.
Os brasileiros tiraram proveito do campeonato em casa, colocando 3 surfistas nas quartas, Heitor Alves, Neco e Léo Neves.
Heitor foi um franco atirador, nada tinha a perder. Neco fez uma bela campanha em casa e perdeu para um velho conhecido: Fanning. Os dois já se enfrentaram 6 vezes e o australiano empatou o jogo em 2007 ganhando duas vezes.
Léo perdeu numa bateria de notas fracas contra Kai Otton, mas deixou pelo caminho escalpos de respeito como do C.J. Hobgood e do Shaun Cansdell que surfou muito bem até bater de frente com Neves.
Rodrigo Dornelles tambem surfou com grande autoridade em Imbituba e é, até a penúltima etapa do WCT, o melhor brasileiro no circuito, empatado com Léo Neves.
Curioso é que Pedra Dornelles é quase completamente ignorado pela imprensa brasileira (estrangeira então, nem se fala) e apesar disso é o mais feliz dos surfistas brasileiros competindo hoje no circuito mundial - e isso reflete nos resultados.
Outro camarada feliz é Kai Otton.
Kai caiu duas vezes com Slater em Imbituba e quando valeu o título para seu compatriota Fanning foi devastador.
Verdade que Slater competiu como a seleção brasileira jogou contra a França na Copa do mundo de 2006, certo de que a qualquer momento mudaria o resultado a seu favor.
O gol de Henry minou a arrogância brasileira e Otton com uma série de esquerdas deixou Slater absolutamente perdido n'água.
O novato australiano teve um início de ano perto do notável, um terceiro em Teahupoo e a melhor onda surfada no Chile (nono) mas perdeu o foco e passou por uma sucessão de 17s e 33s. Enquanto isso, Jeremy vinha em franca ascendência no ranking, um 3 em Trestles e um 5 em Mundaka (Bakio), tudo indicava que a briga pelo rookie of the year estava resolvida quando chegaram ao Brasil, mas Otton tinha outros planos e com Pipe à frente, posso apostar no aussie como melhor novato.
Na final, Otton já estava satisfeito de simplesmente estar ali com Fanning.
Os dois bêbados da comemoração típica australiana fizeram uma bateria divertida para se assisitir bebendo, Occy, Bruce e Wardo estavam num estado de felicidade no mínimo estranho na área reservada aos competidores torcendo por quem quer que remasse nas ondas.


Redemption!

Tudo era festa.
Menos para Taj.
Taj estava sentado num cantinho, triste, sem um sorriso, assistindo todos seus amigos celebrarem o título do Fanning ali na sua frente. O garoto que entrou no WQS em 96 (11) e rejeitou a vaga no WCT porque ainda era muito novo, candidato ao título e esperança de trazer o caneco de volta para terra de OZ, Taj Burrow já tinha sido segundo do mundo e frequentava os top 5 quando Fanning chegou no tour.
O tempo passou e Taj realiza que suas chances diminuem a cada dia.
Bem disse Slater na coletiva que precedeu o Hang Loose que ele e Taj não fizeram os sacrifícios que Mick estava fazendo para conquistar o título.
A diferença é que Slater tem oito.

4 comentários:

Anônimo disse...

Excelente matéria!!
Você não pode deixar , nós internautas, de sermos agraciados por matérias como essa ,..... que fazem uma radiografia completa do que rolou e rola nos eventos do "dream tour".
Show de bola.

Rodrigo rj.

Anônimo disse...

errou na previsão careca.o francês levou o rookie of the year.

Anônimo disse...

Aí Júlio, aproveitando o ensejo da bela matéria sobre o WCT que voçê fez pra SurfPortugal, porquê não passa a publicar no blog todas as matérias mensais que voçê assina para a revista lusitana?
Grande abraço.
Bruno - RJ

Bodhi disse...

Muito bom, especialmente pelas estatísticas dos confrontos mano a mano