quinta-feira, junho 02, 2005

Cinema falado

Clicando no título, voce cai diretamente no saite Contracampo, revista de cinema, e descobre que no dia 23 de janeiro de 2005, reuniram-se Daniel Caetano, Eduardo Valente, Gilberto Silva Jr., Luiz Carlos Oliveira Jr. e Ruy Gardnier para debater sobre cinema.
Uma mesa redonda (quadrada ?) sobre os melhores e piores lances que estiveram em cartaz no saudoso 2004.
Fica bonito que só, o povo tratando o Fábio Fabuloso com essa austeridade toda: metalinguagem, dialética, semiótica.
Chega deu arrepio.
Cabia aqui personagem do Dickens, aquele que emprestou o nome a uma banda chata pacas, Uriah Heep, do livro/filme David Copperfield (Recomendo a versão de 1935, do Cukor, com o impagável W.C. Fields como Mr. Micawber, dizem as más línguas que Charles Laughton estava escalado para o papel, mas desistiu na última hora).
Uriah, voces todos conhecem, é um sujeito que anda pelos cantos de cabeça baixa, sempre esfregando as mãos e repetindo: sou um modesto servo...apenas um humilde homem...
Uriah é um pulha ganancioso como deputado no congresso nacional.
Digo que cabia um Uriah aqui porque deu vontade de dizer que entrar numa conversa que trata de João Moreira Salles e Eduardo Coutinho não era nossa intenção.
O debate é interessante e logo me adianto na curiosidade de saber como esse maravilhoso filme que está em cartaz, Bendito fruto, será analisado na retrospectiva em 2006.
Me perdoe o Fagundes ou o Pedro Cardoso, mas Otávio Augusto é o nosso Harry Dean Stanton: silencioso, onipresente e absolutamente nescessário.
Um monstro dentro das quatro linhas da grande tela.
Em Boleiros, do cineasta mais ignorado do Salvelindo, Ugo Giorgetti, Otávio Augusto deu um banho de bola.
Bendito fruto é simples e isso incomoda profundamente os que esperam um cinema de resultados, como Olga ou Casa de Areia (a estética menos o conteúdo) filmes majestosamente caros que enchem de orgulho o cidadão que almeja ansiosamente ser reconhecido como um legítimo gringo.
Solto, para encerrar, um trecho do texto que José Lino Grunewald escreveu a respeito do cinema novo para Tempo Brasileiro (revista de cultura), número 1, Rio de Janeiro, 1962:
'O que, atualmente, se denomina como cinema novo não pode ser definido em termos objetivos. Não constitui um movimento estético...
Não é fruto de uma só geração, nem tambem, um estado de espírito.
Trata-se tão somente do ovo de Colombo: pela primeira vez, grande parte de nossa produção cinematográfica está entregue a quem deseja tomar a sério a sétima-arte. Pela primeira vez, mercê de um trabalho de produção planejado atraves de um sentido de equipe, sem o qual não se concebe cinema, gasta-se dinheiro com a arte'
O que era verdade em 62, é ilusão em 2005.
Os barões do cinema enchem as burras de dinheiro, embolsam a grana e voce, nós todos, pagamos a conta.
A arte que vá para o cacete.

Um comentário:

marcelus disse...

julius,
engraçado a conversa de dois "entendidos" falando do fabuloso. nem achei tão pretensioso...
mas só o CCJA pra divulgar essas coisas...
aliás, o texto do queres leite ficou supimpa.
brazos