segunda-feira, outubro 03, 2011

Lord Ted







[Esse texto foi escrito durante a etapa de J. Bay do circuito mundial. Inspirado num artigo que Nick Carroll escreveu para a Revista Australian Surfin' Life. Há muito já era intrigado pela figura tragica do Lorde Ted no Storm Riders. Segundo Derek Hynd, Ted só entrou naquele filme porque bancou parte da produção. Australianos são um povo amargo e invejoso.]

Os heróis imperfeitos são irresistiveis.
Edward George William Omar Coventry, mais conhecido como Ted Deerhurst foi um exemplo de paixão e resistencia pelo surfe e para o surfe.
Sua historia nunca será contada, porque nada significa nesse mundo de resultados instantaneos.
No final dos anos 70, Ted tornou-se folclorico por não passar uma bateria sequer.
Herdeiro de pequena fortuna, Ted era conhecido como Lorde Ted, na verdade seu titulo de nobreza era de visconde, o mesmo que um cartola menor da Fifa exigiu em troca de votos.
Visconde de Conventry.
Nascido na aristocracia Inglesa, mudou-se para California, fazer como na musica, viver a vida sobre as ondas, foi o primeiro surfista europeu a competir no circuito mundial.
Apesar de abastado, Ted optou pela vida na estrada, dura, sem luxos.
Enquanto seus iguais desfrutavam do jet set europeu, frequentando festas em Monaco, praias na Cote D’Azur, ou jantares de luxo na Suécia, Ted dormia em carros velhos, dedicava-se com afinco às ondas havaianas e alimentava-se de gororoba natureba, tudo em nome duma vida balanceada e saudavel, bem antes do termo se popularizar.
Foi gentilmente adotado pela brilhante geração de surfistas australianos ali na virada dos anos 70 pros 80 e chegou a estrelar uma das obras primas dos filmes de surfe, Storm Riders do genial cineasta Jack McCoy.
Reza a lenda que Lorde Ted fez vultosa contribuição para Jack terminar seu filme.
A verdade é que o ingles aparece fazendo o que hoje parece muito comum na vida dos surfistas profissionais, treinando serio, malhando, alongando e com uma determinação e foco semelhante ao do Fanning ou mesmo do proprio Mineirinho - 30 anos antes!
Arrasado depois de cada derrota, Ted engolia sua dor e voltava para a luta como se nada tivesse acontecido.
Quando tinha sete anos, caiu de cavalo e foi pisoteado, sua mãe o colocou de volta na sela e o fez montar de novo.
Acho que até hoje estou tentando montar aquele cavalo, Deerhurst confessou a uma revista.
Essa garotada que compete dois anos de circuito e diz que cansou de perder poderia aprender imensamente com a historia do Visconde.
 O ponto alto da sua carreira foi passar uma bateria num mar decentemente grosso em Sunset, deixando Cheyne Horan e Michael Tomsom pra tras.
Passando apenas uma bateria, Ted chegou numa semi final, tres baterias de 6 surfistas naquele tempo, passavam os dois primeiros de cada para a final.
Era o unico surfista que lia livros de historia entre uma disputa e outra, seu idolo era Winston Churchill.
Em 1989, seu pior ano de sempre na ASP, despencando de 189 para 235, Ted encontrou forças para tentar disputar o premio de ‘Most improved surfer’ (dado para o surfista que mais colocações subisse numa mesma temporada).
Foi morar no Havai atras das ondas que tanto sonhava e dedicou-se com todo seu coração ao surfe de ondas grandes quando ainda não rendia dividendos.
Shapeava suas pranchas, criou uma marca chamada curiosamente de Excalibur (a mitica espada do Rei Arthur) e em seguida fundou uma instituição de caridade que almejava ensinar crianças carentes e debilitadas a surfar.
Casou-se mais de uma vez mas não conseguia manter a atenção nas pobres esposas, o surfe sempre falava mais alto.
Nick Carroll conta na revista Australian Surfin’ Life numero 112 uma historia interessante do nobre ingles.
Estavam todos preocupados no campeonato Bali OM, 1982, Ted acabara de se casar com uma sul-africana que ele conheceu durante o Gunston 500 e ao inves de ir passar a lua de mel com a jovem esposa, a deixara no seu apartamento em Burleigh Heads na Australia enquanto foi diretamente para Indonesia competir.
Simon Anderson, o guia espiritual de todos trialistas na epoca, foi visita-lo no quarto.
Com a voz pausada e serena, o gigante Simon perguntou, o que voce esta fazendo Ted ?
Ted desmoronou e chorou copiosamente por 10 minutos.
Nick Carrrol descreve melhor, De repente, ele mudou, se recompos e fez o mais brilhante e inspirador discurso de defesa duma vida dedicada ao surfe que eu jamais ouvi.
Ele que tinha nascido para viver uma vida abonada na tradicional nobreza inglesa, escolheu o surfe e dane-se as consequencias.
Surfistas veem coisas que ninguem mais ve no mundo, dizia ele.
Vivemos uma vida que o resto das pessoas pode apenas sonhar. Surfamos com os golfinhos e caçamos ondulações em volta do planeta. Somos livres! Faria qualquer coisa pra experimentar isso. Conclui Ted com os olhos brilhando.
Ja com 40 anos, apaixonou-se por uma stripper no Havai mas o namorado ciumento e mafioso não deixou a coisa andar.
Era tratado como irmão pelos locais havaianos apesar da sua pele clara e cabelos loiros.
Morreu no dia 4 de outubro de 1997, ataque do coração, num hotel em Honolulu.
Suas cinzas foram jogadas em Sunset num dia especial, 8 a 10 pés, rodeado de amigos e admiradores.
O lema da sua marca, Excalibur, era compartilhar o espirito do surfe.
Foi o que ele fez.
Sigamos o exemplo.










7 comentários:

Cabo Frio Surf disse...

Caro Julio,
Ao ler seu texto, percebo como na atualidade somos carentes de personagens dignos de histórias a serem contadas, como a do Lorde.
Enxergo cada vez mais aspirantes a "super atletas" que possuem histórias rasas e sem graça. Não tive a oportunidade de conviver com o MP, o Aikau, o Buttons e Lidell, com o Dora e nem com o Dwey Weber, mas na minha infância ainda peguei o MR, o Horan, o Tomson, os Ho e mais um monte que escreveram capítulos importantes na existência do surf.
Na verdade, os parágrafos de hoje me dão tédio...

Anônimo disse...

Julião, caracas esse bixo do post ai, falou bem! Abçs,Castro

Vina disse...

Ae, Julio. Ja leu?

http://www.stabmag.com/elliot/pottz-is-the-man-who-brought-cool-to-surfing

Surfe Catarinense disse...

É amplamente citado no livro Walking on Water, de seu conterrâneo Andy Martin, que não entendia lhufas de surfe mas relatou a Triple Crown de 1989 com texto leve e engraçado.
Como britânico ele naturalmente centra atenção no Pottz e no Ted, - um campeão mundial, o outro descendo a ladeira.

Castro Pereira disse...

Hi man, vai até o Castro zone. Tem novidade do arco da velha por lá.
Abçs e saúde Julião

Luciano disse...

Me considero um cara razoavelmente informado e li a SURFER religiosamente por mais de uma década mas não conhecia o figura.

E depois desse texto é impossível não querer voltar no tempo para presenciar a "defesa" que o Lorde fez do surf. Deve ter sido animal.

Valeu pelo post, Juliasca.

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