quarta-feira, junho 01, 2005

Da janela

Começava a perder a paciência com a câmera parada num ponto qualquer do line-up onde não dava pra ver nem Kelly, nem Cêjota.
Xinguei silenciosamente quando outro câmera se apressava no foco do Slater pendurado numa onda ridícula de caroçuda – sumiu…
Filodumaputa!
As sombrancelhas franziram tentando entender que diabos estava acontecendo ali (aqui ?).
A cada drope eu me aproximava mais da tela como se fosse possível enxergar algum detalhe da genialidade do freak careca.
Não era.


Asterix ou Obelix ?

Lembrei do que o Mellin falou quando voltou daquele WCT de Floripa (2003) em que Roberto Kelly depenou um a um todos que deram o azar de encontrá-lo numa bateria: ‘Foi bom pra essa molecada ver o Slater surfando ao vivo.’
Diante da frase, minha surpresa – como assim, ver o Slayer ao vivo ?
Rafael explicou que uma geração inteira ainda não tivera a oportunidade de sentar na beira d’água e admirar o Rei em toda sua majestade, foram 3 anos sumido, um vídeozinho aqui e outro ali, longe do WCT.
Enquanto isso, Taj lançava DVD atrás de DVD, pulando feito pipoca.
Andy, Parko, Dingo e Fanning estavam em todas manchetes, estampavam pilhas de capas de revistas, venciam aqui e acolá.
Quer dizer que uma penca de gente, dos seus 15 a 18 anos, nunca tinha visto o Slater surfando com atenção ? E mais outra nem achava ele essas coisas todas que falavam dele…o cara tá velho e o tempo, implacável, não dá mole pra malandro nenhum e não haveria de dar trégua pro careca.
Tres derrotas pro Andy ajudaram a fundar (afundar?) uma tese muito bem argumentada de que os tempos (olha ele aí!) são outros, novos reis se habilitam ao trono – sendo Andy o atual ‘maior de todos’.
Em 1998, quando Slater ganhava seu sexto título e anunciava aposentadoria precoce, um espevitado Andy Irons sagrava-se campeão mundial Junior.
Fecho os olhos e vejo a onda de 9.63 surfada nos vinte e alguma coisa no cronômetro da final, lembro vivamente da cena cômica que deve ter sido:
Dez! 10! 10!! Gritava eu apontando para a tela, como quem tivesse o poder de influenciar as notas dadas lá em Fiji.
Fosse no Baixo Gávea, os gritos seriam amenizados pelo mantra gentil: Lacerda! Mais uma aqui, por gentileza…


Faz sentido o dito 'walking on water' ? (foto de 2004)

O que acontecia em Fiji era fantástico no sentido de ser quase inacreditável.
O nível de surfe do Carlos Leite chegou em tal estágio de refinamento que os antigos 10 agora transformam-se em nove e alguma coisa.
Slater invadiu o imaginário coletivo de maneira que tudo que faz, apesar de ser infinitamente mais forte, mais veloz , ter mais arconas manobras, enterrar mais a borda e andar mais profundo, apesar de tudo isso, o camarada fica com medo de soltar um 10 e na próxima ele inventar algo de novo – dropar em Teahupoo com a latinha na boca, entubar e entubar, sair, golinho, soco no ar é 10, não é ?


Com cabelos de sobra e um futuro promissor pela frente. Competindo pela associação local, ESA (1986)

E o ritmo alucinante ?
Me digam o que é aquilo!
Para cada onda do Cijêi, o Cramulho surfava duas.
Isso porque ele tinha se esbaldado de surfar as bombas de Cloudbreak, meros 15’, 20’…
Não foi diferente no Tahiti. Na pausa entre a semi-final e a final, quando qualquer ser humano em sã consciência vai descansar e preservar-se para batalha derradeira, Kelly ficou na água surfando, pegando tubo atrás de tubo.
Trata-se de um atleta sensacional.
Quando Restaurants insistia em derrubá-lo e amassá-lo na bancada, Slater voltava ainda mais abusado e imponente.
Faltando dez minutos para soar o gongo, o infeliz surfa uma onda que até o Cauli daria nota máxima (Nota inútil: Cauli Rodrigues afirma que juíz que dá um 10 é burro e não deveria ser juíz), narrar o que Slater fez na pobre coitada é tarefa ingrata, quiçá impossível, sem tirar seu brilho, ou exgerar.
9.70
Entendo que a ASP talvez tenha achado de bom tom não deixar Slater repetir os dois 10 da etapa anterior temendo uma completa desmoralização da entidade e do sistema de julgamento.
O que testemunhamos hoje, e quando escrevo hoje, é mesmo hoje, agora, neste exato momento, na nossa janelinha imaginária, somos todos James Stewart em ‘Janela indiscreta’, imóvies, presos numa cadeira, falando sozinhos, acusando e identificando os suspeitos habituais.




Saint Leu. A próxima vítima ?

3 comentários:

Anônimo disse...

Eh J.A ú cramulho tah anos luz a frente de toda trupe dabliúcetê...Fiji foi uma continuação de tiarrupô....tomara que santilú seja a próxima vítima mesmo...

Giovanni Mancuso disse...

É dos carecas que elas gostam mais! Elas vem pra ele. E ele as trata como ninguém. E este ciclo se repete, se repete, se repete...

Anônimo disse...

Olê, olê, olê, olê! Kellê, Kellê!!!

É aquilo que já te falei, não acompanho mais o circuito tão de perto, mas não engulo essas duplinhas de Hobgood e Irons. Pra mim, esses caras só se criaram prq não tinha competição. Agora o bicho pegou, agora o cara quer de novo. E quando ele quer, fudeu.

vai ser uma boa lição pra essa mulecada se colocar no seu lugar. Tô torcendo.

Abs,

Brunin.