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quarta-feira, julho 04, 2007

Blogues

Recebi mais de uma centena de imeios perguntando se aqui no Salvelindo não tem algum blogue como o Ondas que mereça visita diária.
Nesse Brasilzão de Deus, com seus alegados milhões de surfistas (conta outra...), a turma parece não ter muito jeito com o teclado quando o assunto passa por cima do umbigo.
Temos uma quantidade ridícula de pessoas dispostas a escrever resenhas e vomitar opiniões fortemente fundamentadas em atenta leitura da imprensa especializada estrangeira e espertas perguntas ao deus Google.
Por algum motivo que desconheço, a turma aqui parece preferir falar ao mesmo tempo (e as mesmas coisas) nos grupos de discussão vale-tudo do que, parar, pensar, avaliar o que está acontecendo e publicar com alguma pontualidade.
Aparenta preguiça; não é.
Um camarada curioso e atento logo percebe que o apetite voraz para opinar com a opinião dos outros é hoje praxe de comportamento para doze em dez figuras.
Por sorte, cansados de procurarem por algo que preste na grande rede uma pequena e decidida turma de surfistas com S resolveram meter a mão na massa e escrever, eles mesmos, o que faltava para ler.
Esses malandros entenderam que ao escrever sobre surfe não precisam ser rasos porque o blogue é uma ferramenta que incentiva o diálogo, mesmo que seja entre 3 amigos/leitores que aos poucos vão empurrando o autor para os cantos da página.
Primeiro foi o Giovanni com o Tracks que começou timidamente e hoje merece visita diária, ou ao menos semanal, para a atualização.
Durante o evento do Chile, Giovanni teve o cuidado de ouvir a locução em inglês e falou do assunto que ninguem menciona, ou preferem ignorar:' Mas o que mais me chamou a atenção foi o Pigmeu. No início da bateria o locutor americano, Marty Thomas, havaiano, encheu o guri de elogios. Disse que nas últimas temporadas ele vinha fazendo um nome em Pipe. Isto vindo de um havaiano não é pouca coisa.

Mas mais bacana mesmo, foi logo que terminou a bateria, que foi a última do dia. Mesmo tendo perdido nos minutos finais a liderança para o Jeremy Flores, que pegou um senhor tubo de backside, o Pig continuou sendo o motivo dos comentários, agora vindos do senhor todo poderoso dos mares competitivos: o careca em pessoa. Dizia ele que o Marty Tomas tinha razão em fazer elogios e que no ano passado, durante o período de realização do Pipe Masters, houve dois ou três dias em que o campeonato esteve "on hold" devido às condições monstruosas em que o pico se encontrava e que nestes dias, além de dois ou três locais, apenas Jamie O'Brien, ele (o careca) e o Pig caiam. E mais: que o mais insano dentro d'agua, era justamente o brasileiro....
'

Ainda no Sul maravilha, meu velho camarada e cúmplice de pequenos delitos na noite catarinense, Máurio viu no blogue Alohapaziada a sua oportunidade de treinar pontaria sem ter que dar satisfações para anunciantes(o cara faz o surfe Report na rádio ha mais de 10 anos, não tem ?).
Em seguida a etapa do Tahiti, Máurio falou e disse: 'Umas poucas linhas aqui para comentar a cobertura realizada pela Sportv: Sinceramente, durante a semana, não deu para aturar a inexperiência da apresentadora e os comentários do Ricardo Tatuí no canal mais vezes campeão. Fica provado que nem sempre um bom surfista sabe se expressar, mesmo quando o assunto é surfe. Além do pouco conteúdo e vocabulário limitado, o niteroiense com seu “carioquês” afinadíssimo, errou em todas as suas previsões de notas. Tatuí deveria aproveitar essa oportunidade dada pela Sportv e também fazer um curso intensivo de juiz, pois como comentarista, definitivamente não dá.
Gustavo Cabral, que dividiu o cargo de editor da finada revista Inside com Rodrigo Viegas (testemunha de alguns dos maiores porres que as calçadas da beira mar jamais viram e fiel companheiro desde a primeira bateria até o último copo) criou o O Blog do Surfe Catarinense uma prestação de serviços inestimável para o surfe brasileiro - não canso de falar.
Sim temos outros tantos, uns de fotografia, outros apenas de (boas) recomendações, outros de quase tudo, inclusive surfe.
O surfeiro bloguista, ou o blogueiro surfista, é meio editor de sua própria revista, selecionando o que julga importante e ignorando o que é desimportante.
Os indicados acima são os que conheço e visito mas isso não quer dizer que não tenha outra dúzia que desconheço (ou desprezo).
Aproveitando o ensejo, quero congratular a Bléquiuáter (que não é blogue mas tem um 'QUEzinho' de...) pelo primeiro aninho. A edição de fotos ficou excelente e realça o que a revista virtual tem de melhor: impecável edição de fotografia do anãozinho mais querido da Zona sul e diagramação bem humorada do Paulo.
Minduim podia prestar uma consultoria às nossas revistas sobre edição de fotos - o Tojal foi a melhor coisa que aconteceu dentro d'água aqui no Rio desde que Zampa enterrou Beto Paes e Rick Werneck por não sibilar o esse.

domingo, junho 24, 2007

Deixa onda

[Coluna Tempestade em copo d'água>Revista Surf Portugal 171]



A mais famosa de todas, de Hokusai.

“No início pareceu-me que um blogue sobre surf seria uma estupidez”, escreveu o Pedro em Novembro de 2003. Escreveu mas cometeu a tal estupidez, talvez por duvidar um pouco da própria sentença. Dessa frase simples nasceu o coletivo/blogue Ondas um jeito completamente diferente de olhar para o surfe da forma mais antiga que existe: com encantamento.
No início era o Pedro, ou melhor, dois Pedros – Adão e Silva e Arruda – dividindo textos com o desconhecido mundo virtual que chega ora no Japão, ora na casa ao lado, sem jamais sabermos quando, onde ou porquê. A liberdade da grande rede permitia tudo, dicas de discos, frases, fotografias ‘roubadas’ de outros saites, pensamentos soltos, crônicas, experiências, qualquer coisa que nos remetesse ao mar. Foi lá que descobri, sem nem reparar, que Jacques Brel tinha fascinação pelo mar, escrevia letras belíssimas sobre o tema e de alguma forma falava diretamente comigo, que não tinha nada de ver com a história – não entendia picas de francês e achava aquilo tudo, do Brel, coisa de gente que usa pouco desodorante.
Entrou o Hugo Valente, em seguida o Manuel Castro e o Vasco Mendonça e as coisas esquentaram pra valer. Fui aos poucos me viciando naquilo, visitando diariamente, para começar, e quando me dei conta já dava uma meia-dúzia de olhadelas diárias para checar as atualizações.
A grande diferença e marca do coletivo Ondas é justamente jamais tentar explicar ou sintetizar a experiência pessoal de cada um, desastre comum em blogues e revistas especializadas mundo afora. As fotografias, cuidadosamente escolhidas, têm apenas um singelo título: Mundo Perfeito. Ninguém ali está afoito por explicar como é maravilhoso surfar, ou fazer confissões infantis dignas da maioria dos blogues que abundam pela rede. Pelo contrário, ali estão sutilezas de quem entende que meia palavra basta. Poemas da Sophia, frases do Henry Miller, discos para ouvir antes e depois de surfar, Miles, dEUS, Ride, Pixies… tudo misturado, para todos gostos. Como as ondas, ora bolas! Adicionaram o Miguel Bordalo, que tem uma voracidade invejável para escrever sobre os campeonatos e o faz com opinião e autoridade, qualidades que andam meio brigadas ultimamente.
Em Março de 2004 resolvi imitar descaradamente o Ondas e lancei-me de coração em direção à rede, sozinho, decidido. Ainda não sabemos direito para que serve um blogue efetivamente, se é que serventia há para essa estranha e sedutora ferramenta de comunicação. Nos serve para saciar a curiosidade que temos de saber o que o amigo ao lado ouve antes de entrar na água, o que ele leu para escrever aquelas coisas bonitas que nos parecem tão óbvias mas que, no entanto, nunca nos ocorreu escrever. Serve, nesse caso específico do Ondas, como um estacionamento em frente ao lugar onde temos a melhor condição do dia – todos dias – e onde nos detemos para conversar sobre a expectativa que antecede a completa inutilidade de ir buscar ondas lá fora, e que ficará apenas na nossa memória, talvez nem isso. Serve para dizer, alto e bom som, por escrito, que aquilo que você tem, por mais especial que seja, também temos todos nós, igualzinho.
No ano passado fui convidado para fazer parte do Ondas e me senti um pouco desconfortável. Justo eu, um imitador barato, ter meu nome associado aos camaradas que me inspiraram, parecia-me de alguma maneira errado. Aceitei. Desde então não escrevi um único texto exclusivo para o Ondas e tampouco fui cobrado. Pedro Adão e Silva é hoje colunista da SURFPortugal graças aos seus textos elegantes e precisos no Ondas e o Manuel Castro ocupa a cadeira de editor na revista e doou sangue novo à publicação. Os dois fizeram o ciclo completo, do real (impresso) ao virtual.
Arrisco dizer que não há, em nenhum idioma, tanta gente talentosa, produtiva e generosa, oferecendo ao leitor textos, compartilhando considerações sobre CDs, DVDs e livros, poemas, citações sobre nosso universo grandiosamente pequenino, como o coletivo Ondas, que o faz meramente pelo prazer de dividir, gratuitamente. Os camaradas dão-nos Ondas sem pedir nada em troca. Se alguma vez houve um ato que resume bem a essência da ociosidade que é estar na praia, estejam certos que o caminho é esse mesmo.