terça-feira, junho 16, 2015

Entre Medina e Carlin

Oráculo



O comediante americano George Carlin resolveu provocar o moralismo americano em 1972 e inventou uma piada no seu show que chamava-se, Sete palavras que você nunca pode dizer na Televisão.
Ele simplesmente enumerava as sete e as declamava, desafiador, em ordem, shit, piss, fuck, cunt, cocksucker, motherfucker e tits.

Nem é preciso traduzir, pois não ?

Carlin, um gênio do humor, não perdia uma única oportunidade de listar as palavras nos seus shows, no rádio e onde quer que fosse.

Não que houvesse de fato uma lista de palavras proibidas na época, aquilo era apenas uma brincadeira com o puritanismo da sociedade americana, no entanto o caso foi parar na suprema corte dos Estados Unidos porque um pai ficou indignado quando seu filho de 15 ouviu as palavras em rede nacional na radio.

O caso ficou famoso e foi responsável pelas regras que ainda hoje, em 2015, vigoram nas transmissões de radio e TV dos 50 estados dos EUA - entre 6 da matina e 10 da noite, nada de palavrão.

Consta que Fuck é pronunciado 506 vezes no filme O Lobo de Wall Street (5 indicações ao Oscar, inclusive de roteiro e uma batelada de prêmios) do Martin Scorcese.

A expressão Fuck, que pode ser verbo, substantivo ou mera vírgula, dependendo da situação já não assusta tanto assim o grande público.
O vice presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, sussurrou no ouvido de vossa excelência o senhor Obama em rede nacional durante a assinatura do projeto de reformas para saúde, It’s a big fucking deal…

Um frio na espinha foi sentido de norte a sul - mais no sul.

Pra nossa sorte, as transmissões dos campeonatos de surfe não são assim tão rígidas, ou pelo menos não deveriam ser.


Eu queria agradecer aos meus 6628371 patrocinadores...


Quando Peter Mel resolveu entrevistar Gabriel Medina poucos minutos depois da polemica derrota para o anão de jardim do tour, Glen Hall, sabia dos riscos.

Qualquer sujeito sensato que trabalha com esportes tem consciência de quanto pode ser explosiva uma declaração com os nervos a flor da pele.

Não faz muito tempo, ainda em março desse ano, o sueco Zlatan Ibrahimovic, uma das maiores estrelas do futebol mundial, declarou publicamente que a França era um país de merda e que não merecia o seu time, PSG (Paris Saint Germain).
PSG tinha perdido por 3 a 2 para o Bordeaux e Ibra estava furioso - ele joga na França!

O leitor mais exaltado reclama que os exemplos não são os melhores.

Existem melhores, vejam Slater, Fanning, ou Bobby Martinez…

Medina foi provocado e caiu na armadilha fácil de dizer o que pensava. As escolhas do Kieran Perrow ganharam vaia coletiva na internet, não conheço uma pessoa que não queria ver o Quik Pro nas rampinhas de Duranbah.

Até aí, morreu o Neves…

Criticar as decisões do todo poderoso Comissário geral da entidade não me parece nada de tão grave.
A coisa mais natural do mundo é um jogador questionar os juízes, até mesmo o técnico ou presidente. Nem por isso merece ser punido, ou criticado.

Nosso Ayrton Senna, sempre citado como exemplo de esportista, desancava o presidente da FIA, Jean-Marie Balestre sem cerimonia.
Em 1989, depois de desclassificado injustamente, Senna chamou Balestre de desonesto pra baixo.

Mais uma vez ainda em 2015, Serena Willians entrou em parafuso quando perdeu uma partida no torneio Hopman Cup, pertinho de Snnapers, lá na Australia.

Mesmo em eventos extremamente civilizados e aborrecidos como Cricket, os caras perdem a cabeça.

Dito isso, percebam que Medina nunca se descontrolou diante do microfone.
Ele apenas tentou ser um pouco mais expontâneo do que o esperado e entrou pela cano pela absoluta falta de traquejo da equipe de transmissão da WSL.

Peter Mel estava entrevistando um campeão mundial!
Querem repetir a frase acima 3 vezes, por favor ?
Voce não tira o microfone do campeão mundial quando ele está falando, seja o que for falar - é uma questão de hierarquia e de bom senso.

Quando o campeão fala, nós ouvimos, pronto.

A dupla de patetas na transmissão ficou sem ação quando entraram de supetão no ar, fingiram que nada aconteceu e chamaram a propaganda…

Mais uma prova da alarmante falta de tato da WSL em lidar com o assunto.
O cara tava fulo e todos esperávamos pela bomba.
Chega de bons garotos e discursos decorados.
O surfe, e todos esportes, precisam é de um bom conflito para acirrar as disputas e apimentar o jogo.

Dana White, melhor caso de promotor de eventos bem sucedido da atualidade, incentiva seus lutadores a vociferar contra os oponentes.

O esporte se alimenta disso, atrito!

O público se identifica com os ídolos nas suas frustrações da mesma forma que se projeta nas conquistas. 

O que fizeram com Medina foi molecagem, coisa de amadores. 
Gente que ainda não está preparada pra lidar com algo maior do que já tem nas mãos.

Com a nova direção da WSL, não teremos essa faísca que tanto faz falta ao circuito, pense em Kelly versus Andy incendiando o circo.
Ao menor sinal de fogo, os caras vão pegar extintor, chamar bombeiros e chamar o comercial da Samsung… 


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