sábado, maio 05, 2012

Mar, meu ninho



Quadro do Wolfang Bloch, gentilmente arrancado do blogue do Peter Bowes (http://peterbowes.files.wordpress.com)


A musica de surfe sempre foi associada aos sons estrangeiros que chegavam aos nossos ouvidos pelos sempre fascinantes filmes de surfe.
Passamos por muitos ciclos diferentes, desde o Jazz nos filmes do Bruce Brown tocados com malicia e sensualidade pelo saxofone (as vezes flauta) do Bud Shank, até o hino indie do TV on the Radio.
Surfista nos anos 40 e 50 ouvia blues e jazz. 
Greg Noll diz que nos anos 60 se ouvia de tudo, menos aquelas musiquinhas irritantes que batizaram de surf music.
Foi quando chegou a psicodelia no apagar das luzes da decada e todo mundo caiu na farra.
Os anos 70 foram completamente roquenrôu!
O primeiro flme de surfe brasileiro, Nas Ondas do Surfe (1978, Livio Bruni Jr, Brasil) tinha a trilha sonora do conjunto A Cor do Som, do virtuoso guitarrista Armandinho, filho do lendario baiano e pioneiro, Osmar Macedo, do Trio Eletrico do Dodô e Osmar.
Na decada de 80, o New Wave ditava literalmente o ritmo, enquanto nos 90 foi a hora do hardcore melodico entrar na roda - ou na moda.
Musica eletronica virou prato do dia nos 00 e ainda não saiu do Ipod até hoje.
Isso foi um resumo rapido, sem entrar muito nos detalhes que renderiam mais uma duzia de textos cada.
Sou capaz de escrever sem parar sobre o London Calling do The Clash (e Sandinista!), ou do Low Life do New Order, Caravanserai do Santana, Moondance do Van Morrison, Harvest do Neil Young, Against the Grain do Bad Religion, Burn do Deep Purple, Meddle do Pink Floyd, não é caso.
O que voce ouve reflete muito do que voce sente e - por que não ?- como vai se comportar.
Samba nunca foi um genero musical muito popular entre a surfistada, talvez pelo preconceito, ou absoluto desconhecimento da nossa musica popular pela elite que pega onda.
Relacionamos o surfe muito mais com o som dum violãozinho ao estilo do Jack Johnson do que o choro da cuíca.
Aqui a porca torce o rabo.

Foto do Sean Davey, sem legenda, tambem do Peter Bowes (http://peterbowes.files.wordpress.com)


Adoro violãozinho e até aturo ouvir as baladinhas do havaiano 300 vezes em todo e qualquer canto que tenha um unico e solitario surfista atras do balcão, mas quem fala da nossa relação com o mar como pouquissimos é Paulinho da Viola.
Paulinho da Viola é nosso Poeta Greg Noll, o Curren do samba, vejam que letra formidavel que ele comete,
Lobo do mar, timoneiro,
Me leve pro Sol
Quero outro verão
Não quero mar de marola
Das praias da moda
Na rebentação
Quero mar alto, o mar grande...
Substitua Timoneiro por surfista, perdemos a rima, ganhamos significado e identificação.
A alma do homem do mar esta la, a intimidade com a situação, a solidão tipica de quem se dedica com paixão a sua atividade e ele continua,
Prefiro ir à deriva
Me deixe que eu siga
Em qualquer direção
Se eu sou de um rio marinho
O mar é meu ninho
Meu leito e meu chão
Pega onda, esse cara ?
Pode até não pegar, mas tem coração de surfista - ou temos nós, todos, uma alma de sambista.
Foi Paulinho da Viola que compôs a sentença mais emblematica que ja escreveram sobre surfe, 
Não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar.
Somos todos navegados, melhor dizendo surfados, pelo mar.
Paulinho é pescador e sabe que nossa atividade, surfe e pesca, é cercada de misterio e imprevisibilidade, por mais que tentemos não somos donos do destino, no mar como na vida.
Voce escolhe se quer cair num mar enorme e sabe dos riscos que corre, mas se nunca enfrentar, como vai descobrir se é capaz ou não ?
Nos fascinamos com o simples fato de que um dia na praia pode trazer a mais suprema felicidade do nada.
Ou como diz Paulinho da Viola, 
Deus bem sabe o que faz
A onda que me carrega
Ela mesma que me traz.
Outro gigante da canção universal que escreveu como ninguem sobre o homem e o mar, Dorival Caymmi, avisa: Quem Vem pra Beira do Mar, nunca mais quer voltar.




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