sábado, junho 07, 2008

Faz Força Zé

[Escrito e publicado em meados de 2003]

Me chega às mãos a última edição da Surf Portugal, Fevereiro, Slater na capa.
A excelente cobertura do inverno havaiano me surpreende mais uma vez.
Lembra um pouco até a Fluir nos tempos em que o Fred tabelava com o Pepê.
Mistura respeito profundo e admiração, encantamento sem deslumbre, a linguagem é clara e simples: vamos falar aqui para surfistas e só para surfistas, o resto que vá se ralar nos percebes (uma espécie de marisco que há em Portugal, de aspecto primitivo, vai bem com uma cerveja).
Aqui no Salve-lindo a diferença básica, na minha opinião, é que as revistas são feitas para o ‘mercado’.
E quem é o tal do ‘mercado’ ?
O mercado nesse caso é um molestador de crianças, um inescrupuloso gigante com força suficiente para manipular a pobre imprensa como marionetes. A força vem do dinheiro.
As pessoas que estão nas redações não são mal-intencionadas, de forma alguma, mas nem percebem que deveriam fazer um veículo de troca de informação com o camarada que surfa ao seu lado.
Nada mais do que isso.
Noutro dia me aprofundo mais no assunto.
Slater fez e aconteceu no inverno de 2003. Teve uma atuação sobre- natural em Haleiwa, quem conta é o melhor surfista Português de todos os tempos, Tiago Pires, mas podem lhe chamar de Saca. A credencial do garoto, começa num segundo lugar que ele conseguiu em Sunset dois anos atrás, com Sunny na frente e termina com seu 27º no WQS em 2003.
Locutor oficial da ASP, ou melhor, dos donos dos campeonatos da ASP, Nuno Jonet, o mais simpático e agradável de sempre, diz que o ‘carving 360’ do Slater em Haleiwa numa onda de 4 metros foi manobra de Play Station.
Eu acredito.
Nos últimos 10 anos de Pipe Masters, Slater esteve em 7 finais, nos informa o pesquisador e jornalista Miguel Pedreira.
O histórico chega a ser ridículo!
Um nono lugar no ranking do WCT competindo em somente 9 das 12 etapas, justamente no ano mais competitivo, mais eletrizante, enfatiza que K.S. ainda não ‘chegou’ no WCT 100%.
A morte de seu pai no ano passado o desconcentrou e abalou suas estruturas.
Ninguem passa por uma perda dessas sem cicatrizes fundas.
Fato é que Slater aos 31 anos de idade chega finalmente a maturidade.
O seu estilo agora é assumidamente dele, chega de copiar Curren. Slater parece mais a vontade com seu surfe, mais confortável com o destino de ser o melhor surfista de todos os tempos, jamais o mais elegante.
Esse posto é de Curren, Edwards, Dora, Lopez.
Slater é de outra linhagem: Shaun Tomsom, pela colocação absurda no tubo, Nat Young, puro talento, agressividade e competitividade, Martin Potter, inovação, velocidade, Rabbit, pela astúcia, estratégia e Tom Carrol pela maneira como conseguiu dominar o Havaí de Pipe (5 títulos) a Waimea (Eddie 2002/2003).
Suas pranchas foram de pouco volume, como no vídeo 110/240 de Brian Bleak, 1993, super finas e estreitas, até os tarugos de hoje, mais para Sunny Garcia e Luke Egan do que para Taj e Fanning.
Slater tem hoje, 13 anos depois de seu debut na arena da ASP, o surfe mais bem composto do circuito.
Duas ondas surfadas em 2002 resumem tudo.
Trestles, expression session, uma cavada fenomenal, um aéreo fácil, potente, limpo, retorno ao trilho da onda sem sobresaltos, outras tres porradas tipo pé na porta.
Tavarua, nota 10, um tubo tão impressonante que nem o próprio Kelly, que não é dado a comemorações arremessa o braço feito Pelé na Copa de 58.
Se Occy, com todos seus exageros consegue ainda um desempenho assombroso no WCT, 36 aninhos- como ficou mais que claro em Snapper Rocks na semana passada-, imaginem Slater, sem os pecadilhos, senão pela peituda inflada Pamela Anderson, imaginem Slater melhorando ainda mais.
E amadurecendo.
Cedo para previsões, mas o apetite lá está, o desejo queima. Machado sempre nos alertou para que ninguem jogasse ping-pong com Slater antes das baterias- Slater não sabe perder.

Nota de pé de página-
Depois de Tom Carrol no Quiksilver Pro, Munga Barry no Billabong Pro de J. Bay, a hora é do bi-campeão do mundo Damien Hardman se tornar o mais novo diretor de prova do WCT.
A estréia será em Bells Beach durante o Rip Curl Pro, durante a semana Santa, evento mais tradicional do circuito, desde 73 tocando o sininho.
Quem sabe em Floripa teremos Pedro Muller como diretor de prova ?

[O que sabia eu ? Teco seria não apenas o diretor de prova, mas o licenciado da ASP. Pim Pom.]

3 comentários:

Anônimo disse...

E a profecia se concretizou.

Henrique disse...

E irá se concretizar novamente....

Slater desenvolveu poderes de concentração muito além....

Nico disse...

é por essas e por outras que continua a ser um prazer ao fim destes anos todos ler as tuas "tempestades em copo d´água" na SurfPortugal e as Goiabadas por aqui...
Abraço
Nico