domingo, março 13, 2011

Caça e Caçador


{Coluna Tempestade em copo d'água e Sopa de tamanco, Novembro/Dezembro 2010}

As fotos são do artista Todd Glaser

Caçada

Um frio terrivel la fora, 5 graus no maximo. Dentro de casa uns 12 ou 14…
São tantos cobertores pra dormir que nada faz muito sentido.
Estamos nas montanhas, o mar ficou la embaixo, calmo e distante.
Daqui de perto saíram alguns dos grandes navegadores que desbravaram o mundo, imagino porque, esterco de vaca e o frio são capazes de empurrar mundo afora.
Meus dentes estão escuros de tanto vinho, uma fuga e melhor jeito de fazer amigos.
Rapidamente o sotaque deixa de ser um obstaculo e vira anedota.
Jantamos com dois caçadores recem chegados da caçada.
Depois de um dia inteiro longe, tudo que trazem são dois pequenos coelhos.
Desde de manhã cedinho até a noite, tres homens caçando com cães e espingardas e tudo que trouxeram são dois coelhinhos.
Qual sentido disso ? me pergunto.
Nada muito diferente dum dia surfando, respondo sem perder muito tempo.
Sem os coelhos.
Quantos dias inteiros ja passei caçando ondas ?
E o que trouxe pra casa ? 
Lembranças.

Indio

Conheci em 2000 no Panama um indio que surfava e vivia rindo n'agua. Puxei conversa, perguntei se havia mais indios que surfavam por ali e ele disse que era o unico da sua tribo que pegava onda.
O problema era que justamente por ser o unico surfista, era discriminado.
Seus pais nunca entenderam como ele era capaz de sair durante toda uma manhã e não trazer nada pra casa.
Não fazia menor sentido aquela atividade que roubava tanto tempo dum membro da comunidade e não gerava beneficio nenhum, exceto o bem estar de si proprio.
A esposa do indio não aceitava que ele passasse um dia inteiro pegando ondas.
Por que ? Perguntava ela e ele respondia, porque me sinto bem.
E por que não se sente bem trabalhando como todos os outros ?
Sinto-me bem tambem trabalhando, mas quando surfo sinto-me melhor.
E a conversa não chegava a lugar nenhum.
O indio aprendeu a consertar pranchas e ao final do dia trazia algum dinheiro pra casa.

Caça

O homem trabalha pra sobreviver e se diverte tentando achar algum sentido pra sua vida inutil. Pro caçador, o ato de ir caçar não é muito diferente do ir surfar pro surfista.
Pode ser um ato solitario e heroico ou divertido e companheiro.
Nessa pequenina aldeia de 120 pessoas, há um cafe exclusivo para os caçadores se reunirem depois dum dia duro atrás de coelhos e javalis.
Todos comem cebola e vinho para manter as esposas longe e poder conversar e beber a vontade.
As historias são as mesmas de sempre com variações alcoolicas.
Surfistas não são nada muito diferentes disso.
Nossos dias são exaustivamente debatidos em longas conversas que se repetem sem muita variação do tema- onda.
O problema, ou a sua grande virtude, é que não trazemos nada de cada surfada exceto as historias.
O surfe é de completa inutilidade.


Caçador


Pedro Martins de Lima, primeiro surfista portugues, tem 80 anos - parece ter 20 anos menos.
Num debate sobre surfe sua função na sociedade, Senhor Pedro achou muitas utlidades no surfe.
Uma delas relacionada a parte fisica e isso estava muito claro quando olhavamos para aquele homem firme e seguro. Senhor Pedro dizia que poucos esportes são capazes de te fazer sentir tão vivo e ao mesmo tempo excercitar como o surfe.
Outra utilidade é a de se familiarizar com o mar, esse universo liquido que tanto nos oferece. 
Companheirismo, aponta Senhor Pedro, do alto dos seus incriveis 80 anos, é uma grande qualidade que o surfe tem.
Quem ja teve a oportunidade de surfar com um filho ou grande amigo sabe do que estou falando, diz Pedro.
Grandes amizades começam no mar.
Pedro surfista olha para um dos distintos senhores sentados na bancada e articula algo.
Esse distinto senhor hoje ocupa cargo importante no governo e foi convidado pelo Presidente da Camara de Peniche para compor a mesa do debate.
Pedro surfista recorda-se que o distinto empresario que hoje ocupa cargo importante no governo declarou-se surfista nos anos 80 e, batendo na propria barriga debaixo do bem cortado terno, alegou motivos obvios para o abandono da pratica.
Volte a surfar, disse Pedro surfista ao jovem senhor empresario.
Pedro disse isso sem dizer o mais importante, olhe para mim, tenho o dobro da sua idade e o dobro da sua vitalidade.
Eu vivi 1000 vidas.

8 comentários:

Pedro Cezar disse...

Texto incrível e lindo. Conheci na Hardcore e se amarrei na reciclagem. Ecologia é isso!

Surf4ever disse...

Sublime.
Obrigado por disponibilizar esses teus textos aqui no Goiabada.
Abraço,
Gustavo

Anônimo disse...

excelente...fiquei 3 anos sem surfar e acumulei quase 20 quilos, fiquei branquelo e flácido...envelheci uns 9 anos em 3...depois que voltei estou igual a um menino...aloha!!!

Roberta Milazzo disse...

Belo texto! E é por isto que eu surfo... e minha mãe, até hoje, acha que é brincadeira de criança e não entende porque eu fico horas e horas surfando! : )

Henrique Vasquez disse...

Tenho um depoimento do pedro aqui, em um filme de surfe luso,

realmente um senhor fantástico

posso estar enganado, o filme se chama norte sul

e isso mesmo

http://www.boaonda.com/nortesul/

sds

charlesphj disse...

sábios...

muito além, a arte é de completa inutilidade, assim como todo o mundo das idéias onde preferimos viver.

Pois pegar onda é exatamente isso.

quem vai na próxima?

Joao disse...

Que animal estes textos, Julio! Valeu!

Marco C. disse...

"roubei" um dos textos Julio - http://mc-shootme.blogspot.com/