segunda-feira, janeiro 08, 2007

O Maior competidor de todos tempos

[Última Tempestade em Copo d'água de 2006 - Surf Portugal]



Não é a toa que o malandro teve problemas sérios nas costas.


A lógica nunca prevaleceu em esporte algum.
Quando chegou no Havaí para encerrar a temporada de 79, Mark Richards estava quase mil pontos atrás do primeiro colocado no ranking da I.P.S. (International Profesional Surfing, orgão pré-A.S.P.), Wayne Rabbit Bartholomew, atual campeão mundial de 1978 e favorito à repetir o feito.


Nosso presidente botava pra baixo.


Na cola do ‘Muhamad Bugs’ (como Rabbit gostava de se apresentar, em homenagem ao seu ídolo, Cassius Clay) estavam Cheyne Horan e Dane Kealoha.
Cheyne era a grande estrela em ascensão da Austrália, um verdadeiro furacão que chegou varrendo adversários. Sua primeira grande vitória foi em 1978 no Rio de Janeiro com apenas 17 anos e ainda naquele ano terminou em segundo lugar, o princípio duma série sem precendentes de vices na história do surfe profissional (78/79/81/82) e só interrompida quando finalmente conseguiu quebrar a maldição no mundial de masters realizado na França em 1999.


17 anos e já era segundo do mundo


Cheyne era um demônio da velocidade, foi campeão nacional de skate e surfe na categoria junior em 1976, dali foi direto para o recem criado circuito mundial de surfe profissional e mais tarde convidado para participar da equipe Bronzed Aussies, pioneira e revolucionária equipe de surfe criada pelo jornalista Mike Hurst, inspirada nas grandes equipes de tênis.
Voltamos a falar disso um pouco mais na frente.


Dane era pura força e categoria.


Dane Kealoha era o Sunny Garcia da época, ainda mais power e versátil, um surfista exuberante que parecia fadado a dar o primeiro título mundial para o berço do surfe.
Durante o final da temporada de 1979 ninguem surfou mais do que o havaiano no North Shore.
Dane tinha a legítima linhagem havaiana na linha do seu surfe, Bertleman, Eddie, Ho, Hackman, mas com uma modernidade ainda não vista em praia alguma do mundo.
Suas batidas de backside desafiavam a física, tamanha verticalidade e violência, Dane venceu seu primeiro evento em 79, Gunston 500, interrompendo o reinado de 6 anos do Sul-africano Shaun Tomsom em casa e em seguida repetiu em Nova Jérsei.


Porrasurfe era assim em 79.


Rabbit tambem tinha duas vitórias no ano, Japão e Flórida.
O circuito inteiro tinha 13 etapas, parecido com o WCT de hoje em dia, Perna Australiana, Japão, África, Flórida (?!) e Havaí, tudo contava e cada bateria passada valia ponto pro ranking.
Mark Richards começou o ano irresistível: demoliu Burleigh e Bells (extamente como Slater em 2006) nas duas primeiras paradas da temporada.
E não pensem que MR era uma novidade.
Já no primeiro ano do circuito, 1976, Richards terminou com um honroso terceiro
, 77 em quinto e 78 em…décimo!
Conhecido pelo jeito inovador que encaixava sua biquilha manobra após manobra, MR antecipou o que conhecemos hoje como base e top, ou bottom e lip.
Curiosamente, Mark Richards optou por surfar exclusivamente de monoquilha durante o inverno havaiano de 1979 – uma estratégia no mínimo arriscada.
Risco era tudo então.


P.T. muita pose, menos surfe e, olha lá!, marketing pessoal.


Jogo Duplo

Richards precisava de um milagre, ou um par deles.
Como bater Dane e Rabbit em Pipe ? Especialmente Dane, uma temeridade no Backdoor.
Todos aguardavam o Pipe Masters ansiosamente, ranking nas mãos, fazendo contas e especulando resultados.
Rabbit vinha de vitória e liderava com alguma folga, tinha autoridade em Pipe e precisava apenas de um resultado razoável, mais do que provável, num dois ventos restantes, Pipe e Sunset.
O mundo do surfe exprimentava súbita exposição com o circuito mundial e a gigantesca rede americana de TV, ABC, levou uma equipe inteira de profissionais para fazer a cobertura de Pipe, anunciado como o campeonato mais espetacular de todos tempos.
Várias câmeras registravam tudo na praia, comentaristas ao vivo em rede nacional, jornalistas atentos, um grande circo armado nas areias de Pipe.
Como a ondulação tardava a chegar e condições medíocres imperavam durante o período de espera (soa familiar ?), Fred Hemmings começou a se deseperar quando soube que o prazo da ABC para fazer a cobertura era até o dia 11 de Dezembro, uma terça feira e até domingo nada de ondas perfeitas.
E ainda tinha o Duke Kahanamoku Hawaiian Surf Classic, tradicional evento que não contava pontos pro ranking mundial mas valia uma fortuna em prestígio para uma carreira bem sucedida.
A solução foi fazer os dois campeonatos no mesmo dia, numa segunda feira.
Os competidores saíam da água em Sunset, apenas tres baterias, já que o campeonato era exclusivo para convidados, entravam no carro e corriam para Pipeline, criando um trânsito sem precendentes na outrora pacata Kam Hwy.
Mark Richards venceu o Duke, com Shaun em segundo, Horan em terceiro e Rabbit em quarto.
De volta à Pipe, Dane liderava a final com Shaun e MR distantes da vitória.
Como ? Shaun e Mark Richards fizeram final nos dois eventos ? quase na mesma hora ?
No mesmíssimo dia ?
Sim senhores, fizeram, Shaun em terceiro e Richards em quarto.
Nos últimos minutos, a zebra australiana Larry Blair encontra um tubo espetacular e vira a bateria em cima de Dane, que com esse resultado aproxima-se da liderança do Rabbit por míseros 9 pontos, seguido de perto por Horan e Richards.


Cade meu título, pô ?!



Treino é treino…

Mike Tomsom, primo do Shaun e top 16, chega na praia e não acredita no que ve: Rabbit treinando.
Em nenhuma outra etapa Rabbit foi visto surfando antes de um campeonato, era parte da estratégia dele, deixar todos em dúvida sobre que prancha ele iria usar, como estaria surfando, etc… – tática aprendida com seu mestre, Michael Peterson.
Dane tambem estava na água e nenhum ser humano era capaz de imaginar que aquele camarada sairia da praia naquele dia sem o título.
Dane precisava passar uma bateria.
Umazinha.
Bartholomew estava na mesma situação.
Cheyne, ligeiramente mais distante, carecia duma semi.
A corrida era entre os tres, todos presumiam.
Afinal de contas, muitas contas, para Mark Richards só interessava a vitória.
O World Cup foi num Haleiwa com 6’ a 8’ e toda comunidade havaiana foi olhar seu filho favorito sagrar-se campeão.
Rabbit foi o primeiro a cair.
Aparentando nervosismo, Rabbit perdeu sua prancha e deixou o texano Ken Bradshaw dominar a disputa.
‘É desconcertante pensar que o surfista passa o ano inteiro viajando pelo circuito, liderando o ranking, quando no instante derradeiro sua cordinha arrebenta e ele termina em terceiro ao invés de primeiro’ pondera Mike Tomsom na Surfing.
Tudo agora conspirava para uma vitória de Kealoha.
Tudo, menos um porto-riquenho: Edwin Santos.
Kealoha esperou as ondas com a tranquilidade dos grandes campeões, esperou, esperou e esperou…
Enquanto isso, Santos, Edwin Santos, fazia seu papel de coadjuvante, surfando uma onda aqui, outra ali.
E Dane esperando…
Faltando cinco minutos para soar a corneta (era corneta ?) e Dane tinha surfado apenas uma onda.


Rabbit por pouco não levou dois seguidos.

Um a um

Com Dane e Rabbit fora da jogada, a pendenga estava entre Cheyne e MR, a maior rivalidade da história do nosso esporte até Andy versus Kelly.
Quando Cheyne entrou n’água para enfrentar Bruce Raymond todos esperavam mais um desastre como dos candidatos ao título, Dane e Rabbit, mas Cheyne demoliu Raymond e tudo indicava que uma semi-final contra PT seria barbada.
O problema era que PT, exímio competidor, tinha outros planos.
Voltemos um pouco aos Bronzed Aussies.
PT era o mestre e Cheyne seu pupilo.
‘Acabei com ele’ disse PT, ‘e em seguida, tudo que eu precisava fazer era ganhar do MR, mas perdi. Acho que o Cheyne nunca me perdoou por isso’
Curioso é que, Horan teve problemas com os Bronzed Aussies poucos meses antes e se desligou da equipe, isso mudou o curso da história do surfe profissional.
Fizesse parte da equipe, PT provavelmente deixaria Horan vencer e só Deus sabe que rumo o surfe tomaria.
Richards abateu Peter Towned com facilidade e ganhou o primeiro dos seus quatro títulos seguidos.
Seu domínio só foi quebrado por Slater.
Mark Richards ainda teve o bom senso de largar o circuito logo após seus quarto título em 1982, quando percebia a chegada incomoda de um goofy que estava naquela final de 79 em Pipe, Tom Carroll, o próximo surfista que iria mudar completamente a face do surfe profissional e alterar nosso jeito de atacar a onda de backside.
Mesmo ‘aposentado’ Richards ainda voltaria a frequentar os pódios quando, em 1985, subjugou toda uma nova geração vencendo em Sunset, e tornando a ganhar em 1986, ano do famosa série que fechou a baía de Waimea.
Quando fotografado para a capa da Surfing em 79, um modesto Richards perguntou ao famoso fotógrafo, Norman Seef (mesmo que fazia fotos para capas dos discos do Fleetwood Mac, Rolling Stones e Santana), enquanto tomava um café entre as sessões no estúdio na movimentada Sunset Boulevard: ‘Esse aqui é o banheiro que a Stevie Nicks usou ?’


Anotou a placa ?

15 comentários:

Anônimo disse...

Formidáveis.
A história e a maneira que ela foi contada.
Gracias Julio!
[]s
Leo

Anônimo disse...

Todos os citados eram talentosos e merecedores do título mundial, mas a verdade é que os grandes campeões tem aquele algo mais que chamam de "estrela", não de uma maneira desmerecedora mas aquela sorte que faz tudo dar certo na hora H. O MR além de ser competente teve tudo conspirando a seu favor por 4 anos seguidos que foi exatamente o oposto do Cheyne Horan. MR assim como o Flamengo, possui a mística dos vencedores enquanto o Cheyne Horan e o Vasco amargam a vocacão para o vice.

Paulo de Tarso Duarte disse...

A importância do Cheyne nunca foi avaliada direito!
Cheyne Horan nunca foi medíocre, conformado, muito pelo contrário!
Com a entrada da biquilha com Mark Richards, explodiu o modismo no mundo inteiro, todos querendo surfar com ela mesmo os que visivelmente não tinham uma compatibilidade de surfe com o equipamento. O pior ainda aqui no Brasil e mais especificamente no Rio foi que junto a chegada dela, houve uma diminuição progressiva do tamanho das pranchas e bizerrices como biquilhas 5'2" eram surfadas por mastodontes, e o que se via eram verdadeiras enceradeiras de fundo, vide a escola de surfe (desde maneira de surfar) e mesmice que se tornou o Arpoador (se uma biquilha já é difícil de ser surfada num tamanho normal, imagine uma 5'2")!
Cheyne Horan viu que tinha talento para ser campeão e todos sabiam que tinha, que a biquilha era a evolução natural para o surfe (e ela foi necessária para que Simon Anderson criasse o design da Thruster e resolvesse o problema do surfe e pricipalmente dos que não se adaptavam ao surfe solto demais das biquilhas) mas que seu surfe não encaixava de jeito nenhum com a biquilha ( aqui no Rio o exemplo clássico foi o Cauli).
Partiu para uma parceria unha e carne como o Geoff McCoy e desenvolveu outlines, quilhas, bizarrices, outras nem tanto, na tentativa de achar um equipamento perfeito, uma single fin que suplantesse a twin fin.
Nunca foi medíocre, foi inquieto, ousado para cacete, surfava o que a maioria não surfava, e quem o viu surfando qd chegou a primeira vez ao Rio para o desafio Bronzed Aussies x Brazil Nuts, sentado na areia do Arpoador e Diabo com uma galera gigantesca boquiaberta, sabe o efeito que foi! Embora Richards tenha sido o grande campeão, neste embate entre os dois, que me lembre, a maioria queria ser Cheyne, surfar rápido e com batidas verticais (batia passando das 12Hs de front e back side) mesmo com as biquilhas dominando o cenário.
Qts vcs enxergam hj em dia com coragem para ousarem por conta própria em equipamento e até para mexerem na própria linha de surfe, na tentativa de evoluirem ou chegarem ao topo? Só talentos e grandes campeões têm culhões e aceitam desafios assim!
Este moleque na época teve e era novo!

Anônimo disse...

Paulo para colunista do Goiabada!

Anônimo disse...

Portal goiabada?

já já os $anunciantes$ chegam...

Entra a gravata sai a liberdade de expression (session) !

Anônimo disse...

Portal de recalcados nostalgicos ?

Surf etílico disse...

Muito bons, blog & post, comecei a surfar nos 80´s mas curto essa fase do surf, anos 70, selvagens cabeludos, pranchinhas biquilhas, Hawaii em voga etc... Não vivi isso & a mídia costuma ser superficial no que diz respeito à memória do surf... Aula de história.

Anônimo disse...

Por que não leio essa qualidade de texto na midia especializada ?
Sinto muita falta de conteúdo na Fluir e Hardcore.
Estamos divididos em pré e pós adolescente ?
Lendo isso, me parece que Julio é o único, excetuando Fred D'orey e Bocão, que amadureceu em teor literário.
O resto pasta num rincão de medíocridade.
Onde compro a Surf portugal ?
Carlos Zander

Anônimo disse...

Burrice não é exclusividade de nossa mídia surfistica não...

Qualquer leitor bem informado percebe que a mídia brasileira de forma geral está uma bosta. Os poucos surfistas que entendem do riscado - literalmente - infelizmente não escreverm surf.
E revistas gringas, tirando talvez o journal, também não tem bons conteúdos.

Anônimo disse...

Eu gostaria de ler mais sobre essa geração extraordinária e tão pouco falada por aqui.
Julio, escreve mais sobre o Shaun!
Grande abraço
Tony B.

Anônimo disse...

ao 6º gioaba....Tens irmã?

no mais, tá bom na mesma!


o tal presidente

Anônimo disse...

"Atual" campeão de 78 ?!?!?

Haverá um próximo ?!!?!?

Anônimo disse...

Em 2078... ou acha que o surf se extinguirá????

Anônimo disse...

sim, irmãos apocalípiticos, o surf como se conhece hoje, se extinguirá.


Mú 7:8

Anônimo disse...

Infelizmente não vi o MR, Horan e cia.. lembro só do Shaun Tomsom em fim de carreira. Acho que a maior rivalidade foi a do Occy e Curren e lembro que era parecia até futebol, gerando grandes discussões sobre quem era melhor!