quinta-feira, dezembro 27, 2007

Jesus, amor etc.

Texto emprestado do blog do Juca, que por sua vez arrancou da Folha.


[Kaká, como jogador, é o máximo, mas tomá-lo como modelo para os jovens é anacrônico e conservador

A ESCOLHA de Kaká como melhor futebolista do planeta não surpreendeu ninguém, pelo que ele jogou na temporada. O que me assustou um pouco foi ouvir no rádio e na televisão uma porção de gente exaltar o rapaz como "modelo positivo para a juventude". Ora, vamos combinar, Kaká fora de campo, à parte a beleza física evidente, é de uma insipidez espantosa. Mauricinho e carola, sua imagem corresponde a um bom-mocismo que eu julgava há muito superado. Não me entendam mal.

Nada contra ele casar virgem e estampar na camiseta que "pertence a Jesus". Mas daí a tomar isso como exemplo de caráter vai uma grande distância. Kaká, é bom lembrar, foi um dos primeiros a sair em defesa do casal Hernandes, os líderes da igreja evangélica Renascer em Cristo, que foram parar na cadeia por ludibriar a fé dos incautos e sonegar impostos. Apoio no mínimo questionável, a meu ver.

Ainda assim, problema dele. Mas há algo de profundamente regressivo em considerar esse tipo de comportamento como "sadio". Querer restaurar, a esta altura do campeonato, valores como a virgindade e a fé religiosa cega traz um perigoso ranço de TFP (a ultraconservadora Sociedade de Defesa da Tradição, da Família e da Propriedade), ainda que sob as tintas mais estridentes, pragmáticas e mercantilistas das correntes evangélicas. Como contraponto a esse obscurantismo anacrônico, lembro um episódio ocorrido com o grande ex-jogador e ex-treinador Elba de Pádua Lima, o Tim (1915-84), e narrado no recém-publicado "João Saldanha - Uma Vida em Jogo", de André Iki Siqueira.
Tim era técnico de um clube grande do Rio de Janeiro quando, numa peneira, um garoto ansioso por agradá-lo declarou: "Não bebo, não fumo nem farreio". Tim respondeu: "Pois aqui você vai aprender a fazer tudo isso". Claro que ninguém aqui é criança. Sabemos que o álcool, o cigarro e as noites maldormidas podem prejudicar a saúde e o desempenho de qualquer profissional. Mas são, no mais das vezes, experiências que fazem parte do aprendizado de vida de qualquer cidadão saudável.

Millôr Fernandes escreveu uma vez que a mais incompreensível de todas as taras é a abstinência. Ernest Hemingway, por sua vez, quando indagado sobre as coisas que poderiam atrapalhar a atividade do escritor, respondeu: "Mulheres, bebida, dinheiro. E também falta de mulheres, de bebida e de dinheiro". João Saldanha, sábio do futebol e da vida, ajudava seus jogadores a fugir da concentração para se divertir. Só recomendava, de modo meio machista, que não mudassem de mulher às vésperas de um jogo, caso contrário tenderiam a "mostrar serviço" na cama, desgastando-se em excesso.
Kaká entregou a alma a Jesus, o dinheiro à Renascer e a virgindade à noiva. Vágner levou uma mulher para a concentração do time e ganhou o apelido de Love.

O primeiro é muito mais jogador, mas o "exemplo" do segundo me agrada mais.]

9 comentários:

Anônimo disse...

Acho uma chatice e um tanto piegas essa pregação do Kaká, que acontece a todo o tempo e em todas as ocasiões. Parece que crente não tem simancol.

Ocorre que, embora eu seja ateu (ou agnóstico, sei lá eu), não nego os valores que nos foram incutidos pela cultura judaico-cristã. A sociedade ocidental é fruto dessa cultura. O senso de humanidade, solidariedade, fraternidade que temos é herança dela. Também o é o respeito pelo indivíduo individualmente considerado, que, nesse contexto é um ente passível de erros e acertos, mas, antes de tudo, livre nas suas escolhas, coisa que não se admite no determinismo materialista, tão em voga na América Latina de hoje.

O Kaká é um cara chato, realmente. Como todo crente, parece não saber a hora de parar de tentar salvar a alma alheia, mas tem lá seu valor. Embora tenha chancelado os patéticos "Apóstolo" e "Bisca" da Renascer, me parece um cara honesto e que cultiva bons valores: família, solidariedade, amizade etc. Jamais ouvi falar de algo que desabonasse o rapaz.

Se a questão for eleger paradigmas para criar um filho, entre Kaká e um Rayan Gracie, por exemplo, fico com o primeiro, sem pestanejar. Entre o jogador e um Dadá Figueiredo nos idos dos anos 80, idem. Também seria a minha escolha se a outra opção fossem os Lullas, Genoinos, Dirceus, Gushikens, Delúbios, Sarneys, Renans e outros exemplos da moralidade pós-moderna.

Anônimo disse...

Boa .... concordo com o comentário acima.
Mas esses crentes são chatos mesmo , e o Kaká é um eximio embaixador da santa chatice.

Viva La Brasa disse...

Tô com o Juca e não abro: beber, fumar & foder até morrer, esta é a solução.

Anônimo disse...

Concordo com o anônimo das 12 horas, disse tudo.
Qual o problema em ser conservador? É uma opção legítima como qualquer outra.
Virgindade é uma opção individual e obscurantismo é a impossibiliadae de aceitar o diferente.
Tráfico de drogas, a violencia associada a este e AIds são conquistas dos iluminados modernistas, legal, não?
Também , esperar o que do Kfouri???
JP

Anônimo disse...

sexo, drogas e roc'n'roll, ou se preferirem,

família,vida e amigos!

anonimo das 14:02

Bodhi disse...

Eu acho que achar alguma coisa já é algo bastante pretensioso, quanto mais julgar.

Quem sou eu para julgar a postura de vida de um craque como o Kaká?
Se ele adotou um caminho de privações pautado na espiritualidade, deixa ele na paz do Senhor.
Na real mesmo, a opção de vida que ele tomou é para poucos, a esmagadora maioria (inclusive eu) sucumbiria às inumeras tentações da carne, drogas, noitadas, sexo fácil e amigos bajuladores que inflam o ego, situações cotidianas que regem a vida de um jogador top como ele.
Admiro sua opção simplesmente porque é um caminho árduo, o único problema dessa escolha é o casal hernandes que não engana ninguém, só o proprio Kaká.

Como alguem falou aqui uma vez com toda a propriedade, bad boy mesmo era o Ryan Gracie. Na boa, se é pra encenar o papel de bad boy, que seja como o Ryan.
Senão fica sendo só mais um poser.
É interessante o fascínio que o banditismo exerce sobre todos nós. Esse fascínio sempre existiu (e talvez sempre existirá), não é novidade pra ninguém, o novo agora é "pedir" pra alguém ser 'mauzinho". Isso sim é novidade.
O Kaká com certeza é um modelo de comportamento em meio a um mundo capitalista extremamente competitivo em que ter "sangue nos olhos" é algo paradoxalmente "cool", onde valores que garantem a perpetuação da espécie foram para o espaço.

- X -

Tudo bem, odeio gente monotemática como o blog do kfouri lhe serve de atestado (de chato), acho legal comentar outros assuntos além de surf como o futebol, mas deixar passar em branco o ocorrido em Pipe é agir como o Rob Machado em uma final lá, fingir que nada está acontecendo enquanto a porrada come...

Ricardo disse...

É realmente preocupante ver um ídolo como o Kaká se entregar de corpo e alma para uma Igreja destas.
Fico apavorado com a velocidade em que as Igrejas fanáticas estão crescendo às custas do abandono, ignorância e desespero de nós brasileiros.
Ainda bem que temos pessoas com coragem de tocar a real.
Valeu Juca e Julin.
abs
Lobo

Anônimo disse...

esse kaká é do wct?

Anônimo disse...

esse kaká é do wct?