quinta-feira, março 18, 2010

Dane e a primavera do desgosto



{Escrito em Maio de 09Coluna Tempestade em copo d'água@Revista Surf Portugal}

Dane Reynolds gosta de ler.
Parece que John Steinbeck, Nobel de literatura de 1962, é um dos seus autores preferidos. Steinbeck simpatiza com os desajustados, fudidos e rebeldes, tem pouco apreço pela tecnologia: 'Me pergunto por que o desenvolvimento sempre vem associado com a destruição', divaga um dos seus personagens.
Reynolds é o progresso personificado.
Curren o elogia, Slater o considera o passinho a frente do surfe contemporaneo, as cameras o amam.
Em 2009, contra todos prognosticos (ui...), Dane surfa pra ganhar e perde.
Perde, perde e perde.
Muito prazer frustração; encantado, Dane...
Pra quem não liga (ou ligava) para competição, o garoto Reynolds parece bem desiludido com o rumo do circuito mundial.
Não deveria.
Dane teve tudo desde cedo, surfista destacado como amador, ganhava seu dinheirinho surfando para Rip Curl até o dia que a Quiksilver resolveu o transformar em produto.
Sonhava entrar nos top 45 e jurou, espada empunhada, ser campeão mundial. O que Dane não sabia, sequer desconfiava, é que dava um baita trabalho vencer campeonatos.
Seu grande medo é surfar de forma careta e conservadora para vencer baterias, como Curren, Sunny, Occy ou Slater fizeram antes dele, sacrificando uma montanha de talento em nome da vitoria, nua e crua.
Mais de uma vez, Dane acusou o surfe competitivo de pouco empolgante, estagnado, limitador.
Antes de qualquer perfil do malandro, os jornalistas corriam para mostrar que aquele rapaz não ligava para as glorias e que ali estava apenas para ornamentar o sonolento circuito profissional de surfe.
Agora parece que o discurso ta indo agua abaixo e o verdadeiro motivo da sua luta (sim, mesmo para ele, é uma luta!) vai colocando a cabecinha na superficie.
Dane quer o triunfo.



Mais que isso, Dane precisa do triunfo para se motivar e motivar tudo que gira em torno dele, que afinal de contas, é um produto.
Mesmo o melhor freesurfer do mundo tem seus compromissos e um deles é manter-se como melhor freesurfer do mundo, vide Bruce, que ameaçado por Rastovich largou o tour para reclamar sua coroa.
Depois de dois 33, vitima do novo sistema sem rodada dos perdedores,
Reynolds quer uma segunda chance, tragam de volta o formato antigo, diz ele.
Na verdade, mesmo, o formato antigo é esse que chamam de novo, sem repescagem. Sempre foi assim, de 77 até 92 quando o circuito era unificado - e injusto, segundo alguns.
Antigamente, eu sou do tempo que se usava muito o termo antigamente sem prejuízos, entrava-se numa bateria pro tudo ou nada, não essa historia de passar a mão na cabeça do marmanjo e o consolar: Fica triste não, filho, na proxima voce acerta...
Minha decepção é perceber que Dane fala uma coisa mas quer outra.
No discurso, não existem barreiras para o seu surfe espetacular (e é mesmo, sem ironia nenhuma) e o surfista deve (supostamente) encarar a competição como um artista diante do seu fiel publico, dando tudo de si para delirio da plateia e alguma satisfação interior.
Na pratica funciona um pouco diferente.
Surfe é um esporte e como todo esporte, tem um adversario que deve (literalmente) ser batido (ou abatido, ao gosto do fregues) sem piedade nem compaixão.
Numa das suas sempre agradaveis entrevistas, DR refletia sobre quão duro era pra ele realizar que muitos dos 900 surfistas que estavam na batalha do WQS mereciam, tanto quanto ele, uma vaga no WCT, perdão WT.
Uma vez no WCT, perdão WT, DR quer vingança, sangue, jubilo!
Ainda no inicio desse ano, Dane confessava ao saite Surfline que não alimentava metas nem objetivos no WCT, perdão WT e que sua nota 10 contra seu querido amigo Nathan Curran quase o fazia sentir-se mal pelo companheiro.
Vale recordar que na primeira etapa do WCT, perdão WT, desse ano o sistema era o antigo, com repescagem, e Dane perdeu na primeira rodada.
Dane Reynolds é um dos meus surfistas prediletos.
Gostava de ver esse cara com sangue nos olhos, como Andy.
É pedir demais ?

{Nota de pé de pagina. Quase ja consigo ver sangue nos olhos do Dane}

7 comentários:

Lucas Franceschini disse...

Dane é o cara! Eu ainda acho que ele tem esse espirito meio desencanado, mas claramente ele ta ai agora para tentar vencer.

tiberio disse...

dane dane... ta pra existir um outro surfer que empolgue tanto ve-lo em uma bateria, justo por levar consigo esse ar de agora nao, amanha talvez, beirando a irresponsabilidade de dizer q titulos nao sao suas maiores conquistas.essa imprevisibilidade aliada ao seu talento o transformam em um idolo du ca#$%*
sangue nos zóio my friend,ou nao!!
quebro julio!!

Henrique Vasquez disse...

Concordo: ser campeão em uma competição não significa ser dono do melhor surfe em estado bruto...

Po, o DR em uma caída em qualquer mar faz sua parte inteira em um filme de surf....o lance dele é mais repertório e nível de dificuldade. Talvez a criatura tenha dificuldade de dosar, se valendo do surfe tradicional...


( acho que se meia dúzia transformar o nome dele em sigla, ele vira campeao por inconsciente coletivo.. MP, KS, AI)

brasa disse...

sempre achei o estilo de surf do dane mais pro archie que pro kelly

leitor de blogue da esquina disse...

caraca! com uma breve olhadela no blogue do Lucas aí do primero comentario, noto que o cabra é um dos mais novos representantes e seríssimo candidato ao cargo de presidente da ABOG.

Guno Mendes disse...

Dae Julinho(que intimidade né?), babadinha básica então? Muito bom o texto. O Dane é demais. Não tem como eu entrar na net e não dar um pulinho no teu blog pra ver qual é a "boa".
Abração

Jeff Booth disse...

O Daniel Reinaldo parece que vai seguir o mesmo caminho de caras como Chris Ward, AI, Corey Lopez, Archie, Dadá, Fletcher & Cia... muito surf e muita doideira heavy metal pra dentro...